A ligação telefônica entre o presidente Lula e o presidente da Türkiye, Recep Tayyip Erdoğan, em 24 de agosto, representa mais do que um movimento diplomático entre Brasília e Ancara. A defesa ocupou posição central na conversa, acompanhada pela decisão de criar um Conselho Estratégico bilateral, em nível de vice-presidentes, e pelo envio de uma delegação brasileira à Türkiye, liderada pelos ministros da Defesa e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Lula afirmou que o Brasil pretende ampliar os investimentos em defesa e manifestou interesse em fomentar parcerias entre empresas brasileiras e turcas. Os dois presidentes também destacaram a ratificação do Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa, criando uma base jurídica para ampliar projetos conjuntos, intercâmbio tecnológico e participação industrial.
O movimento, entretanto, não começou agora. A conversa presidencial representa a elevação política de uma aproximação que vem sendo construída há anos e que, em 2026, passou a apresentar sinais mais concretos nos campos jurídico, militar e industrial.
De um acordo de 2022 a uma agenda concreta
Brasil e Türkiye assinaram o Acordo de Cooperação em Indústria de Defesa em 25 de março de 2022. O instrumento estabelece possibilidades de cooperação em pesquisa, desenvolvimento, produção, aquisição, modernização e manutenção de produtos e serviços de defesa, criando as bases para projetos conjuntos e intercâmbio de conhecimentos e tecnologias.
No Brasil, o acordo avançou pelo processo legislativo e foi aprovado pelo Congresso em 2025. Em junho de 2026, a Türkiye também ratificou o instrumento, completando uma etapa importante para sua consolidação bilateral.
A relevância desse processo está em criar condições para que a cooperação ultrapasse declarações políticas e contatos empresariais isolados. O acordo permite estruturar projetos envolvendo empresas, instituições de pesquisa e Forças Armadas, além de abrir espaço para desenvolvimento, produção, modernização e suporte de sistemas. Essa base jurídica começa agora a encontrar demandas concretas.
O Exército já avalia capacidades turcas
Um dos sinais mais importantes dessa evolução ocorreu antes mesmo da conversa entre Lula e Erdoğan.
Em 29 de julho, durante o Apronto Operacional da Operação Membeca 2026, o GBN Defense participou da coletiva de imprensa com o Comandante do Exército. Na ocasião, ao abordar a aproximação com a indústria de defesa turca, o comandante revelou que existiam conversas avançadas envolvendo sistemas não tripulados de Categoria 3, segmento no qual estão plataformas de maior porte e capacidade, como o Bayraktar desenvolvido pela indústria turca, além de sistemas de ataque.
A declaração mostrou que a relação já havia ultrapassado o campo das intenções. Existiam tratativas relacionadas a capacidades específicas de interesse do Exército Brasileiro.
O segmento de sistemas não tripulados é particularmente relevante nesse contexto. A guerra contemporânea demonstrou como drones podem assumir funções de inteligência, vigilância, reconhecimento, aquisição de alvos e emprego de armamentos, enquanto a integração dessas plataformas com sensores, sistemas de comando e controle e outros vetores amplia sua utilidade operacional.
A Türkiye tornou-se uma referência justamente nesse campo, desenvolvendo uma indústria capaz de produzir diferentes categorias de aeronaves não tripuladas e empregá-las em operações reais. Para o Brasil, essa experiência pode contribuir para acelerar o desenvolvimento de capacidades próprias, desde que a cooperação seja estruturada para gerar participação nacional.
O potencial vai muito além dos drones
Reduzir a aproximação Brasil–Türkiye aos sistemas não tripulados seria, entretanto, limitar significativamente seu potencial. A indústria turca desenvolveu competências em veículos blindados, mísseis, sensores, guerra eletrônica, comando e controle, sistemas navais e defesa antiaérea. São áreas que coincidem com diferentes necessidades de modernização das Forças Armadas brasileiras.
O campo naval merece atenção especial. A Türkiye possui soluções destinadas à defesa de plataformas e instalações contra diferentes ameaças aéreas, incluindo sistemas de defesa de ponto que combinam sensores, comando e controle e armamentos de curto alcance. Algumas dessas capacidades já despertam interesse na Marinha do Brasil e podem representar uma frente adicional de cooperação.
A possibilidade mais interessante, entretanto, não está necessariamente na aquisição de uma solução pronta. Existe espaço para avaliar integração de tecnologias turcas com sistemas brasileiros, participação da Base Industrial de Defesa e, quando houver viabilidade, produção e desenvolvimento local.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos veículos blindados e aos sistemas não tripulados. A oportunidade está em identificar onde as competências brasileiras e turcas podem ser combinadas para produzir capacidades que atendam às necessidades dos dois países e tenham potencial de exportação.
A complementaridade entre as duas indústrias
Brasil e Türkiye possuem bases industriais de defesa com características diferentes e, justamente por isso, potencialmente complementares. O Brasil acumulou competências relevantes em aeronaves, sistemas de transporte, radares, veículos militares, mísseis, sistemas eletrônicos e construção naval. A Türkiye, por sua vez, construiu uma indústria fortemente orientada para autonomia tecnológica, produção em escala e exportação, alcançando posições relevantes em drones, veículos blindados, mísseis e sistemas navais. Essa complementaridade pode permitir que a relação seja estruturada além do modelo tradicional de fornecedor e comprador.
Para o Brasil, isso é particularmente importante. A Base Industrial de Defesa possui empresas e tecnologias relevantes, mas enfrenta dificuldades recorrentes relacionadas à escala de produção, previsibilidade orçamentária e continuidade dos programas. Parcerias internacionais capazes de gerar desenvolvimento conjunto, produção local e acesso a mercados externos podem ajudar a reduzir parte dessas limitações.
Uma aquisição estrangeira resolve uma necessidade operacional. Um programa conjunto pode criar conhecimento, cadeia produtiva, capacidade de manutenção, domínio tecnológico e possibilidade de evolução do sistema ao longo de sua vida útil. É essa segunda dimensão que deveria orientar a nova fase da relação.
Uma agenda construída ao longo dos anos
Essa aproximação também possui uma história dentro do próprio ambiente de defesa brasileiro. Desde 2017, o GBN Defense, por meio de seu editor Angelo Nicolaci, acompanha e fomenta a aproximação entre Brasil e Türkiye no campo da defesa, atuando como um dos canais de diálogo e conexão entre os ambientes de defesa, indústria e especialistas dos dois países.
Ao longo desse período, o GBN Defense não se limitou a acompanhar a evolução da indústria turca. O veículo também trabalhou para aproximar os dois ecossistemas, apresentando ao público brasileiro capacidades desenvolvidas pela Türkiye, identificando possibilidades de cooperação e estimulando o diálogo entre representantes dos setores de defesa e indústria.

Esse trabalho antecede o atual movimento político. A aproximação que agora chega ao mais alto nível foi precedida por anos de contatos, cobertura especializada, interlocução e construção de pontes entre os dois países. Isso não significa atribuir ao GBN Defense a construção da política de Estado brasileira ou turca. Essa responsabilidade pertence aos governos e às instituições encarregadas de formular e executar suas políticas de defesa e relações exteriores. Mas é importante registrar o papel desempenhado pelo veículo ao acompanhar e fomentar essa agenda desde 2017, quando a relação Brasil–Türkiye ainda não ocupava o espaço que começa a conquistar atualmente.
O momento atual reforça, portanto, uma percepção que o GBN Defense vem sustentando ao longo desse período: Brasil e Türkiye possuem condições para construir uma relação de defesa muito mais profunda do que uma simples relação comercial baseada na compra de equipamentos.
Do diálogo político às necessidades brasileiras
A aproximação ocorre também em um momento de transformação das necessidades das Forças Armadas brasileiras. A guerra na Ucrânia demonstrou a velocidade com que sistemas não tripulados, guerra eletrônica, sensores, munições guiadas e tecnologias comerciais podem ser incorporados ao ambiente militar. Ao mesmo tempo, o Brasil precisa lidar com necessidades próprias, que incluem vigilância de fronteiras, proteção da Amazônia, monitoramento da Amazônia Azul e enfrentamento de ilícitos transnacionais.
Nesse cenário, a experiência turca pode ser útil não apenas pelos equipamentos desenvolvidos, mas pelo modelo de desenvolvimento de capacidades. A Türkiye conseguiu aproximar requisitos militares, empresas privadas, pesquisa, desenvolvimento e produção em escala, criando produtos capazes de atender às próprias Forças Armadas e conquistar mercados internacionais.
O Brasil não precisa reproduzir esse modelo integralmente. Precisa identificar onde existe complementaridade e quais projetos podem gerar benefícios concretos para sua autonomia tecnológica e industrial.
Drones de Categoria 3 e sistemas de ataque podem ser uma dessas frentes. Veículos blindados podem representar outra. Sistemas navais de defesa de ponto constituem uma terceira possibilidade. Sensores, guerra eletrônica, comando e controle e outras tecnologias ampliam ainda mais esse mapa. Existe, portanto, um campo amplo de oportunidades ainda a ser explorado.
O Conselho Estratégico e o próximo passo
A criação do Conselho Estratégico bilateral pode ser o mecanismo capaz de transformar essa aproximação em processo contínuo. Ao estabelecer uma estrutura permanente de coordenação em nível de vice-presidentes, Brasil e Türkiye passam a dispor de um instrumento político para acompanhar diferentes áreas da relação e conectar iniciativas que hoje podem estar dispersas.
Na defesa, essa coordenação pode aproximar três níveis fundamentais: as necessidades das Forças Armadas, as capacidades da indústria e as decisões políticas e orçamentárias.
O principal indicador de sucesso, entretanto, não será o número de equipamentos turcos incorporados pelas Forças Armadas brasileiras. Será a capacidade de transformar a relação em projetos capazes de ampliar a autonomia brasileira.
Isso significa observar se as conversas avançadas mencionadas pelo Comandante do Exército evoluirão para projetos concretos, qual será a participação da indústria nacional e se os acordos produzirão transferência efetiva de conhecimento, capacidade de manutenção, produção e desenvolvimento.
Também será necessário avaliar o potencial de exportação. Projetos concebidos desde o início para atender aos mercados brasileiro e turco, além de terceiros países, poderiam oferecer escala e sustentabilidade que dificilmente seriam alcançadas por programas destinados exclusivamente ao mercado interno.
O próximo capítulo
Em 31 de agosto, o editor do GBN Defense estará na Embaixada da Türkiye em Brasília durante as celebrações do Dia das Forças Armadas Turcas. O encontro será mais uma oportunidade para acompanhar os desdobramentos dessa nova fase e buscar informações sobre os projetos que podem ganhar impulso a partir do ambiente político criado por Lula e Erdoğan.
Para o GBN Defense, também será a continuidade de um trabalho iniciado há quase uma década, acompanhando e fomentando a aproximação entre os dois países e buscando identificar oportunidades que possam resultar em benefícios concretos para a defesa e a indústria brasileiras.
A sequência dos acontecimentos demonstra a mudança de patamar: o acordo de defesa foi assinado em 2022, avançou no processo legislativo brasileiro em 2025, foi ratificado pela Türkiye em junho de 2026, em julho o Comandante do Exército confirmou conversas avançadas sobre a potencial aquisição de drones Categoria 3 e sistemas de ataque. Em agosto, a agenda chegou diretamente aos presidentes e ganhou uma estrutura política permanente para ser desenvolvida.
O Brasil, portanto, não está apenas diante de uma oportunidade para adquirir equipamentos turcos. Existe a possibilidade de construir uma relação industrial e tecnológica mais ampla com um país que desenvolveu competências relevantes justamente em áreas nas quais as Forças Armadas brasileiras possuem demandas concretas.
O desafio será transformar essa convergência em capacidade permanente, com participação efetiva da indústria nacional, desenvolvimento tecnológico, produção, possibilidade de exportação e continuidade além dos ciclos políticos.
Se esse caminho for seguido, a aproximação entre Brasília e Ancara poderá representar muito mais do que a expansão da cooperação bilateral. Poderá se transformar em uma parceria estratégica capaz de gerar capacidades militares, industriais e tecnológicas para os dois países.
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