domingo, 20 de setembro de 2026

AKINCI abate CH-95 chinês no Sudão em novo confronto entre drones

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O emprego de veículos aéreos não tripulados (VANTs) no conflito do Sudão ganhou mais um episódio relevante com a divulgação de imagens que mostram um Bayraktar AKINCI operado pelas Forças Armadas sudanesas engajando e destruindo um VANT chinês CH-95 associado às Forças de Apoio Rápido (RSF). O episódio integra uma sequência de confrontos entre plataformas não tripuladas de diferentes origens que vem transformando o espaço aéreo sudanês em um ambiente de disputa também entre sistemas remotamente pilotados.

As imagens divulgadas em agosto mostram o engajamento do alvo e indicam o emprego de uma munição de ataque de alta velocidade. Análises publicadas por veículos especializados identificaram o sistema como o EREN, da ROKETSAN, a partir das características observadas na interface do sensor e no perfil da munição. Essa identificação, entretanto, permanece baseada em fontes abertas e não foi confirmada oficialmente pela Baykar ou pelo Ministério da Defesa da Türkiye para esse episódio específico.

O caso se insere em uma campanha de combate entre drones que se intensificou a partir de junho. Fontes especializadas contabilizaram pelo menos seis CH-95 destruídos ou neutralizados pelas forças sudanesas desde o início dessa sequência de confrontos, embora os números disponíveis em fontes abertas não constituam um balanço oficial consolidado. Em julho, outras publicações já relatavam confrontos entre AKINCI e plataformas CH-95/FH-95 empregadas pela RSF.

A importância do episódio está menos na quantidade de abates atribuída ao AKINCI e mais na evolução do emprego da plataforma. Concebido como um UCAV de grande porte para missões de reconhecimento, ataque e emprego de armamentos de precisão, o AKINCI vem sendo utilizado no Sudão também para interceptar aeronaves não tripuladas adversárias, assumindo uma função que aproxima a plataforma de uma capacidade de defesa aérea de oportunidade.

O cenário também coloca em confronto arquiteturas tecnológicas distintas. De um lado está o AKINCI, desenvolvido pela Baykar e empregado pelas forças sudanesas; do outro, aparecem os CH-95/FH-95, sistemas chineses associados à RSF segundo diferentes fontes abertas. A sobreposição de plataformas estrangeiras no conflito dificulta inclusive a atribuição imediata de determinados ataques e evidencia como a guerra sudanesa incorporou sistemas de reconhecimento e ataque de longo alcance fornecidos por diferentes atores externos.

O EREN ajuda a explicar a mudança de emprego observada no AKINCI. Apresentado pela ROKETSAN como uma munição de ataque de alta velocidade e múltiplos vetores de lançamento, o sistema pode ser empregado a partir de VANTs, helicópteros, veículos terrestres e plataformas navais. A empresa informa alcance superior a 100 quilômetros e capacidade contra alvos aéreos de baixa velocidade, além de alvos terrestres blindados e não blindados e pessoal.

A munição também já teve sua capacidade ar-ar demonstrada oficialmente. Em fevereiro de 2026, a Baykar informou que um AKINCI realizou um teste contra um VANT lançado a partir do solo e obteve impacto direto utilizando o EREN. A empresa descreveu o episódio como uma ampliação das possibilidades de emprego da plataforma, que anteriormente já havia realizado ensaios ar-ar com o KEMANKEŞ-1.

Essa experiência de testes oferece contexto para o que vem sendo observado no Sudão. A diferença fundamental é que, no ambiente operacional, a plataforma precisa localizar, acompanhar e engajar um alvo que também possui autonomia, sensores e capacidade de permanecer em missão por longos períodos. O emprego do AKINCI nesse tipo de tarefa demonstra uma aplicação prática do conceito de utilização de um UCAV como vetor de interceptação contra outras aeronaves não tripuladas.

O conflito também evidencia uma transformação mais ampla na guerra aérea. O emprego de drones deixou de estar limitado ao reconhecimento ou ao ataque contra posições terrestres e passou a incluir confrontos entre aeronaves não tripuladas. No Sudão, essa dinâmica ocorre paralelamente ao emprego crescente de drones de longo alcance contra cidades, infraestrutura e posições militares, ampliando a profundidade das operações muito além das linhas de contato. A ONU informou em setembro que mais de 1.000 pessoas haviam sido mortas por ataques de drones nos primeiros cinco meses de 2026 e apontou a participação de tecnologia, armamentos e apoio estrangeiro na expansão dessa capacidade.

A evolução é particularmente relevante porque reduz a separação tradicional entre ataque e defesa no emprego de sistemas não tripulados. Uma plataforma originalmente concebida para permanecer por longos períodos sobre uma área de operações pode receber sensores e armamentos que permitam também reagir contra outros vetores aéreos. Isso cria uma camada adicional de defesa aérea, especialmente em teatros onde aeronaves tripuladas são mais caras ou arriscadas de empregar.

No caso do AKINCI, a experiência sudanesa ocorre em paralelo ao desenvolvimento de uma arquitetura cada vez mais diversificada de armamentos. Em setembro, a Baykar anunciou novos ensaios da plataforma com o míssil de defesa aérea SUNGUR e registrou um impacto direto contra um VANT de alta velocidade, além de outros testes recentes com diferentes munições. A sequência demonstra que a capacidade ar-ar do AKINCI está deixando de depender de uma única solução e passa a envolver diferentes classes de armamento.

O episódio no Sudão, portanto, deve ser analisado dentro de uma evolução maior da guerra de drones. Mais do que um simples confronto entre um AKINCI e um CH-95, o caso mostra a emergência de um ambiente no qual VANTs podem atuar simultaneamente como sensores, plataformas de ataque e vetores de interceptação. A experiência operacional acumulada no conflito tende a fornecer dados relevantes para o desenvolvimento futuro dessas capacidades, embora a dimensão real dos resultados e a identificação individual dos armamentos empregados devam continuar sendo tratadas com cautela enquanto não houver confirmação oficial dos envolvidos.


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Türkiye avança na preparação para operar o Eurofighter Typhoon com visita a Coningsby

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A Türkiye avançou mais uma etapa na preparação para incorporar o Eurofighter Typhoon à sua Força Aérea. Entre 15 e 17 de setembro, uma delegação formada por especialistas do Grupo de Trabalho de Manutenção de Aeronaves do Comando da Força Aérea e da Direção-Geral de Fábricas Militares visitou as instalações de manutenção dos Typhoon na RAF Coningsby, no Reino Unido.

A visita teve como foco a avaliação da infraestrutura necessária para sustentar a operação da aeronave, incluindo processos de manutenção e a compatibilidade dos recursos técnicos disponíveis. A atividade também amplia a cooperação entre as estruturas de manutenção dos dois países durante a preparação da futura frota turca.

A etapa ganha importância porque a aquisição dos Typhoon já avançou para além da contratação das aeronaves. Em outubro de 2025, Reino Unido e Türkiye formalizaram um acordo para o fornecimento de 20 Eurofighter Typhoon, em um negócio avaliado pelo governo britânico em até £8 bilhões. A primeira entrega está prevista para 2030.

Em março de 2026, os dois países assinaram um acordo específico de treinamento e suporte. O programa prevê a formação no Reino Unido de 10 pilotos turcos e quase 100 técnicos de solo, abrangendo áreas como mecânica, aviônica, armamentos e sistemas de missão. O pacote também inclui equipamentos de apoio, peças de reposição, simuladores e suporte à manutenção da frota.

A preparação do pessoal técnico é particularmente relevante para uma aeronave cuja disponibilidade depende de uma cadeia logística especializada e de procedimentos específicos de manutenção. A visita a Coningsby permite à Türkiye avaliar antecipadamente como sua infraestrutura e seus processos poderão ser integrados ao modelo de suporte estabelecido pelo programa britânico.

O acordo também prevê participação da indústria britânica no suporte à futura frota turca. BAE Systems, Leonardo UK, MBDA, Rolls-Royce e Martin-Baker estão entre as empresas envolvidas no fornecimento de componentes, peças, equipamentos e serviços relacionados ao programa. Mais de um terço de cada Typhoon é produzido no Reino Unido, enquanto os demais componentes são fornecidos pelas outras nações parceiras do programa Eurofighter.

A preparação não se limita à manutenção. O programa de treinamento britânico contempla pilotos e equipes de solo, criando uma estrutura progressiva para a entrada da Türkiye no grupo de operadores do Typhoon. O treinamento de pilotos e técnicos também deverá contribuir para a familiarização com os procedimentos operacionais e de suporte utilizados pela Royal Air Force.

Com isso, a visita a Coningsby representa uma etapa prática da preparação turca para receber a nova aeronave. Enquanto a produção dos 20 Typhoon contratados segue o cronograma estabelecido, Ancara começa a estruturar pessoal, infraestrutura e cadeia de manutenção necessários para colocar o caça em serviço a partir do início da próxima década.


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Venda de 48 F-35 à Arábia Saudita avança sob alerta da inteligência dos EUA

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O governo dos Estados Unidos aprovou a possível venda de 48 caças F-35A Lightning II à Arábia Saudita em um pacote estimado em US$ 24,3 bilhões, mas a operação chega à etapa de análise do Congresso acompanhada por preocupações da comunidade de inteligência americana sobre a proteção da tecnologia da aeronave diante da crescente cooperação entre Riad e Pequim. A autorização do Departamento de Estado não representa ainda a conclusão da venda nem a entrega das aeronaves.

Segundo informações publicadas pelo The New York Times, autoridades de inteligência dos EUA avaliam que a China poderia tentar obter informações sensíveis relacionadas ao F-35 por meio de espionagem dentro da Arábia Saudita ou do relacionamento militar, de segurança e tecnológico mantido pelo reino com Pequim. A preocupação consta de avaliações internas que circularam entre órgãos do governo americano e gabinetes do Congresso.

Uma dessas avaliações, produzida pela Defense Intelligence Agency (DIA) meses antes, teria examinado especificamente o acesso de militares chineses a instalações sauditas e a presença de tecnologia chinesa na infraestrutura de telecomunicações do país. O documento também questionaria a capacidade de Estados Unidos e Arábia Saudita de manter instalações associadas ao F-35 suficientemente protegidas contra acesso não autorizado.

Entre as medidas consideradas está a restrição de acesso às áreas que concentrem tecnologias sensíveis do F-35 a militares e contratados americanos e sauditas autorizados. A avaliação também questiona se Riad estaria disposta a estabelecer limitações mais amplas para contatos entre seu pessoal militar e de inteligência e seus equivalentes chineses.

Outro ponto envolve a infraestrutura digital. De acordo com o relato do New York Times, a avaliação examina a utilização de equipamentos das empresas chinesas Huawei e ZTE em redes de telecomunicações, sistemas de roteamento e instalações relacionadas à defesa. A questão é particularmente sensível porque o F-35 depende de uma arquitetura integrada de sensores, processamento, comunicações e suporte de dados, tornando a proteção das redes e das instalações parte relevante da segurança do sistema.

As preocupações americanas ocorrem em um contexto no qual a Arábia Saudita mantém uma relação militar histórica e extensa com Washington, mas também vem ampliando sua cooperação com a China. Riad já adquiriu sistemas militares chineses e mantém programas de cooperação relacionados a mísseis balísticos e infraestrutura tecnológica. Em 2022, parlamentares americanos haviam levantado preocupações sobre a assistência chinesa ao programa saudita de mísseis balísticos, enquanto documentos posteriores registraram a ampliação da cooperação tecnológica entre os dois países.

O componente chinês, portanto, não significa que Washington considere inevitável uma transferência de tecnologia do F-35 para Pequim. A preocupação identificada nas avaliações é preventiva: reduzir as possibilidades de que informações sobre sensores, sistemas de vigilância, arquitetura eletrônica ou outros elementos classificados possam ser obtidas por meio de acesso físico, infraestrutura digital ou atividades de inteligência.

A situação também remete às dificuldades enfrentadas pelo projeto de venda de F-35 aos Emirados Árabes Unidos. Durante o primeiro governo Trump, Washington aprovou em 2020 uma possível venda de 50 aeronaves ao país, mas o processo avançou em meio a preocupações americanas relacionadas à crescente presença tecnológica chinesa nos Emirados, incluindo equipamentos da Huawei. O acordo acabou não sendo concluído.

O caso saudita apresenta diferenças importantes. Riad é um dos principais clientes históricos da indústria de defesa americana e mantém uma estrutura militar amplamente integrada a equipamentos, treinamento e logística dos EUA. Ao mesmo tempo, a estratégia saudita de diversificação de fornecedores inclui a China, criando uma situação na qual Washington busca preservar sua relação militar com o reino sem necessariamente eliminar a autonomia de Riad em outras áreas de cooperação.

A possível transferência também possui uma dimensão regional. Israel é atualmente o único operador do F-35 no Oriente Médio, e a introdução da aeronave na Força Aérea Real Saudita exigirá que Washington considere sua política de preservação da Qualitative Military Edge, ou Superioridade Militar Qualitativa de Israel. A legislação americana estabelece que determinadas vendas de armas a países do Oriente Médio devem ser avaliadas quanto ao impacto sobre essa vantagem militar.

A própria notificação do Departamento de Estado afirma, entretanto, que a venda proposta não deverá alterar o equilíbrio militar regional. O pacote contempla 48 aeronaves, 49 motores F135, equipamentos associados, treinamento e apoio logístico, além de sistemas e serviços necessários à operação da frota.

A quantidade de aeronaves também merece atenção. Embora o anúncio político de Donald Trump em novembro de 2025 tenha sinalizado a intenção de vender o F-35 a Riad, o processo passou por diferentes etapas antes da atual autorização do Departamento de Estado. Em junho de 2026, o pacote de 48 aeronaves e um motor sobressalente havia sido encaminhado às comissões do Congresso para análise informal.

A aprovação de setembro representa, portanto, um avanço significativo, mas não encerra o processo. O Congresso ainda precisa concluir sua análise, enquanto as preocupações de segurança tecnológica poderão influenciar as condições associadas à eventual transferência. Para Washington, o desafio consiste em ampliar a capacidade militar de um parceiro estratégico no Golfo sem comprometer a proteção das tecnologias mais sensíveis do F-35 ou reduzir os mecanismos de controle sobre seu emprego e suporte.

Para a Arábia Saudita, a possível aquisição representa a entrada em uma categoria tecnológica até agora restrita, no Oriente Médio, a Israel. Para os Estados Unidos, o negócio combina objetivos de política externa, segurança regional e interesses da indústria de defesa com a necessidade de proteger uma das plataformas militares mais sensíveis do país. E, para a China, a crescente presença econômica, tecnológica e militar no reino cria um novo ambiente de competição indireta em torno de uma das principais tecnologias aeronáuticas americanas.


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Türkiye amplia influência na Síria e entra no cálculo estratégico de Israel

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A relação entre Israel e Türkiye entrou em uma fase distinta daquela marcada predominantemente pelas divergências sobre a questão palestina. Avaliações de centros de pesquisa e setores do establishment de segurança israelense passaram a considerar a crescente presença turca na Síria como um fator estratégico próprio, especialmente diante da possibilidade de que a reconstrução das forças sírias ocorra com forte participação de Ancara. O resultado é uma relação de competição que combina pressão militar, disputa por influência e simultaneamente, mecanismos destinados a evitar um confronto direto.

O pesquisador Hay Eytan Cohen Yanarocak, especialista na Türkiye no Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv, identifica três momentos relevantes para compreender essa transformação: o enfraquecimento da influência tradicional do establishment militar turco sobre a política externa, o episódio do Mavi Marmara, que deteriorou profundamente as relações bilaterais, e a mudança provocada pelos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e pela posterior queda de Bashar al-Assad. Com a mudança de poder em Damasco, interesses turcos e israelenses passaram a se sobrepor diretamente dentro do território sírio.

Nesse processo, a questão palestina continua sendo um componente importante, mas deixou de explicar isoladamente a deterioração bilateral. A aproximação política de Ancara com o Hamas, a retórica do governo de Recep Tayyip Erdoğan contra Israel e a tentativa turca de participar da definição do futuro de Gaza ampliaram a competição para além do conflito israelo-palestino. A disputa passou a envolver também quem terá capacidade de influenciar a arquitetura política e de segurança que emergirá dos conflitos atuais.

A Síria, entretanto, tornou-se o principal ponto de contato entre as duas agendas estratégicas. A queda de Assad eliminou boa parte da estrutura por meio da qual o Irã projetava poder sobre A relação entre Türkiye e Israel atravessa uma fase de maior complexidade estratégica, impulsionada principalmente pelas mudanças produzidas na Síria após a queda do regime de Bashar al-Assad. A ampliação da influência turca sobre o novo cenário sírio passou a receber maior atenção em Israel, onde analistas e setores de segurança avaliam como essa presença poderá afetar os interesses de Tel Aviv e a liberdade de ação de suas forças na região.

O pesquisador Hay Eytan Cohen Yanarocak, especialista em assuntos turcos do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv, identifica diferentes momentos na deterioração das relações bilaterais. Entre eles estão o enfraquecimento da influência tradicional do establishment militar turco sobre a política externa, o episódio do Mavi Marmara e, posteriormente, a mudança provocada pelos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e pela queda de Assad. Com a transformação do cenário sírio, interesses turcos e israelenses passaram a se sobrepor de maneira mais direta.

A questão palestina continua sendo um componente relevante dessa relação. A aproximação política de Ancara com o Hamas e as críticas do governo de Recep Tayyip Erdoğan às operações israelenses ampliaram as divergências entre os dois países. Ao mesmo tempo, Türkiye busca participar das discussões sobre o futuro de Gaza e da reconstrução regional, enquanto Israel procura preservar sua capacidade de influenciar os arranjos de segurança que serão estabelecidos após os conflitos.

A Síria acrescentou, entretanto, uma dimensão diferente à relação. A queda de Assad reduziu a presença que o Irã mantinha por meio do antigo governo sírio e abriu espaço para uma nova distribuição de influência entre diferentes atores. Türkiye passou a exercer papel relevante na reorganização política e de segurança do país, enquanto Israel acompanha a evolução desse processo diante da possibilidade de uma presença militar turca mais estruturada em território sírio.

Essa evolução ganhou espaço no debate estratégico israelense em janeiro de 2025, quando o Comitê Nagel, criado para avaliar ameaças à segurança nacional e as necessidades de defesa de Israel, recomendou que o país se preparasse para a possibilidade de um confronto direto com Türkiye. O documento considerou especialmente o cenário de uma Síria fortemente alinhada a Ancara e capaz de adquirir novas capacidades militares com apoio turco.

A recomendação, contudo, não equivale a uma classificação formal de Türkiye como Estado inimigo. A própria discussão israelense diferencia a identificação de um possível adversário estratégico de uma designação jurídica. Essa distinção permanece relevante porque os dois países ainda mantêm canais de comunicação destinados a administrar pontos de atrito e reduzir o risco de incidentes militares.

A dimensão operacional tornou-se mais evidente em 2026. Segundo avaliações publicadas pelo Institute for National Security Studies (INSS), Israel atacou em agosto a área da base de Abu al-Duhur, na província de Idlib, diante de preocupações relacionadas à possibilidade de estabelecimento de presença militar turca no local. O episódio foi acompanhado por esforços diplomáticos e pela manutenção de mecanismos de desconflito entre os dois países, indicando que a competição não eliminou a necessidade de coordenação.

Para Israel, uma das questões centrais está relacionada ao impacto que uma eventual infraestrutura militar turca poderia produzir sobre sua liberdade de ação aérea na Síria. A instalação de sensores, sistemas de defesa aérea ou outras capacidades militares apoiadas por Ancara poderia alterar as condições operacionais existentes no território sírio. Trata-se, portanto, de uma questão diretamente relacionada ao planejamento militar israelense, independentemente das intenções atribuídas à Türkiye.

Do lado turco, a atuação na Síria responde a interesses próprios de segurança e política regional. Ancara busca influenciar a reorganização das instituições sírias, combater ameaças que considera relevantes para sua segurança nacional, preservar sua influência sobre áreas estratégicas e participar da reconstrução do país. A relação com Damasco também envolve interesses econômicos, políticos e de segurança que ultrapassam a relação bilateral com Israel.

A sobreposição desses interesses cria uma situação em que Türkiye e Israel passaram a observar com maior atenção as movimentações um do outro dentro da Síria. Isso não significa, porém, que um confronto direto seja inevitável ou sequer desejado. As duas partes possuem interesses relevantes na preservação de canais de comunicação, especialmente diante da presença de outros atores militares e políticos na região.

A existência de mecanismos de desconflito demonstra justamente essa tentativa de administrar a competição. Türkiye é membro da OTAN e possui uma das maiores forças militares da Aliança, enquanto Israel mantém elevada capacidade militar e uma política de preservação de sua liberdade operacional. Qualquer incidente envolvendo forças dos dois países teria potencial para produzir consequências que ultrapassariam o ambiente sírio.

O cenário atual, portanto, não deve ser interpretado simplesmente como uma transformação de Türkiye em adversário de Israel, mas como uma mudança na natureza da relação entre dois atores regionais cujos interesses passaram a se sobrepor em um espaço estratégico comum. Gaza continua sendo uma fonte importante de divergências políticas, mas a reorganização da Síria acrescentou uma dimensão territorial, militar e geopolítica mais concreta.

A evolução dessa relação dependerá principalmente da configuração que assumirá a nova estrutura de segurança síria, do grau de presença que Türkiye pretende manter no país e de como Israel definirá seus limites operacionais. Por enquanto, a dinâmica combina competição por influência, divergências políticas e mecanismos de contenção, mantendo aberta a possibilidade de diálogo mesmo diante do aumento das tensões.


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Egito diversifica fornecedores e amplia capacidades militares, enquanto modernização chama atenção de Israel

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O Egito passou ao longo da última década por uma ampla renovação de suas Forças Armadas, acompanhada por uma mudança importante na política de aquisição de equipamentos. Em vez de concentrar suas compras em um único fornecedor, o Cairo ampliou a participação de França, Alemanha, Itália, Rússia, China e Coreia do Sul, construindo uma estrutura de defesa baseada em diferentes origens tecnológicas e linhas de suprimento.

A dimensão desse processo aparece nos dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Entre 2020 e 2024, o Egito foi o oitavo maior importador mundial de grandes sistemas de armas, responsável por 3,3% das importações globais. Ao mesmo tempo, o volume egípcio caiu 44% em comparação com 2015–19, indicando que a modernização não ocorre simplesmente por aumento contínuo das compras, mas por ciclos de aquisição e substituição de plataformas.

Na aviação de combate, o Rafale tornou-se um dos principais elementos dessa transformação. O Egito contratou inicialmente 24 aeronaves em 2015 e posteriormente mais 30, chegando a 54 exemplares contratados. O primeiro pacote incluiu mísseis MICA, armamento ar-superfície AASM, Exocet e o míssil de cruzeiro SCALP-EG.

O SCALP-EG acrescenta uma capacidade de ataque de longo alcance contra alvos fixos e de elevado valor, utilizando navegação inercial, GPS e referência de terreno. Já o MICA oferece ao Rafale capacidade de combate ar-ar tanto além do alcance visual quanto em distâncias menores. A combinação amplia o emprego do caça para além da função de superioridade aérea, incorporando ataque de precisão e emprego antinavio.

A modernização também alterou a composição da Marinha egípcia. O país incorporou submarinos alemães IKL Type 209, navios de superfície de origem alemã, francesa e italiana e dois navios de assalto anfíbio da classe Mistral. O peso desse segmento é confirmado pelo SIPRI: navios representaram cerca de 65% das importações egípcias de grandes sistemas de armas entre 2020 e 2024.

Essa expansão naval está associada a um ambiente estratégico que inclui o Mediterrâneo Oriental, a proteção de áreas marítimas e energéticas, a situação na Líbia, a guerra no Sudão e as relações com Israel. O próprio SIPRI identifica o fortalecimento das capacidades de longo alcance e navais como uma característica importante das aquisições egípcias recentes.

A diversificação também alcança sistemas terrestres, defesa aérea e aeronaves não tripuladas. O resultado é uma força que combina equipamentos americanos de longa data com sistemas franceses, alemães, italianos, russos, chineses e sul-coreanos. Essa composição reduz a concentração histórica das aquisições e amplia o número de parceiros disponíveis para fornecimento de plataformas, armamentos e tecnologias.

Para o Cairo, essa política ganhou importância depois de episódios que demonstraram os riscos de depender excessivamente de um único fornecedor. O Instituto para Estudos de Segurança Nacional de Israel (INSS) avalia que, durante o governo de Abdel Fattah al-Sisi, o Egito passou a considerar a diversificação das fontes de armamento como parte de sua política de fortalecimento militar e de autonomia estratégica.

É justamente essa combinação de modernização e diversificação que passou a receber maior atenção em Israel. O INSS registrou, em 2025, um debate crescente sobre o aumento da presença militar egípcia no Sinai e sobre a renovação das Forças Armadas, com interpretações distintas entre pesquisadores, especialistas e meios de comunicação israelenses. O instituto, entretanto, também ressalta que essas discussões não significam, por si só, que o Egito esteja preparando uma guerra contra Israel.

A questão do Sinai acrescenta outra dimensão ao debate. Após a intensificação das operações egípcias contra grupos jihadistas na península, Israel passou a autorizar, por meio de mecanismos de coordenação bilateral, determinados níveis de presença militar egípcia superiores aos previstos originalmente nos acordos de paz. O INSS observa que algumas dessas alterações envolveram forças e infraestrutura, tornando o tema sensível para o planejamento israelense.

Ao mesmo tempo, o Egito mantém oficialmente seu compromisso com o tratado de paz de 1979. O próprio INSS destaca declarações públicas de al-Sisi reafirmando o acordo e ressalta que a relação bilateral continua apoiada em mecanismos de coordenação militar. Isso cria uma diferença importante entre a percepção de risco produzida pelo crescimento das capacidades egípcias e uma avaliação de intenção ofensiva, que não pode ser deduzida apenas da modernização do arsenal.

O quadro resultante é, portanto, menos o de uma simples corrida quantitativa por armamentos e mais o de uma transformação da arquitetura militar egípcia. O Cairo passou a operar uma combinação mais ampla de plataformas, fornecedores e tecnologias, enquanto reforça capacidades aéreas, navais e de ataque de longo alcance. Para Israel, essa evolução exige acompanhamento permanente, mas os próprios estudos israelenses distinguem a necessidade de monitorar o crescimento militar egípcio da conclusão de que exista uma intenção declarada de romper o acordo de paz.


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POWERTECH da EDGE, amplia portfólio de motores e mira cadeia industrial na Europa

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A POWERTECH, empresa da EDGE Group criada em 2025, está desenvolvendo uma família própria de motores para drones, mísseis e outras aeronaves, enquanto busca parceiros para formar uma cadeia industrial na Europa. A estratégia combina desenvolvimento de propriedade intelectual nos Emirados Árabes Unidos e na Itália com a possibilidade de produção localizada e transferência de tecnologia para mercados considerados estratégicos.

O plano foi apresentado pelo CEO da POWERTECH, Marian Lubieniecki, durante a MSPO, na Polônia. A empresa participou pela primeira vez da feira e utilizou o evento para negociar com potenciais clientes e fornecedores, colocando o mercado europeu entre os alvos de sua expansão.

A POWERTECH foi criada para fornecer motores tanto às empresas do próprio EDGE Group quanto a clientes externos. Em vez de depender principalmente de projetos licenciados, a companhia afirma estar desenvolvendo internamente os produtos que compõem seu catálogo.

A estrutura atual está dividida entre duas especialidades. Nos Emirados Árabes Unidos, a empresa concentra o desenvolvimento de motores turbojato. Na Itália, mantém uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento dedicada aos motores a pistão.

Entre os propulsores a pistão estão modelos de 10, 80 e 145 hp. Eles são destinados principalmente a aeronaves não tripuladas de vigilância, enquanto a POWERTECH também trabalha em motores de menor custo para plataformas descartáveis. Nesse segmento, o objetivo é adequar o propulsor ao perfil da missão, considerando fatores como autonomia, altitude, desempenho e custo por unidade.

A linha de turbojatos inclui atualmente motores de 450 N e 1.000 N de empuxo contínuo para drones e mísseis. A empresa também desenvolve um turbofan de maior porte e prevê acrescentar ao catálogo um modelo de 4.700 N.

A variedade de motores mostra que a POWERTECH não está trabalhando em uma única solução para um único veículo. A proposta é criar uma família de propulsores que possa ser dimensionada conforme a plataforma e a missão, desde sistemas não tripulados de menor porte até aeronaves que demandem maior empuxo.

Para a EDGE Group, esse domínio tem uma consequência direta: maior controle sobre um dos componentes que mais condicionam o desempenho de uma aeronave. Motor, consumo, peso, autonomia e velocidade estão diretamente relacionados, e alterações no sistema de propulsão podem exigir mudanças em toda a arquitetura da plataforma.

A empresa pretende ainda vender seus motores para clientes que não pertencem ao EDGE Group. Esse mercado externo é importante porque permite utilizar a mesma base tecnológica em diferentes programas, ampliando a escala potencial de produção e criando uma fonte adicional de demanda para os propulsores.

A Polônia aparece nesse processo como possível ponto de entrada para a cadeia industrial europeia. Lubieniecki afirmou que a empresa está avaliando diferentes possibilidades no país, mas não anunciou até o momento uma fábrica ou investimento específico.

O interesse polonês está relacionado à existência de uma indústria aeroespacial consolidada, centros de pesquisa e uma cadeia de fornecedores capaz de atender programas de defesa. A POWERTECH também considera empresas de outros setores industriais que possam adaptar suas capacidades aos padrões exigidos pela produção aeronáutica.

A companhia afirma estar disposta a transferir tecnologia e localizar parte da produção. Isso permitiria que fornecedores poloneses participassem não apenas do fornecimento de componentes, mas de uma estrutura industrial mais ampla, caso as negociações avancem.

Entre as áreas avaliadas está o Aviation Valley, polo aeroespacial localizado no sudeste da Polônia e que reúne fabricantes, fornecedores, centros de pesquisa e instituições de ensino. A região pode oferecer à POWERTECH uma base para desenvolver uma cadeia europeia próxima de clientes e parceiros.

A empresa ainda não anunciou uma instalação industrial na Polônia nem um cronograma para produção local. Por enquanto, o projeto combina o desenvolvimento de motores próprios com a busca por fornecedores e parceiros capazes de sustentar uma futura cadeia europeia de produção.´


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Exército avança em projeto de comunicação quântica para proteger informações estratégicas

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O Exército Brasileiro avançou no desenvolvimento de uma capacidade nacional de comunicação quântica ao firmar um Memorando de Entendimento com o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI Renato Archer) para o desenvolvimento do Projeto AURORA. O acordo foi assinado durante o IV Encontro Nacional de Tecnologias Quânticas para Defesa (IV ENTQD), realizado em Campinas (SP), reunindo representantes das Forças Armadas, instituições de pesquisa, academia e setor de Tecnologia da Informação e Comunicação.

Organizado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT) do Exército, o encontro teve como foco aplicações de tecnologias quânticas em comunicação, computação e sensoriamento. A programação foi dividida em quatro painéis, dedicados a aspectos político-estratégicos, fomento à indústria e projetos de Estado em Ciência e Tecnologia, perspectivas para Tecnologia da Informação e Comunicação e participação da academia e de unidades de pesquisa.

O Projeto AURORA, desenvolvido pelo CTI Renato Archer, propõe uma Arquitetura Unificada de Redes Optoeletrônicas de Resiliência Avançada voltada à comunicação quântica e à proteção de informações. A iniciativa foi estruturada como um projeto de Estado diante da complexidade tecnológica envolvida e prevê a participação coordenada de instituições militares, centros de pesquisa, universidades e empresas.

No arranjo apresentado pelo CTI, o Exército assume a liderança da vertente de segurança cibernética associada ao projeto, denominada “Escudo Quântico”. A proposta é desenvolver uma capacidade nacional para proteger comunicações estratégicas e ampliar a resiliência de sistemas empregados por estruturas críticas.

A comunicação quântica utiliza propriedades da física quântica para criar mecanismos de proteção de informações, com destaque para a Distribuição Quântica de Chaves (QKD). Nesse modelo, alterações provocadas pela tentativa de interceptação de determinados estados quânticos podem ser identificadas pelo sistema, permitindo detectar comprometimentos no canal utilizado para distribuição das chaves criptográficas.

A tecnologia, entretanto, não representa isoladamente uma solução completa de segurança cibernética. Sua aplicação depende da integração com criptografia, redes convencionais, sistemas de autenticação e outras camadas de proteção. O desafio está em transformar o princípio científico em uma infraestrutura confiável e compatível com os sistemas existentes.

O AURORA prevê inicialmente o estabelecimento de comunicações quânticas entre Campinas e São Paulo e entre Recife e João Pessoa. Esses enlaces deverão permitir o desenvolvimento e a validação de tecnologias associadas à transmissão, gerenciamento e proteção de informações em redes quânticas.

A implantação de uma rede desse tipo envolve desafios que vão além da transmissão de dados. Distância, estabilidade dos enlaces, infraestrutura óptica, sincronização, equipamentos fotônicos, gerenciamento das chaves e integração com redes convencionais estão entre os requisitos que precisam ser solucionados para transformar um demonstrador tecnológico em uma capacidade operacional.

O projeto também ganha relevância diante do avanço da computação quântica. A evolução dessa tecnologia poderá ameaçar, no futuro, determinados algoritmos criptográficos utilizados atualmente, criando a necessidade de desenvolver mecanismos capazes de proteger informações contra novos métodos de processamento e ataque.

Nesse cenário, o domínio de tecnologias quânticas passa a ter implicações para sistemas governamentais, militares e infraestruturas críticas. Comunicações relacionadas a comando e controle, centros de dados, energia, telecomunicações e outros serviços estratégicos exigem níveis elevados de disponibilidade e proteção contra interceptação ou comprometimento.

A participação do Exército no AURORA amplia a atuação do DCT em uma área que combina ciência fundamental, engenharia, cibernética e sistemas de comunicação. O desenvolvimento também cria oportunidades para a formação de competências nacionais em fotônica, eletrônica, software, criptografia e integração de redes.

O principal desafio será converter os resultados de pesquisa em sistemas escaláveis, sustentáveis e compatíveis com as necessidades operacionais. A distância entre uma demonstração de laboratório e uma rede quântica disponível de forma contínua exige desenvolvimento tecnológico, infraestrutura especializada e capacidade industrial para produzir e manter os equipamentos envolvidos.

O Projeto AURORA coloca, assim, a comunicação quântica dentro da agenda brasileira de ciência, tecnologia e Defesa. Os primeiros enlaces previstos entre Campinas–São Paulo e Recife–João Pessoa representam uma etapa inicial de um processo cujo objetivo é desenvolver conhecimento e infraestrutura nacional para proteger informações estratégicas em um ambiente tecnológico no qual os métodos de processamento e de ataque cibernético estão em rápida evolução.


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com Exército Brasileiro


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DESAER adota Siemens Xcelerator para acelerar desenvolvimento do ATL-100

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A DESAER avançou mais uma etapa no desenvolvimento do ATL-100 ao selecionar o portfólio Siemens Xcelerator para estruturar digitalmente o projeto da nova aeronave multimissão brasileira. A iniciativa permitirá à empresa construir um Gêmeo Digital do avião e conectar diferentes disciplinas de engenharia em uma mesma arquitetura de desenvolvimento, permitindo que estruturas, sistemas e desempenho sejam avaliados virtualmente antes da fabricação dos primeiros exemplares.

A adoção dessa infraestrutura representa uma mudança importante na forma de conduzir o programa. Em vez de concentrar a validação de soluções apenas nas etapas posteriores de prototipagem e ensaios físicos, a DESAER poderá utilizar modelos digitais para antecipar análises, identificar incompatibilidades e avaliar diferentes configurações ainda durante a fase de engenharia. O objetivo é reduzir ciclos de desenvolvimento e os riscos associados à evolução do projeto.

O conceito de Gêmeo Digital será complementado por uma linha digital conectada, ou digital thread, responsável por manter a rastreabilidade das informações produzidas ao longo do ciclo de desenvolvimento. Na prática, dados provenientes do projeto mecânico, sistemas elétricos e eletrônicos, simulações e demais disciplinas poderão permanecer integrados, reduzindo a fragmentação das informações à medida que o programa avança em direção à fabricação.

A arquitetura selecionada reúne diferentes ferramentas da Siemens. O Designcenter será empregado no desenvolvimento mecânico e na engenharia tridimensional, enquanto o Capital dará suporte ao projeto dos sistemas elétricos e eletrônicos. O Teamcenter será utilizado para gerenciamento do ciclo de vida do produto e dos dados de engenharia, e a família Simcenter será aplicada às simulações multifísicas, dinâmica dos fluidos, análise estrutural, eletromagnetismo e avaliação de desempenho.

Para uma aeronave multimissão, a integração desses dados possui impacto direto sobre o desenvolvimento. O ATL-100 está sendo concebido para operar em diferentes configurações, o que exige alterações de cabine, distribuição de carga, sistemas e equipamentos conforme a missão. A utilização de modelos digitais permite avaliar essas interações antes que modificações sejam incorporadas fisicamente à aeronave.

Segundo Evandro Fileno, fundador da DESAER, a parceria com a Siemens oferece à empresa uma base de engenharia digital para avaliar antecipadamente as soluções adotadas no projeto e validar virtualmente o desempenho do ATL-100. Para Daniel Scuzzarello, vice-presidente da Siemens Digital Industries Software para a América do Sul, a integração das diferentes disciplinas e dos dados de ciclo de vida deve permitir decisões de engenharia mais rápidas durante o desenvolvimento.

O ATL-100 está sendo desenvolvido como uma aeronave turboélice bimotora destinada a uma ampla variedade de missões, incluindo transporte regional, logística, defesa, segurança, evacuação aeromédica e operações especiais. O projeto prevê capacidade para até 19 passageiros e carga útil de até 2.500 kg, com uma cabine configurável de acordo com a missão.

A flexibilidade da configuração é um dos elementos centrais do conceito. A mesma plataforma poderá ser adaptada para transporte de passageiros ou carga e receber configurações destinadas a missões governamentais e de segurança, incluindo evacuação aeromédica. Essa característica coloca o projeto em uma faixa de mercado na qual a capacidade de reconfiguração e a operação em ambientes com infraestrutura limitada são fatores relevantes.

O ATL-100 também foi concebido para operar a partir de pistas curtas e de superfícies não preparadas, incluindo terra e cascalho. Essa característica amplia o espectro de emprego da aeronave para regiões nas quais a disponibilidade de infraestrutura aeroportuária é restrita, incluindo áreas remotas do Brasil e potenciais mercados na América Latina, África e Ásia.

Nesse contexto, a digitalização do desenvolvimento ganha importância não apenas pela velocidade de engenharia, mas pela capacidade de administrar a complexidade de uma plataforma que poderá assumir diferentes configurações. Quanto maior a quantidade de sistemas e possibilidades de emprego incorporadas ao projeto, maior a necessidade de manter controle sobre interfaces, requisitos, desempenho e alterações introduzidas ao longo do ciclo de vida.

O programa também está associado ao desenvolvimento de uma nova capacidade industrial em Maricá, no Rio de Janeiro, onde a DESAER mantém parcerias com estruturas municipais e instituições locais voltadas à ciência, tecnologia e inovação. A proposta envolve a formação de mão de obra especializada e a criação de um ambiente capaz de concentrar atividades de engenharia, manufatura avançada e desenvolvimento aeroespacial.

Para a indústria brasileira, o aspecto mais relevante da iniciativa está justamente na combinação entre desenvolvimento de uma nova plataforma aeronáutica e ferramentas digitais utilizadas para conduzir programas complexos. A utilização de engenharia baseada em modelos, simulação multifísica e gerenciamento integrado do ciclo de vida permite aproximar o processo de desenvolvimento nacional das práticas empregadas atualmente pela indústria aeroespacial internacional.

O ATL-100 ainda está em desenvolvimento e a adoção do Siemens Xcelerator não representa, por si só, a conclusão das etapas necessárias para colocar a aeronave em produção ou operação. O avanço demonstra, entretanto, uma mudança na base tecnológica utilizada pela DESAER para conduzir o programa, transferindo parte relevante da validação para o ambiente virtual antes da construção física.

Mais do que uma escolha de software, a iniciativa estabelece uma infraestrutura digital sobre a qual a DESAER pretende desenvolver uma aeronave brasileira de emprego múltiplo. A capacidade de integrar projeto, simulação, sistemas e gestão do ciclo de vida desde as primeiras etapas será determinante para controlar a complexidade do ATL-100 à medida que o programa avance para prototipagem, ensaios e futura industrialização.


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ASELSAN integra guerra eletrônica e radar AESA no TB2 em demonstração operacional

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A ASELSAN realizou em Konya uma demonstração em voo que integra ao Bayraktar TB2 uma função mais complexa do que a tradicional missão de vigilância e emprego de armamentos. O ensaio reuniu os sistemas ANTIDOT 2ES 100, ANTIDOT 2EA 200 e FULMAR 200 AESA em uma sequência que combinou inteligência eletrônica, ataque eletrônico e reconhecimento por radar, com a participação de mais de 15 delegações internacionais.

A primeira fase foi dedicada à exploração do espectro eletromagnético. O ANTIDOT 2ES 100, empregado como sistema de medidas de apoio eletrônico (ESM), detectou a emissão de um radar e determinou sua localização durante o voo. A informação foi então repassada ao ANTIDOT 2EA 200, sistema de contramedidas eletrônicas responsável pela etapa seguinte da missão.

O exercício incluiu uma situação particularmente relevante para avaliar a lógica de emprego do sistema. A interferência foi interrompida para permitir que o radar recuperasse a capacidade de aquisição e realizasse o travamento do TB2. Com a aeronave novamente sob acompanhamento, o ECM empregou técnicas baseadas em DRFM para interferir no radar responsável pelo rastreamento.

O uso de DRFM (Digital Radio Frequency Memory) permite ao sistema receber, armazenar e reproduzir sinais de radiofrequência de forma controlada, possibilitando a geração de respostas eletrônicas destinadas a degradar ou manipular o processo de detecção e acompanhamento realizado pelo radar. Na prática, a demonstração colocou o sensor e o sistema de ataque eletrônico dentro de uma mesma cadeia de decisão.

Na segunda fase, o ANTIDOT 2ES 100 voltou a localizar o emissor enquanto o FULMAR 200 AESA executava a aquisição da área por radar de abertura sintética (SAR). Diferentemente de um sensor eletro-óptico, o SAR pode produzir imagens da superfície independentemente da iluminação natural e com maior tolerância a condições meteorológicas adversas, permitindo ampliar a capacidade de reconhecimento do TB2.

Segundo a ASELSAN, as imagens obtidas pelo FULMAR 200 permitiram realizar mapeamento do terreno, identificação de alvos e geolocalização com precisão na ordem de metros. O emprego conjunto dos sensores cria uma arquitetura na qual a informação eletromagnética obtida pelo ESM pode ser associada à informação espacial produzida pelo radar.

Essa combinação é particularmente relevante para operações contra sistemas de defesa aérea. Um radar que emite pode ser localizado passivamente pelo ESM antes mesmo que seja necessário recorrer a sensores ativos. A partir dessa informação, o sistema de guerra eletrônica pode atuar sobre o emissor, enquanto o SAR fornece uma representação detalhada da área para apoiar a identificação e o planejamento do engajamento.

A ASELSAN enquadra essa arquitetura nos conceitos de Suppression of Enemy Air Defenses (SEAD) e Destruction of Enemy Air Defenses (DEAD). No primeiro caso, o objetivo é degradar ou neutralizar temporariamente a capacidade de uma defesa aérea de detectar e acompanhar aeronaves; no segundo, a ação busca a destruição física do sistema responsável pela ameaça.

A demonstração realizada em Konya concentrou-se nas etapas de detecção, localização, interferência e reconhecimento. A empresa afirma que o ciclo pode avançar posteriormente para a designação do alvo pelo ASELFLIR 500 e o emprego de munição guiada a laser, completando a transição entre a identificação do emissor e seu engajamento físico.

O resultado amplia o conceito de emprego do TB2. Em vez de depender exclusivamente de uma carga útil voltada à observação ou ao ataque convencional, a aeronave passa a poder combinar sensores passivos, guerra eletrônica e radar em uma mesma missão. Isso permite transformar a própria emissão do adversário em fonte de informação para orientar a ação subsequente.

A arquitetura também reduz a necessidade de separar todas as funções entre plataformas distintas. O ESM fornece a localização do emissor, o ECM atua sobre o radar e o SAR acrescenta uma capacidade independente de reconhecimento da superfície. A integração desses sistemas permite que uma única plataforma participe de diferentes fases de uma operação contra uma rede de defesa aérea.

O ponto central da demonstração, portanto, não está apenas nos equipamentos instalados no TB2, mas na forma como seus dados são utilizados em sequência. A capacidade de transformar uma emissão eletromagnética em informação de localização, interferência e posteriormente em dados para reconhecimento representa uma evolução do UAV de vigilância para um elemento de apoio à guerra eletrônica e à supressão das defesas aéreas.

A demonstração de Konya não significa, por si só, que todas essas funções já estejam disponíveis em uma configuração operacional única e plenamente qualificada. Ela mostra, entretanto, a direção tecnológica adotada pela ASELSAN: transformar o TB2 em uma plataforma capaz de participar da cadeia de inteligência e guerra eletrônica necessária para operar diante de defesas aéreas organizadas.


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sábado, 19 de setembro de 2026

MQ-9 Reaper: podemos ver ataques de precisão contra o narcoterrorismo no Brasil?

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A informação de que os Estados Unidos preparam a transferência de drones MQ-9 Reaper atualmente empregados na África para a área de responsabilidade do Comando Sul (SOUTHCOM) abre uma questão que vai muito além do reposicionamento de aeronaves remotamente pilotadas. Segundo seis fontes ouvidas pela CNN, a movimentação integra uma ampliação de meios militares destinados a operações antidrogas e antiterrorismo na América do Sul, enquanto Washington avança na preparação de operações terrestres com países parceiros. O Pentágono ainda não confirmou oficialmente o deslocamento.

O momento em que essa movimentação ocorre é particularmente relevante. Desde 2025, os Estados Unidos ampliaram o emprego de capacidades militares no Caribe e no Pacífico Oriental dentro da Operação Southern Spear, apresentada pelo SOUTHCOM como uma campanha de combate ao narcoterrorismo no Hemisfério Ocidental. O próprio comando americano afirma que a operação já envolveu ações cinéticas contra embarcações associadas ao tráfico e que pretende ampliar a pressão sobre organizações classificadas por Washington como terroristas.

O MQ-9 Reaper se encaixa exatamente nessa arquitetura porque sua principal vantagem não está apenas na capacidade de ataque. Trata-se de uma plataforma de inteligência, vigilância e reconhecimento capaz de permanecer por longos períodos sobre uma determinada área, acompanhar alvos, produzir dados para aquisição de objetivos e, em determinadas configurações e sob regras de emprego específicas, realizar ataques de precisão. A transferência de aeronaves do AFRICOM para o SOUTHCOM, portanto, representa também a transferência de uma capacidade persistente de coleta e produção de inteligência para o entorno estratégico sul-americano.

É nesse ponto que a questão brasileira começa a ganhar outra dimensão. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado americano designou formalmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Specially Designated Global Terrorists (SDGT), afirmando que as organizações representariam risco à segurança de cidadãos americanos e à segurança nacional, política externa ou economia dos Estados Unidos. A medida possui efeitos jurídicos e financeiros dentro da estrutura americana, mas não altera automaticamente a classificação jurídica dessas organizações perante o ordenamento brasileiro.

A designação foi acompanhada por medidas concretas contra estruturas associadas ao PCC. Em julho, o Departamento do Tesouro americano sancionou indivíduos e empresas ligados à organização, afirmando que uma rede com ramificações em São Paulo e na Flórida teria movimentado mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos e utilizado o sistema financeiro americano para lavagem de dinheiro. O movimento demonstra que Washington já trata determinadas estruturas brasileiras não apenas como problema policial doméstico, mas como parte de uma rede criminosa transnacional com impacto direto sobre interesses americanos.

Essa mudança de enquadramento é essencial para compreender o termo “narcoterrorismo” empregado pelo SOUTHCOM. Quando uma organização deixa de ser tratada exclusivamente como uma estrutura de crime organizado e passa a ser enquadrada pelo governo americano dentro de sua arquitetura antiterrorismo, ampliam-se os instrumentos disponíveis a Washington: sanções financeiras, inteligência, cooperação policial, operações de interdição e, dentro das decisões políticas e jurídicas americanas, emprego de capacidades militares.

Isso não significa que a designação americana autorize, por si só, um ataque contra o PCC ou o CV em território brasileiro. A questão é muito mais complexa. O Brasil permanece um Estado soberano, e sua Constituição estabelece como princípios das relações internacionais a independência nacional, a não intervenção, a igualdade entre os Estados, a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos. Também atribui às Forças Armadas a missão de defesa da Pátria.

No plano internacional, a questão é igualmente sensível. O artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas estabelece a obrigação dos Estados de se absterem da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de outro Estado. Existem debates jurídicos complexos sobre legítima defesa, consentimento estatal, operações contra atores não estatais e outras hipóteses, mas nenhuma dessas discussões transforma automaticamente a classificação unilateral de uma organização criminosa em autorização para o emprego de força estrangeira no território de outro país.

A própria diplomacia brasileira já identificou essa possibilidade como uma questão concreta. Em documento encaminhado pelo Ministério das Relações Exteriores ao Congresso em julho, o Itamaraty alertou para a possibilidade de uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro após a classificação do PCC e do CV. O documento não afirma que Washington tenha decidido realizar uma operação no Brasil, mas demonstra que Brasília considera necessário avaliar esse cenário dentro da nova relação entre a designação americana das facções e a ampliação das capacidades militares do SOUTHCOM.

É nesse intervalo entre possibilidade jurídica e capacidade militar que o MQ-9 se torna particularmente relevante. Uma plataforma dessa natureza permite construir uma cadeia operacional que começa muito antes do disparo de qualquer armamento: coleta persistente de informações, identificação de padrões, acompanhamento de deslocamentos, correlação com inteligência de sinais e outras fontes, confirmação de um possível alvo, avaliação de danos e, somente então, eventual emprego de força. O elemento decisivo, portanto, não é simplesmente possuir um drone armado, mas controlar a arquitetura de inteligência que transforma dados em decisão operacional.

Para o Brasil, esse é talvez o aspecto mais sensível da questão. Caso Washington amplie sua presença de ISR na América do Sul, o debate não deveria se limitar à possibilidade de um MQ-9 operar a partir de um país parceiro. A questão estratégica é saber quem estará enxergando os corredores marítimos e terrestres, quem terá acesso aos dados coletados, onde essas informações serão processadas, quais critérios serão empregados para identificar alvos e quem terá autoridade para determinar uma ação contra eles.

Há ainda uma diferença fundamental entre cooperação e intervenção. Os Estados Unidos já procuraram o Brasil para discutir cooperação no combate ao narcotráfico. Em julho, durante a Conferência de Ministros da Defesa das Américas, o Ministério da Defesa informou que Washington buscava parceiros no continente para essa finalidade e que o ministro José Mucio demonstrara interesse na parceria, destacando que o combate ao narcotráfico no Brasil é prioritariamente conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Uma arquitetura cooperativa poderia envolver compartilhamento de inteligência, rastreamento de aeronaves e embarcações, intercâmbio de dados, apoio tecnológico e operações conduzidas pelas próprias autoridades brasileiras. Outra situação, completamente diferente, seria uma decisão unilateral de empregar força contra um alvo localizado em território brasileiro. Entre esses dois extremos existe uma extensa zona de possibilidades, e é justamente nela que a evolução da presença americana na região precisa ser observada.

O fator geográfico também não pode ser ignorado. A América do Sul possui extensas áreas de fronteira terrestre, corredores fluviais, litoral continental e rotas marítimas utilizadas pelo crime organizado para movimentar drogas, armas, recursos financeiros e pessoas. Colômbia e Equador aparecem hoje como pontos particularmente importantes na nova estratégia americana, e a CNN informou que a transferência dos Reaper ocorre em paralelo à preparação de operações com parceiros sul-americanos.

Para o Brasil, isso coloca em evidência a importância de possuir uma arquitetura própria de consciência situacional. SISFRON, SIVAM/SIPAM, E-99M, satélites, radares, sistemas de guerra eletrônica, inteligência de sinais, SARP e os sensores embarcados da Marinha não devem ser vistos como programas isolados. Em conjunto, constituem os componentes de uma capacidade nacional de ISR que precisa acompanhar a dimensão territorial, marítima e estratégica do país.

A Amazônia Azul acrescenta uma variável ainda mais importante. Uma eventual expansão da presença americana de inteligência no Atlântico Sul não precisaria estar relacionada diretamente ao território brasileiro para produzir efeitos sobre o ambiente estratégico nacional. A capacidade de acompanhar embarcações, rotas logísticas e movimentações marítimas amplia a consciência sobre um espaço onde o Brasil possui interesses econômicos, energéticos, militares e ambientais de primeira ordem. Nesse contexto, soberania não significa apenas controlar fisicamente o território, mas também possuir capacidade própria de observá-lo e interpretar o que acontece ao seu redor.

Por isso, a pergunta proposta no título não deve ser respondida simplesmente com um “sim” ou “não”. Hoje, não há evidência pública de que os Estados Unidos tenham decidido realizar ataques de precisão contra organizações criminosas dentro do território brasileiro. A transferência anunciada dos MQ-9 para o SOUTHCOM tampouco constitui, por si só, indicação de uma operação contra o Brasil. O que existe é uma combinação concreta de fatores: uma nova arquitetura militar americana no Hemisfério Ocidental, operações cinéticas já realizadas contra alvos associados ao narcotráfico, preparação para ações terrestres com parceiros sul-americanos, designação do PCC e do CV dentro da estrutura antiterrorista americana e preocupação expressa pelo próprio Itamaraty com a possibilidade de emprego de força americana em território nacional.

O ponto central, portanto, não é imaginar uma guerra entre Estados Unidos e Brasil, cenário para o qual não há evidência disponível. O desafio estratégico é compreender até onde pode avançar uma política americana que passa a tratar determinadas organizações criminosas latino-americanas como ameaças terroristas e que, simultaneamente, desloca para a América do Sul meios capazes de produzir inteligência persistente e ataques de precisão.

Se essa arquitetura continuar avançando, o Brasil terá de definir com clareza os limites da cooperação, os mecanismos de compartilhamento de inteligência, as regras para emprego de meios estrangeiros e, sobretudo, sua própria capacidade de produzir consciência situacional independente. A questão do MQ-9, no fim, é apenas a parte visível de uma transformação maior: a disputa não é somente pelo controle dos alvos, mas pelo controle dos sensores, dos dados e da decisão que antecede o uso da força.

É essa dimensão que torna o movimento americano relevante para o Brasil. Antes de perguntar se um Reaper poderá algum dia lançar uma arma de precisão contra um alvo em território nacional, é preciso observar quem estará fornecendo a inteligência que identifica esse alvo, quem validará essa informação e sob qual autoridade será tomada a decisão de empregar a força. No ambiente estratégico que começa a se desenhar no Hemisfério Ocidental, essa pode ser a questão mais importante de todas.


Por Angelo Nicolaci


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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

TULPAR conclui tiro real com a HITFACT MkII de 120 mm e reforça candidatura no programa de blindados do Exército

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A Otokar e a Leonardo concluíram com sucesso a integração e os testes de tiro real do TULPAR equipado com a torre HITFACT MkII de 120 mm. A configuração combina o poder de fogo de um canhão de grande calibre com a mobilidade, proteção e arquitetura modular da plataforma turca sobre lagartas, em uma solução destinada a ampliar o emprego de armamentos de 120 mm em veículos de menor massa que os carros de combate principais convencionais.

Antes dos disparos, as equipes das duas empresas conduziram um programa de integração envolvendo as interfaces mecânicas, elétricas, eletrônicas e de software entre o chassi e a torre. Foram realizadas verificações funcionais, inspeções de segurança e procedimentos de validação para avaliar o desempenho, a confiabilidade e a interoperabilidade do conjunto.

Na sequência, o TULPAR foi submetido a uma campanha de tiro real em condições estáticas e dinâmicas. Os ensaios avaliaram o funcionamento do armamento, do sistema de controle de tiro, da estabilização e da integração geral entre a torre e a plataforma. Segundo Otokar e Leonardo, todos os objetivos previstos para a campanha foram atingidos.

A HITFACT MkII pode receber um canhão raiado de 105/52 mm ou um canhão de alma lisa 120/45 mm de baixo recuo. Na configuração testada, foi empregada a segunda opção. A mesma família de torre equipa o Centauro II 8x8 do Exército Brasileiro, estabelecendo uma conexão tecnológica relevante para a avaliação da solução no mercado brasileiro.

A torre possui arquitetura modular e totalmente digitalizada, com sistemas eletro-ópticos panorâmicos destinados ao comandante e ao atirador. Segundo a Leonardo, o conjunto proporciona capacidades de observação, detecção e aquisição de alvos, além da possibilidade de emprego da munição guiada Vulcano 120 para engajamentos de precisão.

A HITFACT MkII foi projetada para integração em diferentes plataformas, incluindo veículos sobre rodas e sobre lagartas. No caso do TULPAR, a solução permite associar o canhão de 120 mm a um veículo de porte médio, mantendo uma arquitetura com margem para diferentes configurações e futuras atualizações.

O TULPAR foi desenvolvido como uma família modular de veículos blindados sobre lagartas, com peso bruto entre 28 e 45 toneladas. A arquitetura permite configurar a plataforma para funções como carro de combate médio, veículo de combate de infantaria, apoio de fogo, defesa antiaérea, morteiro, recuperação e evacuação médica, utilizando uma base comum.

Essa característica permite estruturar diferentes capacidades a partir de uma mesma família de veículos, com potencial para racionalizar treinamento, manutenção e suporte logístico. A plataforma também foi projetada para incorporar novos equipamentos e sistemas ao longo de sua vida operacional.

A Otokar informa que o TULPAR passou por testes em diferentes condições climáticas e de terreno e oferece proteção balística e contra minas. Sua arquitetura foi concebida com capacidade de crescimento para acompanhar a incorporação de novos sensores, sistemas de proteção e equipamentos eletrônicos.

A própria torre pode receber uma estação remotamente controlada HItrole CUAS, equipada com o canhão Leonardo Blaze de 30x113 mm, permitindo ampliar a capacidade de resposta contra ameaças aéreas de baixa altitude, incluindo sistemas não tripulados.

Para o Brasil, o ponto central está na combinação entre uma plataforma sobre lagartas de arquitetura modular e uma torre de 120 mm cuja família já integra um programa do Exército Brasileiro. A experiência acumulada com a HITFACT MkII no Centauro II pode representar uma vantagem na avaliação de treinamento, manutenção, suporte e eventual comunalidade de componentes e conhecimentos técnicos.

É também nesse contexto que o TULPAR ganha relevância na disputa brasileira. A plataforma reúne uma faixa de peso de 28 a 45 toneladas, diferentes possibilidades de configuração, capacidade de crescimento e integração comprovada com um sistema de armas de 120 mm. A isso se soma a possibilidade de transferência de tecnologia e participação da indústria brasileira, aspecto que poderá ser decisivo caso seja acompanhado por uma proposta concreta de nacionalização, manutenção e desenvolvimento local.

Na avaliação do GBN Defense, esse conjunto coloca o TULPAR entre os candidatos mais fortes para o futuro programa de blindados sobre lagartas do Exército Brasileiro. A vantagem potencial não está em uma característica isolada, mas na combinação entre arquitetura modular, poder de fogo, capacidade de evolução e a possibilidade de estabelecer uma relação industrial de longo prazo com o Brasil. A presença da HITFACT MkII no Centauro II acrescenta ainda uma referência já existente dentro da própria Força Terrestre.

Existe, entretanto, uma ressalva importante. Até o momento, o TULPAR não foi adotado operacionalmente por nenhum país, nem mesmo pela própria Türkiye. A ausência de um usuário de série reduz a experiência operacional disponível sobre a plataforma e exige uma avaliação cuidadosa de aspectos como confiabilidade em serviço, cadeia de suprimentos, disponibilidade, sustentação e evolução do produto ao longo de décadas.

Esse fator não elimina o potencial da proposta, mas aumenta a importância das condições que eventualmente forem estabelecidas em um contrato. Para o Brasil, uma possível seleção ganharia dimensão estratégica se acompanhada por transferência efetiva de tecnologia, participação da indústria nacional, capacidade local de manutenção e garantias de suporte durante todo o ciclo de vida. Nesse cenário, o país poderia participar não apenas da operação, mas também da evolução da plataforma.

O sucesso da campanha de tiro com a HITFACT MkII representa, portanto, uma etapa relevante na maturação da configuração de 120 mm. O TULPAR passa a apresentar uma solução integrada e testada em condições reais de emprego, embora ainda precise superar a ausência de um operador de série. Para o programa brasileiro, o resultado reforça sua candidatura e coloca o blindado turco, na avaliação do GBN Defense, como um dos concorrentes que atualmente apresentam o conjunto mais consistente de capacidades e possibilidades industriais para atender aos futuros requisitos do Exército Brasileiro.


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