segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Navios SIGINT: Alemanha avança enquanto Brasil ainda não possui plataforma dedicada

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A Alemanha decidiu ampliar sua capacidade de inteligência marítima com a encomenda de um quarto navio especializado em inteligência de sinais, reforçando uma área que ganhou importância crescente nas operações militares contemporâneas. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (14) pelo ministro da Defesa, Boris Pistorius, durante a cerimônia de lançamento da quilha do terceiro navio da nova classe em Wolgast, no nordeste do país. A proposta orçamentária deverá seguir para aprovação do Parlamento.

Os navios pertencem à nova Classe 424, desenvolvida para substituir os atuais meios de inteligência da Classe 423 Oste, em serviço desde o final dos anos 1980. A primeira unidade da nova geração deverá ser entregue à Deutsche Marine a partir de 2029, dentro de um programa voltado a adaptar a inteligência naval alemã a um ambiente marcado pela expansão da guerra eletrônica, dos sistemas não tripulados e das operações multidomínio.

A função de uma plataforma SIGINT vai muito além da interceptação de comunicações. Seus sensores podem identificar, classificar, localizar e analisar emissões eletromagnéticas produzidas por radares, sistemas de comunicação, enlaces de dados e outros equipamentos eletrônicos. A correlação dessas informações permite construir padrões de atividade e produzir conhecimento sobre forças militares, sensores, procedimentos e movimentações de potenciais adversários.

É esse conjunto de capacidades que explica a definição empregada por Pistorius ao afirmar que essas embarcações são capazes de “ouvir e ver” aquilo que outros meios não conseguem perceber. Em termos militares, o objetivo é transformar o espectro eletromagnético em uma fonte permanente de inteligência, permitindo compreender o ambiente operacional antes que uma ameaça necessariamente se manifeste de forma convencional.

A nova geração alemã também demonstra que o conceito de inteligência naval está mudando. O processamento de grandes volumes de dados, o emprego de inteligência artificial e a integração com estruturas de comando e guerra eletrônica reduzem o intervalo entre a coleta de uma emissão e sua transformação em informação operacional. O navio deixa de ser apenas uma plataforma de escuta e passa a funcionar como um centro especializado de produção de inteligência embarcado.

Essa capacidade possui aplicações em diferentes níveis da guerra. A coleta de sinais pode contribuir para identificar unidades navais e aeronaves, mapear sensores e redes de comunicação, apoiar o planejamento de operações, alimentar sistemas de guerra eletrônica e ampliar a consciência situacional de uma força. Em um ambiente no qual radares, datalinks, sistemas de navegação e comunicações são fundamentais para o emprego de armas e sensores, conhecer o comportamento eletromagnético de um adversário pode revelar informações que não estão disponíveis por meios ópticos ou convencionais.

O Brasil possui conhecimento e estruturas relacionadas à guerra eletrônica e à inteligência de sinais, mas essa competência está distribuída entre diferentes meios e organizações. Uma plataforma dedicada permitiria concentrar sensores especializados, operadores, analistas e capacidade de processamento em um único vetor, com autonomia e persistência para atuar no ambiente marítimo.

Os ganhos potenciais seriam relevantes. Uma unidade dessa natureza poderia ampliar a consciência situacional no Atlântico Sul, construir bibliotecas nacionais de assinaturas eletromagnéticas, apoiar operações de guerra eletrônica, acompanhar áreas marítimas de interesse e produzir inteligência continuada em períodos de paz. Esse último aspecto é particularmente importante: o conhecimento estratégico é construído antes da crise, por meio da coleta sistemática e da comparação de padrões ao longo do tempo.

A capacidade teria aplicação direta sobre a Amazônia Azul, onde rotas comerciais, plataformas de petróleo e gás, portos, cabos submarinos e outras infraestruturas críticas concentram interesses econômicos e estratégicos. Conhecer esse ambiente exige acompanhar não apenas o tráfego físico, mas também as emissões e redes que sustentam as atividades militares e civis no mar.

Entretanto, existe um dilema que não pode ser ignorado. A Marinha do Brasil ainda enfrenta necessidades mais imediatas para recompor sua capacidade de combate. A continuidade do Programa de Fragatas Classe Tamandaré, o PROSUB, a manutenção e modernização dos meios existentes, a disponibilidade de munições, a aviação naval, os navios-patrulha e a renovação da Esquadra disputam um orçamento limitado.

Classe 423 alemã da década de 1980, que deverá ser substituída, 

Nesse contexto, uma plataforma SIGINT não pode ser tratada como concorrente de fragatas, submarinos ou meios de patrulha. Seu valor está em aumentar a qualidade da informação disponível para essas plataformas. A discussão, portanto, precisa ser inserida em uma arquitetura naval de longo prazo, estabelecendo requisitos e avaliando diferentes soluções, inclusive plataformas dedicadas, conversões ou uma combinação de sensores distribuídos.

O desafio brasileiro vai além da limitação financeira. Projetos de Defesa dependem de ciclos longos de desenvolvimento, construção, treinamento e manutenção, enquanto decisões orçamentárias de curto prazo frequentemente interrompem ou retardam programas estratégicos. Para uma Marinha que precisa planejar sua força em horizontes de décadas, a falta de previsibilidade encarece projetos e dificulta a incorporação contínua de novas tecnologias.

A renovação da Esquadra, portanto, não pode significar apenas substituir cascos antigos. É necessário incorporar capacidades compatíveis com a guerra contemporânea, incluindo guerra eletrônica, inteligência de sinais (SIGINT), sistemas não tripulados, sensores distribuídos, defesa antidrone, ciberdefesa e redes de dados. Uma força numericamente renovada, mas tecnologicamente defasada, continuará vulnerável às características das ameaças modernas.

A decisão alemã evidencia uma diferença de abordagem. Berlim está transformando uma necessidade de inteligência em capacidade material, garantindo a continuidade de uma competência considerada estratégica para o ambiente de segurança das próximas décadas. No Brasil, a ausência de uma plataforma naval especificamente dedicada à inteligência de sinais permanece como uma lacuna dentro da arquitetura de vigilância e conhecimento da Esquadra.

Isso não significa que essa capacidade deva ultrapassar necessidades mais urgentes. Significa que ela precisa entrar no planejamento da força. O requisito deve ser definido, alternativas estudadas e uma eventual solução incorporada ao ciclo de renovação naval, evitando que uma capacidade estratégica seja novamente deixada para depois em razão da sucessão de emergências orçamentárias.

O problema é que essa visão exige justamente aquilo que tem faltado à política de Defesa brasileira: planejamento continuado, prioridade estratégica e previsibilidade de recursos. Enquanto países ampliam investimentos para acompanhar a transformação tecnológica da guerra, o Brasil ainda precisa conciliar programas fundamentais da Esquadra com recursos limitados e sujeitos a oscilações. Sem uma decisão de Estado que assegure financiamento estável à renovação naval, novas capacidades tendem a permanecer no campo dos estudos enquanto a realidade operacional continua cobrando respostas.

A inteligência de sinais não é um luxo tecnológico. Diante do atual cenário de competição crescente no Atlântico Sul, saber quem está emitindo, de onde, como e com que padrão pode ser determinante para antecipar ameaças e orientar o emprego da força. A Alemanha está transformando essa premissa em capacidade operacional. Para o Brasil, o desafio agora é decidir se continuará tratando esse domínio como uma competência complementar ou se passará a reconhecê-lo como parte necessária de uma Marinha preparada para a guerra do século XXI.


por Angelo Nicolaci


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Fragata portuguesa e helicóptero Lynx lançam torpedos MK46 durante exercício REPMUS26

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A Marinha Portuguesa empregou a fragata NRP Bartolomeu Dias e o helicóptero Lynx embarcado em um exercício de lançamento de torpedos durante o REPMUS26. A atividade colocou em prática procedimentos de guerra antissubmarino com o emprego de duas plataformas distintas, em um cenário voltado ao treinamento operacional.

Foram realizados dois lançamentos de torpedos MK46. Um armamento foi disparado a partir da própria fragata, enquanto o segundo foi lançado pelo Lynx, permitindo às tripulações exercitar diferentes modalidades de emprego de uma mesma arma contra ameaças submarinas.

O helicóptero amplia a área de atuação de uma fragata nesse tipo de missão. Por operar a maior distância do navio e possuir sensores próprios, a aeronave pode investigar contatos e realizar buscas em setores específicos do oceano, reduzindo o tempo necessário para reagir diante de uma possível presença submarina.

Essa característica é particularmente importante na guerra antissubmarino, na qual a detecção constitui apenas o início do processo. Identificar corretamente um contato, determinar sua posição e acompanhar sua movimentação são etapas essenciais antes de estabelecer uma solução de tiro.

O MK46 é um torpedo leve desenvolvido para emprego antissubmarino a partir de navios e aeronaves. Sua utilização por diferentes plataformas permite explorar posições de ataque distintas, uma característica importante para aumentar as opções disponíveis diante de um submarino em movimento.

A capacidade de operar aeronaves embarcadas constitui, nesse contexto, um dos elementos relevantes da configuração das fragatas. O Lynx funciona como uma extensão da capacidade de busca da unidade de superfície, podendo deslocar-se rapidamente para áreas onde seja necessário investigar ou acompanhar uma ameaça.

O NRP Bartolomeu Dias pertence à classe de mesmo nome, baseada no projeto das fragatas da classe Karel Doorman, originalmente desenvolvidas para a Marinha dos Países Baixos. As unidades portuguesas foram adquiridas no início dos anos 2000 e permanecem como parte importante da capacidade oceânica da Marinha Portuguesa.

O REPMUS26 acrescenta uma dimensão adicional ao treinamento ao reunir atividades relacionadas à experimentação e ao emprego de sistemas não tripulados. O exercício cria um ambiente no qual plataformas convencionais podem ser empregadas ao lado de novas tecnologias destinadas à vigilância, reconhecimento e coleta de informações no espaço marítimo.

Para a guerra antissubmarino, esse tipo de treinamento é especialmente relevante porque o ambiente submarino permanece marcado por elevada dificuldade de detecção. Ruído, profundidade, temperatura da água e características do fundo marítimo podem alterar significativamente o desempenho dos sensores e dificultar a localização de um contato.

A atividade realizada pela Marinha Portuguesa demonstra, portanto, uma competência que depende tanto de sensores e armamentos quanto da proficiência das tripulações. O lançamento do torpedo representa apenas a etapa final de um processo que envolve busca, classificação, acompanhamento e decisão de emprego.

A manutenção dessa capacidade ganha importância diante do retorno da guerra antissubmarino ao centro das preocupações navais. Submarinos modernos combinam discrição, autonomia e capacidade de ataque a longa distância, tornando a disponibilidade de meios especializados para sua detecção e neutralização um requisito permanente para forças que operam no ambiente marítimo.

Durante o REPMUS26, o emprego do NRP Bartolomeu Dias e do Lynx com torpedos MK46 proporcionou justamente a oportunidade de manter essas competências em condições de treinamento próximas às exigências de uma operação real, preservando a capacidade portuguesa de atuar no combate às ameaças submarinas.


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Drone russo atinge trem após passagem de autoridades da OTAN e eleva tensão

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Um ataque realizado por um drone russo contra um trem de passageiros próximo à fronteira entre Ucrânia e Polônia elevou novamente o nível de tensão no flanco oriental da OTAN. O episódio ocorreu no domingo, quando um drone atingiu uma composição ferroviária em território ucraniano, nas proximidades da fronteira com a Polônia, país integrante da Aliança Atlântica. O ataque aconteceu pouco depois da passagem do trem diplomático que transportava o ex-primeiro-ministro britânico Boris Johnson e outros representantes europeus.

O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, classificou o episódio como uma escalada calculada atribuída ao presidente russo Vladimir Putin, com o objetivo de provocar medo na Europa. Segundo Pistorius, a resposta ocidental deve combinar contenção e capacidade de reação, evitando uma resposta impulsiva sem transmitir a Moscou qualquer dúvida sobre a disposição europeia de se defender diante de uma eventual ampliação do conflito.

A proximidade do ataque com uma rota utilizada por autoridades estrangeiras acrescenta uma dimensão política ao episódio. Ainda não há confirmação pública de que o trem diplomático tenha sido o alvo pretendido, mas a sequência temporal levou autoridades europeias a considerar o ataque dentro de uma estratégia mais ampla de intimidação. O ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, afirmou que a ação buscava intimidar e dividir os europeus.

O episódio ocorre em meio à ampliação dos ataques russos contra infraestrutura localizada no oeste da Ucrânia. No dia anterior, um caminhão foi atingido próximo ao ponto de passagem de Dorohusk-Yahodyn, a cerca de 800 metros da fronteira polonesa, interrompendo temporariamente as operações do posto. Moscou afirmou que o alvo estava relacionado à infraestrutura utilizada para movimentar cargas militares provenientes da Europa.

A sequência de ataques indica uma mudança relevante na geometria da campanha russa. Em vez de concentrar os efeitos dos ataques de longo alcance exclusivamente nas áreas mais próximas da frente, Moscou vem pressionando corredores logísticos que conectam a Ucrânia aos seus apoiadores europeus. Ferrovias, postos de fronteira e outras estruturas de transporte tornam-se, nesse contexto, elementos diretamente relacionados à sustentação do esforço de guerra ucraniano.

O emprego de drones acrescenta outra vantagem operacional a essa estratégia. Sistemas não tripulados permitem realizar ataques de longo alcance com menor custo e podem ser empregados em grande quantidade, obrigando o adversário a manter redes de detecção e defesa aérea permanentemente mobilizadas. A questão deixa de ser apenas interceptar uma aeronave individual e passa a envolver a capacidade de proteger simultaneamente grandes extensões de infraestrutura crítica.

Esse problema é especialmente sensível para países do flanco oriental da OTAN. A fronteira polonesa funciona como um dos principais corredores terrestres para a entrada de equipamentos e outros suprimentos destinados à Ucrânia. Qualquer aumento da frequência de ataques nas proximidades desses eixos amplia a necessidade de vigilância, defesa antidrone e coordenação entre forças militares e autoridades civis.

A Polônia já vinha alertando para esse risco. Em 10 de setembro, o primeiro-ministro Donald Tusk afirmou que Varsóvia esperava possíveis ataques russos contra pontos de passagem na fronteira com a Ucrânia e disse ter recebido informações de inteligência indicando a necessidade de preparação para diferentes cenários no flanco oriental europeu.

A descoberta, nesta segunda-feira (14), de um suposto drone militar russo próximo à costa do Mar Báltico, anunciada pelo ministro da Defesa polonês Władysław Kosiniak-Kamysz, acrescentou outro elemento à preocupação de Varsóvia. As autoridades ainda não haviam divulgado detalhes suficientes para determinar a missão do equipamento ou as circunstâncias pelas quais ele chegou àquela área.

A resposta da OTAN também tende a ser influenciada pela necessidade de separar incidentes deliberados de transbordamentos decorrentes das operações russas contra a Ucrânia. Essa distinção é fundamental porque um ataque intencional contra território de um membro da Aliança teria implicações muito diferentes de um incidente ocorrido dentro da Ucrânia, ainda que nas proximidades de uma fronteira da OTAN.

O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, afirmou que o ataque não deverá reduzir o apoio ocidental à Ucrânia e defendeu o reforço da assistência a Kiev. A declaração evidencia que, pelo menos no discurso político atual, Moscou não conseguiu transformar a proximidade dos ataques com território aliado em um instrumento capaz de interromper a sustentação europeia ao esforço ucraniano.

Do ponto de vista militar, entretanto, a evolução desses ataques coloca uma questão mais concreta: até onde a defesa aérea europeia consegue proteger simultaneamente centros urbanos, instalações militares, ferrovias, rodovias, depósitos e passagens de fronteira contra ataques de drones de baixo custo?

A resposta exige uma arquitetura em camadas. Sistemas de vigilância precisam detectar alvos de pequena assinatura a distâncias suficientes para permitir uma reação, enquanto guerra eletrônica, armas de curto alcance, mísseis e aeronaves de combate precisam ser empregados de maneira coordenada. A crescente disponibilidade de drones também torna economicamente inviável depender exclusivamente de interceptadores de alto custo contra cada ameaça.

O conflito na Ucrânia transformou essa equação em um dos principais desafios da guerra contemporânea. A capacidade de produzir e lançar grandes volumes de drones permite ao atacante explorar saturação, dispersar esforços defensivos e pressionar o adversário a proteger uma quantidade cada vez maior de alvos. A defesa, por sua vez, precisa encontrar meios de reduzir o custo médio de cada engajamento sem comprometer a probabilidade de interceptação.

O ataque contra o trem próximo à fronteira polonesa deve ser observado dentro dessa evolução. Independentemente de a composição de passageiros ter sido ou não o alvo originalmente pretendido, o episódio demonstra como a infraestrutura civil e logística pode se transformar em instrumento de pressão estratégica quando está inserida no sistema que sustenta uma guerra de alta intensidade.

Para a Europa, o desafio deixa de ser apenas impedir que a guerra atravesse formalmente as fronteiras da OTAN. É também proteger uma infraestrutura extensa e interdependente enquanto preserva a capacidade de apoiar a Ucrânia sem permitir que ataques, ameaças ou operações de intimidação alterem a disposição política dos países aliados.

A guerra de drones, nesse sentido, já ultrapassou o campo de batalha convencional. Ela passou a disputar espaço com a logística, a infraestrutura crítica e a percepção de segurança das populações. O episódio na fronteira polonesa mostra que, na atual fase do conflito, a distância entre a linha de frente e o espaço estratégico europeu pode ser medida menos em quilômetros do que na capacidade de detectar, atribuir e neutralizar ameaças antes que elas produzam efeitos políticos e militares mais amplos.


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Brasil leva indústria de defesa à AAD 2026 em busca de espaço no mercado africano

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A indústria brasileira de defesa e segurança amplia sua presença internacional nesta semana com a participação na Africa Aerospace and Defence Expo 2026 (AAD), realizada entre 16 e 18 de setembro na Base Aérea de Waterkloof, em Tshwane, na África do Sul. O Espaço Brasil será coordenado pela Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), em parceria com a ApexBrasil, com apoio dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores.

Considerada a principal feira de tecnologias aeroespaciais e de defesa do continente africano, a AAD reúne governos, Forças Armadas, empresas e instituições dos setores de defesa, segurança, aviação, espaço, transporte e infraestrutura aeroportuária. A edição de 2026 adota como tema “The Future of Warfare”, colocando no centro das discussões a transformação tecnológica dos conflitos e das capacidades militares.

O Espaço Brasil contará com a participação de cinco empresas: Cinadra, CSA, IAS, M&K e XMobots. A presença reúne segmentos distintos da Base Industrial de Defesa, incluindo soluções relacionadas a sistemas terrestres, aeronaves e veículos aéreos não tripulados, ampliando o espectro de produtos brasileiros apresentados a potenciais clientes e parceiros estrangeiros.

A escolha do mercado africano possui uma dimensão que vai além da participação em uma feira internacional. A região reúne países com diferentes necessidades de defesa e segurança, desde vigilância territorial e proteção de fronteiras até controle de áreas marítimas, monitoramento de infraestrutura e emprego de sistemas não tripulados. Para a indústria brasileira, esse ambiente pode abrir oportunidades para produtos desenvolvidos para operar em condições semelhantes às encontradas em diferentes regiões do próprio Brasil.

A proximidade histórica e diplomática também constitui um ativo. O Brasil mantém relações com diversos países africanos, incluindo integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, além de uma relação geográfica direta com o continente pelo Atlântico Sul. Essa condição pode favorecer contatos institucionais e comerciais, especialmente em um setor no qual confiança, suporte logístico, treinamento e relacionamento de longo prazo possuem peso significativo na escolha de fornecedores.

A África do Sul ocupa posição particular nesse cenário. O país possui uma das estruturas industriais e tecnológicas de defesa mais desenvolvidas do continente e funciona como ponto de conexão com outros mercados africanos. A realização da AAD em Tshwane coloca fabricantes, forças militares e autoridades de diferentes países diante de uma mesma vitrine, criando oportunidades para identificar demandas e estabelecer contatos que dificilmente seriam alcançados apenas por iniciativas comerciais convencionais.

A programação da edição de 2026 inclui sistemas terrestres, aeronaves, VANTs, tecnologias espaciais, equipamentos aeroportuários, sistemas de navegação e controle de tráfego aéreo, armamentos, munições e sistemas de controle de combate. O espectro demonstra que a competição internacional não está restrita às grandes plataformas, mas envolve também sensores, sistemas eletrônicos, soluções não tripuladas e componentes especializados.

Nesse ambiente, a participação da XMobots merece atenção particular pelo avanço brasileiro no segmento de sistemas aéreos não tripulados. O mercado africano apresenta demandas relevantes para vigilância de grandes áreas, monitoramento de fronteiras e infraestrutura e obtenção de inteligência, missões nas quais sistemas de menor custo operacional podem oferecer vantagens frente ao emprego contínuo de aeronaves tripuladas.

A presença brasileira na AAD também está vinculada ao projeto Brazil Defense, desenvolvido conjuntamente pela ABIMDE e ApexBrasil, com participação dos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores. A iniciativa busca ampliar as exportações do setor por meio de promoção comercial, monitoramento de mercados, participação em feiras e aproximação entre empresas brasileiras e potenciais compradores internacionais.

O desafio, entretanto, não está apenas em colocar produtos brasileiros diante de compradores estrangeiros. A consolidação de mercados de defesa exige capacidade de suporte, treinamento, manutenção, disponibilidade de peças, financiamento e continuidade no relacionamento com o cliente. Para uma indústria que pretende ampliar suas exportações, transformar contatos obtidos em feiras em contratos sustentáveis é tão importante quanto conquistar visibilidade internacional.

A ABIMDE participa da Africa Aerospace and Defence desde 2012 e coordenou novamente o Pavilhão Brasil em 2024. Naquela edição, a feira reuniu 259 expositores de 30 países, 86 delegações oficiais e 22.970 visitantes, números que ajudam a dimensionar o ambiente comercial e institucional no qual as empresas brasileiras estão inseridas.

A participação de 2026 ocorre, portanto, em um mercado no qual o Brasil já possui relações diplomáticas, experiência de cooperação e produtos capazes de atender a determinadas demandas de defesa e segurança. A questão estratégica para a Base Industrial de Defesa é transformar essa proximidade em presença comercial permanente, ampliando a participação brasileira em cadeias internacionais e reduzindo a dependência de oportunidades pontuais.

Para o Brasil, o mercado africano também representa uma oportunidade de fortalecer sua posição no Atlântico Sul. A expansão das relações industriais e tecnológicas de defesa com países da região pode gerar benefícios comerciais, mas também ampliar a capacidade brasileira de construir redes de cooperação em uma área diretamente relacionada aos interesses estratégicos do país.

A AAD 2026 será, nesse sentido, mais do que uma vitrine para cinco empresas brasileiras. O desempenho da delegação e os contatos estabelecidos durante o evento servirão como indicador da capacidade da BID de transformar sua experiência tecnológica em presença internacional, especialmente em mercados nos quais custo, adaptação às condições locais, transferência de conhecimento e suporte de longo prazo podem ser tão determinantes quanto o desempenho do equipamento oferecido.


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Embraer promove evento em São José dos Campos voltado a pessoas com deficiência

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A Embraer realiza nesta quarta-feira (16), em São José dos Campos (SP), o evento Asas da Diversidade, iniciativa voltada à inclusão de pessoas com deficiência (PCDs) no mercado de trabalho e à aproximação desse público com o setor aeronáutico. O encontro será realizado das 14h30 às 20h, no hotel Novotel, com entrada gratuita.

A programação reúne atividades de orientação profissional, interação com equipes da empresa e experiências ligadas à aviação. Entre as atividades estão análise de currículos, entrevistas com recrutadores da Embraer, palestras e uma roda de conversa sobre inclusão de pessoas com deficiência no ambiente corporativo.

O evento também terá uma abordagem prática. Os participantes poderão utilizar um simulador que reproduz a experiência de pilotagem de uma aeronave comercial da Embraer e experimentar, por meio de óculos de realidade virtual, uma simulação de voo no eVTOL desenvolvido pela Eve, empresa dedicada ao desenvolvimento de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical.

A programação inclui ainda a participação do ator e criador de conteúdo Rafael Muller, que possui deficiência há mais de 20 anos e falará sobre sua trajetória, autonomia, representatividade e inserção profissional.

Além das atividades abertas ao público inscrito, o encontro contará com sorteios de brindes e de vagas para uma visita à sede da Embraer. Os participantes poderão acompanhar toda a programação ou apenas parte das atividades, de acordo com sua disponibilidade.

A iniciativa coloca a inclusão profissional dentro de um contexto mais amplo para a indústria aeroespacial brasileira. Empresas de alta complexidade tecnológica dependem de profissionais em diferentes áreas, desde engenharia e manufatura até administração, serviços, tecnologia e suporte, ampliando o espaço para diferentes perfis de formação e atuação.

Para a Embraer, o evento também funciona como uma aproximação direta entre potenciais profissionais e seus processos de recrutamento. A presença de representantes da área de talentos permite que os participantes conheçam oportunidades e apresentem seus currículos, enquanto as atividades práticas aproximam o público de tecnologias desenvolvidas pelo grupo.

O Asas da Diversidade será realizado no Novotel, na Avenida Dr. Nelson d'Ávila, 2.200, em São José dos Campos. As inscrições são gratuitas e destinadas a pessoas com deficiência interessadas em participar das atividades, basta clicar aqui.

A iniciativa ocorre em São José dos Campos, principal polo industrial e tecnológico associado à trajetória da Embraer, fundada em 1969 e atualmente presente nos mercados de aviação comercial, executiva, defesa e segurança e aviação agrícola.

Com mais de 9 mil aeronaves entregues desde sua criação, a empresa mantém operações industriais, centros de serviços, escritórios e estruturas de distribuição em diferentes regiões do mundo. O evento desta semana acrescenta uma dimensão de inclusão e formação profissional à relação da companhia com a comunidade na região onde está instalada sua principal base histórica.


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Fragata Tamandaré recebe certificação DNV SHOCK para resistência a choque

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A Fragata Tamandaré (F200), primeira unidade da nova classe de escoltas da Marinha do Brasil, recebeu a notação DNV SHOCK, voltada à resistência de equipamentos e sistemas às cargas de choque. O certificado foi entregue à TKMS durante a SMM em Hamburgo na Alemanha, e representa a primeira aplicação da notação a um projeto MEKO A100MB.

A F200 também se tornou o primeiro navio baseado em um projeto desenvolvido na Europa a receber a notação DNV SHOCK. A certificação foi concedida após a análise pela DNV de relatórios de testes e cálculos de choque referentes a uma seleção de equipamentos considerados essenciais para o funcionamento da plataforma.

A avaliação concentrou-se nos componentes cuja falha poderia provocar a perda de funções principais ou reduzir significativamente a segurança e a capacidade operacional do navio. O processo foi realizado conforme a norma DNV NAVAL Pt.3 Ch.1 e o TKMS Shock Standard, utilizado para qualificação de equipamentos e sistemas submetidos a cargas de choque.

Em uma plataforma de combate, a resistência a choque está diretamente relacionada à capacidade de manter funções essenciais após uma explosão ou outro evento capaz de gerar fortes cargas mecânicas. O objetivo não é apenas preservar a estrutura do navio, mas reduzir a possibilidade de que equipamentos críticos sejam inutilizados e comprometam sua capacidade operacional.

A abordagem é particularmente relevante em uma fragata moderna, na qual sensores, sistemas de comando e controle, comunicações, geração e distribuição de energia e sistemas de armas precisam operar de forma integrada. A perda de um componente essencial pode degradar funções que vão além do equipamento diretamente atingido.

A notação DNV SHOCK não significa que toda a plataforma tenha sido submetida a um único ensaio de explosão nem que a F200 seja imune aos efeitos de um ataque. O reconhecimento está relacionado à qualificação dos equipamentos selecionados segundo requisitos específicos de resistência a choque, com base nos testes e cálculos analisados pela sociedade classificadora.

Para o projeto MEKO A100MB, trata-se da primeira certificação desse tipo. A experiência estabelece uma referência técnica para a classe Tamandaré e amplia o conjunto de requisitos de sobrevivência considerados no desenvolvimento da plataforma.

A F200 foi entregue à Marinha do Brasil em março de 2026 e já está em operação. A unidade integra o Programa Fragatas Classe Tamandaré, conduzido pela Águas Azuis, sociedade formada pela TKMS, Embraer Defesa & Segurança e Atech, sob gestão da EMGEPRON.

A certificação também acrescenta conhecimento ao processo de construção naval militar realizado no Brasil. A fabricação da classe em Itajaí envolve não apenas a montagem das plataformas, mas a integração e qualificação de sistemas complexos, experiência que poderá ser aproveitada na continuidade do programa e em futuros projetos navais.

A resistência a choque integra um conjunto mais amplo de requisitos de sobrevivência que inclui compartimentação, redundância, controle de avarias, proteção de equipamentos e continuidade de energia e sistemas essenciais. No ambiente de combate naval, esses elementos determinam a capacidade de uma plataforma permanecer operacional depois de sofrer danos.

Para a Marinha do Brasil, a certificação da F200 representa, portanto, um parâmetro técnico adicional para a nova geração de escoltas. À medida que a classe Tamandaré consolida sua operação, os dados e a experiência acumulados com a primeira unidade poderão contribuir para o acompanhamento da confiabilidade, manutenção e evolução das demais fragatas.


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Marinha do Brasil na Türkiye: GÖKDENİZ entra no radar da MB?

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A presença de uma delegação da Marinha do Brasil na Türkiye, revelada nos últimos dias, acrescenta um novo elemento à aproximação naval entre os dois países e levanta uma questão que merece ser analisada sob o ponto de vista operacional: estaria a MB avaliando soluções turcas para ampliar a defesa de ponto de seus navios? O GÖKDENİZ 35 mm, desenvolvido pela ASELSAN, poderia estar entre os sistemas observados pela delegação brasileira. Até o momento, porém, não há confirmação oficial de que o equipamento esteja sendo avaliado pela Força.

A movimentação ocorre poucos dias depois da passagem do Navio-Escola Brasil por Istambul, entre 31 de agosto e 4 de setembro. Durante a escala, o comandante do navio, Capitão de Mar e Guerra Ricardo Lima Maia, e integrantes da delegação foram recebidos pelo Vice-Almirante Ramazan Özoğul, comandante da Área Marítima do Norte da Marinha da Türkiye. A visita ocorreu em um momento de intensificação do relacionamento bilateral no setor de defesa, após anos de aproximação política e industrial entre os dois países.

O contexto tecnológico dessa aproximação também merece atenção. A indústria de defesa turca desenvolveu uma cadeia própria de radares, guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos, mísseis, sistemas de gerenciamento de combate e armas de defesa aproximada. Para a Marinha brasileira, que precisa ampliar a capacidade de sobrevivência de seus meios diante da evolução das ameaças aéreas, esse conjunto oferece referências que podem ser confrontadas com as necessidades nacionais.

O GÖKDENİZ é um dos exemplos mais relevantes. Desenvolvido pela ASELSAN, o sistema é um CIWS de 35 mm equipado com dois canhões automáticos e concebido para enfrentar mísseis antinavio, aeronaves, helicópteros, VANTs e ameaças assimétricas de superfície. A configuração 100/35StA emprega munição programável ATOM e integra sensores e controle de tiro à solução de defesa aproximada.

O interesse para a MB está menos no calibre do armamento do que na combinação entre detecção, acompanhamento, controle de tiro e munição programável. Essa arquitetura cria uma camada terminal capaz de reagir contra ameaças que atravessem defesas de maior alcance ou sejam detectadas já dentro de uma janela reduzida de resposta. Contra drones e outros vetores de menor custo, também permite discutir uma relação mais equilibrada entre o valor do alvo e o custo do interceptador.

A mudança do ambiente de guerra naval reforça essa questão. Mísseis antinavio de baixa altitude continuam representando uma ameaça crítica, mas agora dividem o espaço operacional com VANTs, munições de ataque de baixo custo e ataques de saturação. A defesa precisa combinar alcance, velocidade de reação, probabilidade de interceptação e custo por engajamento, evitando utilizar uma solução de alto valor contra toda e qualquer ameaça.

É nesse ponto que o GÖKDENİZ deve ser observado em conjunto com o GÖKSUR 100-N, desenvolvido pela ASELSAN em parceria com o TÜBİTAK SAGE. O sistema emprega mísseis para defesa de ponto, possui alcance efetivo declarado de 15 quilômetros, capacidade de engajamento múltiplo e integração ao sistema de gerenciamento de combate. O míssil utiliza buscador infravermelho de imagem e enlace de dados bidirecional, tendo entre seus alvos prioritários mísseis antinavio e de cruzeiro que voam próximo à superfície.

Essa combinação permite analisar uma arquitetura na qual o GÖKSUR atua em uma faixa anterior e o GÖKDENİZ constitui a camada terminal. Para a MB, o interesse está em determinar como sensores, mísseis e armas de defesa aproximada poderiam trabalhar de forma integrada diante de ataques múltiplos.

Outra solução que merece entrar nessa comparação é o LEVENT, da ROKETSAN. Trata-se de um sistema de defesa antiaérea de curto alcance desenvolvido para plataformas navais, com possibilidade de operar integrado aos sensores do navio ou utilizando seus próprios meios de detecção. Os dados fornecidos pela empresa indicam alcance de até 11 quilômetros, buscador infravermelho associado a sensor passivo de radiofrequência e capacidade contra aeronaves, helicópteros, VANTs e mísseis antinavio.

A existência dessas três soluções é relevante porque permite comparar arquiteturas, e não simplesmente equipamentos. GÖKDENİZ, GÖKSUR e LEVENT empregam tecnologias diferentes para enfrentar ameaças semelhantes, oferecendo à MB parâmetros para analisar alcance, sensores, resistência à guerra eletrônica, capacidade contra alvos de baixa assinatura, engajamento múltiplo, logística e integração ao sistema de combate.

A experiência turca ganha ainda mais peso quando observada no nível da plataforma. A modernização da fragata TCG Oruçreis envolveu 21 sistemas, incluindo o radar de vigilância CENK, o radar de controle de tiro AKREP, sistemas de guerra eletrônica ARES e AREAS, o sistema PİRİ, GÖKDENİZ, o sistema de contramedidas contra torpedos HIZIR e o sonar FERSAH. O programa demonstra a capacidade de integrar diferentes subsistemas em uma arquitetura nacional de combate naval.

Esse aspecto é particularmente importante para o Brasil. A eficiência de um sistema de defesa de ponto depende da qualidade dos sensores, do gerenciamento de combate, dos enlaces de dados e da capacidade de identificar e priorizar ameaças. A vantagem não está apenas na arma, mas no tempo necessário para transformar uma detecção em solução de tiro e decisão de engajamento.

A modernização do TCG Oruçreis também oferece uma referência para a atualização de plataformas existentes. Para uma Marinha que precisa conciliar novas construções, manutenção e evolução tecnológica de meios em serviço, programas desse tipo podem fornecer parâmetros sobre como incorporar capacidades contemporâneas sem depender exclusivamente da substituição das plataformas.

Essa possibilidade ganha relevância quando se observa a atual composição da Esquadra. O NAM Atlântico e o NDM Oiapoque desempenham funções distintas das fragatas, mas são plataformas de elevado valor operacional e estratégico, cuja capacidade de autodefesa contra ameaças aéreas poderia ser ampliada. A eventual integração de uma solução de defesa de ponto não significaria transformar esses navios em plataformas de combate autônomas, mas acrescentar uma camada de proteção compatível com sua importância e com as missões que podem desempenhar em ambientes de maior ameaça.

No caso das fragatas classe Tamandaré, a discussão pode ser ainda mais oportuna. Com a Marinha em breve avançando para um segundo lote da classe, a experiência acumulada com as primeiras unidades permitiria avaliar eventuais aprimoramentos na arquitetura de defesa, incluindo uma capacidade de defesa de ponto mais robusta e estruturada em camadas. Sistemas como GÖKDENİZ, GÖKSUR ou outras soluções disponíveis no mercado poderiam ser comparados tecnicamente nesse processo, ao lado das alternativas nacionais.

Não há, até o momento, confirmação pública de que o GÖKDENİZ esteja sendo avaliado para as fragatas classe Tamandaré, o NAM Atlântico, o NDM Oiapoque ou qualquer outro navio brasileiro, tampouco de que a delegação tenha realizado uma avaliação formal do sistema. O que existe é uma oportunidade concreta para observar soluções que respondem a problemas presentes na agenda operacional da MB.

A classe Tamandaré é naturalmente uma referência nesse debate por representar o núcleo da renovação da Esquadra, mas a discussão não precisa ficar limitada a ela. Diferentes classes de navios podem demandar níveis distintos de defesa contra drones, mísseis e outras ameaças aéreas, de acordo com seu valor, missão e área de emprego.

Para a Amazônia Azul, essa questão assume uma dimensão adicional. A Marinha precisa preservar capacidade de presença e reação em uma área marítima de dimensões continentais, o que exige combinar plataformas, sensores e armas dentro de uma arquitetura sustentável. A defesa de ponto é uma dessas capacidades e precisa ser dimensionada de acordo com a importância e a vulnerabilidade de cada meio.

Também existe uma dimensão industrial. Qualquer eventual cooperação deveria considerar a participação da Base Industrial de Defesa brasileira, capacidade de integração nacional, manutenção, treinamento, suporte logístico, domínio de interfaces e possibilidade de evolução do sistema. A experiência turca é interessante justamente porque demonstra como o domínio de componentes críticos pode transformar uma necessidade operacional em capacidade industrial exportável.

Por isso, a pergunta mais importante não é simplesmente se o Brasil deveria comprar o GÖKDENİZ. O ponto é verificar se as soluções desenvolvidas pela Türkiye oferecem vantagens técnicas, operacionais ou industriais que justifiquem sua comparação com alternativas nacionais e estrangeiras.

A passagem do N.E. Brasil por Istambul e a posterior presença de uma delegação da Marinha brasileira ocorrem no momento em que essa comparação pode ser particularmente produtiva. Sem atribuir à missão objetivos que não foram oficialmente divulgados, a aproximação abre espaço para que a MB conheça diretamente uma arquitetura naval construída em torno de sensores, guerra eletrônica, mísseis e defesa aproximada de desenvolvimento nacional.

Se o GÖKDENİZ está efetivamente entre os sistemas observados pela delegação brasileira, ainda não se sabe. Mas suas características, somadas às soluções complementares oferecidas pelo GÖKSUR e pelo LEVENT, justificam que a capacidade turca seja colocada lado a lado com as alternativas disponíveis no mercado internacional e com os caminhos tecnológicos que o próprio Brasil pretende desenvolver.

Para uma Marinha diante de ameaças cada vez mais diversificadas, ampliar o universo de soluções disponíveis é parte da própria construção de capacidade. Nesse sentido, uma avaliação técnica e comparativa do GÖKDENİZ e de seus sistemas complementares poderia oferecer à MB mais um parâmetro para decidir como deverá ser estruturada a defesa de ponto das plataformas que operarão na Amazônia Azul nas próximas décadas.


por Angelo Nicolaci


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domingo, 13 de setembro de 2026

Escudo das Américas: quando a crise diplomática alcança a segurança

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A construção de uma arquitetura de segurança para o Hemisfério Ocidental costuma ser associada a forças armadas, bases, equipamentos, vigilância de fronteiras e capacidade de resposta militar. Essa visão, porém, deixa de fora um componente menos visível e igualmente estratégico: a capacidade dos Estados de compartilhar inteligência, manter canais operacionais e cooperar de forma contínua contra ameaças que não respeitam fronteiras.

Uma reportagem publicada pelo InfoMoney, com informações do The New York Times, expôs uma consequência concreta da atual crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Segundo a apuração, Washington reteve vistos de dois agentes da Polícia Federal designados para atuar nos Estados Unidos junto ao Homeland Security Investigations e outras agências federais americanas. Em resposta, o Brasil passou a bloquear a autorização para um agente de segurança pública americano trabalhar no país.

O episódio alcançou também a cooperação entre órgãos responsáveis pelo controle de fluxos financeiros e fronteiriços. De acordo com a reportagem, os Estados Unidos recusaram um pedido de visita de agentes da Receita Federal e da Aduana brasileira envolvidos em investigações sobre lavagem de dinheiro e contrabando de armas relacionados a organizações internacionais do narcotráfico.

Não se trata, portanto, apenas de uma disputa sobre vistos ou de um incidente protocolar entre governos. Quando agentes especializados deixam de ocupar postos de ligação, visitas técnicas são interrompidas e canais de contato passam a sofrer restrições, uma crise política começa a produzir efeitos sobre a capacidade operacional dos próprios Estados.

Brasil e Estados Unidos possuem uma trajetória de cooperação em investigações contra crimes internacionais, incluindo fraude, tráfico e organizações criminosas transnacionais. A presença de um adido da agência americana de Imigração e Alfândega no Brasil há mais de duas décadas é um dos elementos que demonstram a existência de uma estrutura institucional construída muito antes da atual conjuntura. Ações conjuntas anteriores contribuíram para desarticular esquemas internacionais de corrupção, redes de pirataria e organizações de tráfico de pessoas.

Esse histórico é relevante porque evidencia uma característica particular do combate ao crime organizado: a ameaça não precisa esperar pela diplomacia para continuar operando. Uma organização criminosa pode movimentar dinheiro por diferentes jurisdições, adquirir armamentos em um país, transportar drogas por outro e utilizar estruturas financeiras localizadas em uma terceira nação. A resposta estatal, entretanto, continua condicionada à capacidade de cooperação entre autoridades soberanas.

É nesse ponto que a segurança hemisférica encontra uma de suas vulnerabilidades mais importantes. Um sistema de inteligência pode possuir tecnologia avançada, mas perde eficiência quando informações deixam de circular. Uma força policial pode possuir recursos e competência investigativa, mas encontra limitações quando precisa de dados que estão sob jurisdição estrangeira. Uma estrutura aduaneira pode identificar uma carga suspeita, mas depende de parceiros para acompanhar sua origem, destino e conexões financeiras.

A consequência da deterioração dessa cooperação tampouco precisa ser imediata ou facilmente mensurável. O risco está na perda progressiva de consciência situacional, no aumento do tempo necessário para produzir respostas e na fragmentação de investigações que, por natureza, deveriam ser integradas. Para organizações criminosas transnacionais, qualquer redução na capacidade de coordenação dos Estados representa uma oportunidade.

Isso coloca Brasil e Estados Unidos diante de uma contradição estratégica. Washington pode utilizar instrumentos diplomáticos para defender seus interesses e pressionar o governo brasileiro. Brasília, da mesma forma, possui o direito de preservar sua soberania e responder a medidas que considere inadequadas. O problema surge quando mecanismos de cooperação construídos para enfrentar ameaças permanentes passam a ser contaminados por disputas conjunturais.

Para o Brasil, autonomia estratégica não pode ser confundida com isolamento. Um país de dimensões continentais, com extensas fronteiras terrestres, ampla faixa marítima, grandes portos e posição central nas rotas do crime organizado sul-americano precisa ampliar suas próprias capacidades de inteligência, vigilância e segurança. Mas isso não elimina a necessidade de cooperação internacional seletiva quando existem interesses convergentes.

Para os Estados Unidos, o princípio é igualmente válido. Se Washington pretende fortalecer uma arquitetura de segurança para o Hemisfério Ocidental, essa estrutura não pode depender exclusivamente da convergência política entre governos. Uma arquitetura realmente resiliente precisa preservar canais institucionais capazes de funcionar mesmo durante períodos de tensão diplomática.

É justamente aqui que o conceito de “Escudo das Américas” ultrapassa a dimensão militar. O escudo não é formado apenas por aeronaves, navios, sistemas de vigilância, forças especiais ou capacidades de inteligência. Ele também é constituído por instituições, protocolos, intercâmbio de informações e confiança operacional. Sem esses elementos, equipamentos e capacidades nacionais podem existir simultaneamente sem necessariamente produzir uma resposta integrada.

O episódio entre Brasília e Washington revela, portanto, uma questão maior: quem garante a continuidade da segurança quando os governos deixam de concordar? Se a cooperação contra o crime transnacional pode ser interrompida pela deterioração das relações políticas, então parte da arquitetura hemisférica permanece vulnerável à conjuntura.

Essa vulnerabilidade interessa diretamente ao Brasil. A construção de uma política de Estado para segurança e defesa exige desenvolver capacidades nacionais suficientes para que o país não dependa de um único parceiro, ao mesmo tempo em que preserva canais de cooperação com diferentes nações. Diversificação, nesse contexto, não significa afastamento dos Estados Unidos, mas redução de vulnerabilidades estratégicas.

O mesmo princípio vale para a própria ideia de um sistema de segurança hemisférico. Seu grau de maturidade não deveria ser medido apenas pela quantidade de recursos militares disponíveis, mas pela capacidade de seus integrantes continuarem cooperando quando surgem divergências políticas. Um escudo que funciona apenas quando todos concordam não é uma arquitetura de segurança plenamente resiliente.

A crise atual entre Brasil e Estados Unidos oferece, assim, uma demonstração concreta de um problema que será cada vez mais relevante no Hemisfério Ocidental: ameaças transnacionais exigem respostas permanentes, enquanto relações entre Estados continuam sujeitas às mudanças de governos, interesses e conjunturas.

O verdadeiro desafio do Escudo das Américas não é apenas construir capacidade para enfrentar o inimigo externo. É criar uma arquitetura suficientemente sólida para que as divergências entre os próprios Estados não abram brechas para aqueles que operam justamente onde as fronteiras políticas deixam de funcionar.


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CTEx e IDV avançam no desenvolvimento de novas versões do Guarani e da VLEGA Chivunk

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O Centro Tecnológico do Exército (CTEx) realizou nos dias 8 e 9 de setembro, uma reunião de acompanhamento dos projetos de novas viaturas militares desenvolvidas em parceria com a IDV em Sete Lagoas (MG). O encontro reuniu o Chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia (DCT), General de Exército Hertz Pires do Nascimento, o Chefe do CTEx, General de Brigada Maurício Ramos de Resende Neves, além de engenheiros militares e representantes das áreas técnica e gerencial da empresa.

A agenda teve como objetivo alinhar os cronogramas e as próximas etapas dos projetos conduzidos conjuntamente pelo Exército Brasileiro e pela IDV. Entre os programas acompanhados estão novas versões da família Guarani e a Viatura Leve de Emprego Geral Aerotransportável (VLEGA) Chivunk, atualmente em diferentes estágios de desenvolvimento e avaliação.

No programa Guarani, os protótipos das versões Ambulância e Posto de Comando têm conclusão prevista para novembro de 2026. Após essa etapa, as viaturas serão submetidas a testes de engenharia realizados pela própria empresa, antes do início do processo formal de Teste e Avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

A previsão é que o processo de Teste e Avaliação das duas configurações seja concluído em 2027, permitindo o início da produção seriada em 2028. As novas versões ampliam as possibilidades de emprego da família Guarani, incorporando configurações específicas para funções de apoio e comando dentro da estrutura mecanizada da Força Terrestre.

Já o lote piloto da VLEGA Chivunk deverá iniciar o processo de Teste e Avaliação no CAEx em outubro de 2026. A previsão é concluir essa etapa em dezembro do mesmo ano, permitindo a entrega das viaturas à tropa no início de 2027.

A diferença nos cronogramas demonstra os distintos estágios de maturidade dos projetos. Enquanto as versões Ambulância e Posto de Comando do Guarani ainda avançam pelas etapas de desenvolvimento e avaliação antes da produção seriada, o Chivunk está mais próximo da disponibilização das primeiras unidades para emprego operacional.

A participação do CTEx e do CAEx é parte fundamental desse processo, permitindo que os sistemas desenvolvidos pela indústria sejam submetidos a avaliações segundo os requisitos estabelecidos pelo Exército antes de sua incorporação à frota da Força. Essa estrutura também permite identificar eventuais necessidades de ajustes técnicos durante o ciclo de desenvolvimento e avaliação.

Os projetos reforçam ainda a participação da Base Industrial de Defesa no desenvolvimento de soluções destinadas às necessidades específicas do Exército Brasileiro. A continuidade desses programas contribui para preservar competências de engenharia, capacidade produtiva e conhecimento tecnológico associados ao desenvolvimento de viaturas militares no país.

Com os cronogramas definidos, 2026 e 2027 serão etapas importantes para os dois programas. A previsão de entrega do lote piloto do Chivunk à tropa em 2027 e de início da produção seriada das novas configurações do Guarani em 2028 indica uma evolução gradual dos projetos, desde o desenvolvimento e a avaliação técnica até sua efetiva incorporação à capacidade operacional da Força Terrestre.


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sábado, 12 de setembro de 2026

Comandante do Exército discute modernização e orçamento durante plenária da ABIMDE

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O Comandante do Exército Brasileiro, General de Exército Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, participou em 9 de setembro, da Reunião Plenária da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (ABIMDE), em São Paulo. Durante a palestra “O Brasil e sua Capacidade de Defesa Terrestre”, o comandante apresentou prioridades da Força Terrestre e discutiu com representantes da Base Industrial de Defesa e Segurança (BIDS) os desafios para a modernização dos meios militares.

Entre os temas abordados estiveram a renovação das frotas blindada e aérea, os sistemas de apoio de fogo, veículos e sistemas não tripulados, o monitoramento de fronteiras e a defesa cibernética. O General Tomás também destacou a inteligência artificial e a formação de recursos humanos como componentes cada vez mais relevantes para a capacidade militar, diante da velocidade de incorporação de novas tecnologias aos conflitos contemporâneos.

A Amazônia foi utilizada como exemplo das demandas impostas ao Exército em áreas de grandes dimensões e infraestrutura limitada. Segundo o comandante, as características da região ampliam a importância da mobilidade, logística, comunicações, vigilância e integração de informações, além de exigirem maior velocidade no processo de decisão.

Nesse cenário, o comandante identificou oportunidades para a indústria nacional em segmentos como drones, componentes, veículos, embarcações e munições. Também ressaltou que a capacidade industrial não deve se limitar à entrega dos equipamentos, destacando a necessidade de estruturas de manutenção e suporte ao longo de todo o ciclo de vida dos sistemas empregados pelo Exército.

A previsibilidade orçamentária esteve entre os principais pontos discutidos durante o encontro. Para o General Tomás, a regularidade dos recursos é necessária para que os projetos tenham continuidade e para que empresas possam assumir compromissos de longo prazo relacionados ao desenvolvimento, produção e fornecimento de equipamentos de defesa.

“Eu acho que é sempre desejável que o Estado proteja os seus ativos e proteja as suas indústrias de defesa. Mas acho que a principal proteção é através de investimento”, afirmou o comandante.

Ao tratar da relação entre produção nacional e aquisição de sistemas estrangeiros, o General Tomás apontou a necessidade de equilibrar o desenvolvimento de soluções brasileiras com as demandas operacionais que exigem respostas em prazos mais curtos. Nas cooperações internacionais, destacou que a transferência de tecnologia depende das condições estabelecidas nos contratos, que devem considerar os interesses estratégicos e a soberania nacional.

As exportações também foram incluídas no debate. O comandante defendeu mecanismos de crédito e garantias capazes de ampliar a capacidade das empresas brasileiras de competir no mercado internacional, especialmente em projetos que dependem de financiamento para viabilizar vendas externas.

Sobre o estímulo a novos empreendimentos tecnológicos, mencionou o Instituto Militar de Engenharia (IME) e o Sistema Defesa, Indústria e Academia (SisDIA) como mecanismos para aproximar pesquisa, desenvolvimento tecnológico e necessidades operacionais. Ao mesmo tempo, reconheceu que a limitação de recursos reduz a capacidade de fomentar novas iniciativas.

Para o presidente do Conselho de Administração da ABIMDE, Luiz Carlos Paiva Teixeira, a interlocução direta com o comando do Exército permite que as empresas compreendam melhor as necessidades da Força e direcionem investimentos para produtos e tecnologias com aplicação militar.

Participaram do encontro o Comandante Militar do Sudeste, General de Exército Ricardo Piai Carmona; o Secretário de Produtos de Defesa, Tenente-Brigadeiro do Ar R1 Heraldo Luiz Rodrigues; e o Presidente-Executivo da ABIMDE, Tenente-Brigadeiro do Ar R1 José Augusto Crepaldi Affonso, além de outras autoridades e representantes da indústria de defesa e segurança.

Ao final da plenária, Luiz Teixeira agradeceu a participação do comandante e a interlocução com as empresas associadas. O encontro foi encerrado com a troca de presentes institucionais, incluindo a entrega ao General Tomás de uma moeda comemorativa da ABIMDE.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

CIASC realiza MARAMBEX 2026 com 595 militares na Restinga da Marambaia

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O Centro de Instrução Almirante Sylvio de Camargo (CIASC) realizou, entre 17 e 28 de agosto, o Exercício no Terreno MARAMBEX 2026, na Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. A atividade reuniu 595 militares durante 12 dias de adestramento contínuo, com exercícios realizados nos períodos diurno e noturno.

Conduzido pela Escola de Infantaria e Engenharia do Departamento de Instrução, o exercício envolveu alunos dos Cursos de Especialização e Aperfeiçoamento de Infantaria e de Engenharia, além das equipes de instrução e apoio. A atividade teve como objetivo transformar os conhecimentos adquiridos em sala de aula em capacidades práticas empregadas em ambiente operacional.

A programação incluiu tiro de combate, tiro de grupo de combate e emprego de armamentos pesados, entre eles metralhadoras .50 e morteiros de 60 mm. Os militares também realizaram técnicas de patrulha, sobrevivência, orientação e defesa, além de marchas táticas e exercícios de fogo e movimento.

A realização das atividades em diferentes períodos do dia ampliou as exigências sobre os participantes, permitindo o treinamento de procedimentos sob condições distintas de visibilidade e empregando técnicas que exigem coordenação entre os elementos envolvidos.

Para os cursos de Infantaria e Engenharia do Corpo de Fuzileiros Navais, o MARAMBEX funciona como uma etapa de consolidação da formação prática, aproximando os conhecimentos doutrinários das condições encontradas durante o emprego de uma força em campo. A atividade também permite avaliar o desempenho dos alunos diante de situações que exigem preparo técnico, resistência e tomada de decisão.

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Alemanha prepara o maior salto militar desde a Guerra Fria e enfrenta um dilema

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A Alemanha está enfrentando uma nova fase de sua política de Defesa. O projeto de orçamento para 2027 prevê €139,6 bilhões para as Forças Armadas, um aumento de €31,4 bilhões em relação a 2026 e o maior nível de gastos em defesa alemães desde o fim da Guerra Fria. Do total, €109,7 bilhões estarão no orçamento regular do Ministério da Defesa e outros €29,9 bilhões virão do Fundo Especial da Bundeswehr.

A dimensão do aumento revela uma mudança que vai muito além da recomposição orçamentária. Berlim pretende ampliar rapidamente a capacidade de dissuasão alemã diante da deterioração do ambiente estratégico europeu, especialmente após a guerra na Ucrânia e a percepção de que a Alemanha precisa assumir maior responsabilidade pela defesa convencional do continente. O governo também estabeleceu a meta de alcançar 3,5% do PIB em gastos de Defesa até 2029.

O dinheiro será direcionado principalmente para recompor estoques, ampliar a prontidão, modernizar equipamentos e acelerar a aquisição de novas capacidades. O orçamento de 2027 prevê mais de €60 bilhões apenas para compras militares, além de recursos para manutenção, pesquisa, desenvolvimento, pessoal e infraestrutura. Entre os programas estão sistemas blindados, artilharia, defesa antiaérea, aeronaves de combate, navios e munições, enquanto a Bundeswehr também busca incorporar drones, inteligência artificial e outras tecnologias emergentes.

É justamente nessa combinação que surge um dos principais debates sobre o novo ciclo de rearmamento alemão. Parte dos especialistas questiona se recursos tão expressivos deveriam ser concentrados em plataformas convencionais ou direcionados em maior proporção para drones, robótica, inteligência artificial, sistemas espaciais e outras tecnologias capazes de ampliar a eficiência das forças. O problema alemão não é apenas tecnológico: também envolve pessoal, produção industrial e a capacidade de sustentar uma força numerosa durante um conflito prolongado.

A resposta de Berlim é que não existe uma escolha simples entre tecnologia e meios convencionais. A experiência da guerra na Ucrânia demonstrou a importância dos drones, da guerra eletrônica, da inteligência artificial e da capacidade de obter informações em tempo real, mas também expôs a necessidade de grandes volumes de munição, proteção blindada, artilharia, defesa aérea e plataformas capazes de permanecer no campo de batalha. A estratégia alemã busca, portanto, integrar essas capacidades em uma força mais numerosa, conectada e sustentável.

Essa transformação também possui uma dimensão industrial. O salto dos investimentos cria demanda para ampliar a produção de munições, recuperar estoques, fortalecer cadeias de fornecimento e reduzir vulnerabilidades reveladas pelo conflito na Ucrânia. A Alemanha não está apenas comprando equipamentos: está tentando reconstruir uma base industrial capaz de produzir e repor meios militares em escala compatível com um cenário de guerra prolongada.

O desafio será transformar dinheiro em capacidade militar efetivamente disponível. Um orçamento recorde não garante, por si só, prontidão operacional. É necessário contratar, produzir, entregar, formar pessoal, manter os sistemas e integrá-los em uma arquitetura de combate coerente. O próprio debate alemão mostra que o verdadeiro teste do novo ciclo de gastos será a velocidade com que os recursos serão convertidos em capacidades reais.

O movimento alemão também sinaliza uma transformação mais ampla na Europa. Depois de décadas de redução de estoques e capacidades militares, Berlim está tentando recuperar escala, autonomia industrial e poder de dissuasão. Os quase €140 bilhões previstos para 2027 representam, portanto, mais do que um aumento de orçamento: são parte de uma tentativa de reconstruir uma capacidade militar compatível com um ambiente estratégico muito mais instável.

Há, nesse cenário, um paradoxo que interessa diretamente ao Brasil. O país não está diante de uma ameaça de conflito convencional de larga escala em seu entorno comparável àquela enfrentada atualmente pela Europa. Isso, porém, não significa que possa ignorar os efeitos estratégicos de uma eventual guerra de grandes proporções entre potências. Um conflito prolongado poderia afetar cadeias de suprimentos, rotas marítimas, mercados de energia, infraestrutura crítica, acesso a tecnologias e sobretudo a disputa internacional por recursos estratégicos.

O Brasil reúne importantes reservas minerais e energéticas, além de uma extensa costa, infraestrutura portuária e áreas marítimas de elevado valor estratégico. Diante de um cenário de competição internacional amplificada, esses ativos podem adquirir importância ainda maior, especialmente quando se considera a crescente disputa global por minerais críticos, energia e segurança das cadeias de abastecimento.

A experiência alemã, portanto, oferece uma reflexão que ultrapassa o debate europeu. Não se trata de reproduzir o modelo de Berlim ou de antecipar uma guerra para o Brasil, mas de compreender que Defesa exige preparação antes que uma ameaça se torne imediata. Proteger território, recursos naturais, infraestrutura, rotas marítimas, cadeias industriais e interesses nacionais depende de planejamento de longo prazo, indústria de Defesa, tecnologia própria, estoques adequados e previsibilidade orçamentária. Estar preparado não significa esperar uma guerra; significa reduzir a vulnerabilidade do país caso uma crise internacional de grandes proporções alcance seus interesses.


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