terça-feira, 29 de setembro de 2026

Suécia inicia formação da primeira turma de pilotos para o C-390 Millennium

 

A Força Aérea Sueca avançou para uma nova etapa na introdução do C-390 Millennium, da Embraer, com o início da formação da primeira turma de pilotos destinada à nova aeronave. A chamada Class 0 reúne quatro pilotos da 73ª Esquadrilha de Transporte, subordinada à Skaraborgs flygflottilj (F 7), em Såtenäs, unidade que concentra a capacidade sueca de transporte aéreo tático.

A Suécia adquiriu quatro C-390 em uma iniciativa conjunta com Holanda e Áustria, com as entregas previstas para os próximos anos. No processo de preparação da F 7, os quatro integrantes da primeira turma já concluíram a etapa de Computer Based Training (CBT) e avançaram para as fases seguintes da conversão operacional, que incluem instrução em solo e treinamento em simulador.

A formação conta com a participação direta da Embraer. O piloto Marcos de Carvalho Ferreira, Ground School Instructor da fabricante brasileira, está em Såtenäs conduzindo a instrução da Class 0. Com experiência no treinamento de pilotos em diferentes países, Ferreira destacou a experiência acumulada pelos aviadores suecos e o nível técnico demonstrado durante a formação.

Segundo o instrutor brasileiro, a transição para o C-390 exige uma mudança significativa na forma de compreender e operar a aeronave. Ao contrário dos sistemas predominantemente analógicos presentes em plataformas mais antigas, o Millennium emprega uma arquitetura digital baseada em sinais, algoritmos e lógica computacional, proporcionando também uma representação situacional diferente para a tripulação.

Essa diferença é particularmente relevante para pilotos com longa experiência no C-130 Hercules, aeronave que será substituída progressivamente pelo C-390. Os pilotos suecos Per e Arvid compararam a transição entre as duas plataformas à passagem de um Volvo Amazon para um Tesla, destacando que não se trata apenas de uma evolução geracional, mas de uma mudança na própria filosofia de operação.

No C-390, parte das correções que anteriormente dependiam diretamente da atuação do piloto passa a ser administrada pelos sistemas de controle de voo. Isso exige dos aviadores confiança na lógica de programação e, ao mesmo tempo, capacidade de intervir manualmente em situações anormais ou de emergência. A experiência acumulada continua sendo considerada fundamental, mas o trabalho cotidiano passa a incorporar de maneira muito mais intensa o gerenciamento dos sistemas da aeronave.

A experiência dos pilotos suecos também deverá reduzir o tempo necessário para a adaptação ao novo avião. De acordo com Marcos de Carvalho Ferreira, os integrantes da Class 0 possuem uma base operacional suficientemente sólida para avançar rapidamente após o treinamento em simulador. A estimativa apresentada pelo instrutor é que os pilotos mais experientes possam adquirir a necessária familiaridade com a aeronave após aproximadamente 50 a 100 horas de voo real, período em que terão contato com condições meteorológicas e situações que não podem ser reproduzidas integralmente em simuladores.

Entre os recursos destacados durante a formação está o sistema de lançamento de cargas. O C-390 pode realizar o lançamento aéreo de um veículo de até 26 toneladas e calcular o ponto previsto de impacto com precisão de aproximadamente cinco metros, evidenciando o nível de integração entre os sistemas de missão, navegação e gerenciamento de carga da aeronave.

A nova aeronave também modifica a composição da tripulação. O C-390 poderá ser operado normalmente por dois pilotos e dois mestres de carga, com a possibilidade de um integrante adicional dependendo da missão. Na prática, isso representa uma redução em relação à tripulação de seis integrantes empregada atualmente nos C-130 suecos, mantendo capacidades adicionais de sensores, comunicações e integração com outras forças.

A conectividade é apontada pelos próprios pilotos como uma das mudanças mais relevantes. O C-390 permitirá à aviação de transporte operar integrada às mesmas redes utilizadas por aeronaves de combate e manter comunicações com forças terrestres, ampliando sua participação no ambiente operacional conectado. A aeronave também foi concebida para missões táticas, incluindo operações em condições de baixa luminosidade e ambientes mais exigentes.

Durante o período de transição, a F 7 continuará empregando simultaneamente os C-130 Hercules e os novos C-390. A operação paralela permitirá preservar a capacidade de transporte existente enquanto os novos aviadores e equipes de apoio completam sua qualificação e a unidade amplia gradualmente sua capacidade operacional com a nova plataforma.

Além da formação dos pilotos, a mudança envolve toda a estrutura de operação e manutenção. A arquitetura eletrônica do C-390 simplifica determinados processos de manutenção e contribui para a redução dos custos operacionais projetados pela Força Aérea Sueca. A aeronave também possui capacidade para operar em pistas não preparadas e, segundo a própria F 7, pode utilizar uma rodovia como pista de pouso desde que sua largura seja compatível com a envergadura da aeronave.

A introdução do C-390 representa, portanto, uma mudança que vai além da substituição do Hercules por uma aeronave mais moderna. Para a Suécia, o processo envolve a incorporação de uma nova arquitetura digital, redução da carga de trabalho da tripulação, maior integração de sensores e comunicações e ampliação das possibilidades de emprego tático. A formação da Class 0 marca o início dessa transição no nível operacional, enquanto F 7 prepara a coexistência das duas plataformas até que o C-390 assuma progressivamente o papel central no transporte aéreo tático sueco.


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