quinta-feira, 24 de setembro de 2026

DDX: Itália assina contrato de €3,7 bilhões e inicia nova geração de destróieres

A Itália deu nesta quinta-feira (24) o primeiro passo contratual para sua nova geração de grandes navios de superfície. A Orizzonte Sistemi Navali (OSN), joint venture formada por Fincantieri e Leonardo, assinou com a OCCAR um contrato avaliado em aproximadamente €3,7 bilhões para o programa DDX, destinado ao desenvolvimento, construção, estudos logísticos e suporte inicial em serviço de dois novos destróieres para a Marina Militare. A primeira unidade tem entrega prevista para 2033 e a segunda para 2035, enquanto o acordo contempla cerca de €1,3 bilhão em opções.

O DDX representa uma mudança de escala na capacidade de combate da frota italiana. O projeto foi concebido para ampliar a defesa aérea e antimíssil da força naval e integrar, desde a concepção, sensores, sistemas de armas, comando e controle, gerenciamento da plataforma e meios não tripulados em uma arquitetura digital única. A proposta coloca o navio dentro de uma lógica multidomínio na qual a capacidade de produzir, processar e distribuir informação passa a ser determinante para o emprego do armamento.

Com 180 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 13.500 toneladas, o DDX terá autonomia estimada em 4.000 milhas náuticas e tripulação de cerca de 251 militares. A Fincantieri será responsável pela integração da plataforma, enquanto a Leonardo desenvolverá o sistema de combate. Essa divisão concentra nas duas principais empresas italianas as competências necessárias para integrar arquitetura naval, energia, sensores, software, comunicações e armamentos em um único sistema operacional.

O núcleo eletrônico será baseado no SADOC 5 C5I, associado a um radar AESA de alta potência e totalmente digital em banda S. O conjunto será integrado ao sistema de armas da MBDA e projetado para emprego contra diferentes classes de ameaças aéreas e de mísseis, incluindo ameaças balísticas e hipersônicas. A arquitetura está vinculada ao projeto Michelangelo, da Leonardo, que busca ampliar a capacidade de coordenação e gerenciamento da batalha aérea a partir de uma mesma estrutura de combate.

A relevância desse arranjo está na integração entre detecção e decisão. Em um cenário de saturação por mísseis, drones e aeronaves, o alcance individual de um sensor deixa de ser suficiente se a informação não puder ser rapidamente correlacionada e distribuída para os elementos capazes de reagir. O DDX foi concebido para operar com forças multinacionais altamente conectadas, permitindo o compartilhamento de informações entre diferentes plataformas e centros de comando.

A arquitetura física também foi desenvolvida para sustentar o crescimento tecnológico ao longo da vida útil do navio. O projeto incorpora uma sub-rede elétrica em corrente contínua, armazenamento de energia e novas soluções para o equilíbrio térmico e elétrico da plataforma. Também estão previstas evoluções no sistema de gerenciamento do navio e no sistema de estabilização integrado ao governo. Na prática, a capacidade energética passa a ser tratada como componente da arquitetura de combate e não apenas como requisito de propulsão e serviços de bordo.


Outro elemento central é o conceito Navis Sapiens, desenvolvido pela Fincantieri para transformar o navio em uma plataforma digital capaz de coletar, correlacionar e utilizar os dados produzidos pelos próprios sistemas. A arquitetura deverá ser conectada ao ambiente de terra por meio do Fincantieri Digital Ecosystem, permitindo integração entre o navio e a infraestrutura naval, além de aplicações voltadas à manutenção preditiva, logística e suporte ao ciclo de vida.

Essa digitalização também abre espaço para uma utilização mais ampla de sistemas não tripulados. Segundo a Fincantieri, o DDX poderá gerenciar de forma integrada veículos de superfície e submarinos não tripulados, utilizando esses meios para ampliar a capacidade de descoberta e proteção contra ameaças aéreas, de superfície e submarinas. O destróier passa, dessa forma, a funcionar como um nó de comando para sensores e plataformas distribuídas além dos limites físicos do próprio casco.

A consequência operacional é importante: o navio não precisa necessariamente expor seus próprios sensores a todas as áreas de interesse. Meios não tripulados podem ser empregados para ampliar a vigilância, investigar contatos ou produzir informações adicionais, enquanto o DDX permanece como elemento de processamento, coordenação e decisão. Essa distribuição permite aumentar a consciência situacional sem exigir que cada missão seja executada exclusivamente pelos sistemas embarcados no combatente principal.

O programa também foi concebido considerando a evolução tecnológica durante décadas de serviço. A arquitetura deverá permitir a incorporação futura de novas capacidades, e a OCCAR destaca a preocupação com espaço e margem de crescimento para tecnologias que ainda estão em desenvolvimento, incluindo armas de energia dirigida. Essa característica é particularmente relevante para um navio cuja entrada em serviço ocorrerá apenas na próxima década e que deverá permanecer operacional por várias décadas.

Industrialmente, o DDX concentra uma parcela significativa da capacidade italiana de defesa naval. A OSN é controlada pela Fincantieri, com 51%, e pela Leonardo, com 49%. Os contratos associados às duas empresas somam aproximadamente €3,5 bilhões, sendo cerca de €1,8 bilhão destinados à Fincantieri, incluindo aproximadamente €800 milhões em opções, e €1,7 bilhão à Leonardo, com cerca de €480 milhões em opções. O escopo contempla não apenas construção, mas desenvolvimento, integração, estudos logísticos e suporte inicial.

A estrutura evidencia uma política industrial de longo prazo. Um programa dessa dimensão mantém demanda por engenharia naval, eletrônica, software, sensores, sistemas de armas, gerenciamento energético e manutenção especializada durante todo o ciclo de desenvolvimento e entrada em serviço. A continuidade desse trabalho também preserva competências que dificilmente podem ser reconstruídas rapidamente depois de perdidas, particularmente em áreas de alta complexidade tecnológica.

O DDX deve ainda ser entendido como parte de uma arquitetura maior de renovação da Marina Militare. A Itália mantém programas paralelos envolvendo fragatas FREMM, PPA e submarinos U212 NFS, formando uma frota em que diferentes classes assumem funções distintas, mas precisam compartilhar informações e operar dentro de uma mesma estrutura de comando. Nesse modelo, o destróier passa a concentrar capacidades de maior alcance e complexidade na defesa aérea, antimíssil e coordenação da força.

Há uma questão de classificação e substituição que merece precisão. A Fincantieri apresenta o DDX como evolução e substituição dos destróieres classe Horizon, enquanto a OCCAR enquadra o programa no processo de renovação dos grandes navios de superfície italianos e cita a substituição dos destróieres classe Durand de la Penne. A diferença está na forma como cada organização descreve a transição da frota, mas não altera o objetivo central do programa: introduzir uma nova geração de combatentes de superfície com capacidades significativamente superiores de defesa aérea, comando e controle e integração de sistemas.

O DDX demonstra, portanto, uma transformação que já ultrapassa a simples evolução de armamentos. A Itália está desenvolvendo um conceito no qual casco, energia, sensores, software, comunicações, sistemas de armas e plataformas não tripuladas são projetados para funcionar dentro de uma mesma arquitetura. O resultado pretendido é uma unidade capaz de atuar como sensor, centro de comando, plataforma de defesa aérea e antimíssil e controlador de sistemas distribuídos.

Com a assinatura realizada hoje, a Itália inicia um programa que deverá atravessar toda a próxima década antes da entrada em serviço da primeira unidade. O verdadeiro alcance do DDX, entretanto, estará menos no número de navios construídos do que na capacidade industrial e tecnológica desenvolvida para mantê-los relevantes diante da rápida evolução dos mísseis, drones, guerra eletrônica, inteligência artificial, sistemas autônomos e operações multidomínio. É nesse ponto que o programa deixa de ser apenas um projeto naval italiano e passa a oferecer uma referência concreta sobre o caminho tecnológico que os grandes combatentes de superfície estão tomando.


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