quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Minerais críticos: a nova frente da disputa entre EUA e China coloca o Brasil no centro do tabuleiro

 

A disputa estratégica entre Estados Unidos e China entrou em uma fase na qual comércio, tecnologia, energia e segurança nacional passaram a operar cada vez mais dentro do mesmo espaço. Se as tarifas e restrições comerciais marcaram o início da guerra comercial, o controle das cadeias de minerais críticos passou a representar uma dimensão ainda mais sensível dessa competição, porque esses recursos deixaram de ser tratados apenas como commodities e passaram a ser considerados componentes estratégicos da capacidade industrial e militar das grandes potências.

A mudança é importante porque os minerais críticos estão presentes em praticamente todas as áreas que definem o poder tecnológico contemporâneo. Baterias, semicondutores, motores elétricos, sistemas de comunicação, equipamentos de geração de energia, aeronaves, satélites, radares, sistemas de orientação e diferentes tecnologias militares dependem de materiais cuja produção, processamento ou refino está concentrada em poucos países.

Nesse cenário, a China construiu uma vantagem que vai muito além da quantidade de minério extraída de seu território. O verdadeiro diferencial chinês está no domínio das etapas intermediárias e finais da cadeia produtiva, especialmente no processamento químico, no refino e na fabricação de materiais utilizados pela indústria de alta tecnologia. Dados compilados pela Agência Nacional de Mineração a partir de informações da Agência Internacional de Energia indicam que a China responde, em média, por cerca de 70% da capacidade mundial de refino de minerais críticos. No caso das terras raras, sua participação chega a aproximadamente 85% a 90% do refino global e cerca de 90% da produção de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, componentes fundamentais para motores e sistemas de alta eficiência. É justamente essa concentração que transformou minerais críticos em instrumentos de poder geopolítico.

A China transformou recursos em capacidade estratégica

A experiência chinesa demonstra que possuir reservas minerais é apenas uma parte da equação. O poder está na capacidade de transformar a matéria-prima em insumos industriais e, posteriormente, em produtos tecnológicos.

Essa diferença ajuda a explicar por que Pequim ocupa uma posição tão relevante mesmo quando não domina necessariamente a mineração de todos os minerais considerados estratégicos. O país construiu, ao longo de décadas, uma cadeia integrada que começa na extração e avança pelo processamento, refino, produção de materiais e fabricação de componentes.

As terras raras são o exemplo mais evidente. Esses 17 elementos químicos possuem propriedades magnéticas, ópticas e elétricas que os tornam essenciais para uma ampla variedade de tecnologias, incluindo ímãs de alto desempenho, equipamentos eletrônicos, motores elétricos e sistemas militares. O próprio Ministério de Minas e Energia destaca sua importância para tecnologias avançadas, enquanto a ANM aponta aplicações em mísseis, drones, submarinos, caças, radares e sistemas de orientação de armas guiadas.

Isso significa que uma interrupção no fornecimento de determinado mineral pode produzir efeitos que ultrapassam a indústria civil e atingir diretamente a capacidade de produção militar de um país.

A China já demonstrou que está disposta a utilizar essa posição como instrumento de pressão. As restrições impostas nos últimos anos sobre materiais como gálio, germânio, grafite e antimônio, além dos controles ampliados sobre terras raras, revelaram que as cadeias minerais podem ser empregadas dentro da disputa econômica e diplomática.

Em 2026, esse processo continuou. Restrições chinesas sobre terras raras pesadas e outros materiais estratégicos permaneceram afetando cadeias industriais internacionais, enquanto empresas japonesas e de outros países continuaram enfrentando dificuldades decorrentes da dependência chinesa.

A mensagem estratégica é clara: quem controla uma etapa crítica da cadeia pode exercer influência sobre aqueles que dependem dela.

Washington tenta reconstruir uma cadeia fora da China

Os Estados Unidos compreenderam que reduzir a vulnerabilidade não significa apenas abrir novas minas. O desafio envolve reconstruir uma cadeia industrial capaz de produzir, processar, refinar e transformar minerais críticos em componentes necessários à indústria americana.

Essa estratégia ganhou força durante as administrações Trump e Biden e permanece como uma das prioridades de Washington em 2026.

O movimento mais recente demonstra a dimensão do problema. Em agosto, o governo Trump anunciou cerca de US$ 3 bilhões em investimentos destinados a projetos de minerais críticos e componentes para baterias, com o objetivo declarado de fortalecer as cadeias de suprimentos ligadas à Defesa e reduzir a dependência de fornecedores chineses. O governo também anunciou a criação de um estoque estratégico de minerais avaliado em US$ 12 bilhões.

Poucos dias antes, Washington havia anunciado outros US$ 58 milhões em financiamento para projetos envolvendo grafite, tântalo, nióbio e boro. Um dos projetos busca desenvolver a primeira mina e unidade de processamento de grafite natural dos Estados Unidos, enquanto outro pretende ampliar a capacidade americana de processamento de tântalo e nióbio.

A política americana também passou a atingir a reciclagem. Em julho e agosto de 2026, Washington adotou medidas para restringir a exportação de resíduos ricos em minerais críticos, incluindo baterias usadas e sucata contendo tungstênio, buscando manter esses materiais dentro do país para alimentar uma cadeia doméstica de recuperação e processamento.

O movimento mostra que a disputa deixou de ser apenas uma guerra por jazidas, é uma disputa pelo controle de toda a cadeia de valor.

É nesse ponto que o Brasil muda de posição

Para o Brasil, essa transformação representa simultaneamente uma oportunidade econômica, uma questão de soberania e um desafio estratégico. O país não precisa construir artificialmente uma relevância mineral. Ela já existe.

Dados do Ministério de Minas e Energia indicam que o Brasil possui aproximadamente 66,6% das reservas mundiais de nióbio, respondendo por cerca de 92,9% da produção mundial considerada na base estatística utilizada pelo ministério. O país também aparece em posição relevante nas reservas mundiais de níquel, terras raras e grafita, além de possuir participação crescente na cadeia do lítio e reservas importantes de cobre.

No caso das terras raras, o potencial brasileiro ganha dimensão particularmente estratégica. O país possui a segunda maior reserva mundial estimada, atrás apenas da China, mas sua produção ainda representa uma fração pequena do mercado global. Em outras palavras, existe uma diferença expressiva entre o potencial geológico brasileiro e a capacidade efetivamente instalada para transformá-lo em produto de alto valor agregado. É justamente nessa diferença que está o principal desafio brasileiro.

O Brasil pode ser importante para a segurança mineral de Estados Unidos, Europa, Japão e outros países. Mas isso não significa automaticamente que será beneficiado na mesma proporção.

Se o país exportar predominantemente minério ou concentrado, enquanto o processamento químico, o refino e a fabricação dos componentes tecnológicos ocorrerem no exterior, a maior parte do valor estratégico continuará sendo capturada fora do território nacional. A oportunidade brasileira está, portanto, menos em vender mais minério e mais em subir na cadeia tecnológica.

O verdadeiro ativo brasileiro não está apenas no subsolo

A discussão sobre minerais críticos costuma começar pelas reservas, mas deveria terminar na indústria.

O Brasil possui uma vantagem que poucos países conseguem combinar: recursos minerais relevantes, matriz energética com elevada participação de fontes renováveis, mercado interno expressivo, infraestrutura industrial, universidades e centros de pesquisa, além de uma Base Industrial de Defesa capaz de absorver tecnologias e desenvolver aplicações de alta complexidade. Isso muda a natureza da oportunidade.

Uma política mineral estratégica não deveria ter como objetivo apenas aumentar a exportação de lítio, terras raras, grafita, níquel ou nióbio. O objetivo de longo prazo deveria ser criar condições para que esses recursos alimentem cadeias industriais brasileiras.

No caso das terras raras, por exemplo, o próprio debate técnico nacional aponta que o país precisa avançar da mineração para a separação e o refino e, posteriormente, dominar a fabricação de ímãs permanentes de alta potência.

Esse salto é justamente o que diferencia um país rico em recursos de um país capaz de transformar recursos em poder econômico e tecnológico.

A dimensão que interessa à Defesa

Existe ainda uma consequência que merece atenção especial. Minerais críticos não pertencem exclusivamente ao debate sobre transição energética, eles estão diretamente relacionados à capacidade de desenvolvimento de sistemas militares modernos.

Terras raras, por exemplo, podem ser utilizadas em sistemas de orientação, radares, drones, aeronaves e diferentes equipamentos eletrônicos. Grafita, níquel, lítio e outros materiais estão associados a baterias, armazenamento de energia e sistemas elétricos. Outros minerais são relevantes para ligas metálicas, sensores, motores, semicondutores e componentes utilizados na indústria aeroespacial. Isso significa que a segurança mineral começa a fazer parte da própria segurança nacional.

Um país pode possuir excelentes engenheiros, centros de pesquisa e empresas de Defesa, mas continuará vulnerável se depender integralmente de fornecedores externos para materiais essenciais à fabricação de seus sistemas. A soberania tecnológica, portanto, não começa no produto final, ela começa muito antes, na capacidade de garantir os insumos necessários para produzi-lo.

Para o Brasil, essa dimensão é particularmente importante porque o país mantém programas estratégicos de longo prazo em áreas como aviação, sistemas de monitoramento, radares, mísseis, veículos militares, submarinos e tecnologias espaciais. Quanto maior for a capacidade nacional de dominar as cadeias de materiais utilizadas nesses sistemas, maior será a liberdade de decisão da indústria e do Estado.

Brasil entre Washington e Pequim

É nesse ponto que a posição brasileira ganha uma dimensão geopolítica. Estados Unidos e China possuem interesses distintos no Brasil, mas ambos reconhecem o valor estratégico de suas cadeias minerais.

Washington busca diversificar fornecedores para reduzir sua dependência da China. Enquanto Pequim possui interesse em preservar sua influência sobre as cadeias globais de minerais críticos e, ao mesmo tempo, manter acesso seguro a recursos, mercados e oportunidades de investimento.

O Brasil está exatamente na interseção dessas duas forças. Isso não significa que Brasília precise escolher entre Washington e Pequim, pelo contrário, a posição brasileira pode ser mais sofisticada: utilizar a competição internacional para atrair investimentos, ampliar mercados, desenvolver tecnologia e exigir maior agregação de valor dentro do território nacional.

A própria Agência Nacional de Mineração reconhece que o interesse de Estados Unidos, China e União Europeia pelos minerais brasileiros deve ser compreendido dentro de uma lógica de diversificação das cadeias de suprimento, redução de dependências e segurança energética e tecnológica. A agência também ressalta que os recursos minerais pertencem à União e que sua exploração está submetida à legislação brasileira. Isso oferece ao Brasil uma margem de manobra que precisa ser utilizada com planejamento.

A Amazônia acrescenta outra camada à equação

A discussão também alcança diretamente a Amazônia. Um estudo publicado pela ANM em julho de 2026 mostrou que a Amazônia Legal responde por quase metade do valor gerado pelos minerais estratégicos brasileiros. Ao mesmo tempo, a região ainda concentra sua atividade principalmente em ferro, bauxita, cobre e ouro, enquanto minerais como terras raras e cobalto ainda não possuem produção consolidada na região, e isso coloca uma questão particularmente delicada.

A expansão da mineração de minerais críticos na Amazônia pode representar uma oportunidade econômica e tecnológica, mas também envolve desafios ambientais, logísticos, regulatórios e de segurança.

A exploração desses recursos não pode repetir simplesmente o modelo de exportação de commodities minerais sem desenvolvimento das cadeias industriais.

O desafio é construir uma mineração capaz de combinar segurança ambiental, controle estatal, tecnologia, infraestrutura, agregação de valor e soberania. É uma equação difícil, mas justamente por isso ela precisa fazer parte da estratégia nacional.

O risco de uma nova dependência

Existe uma contradição que o Brasil precisa evitar. A tentativa americana de reduzir sua dependência da China pode criar novas oportunidades para países fornecedores. Mas, se o Brasil simplesmente substituir um comprador por outro, sem desenvolver sua própria capacidade industrial, continuará ocupando uma posição vulnerável. A dependência pode apenas mudar de destino.

Hoje, grande parte do valor agregado de determinadas cadeias minerais está concentrada em países que dominam processamento e tecnologia. Se o Brasil passar a fornecer mais matéria-prima para novas cadeias lideradas por Estados Unidos, China ou qualquer outro parceiro, mas permanecer distante das etapas tecnológicas mais sofisticadas, continuará distante do centro de decisão.

O objetivo deveria ser outro, não transformar o Brasil no novo fornecedor estratégico de uma potência, mas transformar o Brasil em um participante indispensável da cadeia global, essa diferença é fundamental.

A disputa também é uma oportunidade industrial

A janela que se abre diante do Brasil não está restrita à mineração. Ela envolve química, metalurgia, engenharia, máquinas, energia, logística, pesquisa, automação, reciclagem e manufatura avançada. É nesse ponto que a política de minerais críticos pode se conectar à política industrial brasileira.

O país pode utilizar sua disponibilidade de recursos para atrair projetos de processamento e transformação, mas deve buscar contrapartidas capazes de gerar conhecimento, empregos qualificados, desenvolvimento tecnológico e capacidade industrial permanente.

O mesmo vale para investimentos estrangeiros. Capital externo pode ser importante para acelerar projetos que exigem investimentos elevados e tecnologias específicas. Mas a questão estratégica não deveria ser apenas quanto dinheiro entra no país.

A pergunta deveria ser: quanto conhecimento permanece no Brasil depois que o investimento é realizado? Essa é uma diferença decisiva entre receber capital e construir capacidade nacional. 

A guerra comercial pode transformar o mapa mineral mundial

A competição entre Estados Unidos e China tende a produzir uma reorganização das cadeias globais. Empresas buscarão fornecedores alternativos. Governos oferecerão incentivos para projetos considerados estratégicos. Países produtores tentarão aumentar sua capacidade de processamento. E investimentos que antes seriam avaliados apenas pelo retorno econômico passarão a ser considerados também sob a ótica da segurança nacional.

Os Estados Unidos já estão fazendo isso de forma explícita, enquanto a China, por sua vez, continua utilizando sua posição nas cadeias de processamento e fabricação como instrumento de influência. E outros países estão entrando na disputa. Nesse ambiente, o Brasil não é periférico. Sua posição geológica, econômica e geopolítica o coloca entre os países capazes de contribuir para a diversificação das cadeias globais de minerais críticos. Mas potencial não é poder, poder é capacidade organizada.

O Brasil precisa decidir o que pretende ser

O debate sobre minerais críticos coloca diante do Brasil uma escolha que vai muito além da mineração. O país pode continuar sendo reconhecido principalmente pela dimensão de suas reservas e pela capacidade de exportar commodities, ou pode utilizar a atual reorganização das cadeias globais para construir uma posição mais sofisticada, na qual seus recursos naturais estejam conectados à indústria, à ciência, à tecnologia e à Defesa. Essa segunda opção exige planejamento de longo prazo.

Será necessário ampliar investimentos em pesquisa mineral, processamento, refino, infraestrutura, formação de mão de obra especializada, inovação e reciclagem. Também será necessário criar mecanismos que reduzam os riscos para investidores sem abrir mão do interesse estratégico nacional.

E existe uma questão ainda maior: a necessidade de integrar a política mineral à política industrial, energética, tecnológica e de Defesa. Se essas áreas continuarem sendo tratadas separadamente, o Brasil poderá perder parte significativa da oportunidade, se forem integradas, o país poderá transformar uma vantagem geológica em uma vantagem estratégica.

O novo tabuleiro

A guerra comercial entre Estados Unidos e China começou com tarifas, passou pelo controle tecnológico e agora alcança uma dimensão ainda mais profunda: quem terá acesso aos recursos necessários para sustentar a próxima geração de tecnologias?

Nesse novo cenário, minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão de mineração, são parte da infraestrutura invisível do poder.

A China construiu sua vantagem dominando não apenas recursos, mas principalmente o processamento e a transformação industrial. Os Estados Unidos agora tentam reconstruir suas próprias cadeias, investindo em mineração, processamento, reciclagem e estoques estratégicos.

O Brasil chega a essa disputa com uma condição que poucos países possuem: recursos estratégicos relevantes e capacidade para desenvolver uma cadeia industrial própria, mas essa vantagem não será permanente.

Outros países também estão buscando novas reservas, novas tecnologias e novas cadeias de fornecimento. A janela de oportunidade aberta pela disputa entre Washington e Pequim poderá permanecer aberta por anos, mas não indefinidamente.

O desafio brasileiro, portanto, não é escolher entre Estados Unidos e China, é escolher o que pretende fazer com a posição que possui.

Se o país transformar seus minerais críticos em processamento, tecnologia, indústria e capacidade de Defesa, poderá ocupar uma posição muito mais relevante na nova economia estratégica mundial.

Se continuar concentrado na exportação de matéria-prima, outros países continuarão transformando recursos brasileiros em produtos de maior valor, enquanto as decisões estratégicas permanecerão fora de suas fronteiras.

A disputa entre Washington e Pequim está redesenhando as cadeias globais de minerais críticos. Para o Brasil, essa disputa pode representar uma ameaça de dependência renovada, mas também pode representar uma das maiores oportunidades industriais e estratégicas das próximas décadas. A diferença entre uma coisa e outra estará na capacidade brasileira de transformar riqueza mineral em poder nacional.


Por Angelo Nicolaci


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