terça-feira, 29 de setembro de 2026

Marinha investe R$ 38 milhões em munição programável para os canhões das Fragatas Classe Tamandaré

A Marinha do Brasil autorizou a aquisição de um lote de 1.000 munições 76/62 HE MOM-A1 destinadas aos canhões Leonardo 76/62 Super Rapid instalados nas Fragatas Classe Tamandaré (FCT). A contratação, conduzida pela Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha (DSAM), possui valor estimado de R$ 38,082 milhões e foi formalizada por inexigibilidade, no âmbito do processo nº 63435.002349/2026-33. O aviso da contratação foi publicado no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) em 24 de agosto de 2026.

O contrato estabelece a aquisição de 1.000 unidades da munição CARTRIDGE 76/62 HE (MOM-A1) para os canhões 76/62 Super Rapid Gun das FCT, resultando em um valor de referência de aproximadamente R$ 38.082 por cartucho. A modalidade escolhida foi a inexigibilidade prevista no artigo 74, caput, da Lei nº 14.133/2021, mecanismo utilizado quando a competição é considerada inviável.

A aquisição está diretamente relacionada ao armamento principal de tubo de médio calibre das novas fragatas brasileiras. A Classe Tamandaré emprega o sistema Leonardo 76/62 mm, enquanto os demais sistemas de armas incluem o Sea Ceptor, o MANSUP/Exocet, o Rheinmetall SeaSnake de 30 mm e sistemas de guerra antissubmarino e despistamento. Documentação técnica da Marinha identifica o Leonardo 76/62 como parte do conjunto de armamentos das FCT.

Um canhão com elevada cadência de tiro

O 76/62 Super Rapid foi concebido para oferecer uma combinação de elevada cadência de tiro, alcance e flexibilidade de emprego. Publicação da própria Marinha aponta capacidade de até 120 disparos por minuto e alcance de até 16 quilômetros para o sistema instalado nas FCT, com valores de emprego que variam conforme o tipo de alvo e a munição utilizada.

Essa característica torna a escolha da munição particularmente relevante. A efetividade de um canhão naval não depende apenas da capacidade mecânica da torre, mas também da disponibilidade de diferentes tipos de munição e da possibilidade de selecionar o efeito desejado de acordo com o cenário operacional.

É nesse ponto que a MOM-A1 amplia as possibilidades do 76/62. Segundo documentação técnica da Leonardo, trata-se de uma munição naval 76/62 HE equipada com ogiva de fragmentação pré-formada e espoleta multifunção programável 4AP, capaz de operar em diferentes modos de detonação.

Espoleta programável amplia as opções de emprego

A 4AP Multi-Function Programmable Fuze permite configurar a munição para diferentes efeitos durante o engajamento. Entre os modos indicados pela Leonardo estão proximidade, explosão em altura (Height of Burst), impacto e retardo, além do modo de tempo. A programação permite adaptar o comportamento da munição ao tipo de alvo e ao perfil da missão.

Na prática, essa capacidade altera significativamente a flexibilidade proporcionada pelo canhão. Em vez de depender exclusivamente de uma detonação convencional no impacto, o sistema de armas pode empregar diferentes parâmetros de funcionamento da espoleta, permitindo que a explosão ocorra nas proximidades ou em uma posição determinada em relação ao alvo.

A característica é particularmente relevante no combate contra alvos aéreos. A Leonardo apresenta a MOM-A1 como uma munição destinada à guerra antiaérea e a outros empregos navais e destaca especificamente a necessidade de enfrentar alvos aéreos de alta velocidade, ameaças de baixa assinatura e sistemas aéreos não tripulados.

No caso dos drones, a lógica é diferente daquela empregada contra um alvo de superfície convencional. A possibilidade de detonação por proximidade ou em altura permite gerar uma nuvem de fragmentos nas proximidades do alvo, reduzindo a dependência de um impacto direto. Essa característica não transforma o 76/62 em um sistema dedicado de defesa antidrone, mas amplia sua capacidade de engajamento dentro de uma arquitetura de defesa em camadas.

Fragmentação pré-formada

Outro elemento importante é a ogiva de fragmentação pré-formada. A documentação da Leonardo descreve a MOM-A1 como equipada com uma PFF (Pre-Formed Fragmentation) warhead, concebida para aumentar a eficácia da munição contra alvos aéreos e de superfície.

A combinação entre fragmentação pré-formada e uma espoleta programável permite concentrar o efeito destrutivo no espaço ocupado pelo alvo, em vez de depender exclusivamente da energia transferida por um impacto pontual.

Essa característica ganha importância em um ambiente naval no qual ameaças aéreas podem apresentar dimensões reduzidas, baixa assinatura radar ou elevada velocidade. A própria Leonardo enquadra a MOM-A1 entre as soluções voltadas aos desafios impostos por mísseis, drones e ameaças assimétricas de superfície.

Compatibilidade com a família 76/62

Outro aspecto relevante para a Marinha brasileira é a compatibilidade da MOM-A1 com os sistemas existentes da família 76/62. A Leonardo informa que a munição é compatível com os sistemas OTO Melara 76/62 empregados por diferentes forças navais, utilizando tabelas balísticas já incorporadas aos sistemas, o que reduz a necessidade de modificações estruturais ou profundas no sistema de combate.

Essa característica é especialmente importante no caso das Fragatas Classe Tamandaré, que já incorporam o 76/62 Super Rapid como parte de sua arquitetura de armamentos. A aquisição de uma munição desenvolvida para essa família de canhões permite explorar as capacidades do sistema sem alterar a função básica da torre ou substituí-la por uma solução de maior calibre.

Documentação técnica e estudos publicados pela Marinha classificam o 76/62 como um armamento capaz de desempenhar funções de defesa antiaérea, defesa antissuperfície, defesa contra mísseis e apoio de fogo naval. A versão Super Rapid instalada nas FCT possui cadência de até 120 disparos por minuto.

O contexto das Fragatas Classe Tamandaré

A aquisição da MOM-A1 ocorre enquanto a Marinha estrutura a capacidade operacional das quatro Fragatas Classe Tamandaré. O programa introduz uma nova geração de sensores, sistemas de gerenciamento de combate, defesa antiaérea e armamentos na Esquadra, com o Leonardo 76/62 integrado a essa arquitetura.

O conjunto inclui o radar de busca volumétrica, radar de direção de tiro, sistema de gerenciamento de combate Atlas-ANCS, Sea Ceptor para defesa antiaérea, MANSUP/Exocet para guerra antissuperfície, SeaSnake de 30 mm e sistemas de guerra antissubmarino.

Nesse arranjo, o 76/62 ocupa uma posição intermediária entre os sistemas de maior alcance e os armamentos de defesa aproximada. Sua importância não está apenas na capacidade de disparar contra diferentes categorias de alvos, mas na possibilidade de utilizar diferentes munições para produzir efeitos distintos dentro da arquitetura de combate do navio.

A própria documentação da Marinha destaca que as FCT foram concebidas como escoltas versáteis, capazes de enfrentar múltiplas ameaças. O programa também incorpora mecanismos de gestão do ciclo de vida e apoio logístico integrado, incluindo documentação técnica, transferência de conhecimento e procedimentos para manutenção e atualização dos sistemas.

R$ 38 milhões para constituir capacidade operacional

O valor de R$ 38,082 milhões representa uma contratação expressiva para um único tipo de munição. O lote de 1.000 cartuchos indica, contudo, que a Marinha está tratando a munição como parte integrante da estrutura de prontidão das novas fragatas, e não simplesmente como um item acessório do armamento.

A documentação pública disponível identifica a aquisição como específica para os canhões 76/62 Super Rapid das FCT. O valor publicado é estimado, portanto, deve ser tratado como referência da contratação e não necessariamente como o desembolso final até a conclusão de todas as etapas contratuais.

A escolha da MOM-A1 também evidencia uma tendência importante na artilharia naval contemporânea: a evolução da capacidade não ocorre necessariamente pelo aumento do calibre, mas pela combinação entre sensores, direção de tiro, programação da munição e diferentes efeitos terminais.

No caso brasileiro, essa combinação ganha importância diante da necessidade de proteger escoltas contra ameaças convencionais e assimétricas, incluindo aeronaves, mísseis, embarcações de menor porte e sistemas aéreos não tripulados. A munição programável permite que o mesmo canhão seja empregado em diferentes cenários, desde que integrado aos sensores e ao sistema de controle de tiro adequado.

Um novo componente da capacidade de combate das FCT

A aquisição da MOM-A1 deve ser entendida, portanto, como parte da transição das Fragatas Classe Tamandaré da condição de plataformas em construção para meios dotados de capacidade operacional efetiva. O canhão 76/62 Super Rapid já representa uma solução de elevada cadência e versatilidade; a incorporação de munição programável amplia o número de opções disponíveis ao sistema de combate.

Há ainda um aspecto relevante de logística. A documentação italiana registra a MOM-A1 como munição de uso militar e confirma sua classificação específica para o cartucho 76/62 HE MOM A1. Registros oficiais italianos também documentam a configuração da munição com a espoleta 4AP.

Para a Marinha do Brasil, o ponto central está na integração entre o armamento, a munição e o sistema de combate das FCT. O 76/62 deixa de ser analisado apenas como uma torre de artilharia e passa a funcionar como um elemento conectado à arquitetura de sensores e direção de tiro do navio, capaz de receber diferentes parâmetros de engajamento e selecionar o efeito adequado de acordo com a ameaça.

Com 1.000 unidades previstas nesta primeira aquisição e investimento estimado em R$ 38,082 milhões, a Marinha dá um passo concreto na constituição do estoque inicial de munição para os 76/62 das Fragatas Classe Tamandaré. Mais do que abastecer um novo armamento, a medida representa a incorporação de uma munição que explora uma das principais evoluções da artilharia naval moderna: transformar programação, sensores e precisão de emprego em capacidade de combate, mantendo a elevada cadência de fogo de um sistema de 76 mm.


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