A evolução tecnológica dos conflitos está modificando profundamente o ambiente no qual a Aviação do Exército Brasileiro deverá operar. A disseminação de drones, o emprego cada vez mais amplo da Guerra Eletrônica e das capacidades cibernéticas tornam o campo de batalha mais transparente, ao mesmo tempo em que o espaço aéreo se torna progressivamente mais congestionado e contestado. Para o comandante da Aviação do Exército, General de Brigada Evandro Luís Amorim Rocha, essa combinação reduz a liberdade de ação dos vetores aéreos e exige uma preparação mais rigorosa das tripulações e das estruturas que sustentam seu emprego.
Nesse cenário, o desafio central do Comando de Aviação do Exército é preservar a capacidade de prover aeromobilidade à Força Terrestre mesmo diante de um ambiente no qual a detecção e a negação dos meios aéreos podem ocorrer de forma integrada e em diferentes camadas. A resposta, segundo o comandante, passa pelo desenvolvimento coordenado das capacidades previstas no modelo DOPEMAII (Doutrina, Organização, Pessoal, Educação, Material, Adestramento, Infraestrutura e Interoperabilidade) de acordo com a evolução das ameaças e das necessidades operacionais.
A primeira prioridade é a preservação da capacidade de manobra, base da contribuição da AvEx para a mobilidade da Força Terrestre. Paralelamente, o Exército pretende ampliar sua capacidade de combate com aeronaves multimissão destinadas a ações diretas e SARPs para atividades de Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos (IRVA), ampliando o emprego da aviação para além das missões tradicionais de transporte e apoio à manobra.
Os sistemas de aeronaves remotamente pilotadas (SARPs) terão papel crescente nessa arquitetura. Entre as prioridades estabelecidas pelo CAvEx está a implantação do Batalhão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, concebido para empregar SARPs de diferentes categorias e funções de maneira coordenada. A proposta prevê o emprego de drones em ondas sucessivas para saturar e suprimir sistemas de defesa oponentes, criando janelas de oportunidade para o emprego dos vetores responsáveis pelas ações principais e contribuindo para o cumprimento dos objetivos da manobra terrestre.
O conceito amplia a função atribuída aos drones dentro da Aviação do Exército. Além da coleta de informações e da aquisição de alvos, os SARPs passam a ser considerados instrumentos capazes de interferir diretamente nas condições do espaço aéreo. O emprego combinado de diferentes categorias e quantidades de aeronaves remotamente pilotadas busca aumentar a pressão sobre sensores e sistemas de defesa adversários, reduzindo temporariamente sua capacidade de impedir o emprego de outros meios aéreos.
A preparação das tripulações acompanha essa transformação. Face ao ambiente no qual a exposição aos sensores e sistemas de defesa adversários pode ocorrer rapidamente, o treinamento técnico e tático ganha peso ainda maior. O CAvEx pretende ampliar o emprego de simuladores para reproduzir cenários de maior complexidade e aproximar o adestramento das condições reais de combate, permitindo elevar a frequência e o realismo da preparação sem depender exclusivamente da disponibilidade das aeronaves.
A sustentação da frota constitui outro eixo dessa preparação. A capacidade de manter aeronaves disponíveis e prontas para emprego influencia diretamente a possibilidade de gerar massa aérea quando a situação operacional exigir. Por isso, o CAvEx estabelece como prioridade o aprimoramento da sustentação, com foco na manutenção de elevados índices de disponibilidade e de prontidão logística.
A combinação dessas iniciativas aponta para uma mudança na forma de estruturar a capacidade aeromóvel. Aeronaves tripuladas e não tripuladas passam a ser consideradas dentro de uma arquitetura integrada, na qual inteligência, comunicações, Guerra Eletrônica, cibernética, treinamento e logística contribuem para criar as condições necessárias ao emprego dos vetores aéreos.
Essa integração ganha importância diante da crescente dificuldade de operar em um espaço aéreo permissivo. A Aviação do Exército precisa desenvolver meios para identificar ameaças, reduzir sua eficácia e aproveitar oportunidades de emprego, enquanto mantém a capacidade de responder às necessidades da força terrestre apoiada. Nesse modelo, a sobrevivência e a eficácia das aeronaves dependem tanto de suas características individuais quanto da forma como são empregadas dentro do conjunto de capacidades da Força.
A prioridade definida pelo CAvEx, portanto, não está restrita à renovação de plataformas. O objetivo é adaptar a Aviação do Exército a um ambiente em que a vantagem tecnológica deixou de estar concentrada exclusivamente nas grandes plataformas e passou a incluir sistemas relativamente acessíveis, capazes de ampliar a observação do campo de batalha, interferir nas comunicações e ameaçar vetores aéreos.
A resposta será construída pela combinação entre modernização da frota, expansão dos sistemas remotamente pilotados, qualificação das tripulações, treinamento baseado em simulação e fortalecimento da sustentação logística. O resultado pretendido é preservar a aeromobilidade como uma capacidade efetiva da Força Terrestre mesmo quando o domínio aéreo estiver congestionado, monitorado e sujeito a ações de negação.
por Angelo Nicolaci
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