quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Avibras Aeroco e Exército avançam na certificação do Míssil Tático de Cruzeiro

A capacidade brasileira de desenvolver e produzir mísseis de longo alcance avançou mais uma etapa nesta quarta-feira (26), com a realização do novo ensaio do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC), desenvolvido pela Avibras Aeroco em parceria com o Exército Brasileiro. O lançamento ocorreu no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), na Restinga da Marambaia no Rio de Janeiro, dentro do processo de certificação do sistema.

Segundo a Avibras Aeroco, os objetivos estabelecidos para o ensaio foram integralmente atingidos. A atividade reuniu equipes da empresa e do Exército e envolveu diferentes organizações responsáveis pelo desenvolvimento, avaliação e condução dos programas estratégicos da Força, entre elas o Escritório de Projetos do Exército (EPEx), a Diretoria de Fabricação (DF), o Instituto Militar de Engenharia (IME), o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e o próprio CAEx.

O resultado representa mais do que uma nova demonstração do MTC. O ensaio faz parte de uma sequência destinada a avaliar e certificar o sistema antes de sua transformação em capacidade operacional, colocando novamente em evidência uma competência tecnológica que o Brasil levou décadas para desenvolver.

O MTC amplia as capacidades do ASTROS

Integrado ao Sistema de Artilharia ASTROS, o MTC possui alcance declarado de até 300 quilômetros e acrescenta ao sistema uma capacidade de ataque de precisão em profundidade que vai além do emprego tradicional de foguetes de artilharia.

A combinação entre alcance, precisão e mobilidade é um dos principais elementos dessa capacidade. O ASTROS permite que seus meios sejam deslocados, empregados e reposicionados, reduzindo o tempo de exposição das unidades lançadoras. Com o MTC, essa característica passa a estar associada à possibilidade de produzir efeitos a centenas de quilômetros de distância.

A relevância desse conceito aumentou diante da transformação observada nos conflitos recentes. O emprego intensivo de drones, sensores e sistemas de reconhecimento tornou o campo de batalha mais transparente e reduziu a margem para unidades de artilharia permanecerem por períodos prolongados em posições conhecidas.

A experiência da guerra na Ucrânia mostrou que alcance e poder de fogo precisam estar associados à mobilidade, dispersão, aquisição de alvos, consciência situacional e capacidade de operar dentro de uma rede de comando e controle. Nesse contexto, o MTC amplia as opções disponíveis ao Exército, permitindo que uma plataforma terrestre móvel seja empregada para produzir efeitos em maior profundidade.

Seu potencial, portanto, não está apenas no alcance da munição, mas na possibilidade de integrá-la a uma arquitetura de reconhecimento e ataque capaz de conectar sensores, inteligência e sistemas de armas.

O ensaio é parte de um processo maior

É importante diferenciar o sucesso de um ensaio da existência de uma capacidade operacional plenamente disponível. O lançamento realizado na Restinga da Marambaia representa uma etapa bem-sucedida, mas o MTC ainda precisa concluir o processo de certificação e cumprir as demais fases necessárias para sua adoção e produção.

Essa etapa é particularmente importante porque um sistema dessa complexidade exige competências que vão muito além da fabricação do míssil. Propulsão, navegação, controle, eletrônica, integração, instrumentação e avaliação fazem parte de uma cadeia tecnológica que precisa ser mantida ao longo de todo o ciclo de vida do sistema.

A participação conjunta das estruturas técnicas do Exército e da indústria permite justamente acumular conhecimento durante os ensaios e transformar os resultados obtidos em aperfeiçoamentos para o sistema. Esse processo também fortalece a capacidade nacional de desenvolver, testar e certificar tecnologias de defesa de maior complexidade.

Para o Brasil, essa competência possui valor estratégico próprio. Poucos países conseguem dominar integralmente as etapas necessárias para desenvolver e colocar em serviço um míssil de cruzeiro, e a perda desse conhecimento exigiria tempo e investimentos consideráveis para ser reconstruída.

A retomada da Avibras ganha importância

A evolução do MTC ocorre ainda durante um momento decisivo para a Avibras Aeroco, que busca consolidar a retomada de suas atividades depois de atravessar um dos períodos mais difíceis de sua história.

Em junho deste ano, a empresa anunciou a retomada da produção industrial e a preparação de novos projetos no segmento de mísseis. A continuidade do MTC, nesse contexto, representa uma oportunidade para recuperar não apenas linhas de produção, mas também competências técnicas e industriais acumuladas ao longo de décadas.

Esse aspecto é especialmente relevante porque uma empresa estratégica de defesa não pode ser avaliada apenas por sua capacidade instalada. Parte considerável de seu patrimônio está no conhecimento de seus profissionais, nos processos industriais, na rede de fornecedores e na experiência adquirida durante o desenvolvimento e a avaliação de sistemas complexos.

A crise enfrentada pela antiga Avibras colocou justamente esse patrimônio em risco. A retomada do programa do MTC demonstra que parte dessa capacidade permanece disponível e pode voltar a ser empregada em projetos de interesse direto do Estado brasileiro.

O desafio agora é garantir continuidade

O principal risco para o programa não está mais apenas na capacidade tecnológica de desenvolver o MTC, mas na possibilidade de interromper o ciclo antes que o sistema se transforme em uma capacidade militar sustentável.

O Brasil possui histórico de programas que alcançaram resultados tecnológicos relevantes, mas enfrentaram dificuldades para avançar para produção continuada, aquisição em escala e evolução das versões posteriores. Para o MTC, a conclusão da certificação precisa ser acompanhada por uma estratégia capaz de garantir produção, manutenção, treinamento e desenvolvimento de novas gerações. Essa continuidade também será necessária para que o míssil acompanhe a evolução do próprio campo de batalha.

Um sistema de longo alcance terá seu potencial ampliado quando estiver integrado a drones, sensores, inteligência, guerra eletrônica e sistemas de comando e controle capazes de fornecer informações precisas para o emprego da arma. O desenvolvimento do MTC, portanto, precisa caminhar junto com a evolução da arquitetura de combate do ASTROS e das capacidades de aquisição de alvos do Exército.

A questão é particularmente importante porque o valor estratégico de uma arma de longo alcance não está somente na capacidade de atingir determinado alcance. Ele depende da existência de uma cadeia operacional capaz de detectar, identificar, priorizar e transmitir informações sobre alvos com velocidade e precisão suficientes para que o sistema de armas possa produzir o efeito desejado.

Leitura estratégica

O novo ensaio do MTC ocorre em um momento no qual as principais forças militares vêm ampliando suas capacidades de ataque em profundidade e investindo na integração entre sensores, sistemas não tripulados, inteligência e armas de precisão. Para o Brasil, manter essa competência significa preservar uma opção estratégica que dificilmente poderia ser obtida rapidamente caso fosse perdida.

A evolução do programa também precisa ser considerada dentro da recuperação da própria Avibras Aeroco. A empresa concentra conhecimentos que ultrapassam o MTC e que podem sustentar futuras gerações de mísseis e outros sistemas de armas. Por isso, a continuidade dos projetos estratégicos deve ser entendida como parte da política de preservação da Base Industrial de Defesa, e não apenas como uma questão contratual entre empresa e Força.

O ensaio de 26 de agosto mostra que o programa continua avançando, mas seu resultado mais importante ainda está por vir. Será necessário concluir a certificação, transformar o MTC em sistema operacional, garantir produção e assegurar que a indústria tenha condições de evoluir a tecnologia.

O Brasil já demonstrou que possui conhecimento para desenvolver um míssil de cruzeiro de longo alcance. O desafio agora é garantir que esse conhecimento se transforme em capacidade militar permanente e que a indústria responsável por desenvolvê-la tenha condições de continuar produzindo e evoluindo essa tecnologia nas próximas décadas.


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