Projeto de Orçamento 2027 prevê crédito para três submarinos convencionais e duas fragatas, enquanto a Armada busca recuperar capacidades perdidas
O Poder Executivo argentino encaminhou ao Congreso de la Nación o Projeto de Presupuesto General de la Administración Nacional para 2027, que prevê uma autorização de até US$ 3,5 bilhões em operações de crédito público destinadas ao reequipamento da Armada Argentina. A proposta contempla três submarinos convencionais, com limite de US$ 2,3 bilhões, e duas fragatas multimissão, com até US$ 1,2 bilhão.
Os recursos estão distribuídos em dois programas. Os submarinos serão destinados à Fuerza de Submarinos, com a Base Naval Mar del Plata como referência, enquanto as fragatas deverão integrar a Flota de Mar, sediada em Puerto Belgrano. O projeto não define classe, fabricante ou configuração dos futuros navios, deixando essas decisões para as etapas posteriores de requisitos, seleção e contratação.
O ponto financeiro exige uma distinção importante: os US$ 3,5 bilhões não constituem uma dotação imediatamente disponível para aquisição dos meios. O Artigo 42 autoriza a realização das operações de crédito, permitindo ao Poder Executivo estruturar financiamentos de longo prazo. A contratação dos empréstimos e dos equipamentos dependerá da tramitação orçamentária e das negociações subsequentes.
A dimensão do programa ganha relevância diante da atual situação da força submarina argentina. Durante o Fraterno XXXIX, a própria Armada registrou oficialmente que não dispõe de submarinos operacionais. O exercício realizado com a Marinha do Brasil permitiu que oficiais e suboficiais argentinos mantivessem o adestramento específico a bordo do Submarino Humaitá (S41).
O mesmo exercício expôs, na prática, a diferença entre possuir uma estrutura naval e manter uma capacidade operacional completa. Enquanto o Humaitá participou das ações de guerra antissubmarino, militares argentinos puderam realizar treinamento submarino embarcados no meio brasileiro. A recuperação dessa capacidade exigirá, portanto, mais que a construção dos cascos: será necessário recompor tripulações, infraestrutura, manutenção, sistemas de combate, armamentos e cadeia logística.
A opção por três SSK indica uma tentativa de estabelecer uma capacidade submarina com maior continuidade operacional. O número permite trabalhar com ciclos de manutenção e adestramento sem depender de uma única unidade disponível, embora a efetividade dessa estrutura dependa da disponibilidade técnica e do suporte ao longo do ciclo de vida.
A questão dos submarinos ganhou um componente industrial concreto em 2026. Após visita a Buenos Aires em maio, o ministro da Defesa José Múcio Monteiro afirmou que os três submarinos Scorpène que a Argentina negocia com a França poderiam ser construídos no Brasil, utilizando a estrutura do Complexo Naval de Itaguaí. A possibilidade envolve o Naval Group, parceiro francês do PROSUB, e a infraestrutura industrial brasileira criada para a construção dos quatro submarinos convencionais da Classe Riachuelo.
A hipótese não surgiu agora. Em 2023, o então ministro da Defesa argentino Jorge Taiana visitou a Itaguaí Construções Navais para conhecer o processo de fabricação dos Scorpène brasileiros, identificado oficialmente pela Argentina como uma das alternativas para recuperar sua capacidade submarina. Na ocasião, Taiana também manteve reunião bilateral com José Múcio, na qual o processo de fabricação dos submarinos em Itaguaí esteve entre os temas tratados.
O cenário de 2026 acrescenta uma possibilidade industrial mais concreta: a utilização de Itaguaí como local de construção das futuras unidades argentinas. O PROSUB já estabeleceu no Brasil infraestrutura, mão de obra especializada e capacidade industrial para a produção de submarinos derivados do Scorpène. Os quatro S-BR brasileiros foram construídos no Complexo Naval de Itaguaí, com transferência de tecnologia e assistência técnica do Naval Group.
Para a Argentina, esse modelo poderia reduzir a necessidade de desenvolver do zero uma estrutura industrial específica para a construção dos submarinos. Para o Brasil, uma eventual encomenda externa permitiria ampliar a utilização de competências acumuladas pelo PROSUB e preservar uma cadeia produtiva especializada em uma área de elevada complexidade tecnológica. A concretização desse arranjo, porém, dependeria da definição do modelo financeiro, industrial e contratual da operação.
Na força de superfície, as duas fragatas previstas para Puerto Belgrano representam o segundo eixo da recuperação naval. O valor autorizado, de até US$ 1,2 bilhão, ainda não está associado a uma classe específica. Durante o Fraterno XXXIX, a EMGEPRON apresentou às autoridades navais argentinas a solução das Fragatas Classe Tamandaré, baseada no projeto MEKO A-100 da TKMS e construída no Brasil pelo TKMS Estaleiro Brasil Sul, em Itajaí. A apresentação não representa uma decisão argentina pela classe, mas coloca uma solução naval produzida no Brasil entre as possibilidades de cooperação que poderão ser discutidas no processo de renovação da Armada Argentina.
A Tamandaré também carrega um componente industrial brasileiro relevante. O programa é executado pela Águas Azuis, formada pela TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, com participação de aproximadamente 40% de conteúdo local em equipamentos e serviços, além de transferência de tecnologia e mobilização de uma cadeia de fornecedores nacionais. A Atech responde pelo desenvolvimento e integração de sistemas como o gerenciamento de combate e o gerenciamento integrado da plataforma, enquanto a Embraer participa com competências em sensores, sistemas e integração.
A experiência brasileira no Fraterno XXXIX criou, nesse contexto, uma referência operacional concreta. A participação da Fragata Tamandaré (F200) e do Submarino Humaitá permitiu à Armada Argentina operar e treinar ao lado de meios que incorporam tecnologias e conceitos empregados pela Marinha do Brasil em sua atual renovação de capacidades. O exercício envolveu ações de superfície, guerra antissubmarino, tiro naval, operações aéreas e procedimentos de salvamento submarino.
O planejamento de 2027 também contempla programas que não dependem dessa autorização de crédito. Entre eles está a aquisição de quatro helicópteros navais leves, com previsão de $37,616 bilhões de pesos, destinados ao emprego orgânico embarcado. A Armada também mantém o programa de helicópteros AW109, cujo adiantamento e custos de financiamento foram registrados como pagos em março de 2026.
A Argentina passou ainda a contar com mecanismos adicionais de financiamento para o reequipamento militar. O Decreto 314/2026 colocou em funcionamento o Plan ARMA, destinado a direcionar parte dos recursos provenientes da venda, locação ou privatização de determinados ativos estatais para modernização, reequipamento e infraestrutura de Defesa. O mecanismo complementa os recursos orçamentários e o FONDEF.
A decisão sobre os submarinos ainda não está tomada. O orçamento argentino de 2027 autoriza até US$ 2,3 bilhões em operações de crédito para três unidades convencionais, mas não define fornecedor nem local de construção. O Scorpène permanece entre as alternativas avaliadas, enquanto o processo de seleção e financiamento continua em negociação.
O mesmo princípio vale para as fragatas. A apresentação da solução Tamandaré demonstra que o Brasil já dispõe de uma plataforma construída em território nacional, com participação de empresas brasileiras e transferência de tecnologia, que pode ser considerada em futuras discussões de cooperação naval. Isso não significa que exista uma decisão argentina pela classe, mas estabelece uma possibilidade adicional dentro de um processo que ainda está em fase de definição.
Para o Brasil, a eventual recuperação da força naval argentina também possui uma dimensão industrial. A incorporação de três submarinos e duas novas fragatas ampliaria as capacidades navais disponíveis no Atlântico Sul e poderia criar oportunidades adicionais de cooperação, adestramento e participação da indústria brasileira em programas de defesa de um país vizinho.
O ponto decisivo estará na execução. Entre a autorização de crédito e a entrada de um navio em serviço existe um ciclo que envolve financiamento, seleção, contrato, construção, treinamento, integração de sistemas e estrutura logística. Em programas navais dessa dimensão, a capacidade de manter os recursos ao longo de vários exercícios será determinante para transformar a autorização orçamentária em meios efetivamente operacionais.
O Orçamento 2027, portanto, não entrega uma nova Armada à Argentina, mas estabelece as condições financeiras para que Buenos Aires possa iniciar esse processo. São US$ 3,5 bilhões em capacidade de crédito para dois dos principais componentes de uma força naval moderna, enquanto as alternativas industriais começam a ganhar contornos mais definidos. Nesse cenário, o Brasil aparece potencialmente em duas frentes distintas, submarinos, por meio da infraestrutura de Itaguaí e da experiência acumulada no PROSUB, e fragatas, por meio da Classe Tamandaré e da capacidade industrial construída em Itajaí, sem que qualquer uma dessas possibilidades represente, neste momento, um contrato ou uma decisão definitiva de aquisição.
Por Angelo Nicolaci
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