No Paquistão, algumas datas ultrapassam o calendário oficial e passam a fazer parte da própria memória coletiva do país. O 6 de setembro é uma delas. Conhecido como Defence Day, ou Youm-e-Difa, o dia é dedicado à lembrança dos militares que participaram da defesa do país durante a guerra de 1965 contra a Índia. Mais do que uma comemoração militar, a data representa uma das experiências que ajudaram a moldar a percepção paquistanesa sobre soberania, segurança nacional e o papel das Forças Armadas na preservação do Estado. A origem dessa memória remonta à madrugada de 6 de setembro de 1965, quando a guerra entre Índia e Paquistão entrou em uma nova fase. Até então, os combates estavam concentrados principalmente na região da Caxemira, mas naquele dia as forças indianas atravessaram a fronteira internacional em direção ao Punjab paquistanês, ampliando significativamente o conflito. A guerra, que vinha sendo construída por uma sucessão de crises e decisões políticas e militares ao longo daquele ano, transformava-se em um confronto convencional de maior escala entre dois países que haviam conquistado sua independência apenas 18 anos antes.
Para compreender o significado daquele momento, entretanto, é necessário retornar ao nascimento dos dois países. A independência do subcontinente indiano, em 1947, havia sido acompanhada pela Partição e por uma das maiores crises humanas provocadas pelo processo de descolonização. Índia e Paquistão surgiram como Estados independentes em meio a deslocamentos populacionais em massa, violência comunitária e uma série de questões territoriais que permaneceriam sem solução. Entre elas estava Jammu e Caxemira, cuja disputa rapidamente levou os dois novos países à primeira guerra, entre 1947 e 1948. A região assumiria uma importância que ultrapassava sua dimensão territorial. Para o Paquistão, a maioria muçulmana da população da Caxemira estava profundamente ligada à lógica política que havia conduzido à criação do novo Estado. Para a Índia, por outro lado, a integração de Jammu e Caxemira estava associada à sua soberania territorial e à própria concepção do Estado indiano independente. A disputa passou, portanto, a concentrar elementos territoriais, políticos, religiosos e estratégicos que dificultavam qualquer solução simples.
Foi nesse ambiente que 1965 começou a se transformar em um novo ponto de ruptura. Os primeiros confrontos importantes daquele ano ocorreram no Rann of Kutch, área localizada na fronteira entre os dois países. Embora a crise tenha sido posteriormente contida por negociações, ela demonstrou que a tensão bilateral havia voltado a um nível perigoso. Poucos meses depois, o foco deslocou-se novamente para a Caxemira. O Paquistão lançou a Operação Gibraltar, uma tentativa de infiltrar combatentes na Caxemira administrada pela Índia com o objetivo de estimular uma revolta contra o controle indiano. A operação não produziu o resultado político esperado por Islamabad e acabou provocando uma reação indiana mais ampla. Em seguida, o Paquistão lançou a Operação Grand Slam na região de Jammu, buscando pressionar posições indianas e alterar a situação militar no setor. A escalada passou então a ameaçar transformar uma disputa localizada em uma guerra aberta.
Em 6 de setembro, a Índia decidiu ampliar o conflito para além da Caxemira e atravessou a fronteira internacional no Punjab. A medida abriu uma nova frente em direção a Lahore e modificou completamente a dimensão da guerra. O conflito deixava de estar restrito às áreas disputadas e passava a ameaçar diretamente importantes centros urbanos, militares e logísticos dos dois países. Para o Paquistão, a proximidade dos combates com Lahore teve também um impacto psicológico profundo. O país ainda era uma sociedade relativamente jovem, formada apenas duas décadas antes em circunstâncias traumáticas. A lembrança da Partição permanecia presente na vida cotidiana de milhões de pessoas, e a possibilidade de uma guerra atingir diretamente uma das principais cidades nacionais reforçava a percepção de vulnerabilidade que já fazia parte da experiência paquistanesa desde a independência. É nesse contexto que a figura do soldado passa a ocupar um lugar tão importante na memória do 6 de setembro. A guerra envolveu decisões tomadas por governos e comandos militares, mas foi vivida na prática por homens que permaneceram em posições avançadas, por tripulações de aeronaves e unidades blindadas que entraram em combate e por famílias que aguardavam notícias enquanto as operações se desenvolviam.
A memória nacional construída posteriormente em torno do Defence Day transformou esses indivíduos em símbolos da defesa do Estado. A narrativa oficial paquistanesa enfatiza a resistência diante da ofensiva indiana e o sacrifício daqueles que morreram durante o conflito. Essa dimensão não pode ser dissociada da maneira como o país passou a compreender sua própria segurança, especialmente porque a experiência de 1965 reforçou uma percepção já existente de que a sobrevivência do Paquistão dependia de sua capacidade de manter uma estrutura militar preparada para enfrentar um adversário muito maior. Isso não significa, entretanto, que a guerra possa ser compreendida apenas a partir da narrativa de uma vitória paquistanesa ou indiana. A realidade militar e política do conflito foi muito mais complexa. Índia e Paquistão sofreram perdas importantes, nenhum dos dois conseguiu alcançar uma solução definitiva para a questão da Caxemira e a guerra terminou sem que houvesse uma alteração permanente capaz de resolver a disputa central que havia contribuído para desencadeá-la.
A intervenção internacional foi decisiva para interromper a escalada. O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou resoluções exigindo o fim das hostilidades e estabelecendo o retorno das forças às posições anteriores ao conflito. A Resolução 211, aprovada em 20 de setembro de 1965, determinou o cessar-fogo e estabeleceu que as forças deveriam retornar às posições ocupadas antes de 5 de agosto. A guerra terminou, mas a questão que estava no centro dela permaneceu aberta. Essa característica é fundamental para entender por que o 6 de setembro ganhou uma importância tão grande no imaginário nacional paquistanês. A data não está associada a uma solução definitiva para a Caxemira ou a uma transformação territorial decorrente da guerra. Sua importância está principalmente relacionada à experiência de um Estado jovem que percebeu, novamente, a possibilidade concreta de precisar lutar pela própria sobrevivência diante de um vizinho muito maior.
A paz posterior também não eliminou as tensões. Em janeiro de 1966, o presidente paquistanês Ayub Khan e o primeiro-ministro indiano Lal Bahadur Shastri se reuniram em Tashkent, na União Soviética, onde, sob mediação soviética, negociaram o fim formal das consequências imediatas do conflito. A Declaração de Tashkent estabeleceu a retirada das forças para as posições anteriores à guerra e reafirmou o compromisso de Índia e Paquistão de não utilizar a força para resolver suas disputas. O acordo, contudo, também revelou a dificuldade de separar a guerra da política interna. No Paquistão, setores da sociedade interpretaram o resultado como insuficiente diante dos objetivos que haviam sido apresentados durante o conflito. A memória dos militares mortos permaneceu associada a uma guerra que não havia resolvido a Caxemira, e a percepção de que o país continuava exposto diante da Índia permaneceu profundamente enraizada na estrutura política e militar paquistanesa.
A experiência de 1965 teve consequências que se estenderiam muito além daquele conflito. O Paquistão já possuía uma forte tradição militar herdada do período britânico e enfrentava uma assimetria considerável diante da Índia em população, território e recursos econômicos. A guerra reforçou a percepção de que a capacidade militar seria um instrumento essencial para compensar essa diferença. Essa percepção ajudaria a explicar a posição central que as Forças Armadas passariam a ocupar na política e na estratégia nacional do Paquistão. Seria incorreto atribuir essa realidade exclusivamente à guerra de 1965, porque a história paquistanesa posterior seria marcada por outros acontecimentos decisivos, incluindo a crise de 1971, a separação do Paquistão Oriental e a guerra daquele ano. Ainda assim, 1965 contribuiu para consolidar uma cultura estratégica baseada na necessidade de manter uma capacidade militar significativa diante de um adversário considerado potencialmente existencial.
A própria natureza do conflito também teve importância. A guerra demonstrou que uma disputa pela Caxemira poderia rapidamente se transformar em um confronto convencional de grande escala, envolvendo forças terrestres, blindados, artilharia e aviação. O Sul da Ásia deixava de ser apenas um cenário de disputas territoriais entre dois países recém-independentes e passava a ser observado com atenção pelas grandes potências da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética tinham interesses distintos na região e trabalharam diplomaticamente para impedir que o conflito ultrapassasse determinado limite. Washington também interrompeu o fornecimento de armas aos dois países, uma decisão particularmente relevante para o Paquistão, que dependia em maior medida de equipamentos de origem americana. A guerra demonstrava, portanto, que qualquer confronto entre Índia e Paquistão possuía potencial para adquirir rapidamente uma dimensão internacional.
A consequência mais profunda, porém, não estava nos mapas produzidos pelo conflito, mas na forma como a sociedade paquistanesa passou a enxergar sua própria segurança. O país havia sido criado em 1947 em meio à violência e à instabilidade da Partição, possuía uma configuração territorial particularmente complexa e enfrentava desde os primeiros anos uma relação extremamente difícil com a Índia. Em 1965, essa sensação de vulnerabilidade ganhou uma nova dimensão. A possibilidade de uma guerra convencional atingir diretamente o Punjab e Lahore mostrou que a distância entre a fronteira e os principais centros nacionais poderia desaparecer em poucas horas. Ao longo das décadas seguintes, essa percepção seria reforçada por novos conflitos e pelo desenvolvimento da capacidade militar paquistanesa. A busca por uma capacidade de dissuasão cada vez maior acabaria contribuindo, décadas mais tarde, para a decisão de desenvolver armas nucleares. A lógica não surgiu em 1965, mas a guerra ajudou a fortalecer uma visão estratégica na qual a sobrevivência nacional dependia da capacidade de impedir que a superioridade convencional indiana pudesse ser convertida em uma vantagem decisiva.
É por isso que o 6 de setembro continua tendo um significado que vai muito além de uma cerimônia militar. Quando o Paquistão homenageia seus mortos nessa data, está lembrando uma geração que enfrentou uma guerra travada quando o país ainda buscava consolidar suas próprias instituições e sua identidade. Está lembrando soldados que combateram em uma guerra que não resolveu a questão da Caxemira, mas que marcou profundamente a maneira como o Estado passou a pensar sua defesa. E está preservando uma memória que, para milhões de paquistaneses, está associada não apenas aos grandes movimentos militares de 1965, mas às histórias pessoais de homens que partiram para a guerra e não retornaram.
Essa dimensão humana é justamente o que impede que o 6 de setembro seja reduzido a uma simples celebração militar. Por trás dos desfiles, das cerimônias e das homenagens existe uma sociedade que construiu sua identidade nacional em circunstâncias extraordinariamente difíceis e que, desde os primeiros anos de sua existência, precisou lidar com a possibilidade de que sua soberania estivesse permanentemente ameaçada. Sessenta e um anos depois, a guerra de 1965 continua encerrada nos livros de história, mas suas consequências permanecem presentes na estratégia do Paquistão, na importância de suas Forças Armadas, na relação com a Índia e, sobretudo, na questão da Caxemira, que continua sem uma solução definitiva.
O 6 de setembro, portanto, não representa apenas a lembrança de uma guerra. Ele representa uma das experiências que ajudaram a definir como o Paquistão passou a compreender a própria existência como Estado. A independência havia criado o país em 1947; as crises e os conflitos das décadas seguintes ajudariam a definir o modo como esse país enxergaria sua segurança, sua soberania e sua relação com o mundo. É nessa perspectiva que a memória dos que morreram em 1965 permanece viva, não apenas como parte da história militar paquistanesa, mas como parte da história de uma sociedade que, desde seu nascimento, aprendeu que a construção de um Estado não termina quando uma bandeira é hasteada. Ela continua nas instituições, nas fronteiras, nas escolhas políticas e naqueles que, em momentos extremos, são chamados a defendê-lo.
Por Angelo Nicolaci
GBN Defense - A informação começa aqui











0 comentários:
Postar um comentário