A presença de uma delegação da Marinha do Brasil na Türkiye, revelada nos últimos dias, acrescenta um novo elemento à aproximação naval entre os dois países e levanta uma questão que merece ser analisada sob o ponto de vista operacional: estaria a MB avaliando soluções turcas para ampliar a defesa de ponto de seus navios? O GÖKDENİZ 35 mm, desenvolvido pela ASELSAN, poderia estar entre os sistemas observados pela delegação brasileira. Até o momento, porém, não há confirmação oficial de que o equipamento esteja sendo avaliado pela Força.
A movimentação ocorre poucos dias depois da passagem do Navio-Escola Brasil por Istambul, entre 31 de agosto e 4 de setembro. Durante a escala, o comandante do navio, Capitão de Mar e Guerra Ricardo Lima Maia, e integrantes da delegação foram recebidos pelo Vice-Almirante Ramazan Özoğul, comandante da Área Marítima do Norte da Marinha da Türkiye. A visita ocorreu em um momento de intensificação do relacionamento bilateral no setor de defesa, após anos de aproximação política e industrial entre os dois países.
O contexto tecnológico dessa aproximação também merece atenção. A indústria de defesa turca desenvolveu uma cadeia própria de radares, guerra eletrônica, sensores eletro-ópticos, mísseis, sistemas de gerenciamento de combate e armas de defesa aproximada. Para a Marinha brasileira, que precisa ampliar a capacidade de sobrevivência de seus meios diante da evolução das ameaças aéreas, esse conjunto oferece referências que podem ser confrontadas com as necessidades nacionais.
O GÖKDENİZ é um dos exemplos mais relevantes. Desenvolvido pela ASELSAN, o sistema é um CIWS de 35 mm equipado com dois canhões automáticos e concebido para enfrentar mísseis antinavio, aeronaves, helicópteros, VANTs e ameaças assimétricas de superfície. A configuração 100/35StA emprega munição programável ATOM e integra sensores e controle de tiro à solução de defesa aproximada.
O interesse para a MB está menos no calibre do armamento do que na combinação entre detecção, acompanhamento, controle de tiro e munição programável. Essa arquitetura cria uma camada terminal capaz de reagir contra ameaças que atravessem defesas de maior alcance ou sejam detectadas já dentro de uma janela reduzida de resposta. Contra drones e outros vetores de menor custo, também permite discutir uma relação mais equilibrada entre o valor do alvo e o custo do interceptador.
A mudança do ambiente de guerra naval reforça essa questão. Mísseis antinavio de baixa altitude continuam representando uma ameaça crítica, mas agora dividem o espaço operacional com VANTs, munições de ataque de baixo custo e ataques de saturação. A defesa precisa combinar alcance, velocidade de reação, probabilidade de interceptação e custo por engajamento, evitando utilizar uma solução de alto valor contra toda e qualquer ameaça.
É nesse ponto que o GÖKDENİZ deve ser observado em conjunto com o GÖKSUR 100-N, desenvolvido pela ASELSAN em parceria com o TÜBİTAK SAGE. O sistema emprega mísseis para defesa de ponto, possui alcance efetivo declarado de 15 quilômetros, capacidade de engajamento múltiplo e integração ao sistema de gerenciamento de combate. O míssil utiliza buscador infravermelho de imagem e enlace de dados bidirecional, tendo entre seus alvos prioritários mísseis antinavio e de cruzeiro que voam próximo à superfície.
Essa combinação permite analisar uma arquitetura na qual o GÖKSUR atua em uma faixa anterior e o GÖKDENİZ constitui a camada terminal. Para a MB, o interesse está em determinar como sensores, mísseis e armas de defesa aproximada poderiam trabalhar de forma integrada diante de ataques múltiplos.
Outra solução que merece entrar nessa comparação é o LEVENT, da ROKETSAN. Trata-se de um sistema de defesa antiaérea de curto alcance desenvolvido para plataformas navais, com possibilidade de operar integrado aos sensores do navio ou utilizando seus próprios meios de detecção. Os dados fornecidos pela empresa indicam alcance de até 11 quilômetros, buscador infravermelho associado a sensor passivo de radiofrequência e capacidade contra aeronaves, helicópteros, VANTs e mísseis antinavio.
A existência dessas três soluções é relevante porque permite comparar arquiteturas, e não simplesmente equipamentos. GÖKDENİZ, GÖKSUR e LEVENT empregam tecnologias diferentes para enfrentar ameaças semelhantes, oferecendo à MB parâmetros para analisar alcance, sensores, resistência à guerra eletrônica, capacidade contra alvos de baixa assinatura, engajamento múltiplo, logística e integração ao sistema de combate.
A experiência turca ganha ainda mais peso quando observada no nível da plataforma. A modernização da fragata TCG Oruçreis envolveu 21 sistemas, incluindo o radar de vigilância CENK, o radar de controle de tiro AKREP, sistemas de guerra eletrônica ARES e AREAS, o sistema PİRİ, GÖKDENİZ, o sistema de contramedidas contra torpedos HIZIR e o sonar FERSAH. O programa demonstra a capacidade de integrar diferentes subsistemas em uma arquitetura nacional de combate naval.
Esse aspecto é particularmente importante para o Brasil. A eficiência de um sistema de defesa de ponto depende da qualidade dos sensores, do gerenciamento de combate, dos enlaces de dados e da capacidade de identificar e priorizar ameaças. A vantagem não está apenas na arma, mas no tempo necessário para transformar uma detecção em solução de tiro e decisão de engajamento.
A modernização do TCG Oruçreis também oferece uma referência para a atualização de plataformas existentes. Para uma Marinha que precisa conciliar novas construções, manutenção e evolução tecnológica de meios em serviço, programas desse tipo podem fornecer parâmetros sobre como incorporar capacidades contemporâneas sem depender exclusivamente da substituição das plataformas.
Essa possibilidade ganha relevância quando se observa a atual composição da Esquadra. O NAM Atlântico e o NDM Oiapoque desempenham funções distintas das fragatas, mas são plataformas de elevado valor operacional e estratégico, cuja capacidade de autodefesa contra ameaças aéreas poderia ser ampliada. A eventual integração de uma solução de defesa de ponto não significaria transformar esses navios em plataformas de combate autônomas, mas acrescentar uma camada de proteção compatível com sua importância e com as missões que podem desempenhar em ambientes de maior ameaça.
No caso das fragatas classe Tamandaré, a discussão pode ser ainda mais oportuna. Com a Marinha em breve avançando para um segundo lote da classe, a experiência acumulada com as primeiras unidades permitiria avaliar eventuais aprimoramentos na arquitetura de defesa, incluindo uma capacidade de defesa de ponto mais robusta e estruturada em camadas. Sistemas como GÖKDENİZ, GÖKSUR ou outras soluções disponíveis no mercado poderiam ser comparados tecnicamente nesse processo, ao lado das alternativas nacionais.
Não há, até o momento, confirmação pública de que o GÖKDENİZ esteja sendo avaliado para as fragatas classe Tamandaré, o NAM Atlântico, o NDM Oiapoque ou qualquer outro navio brasileiro, tampouco de que a delegação tenha realizado uma avaliação formal do sistema. O que existe é uma oportunidade concreta para observar soluções que respondem a problemas presentes na agenda operacional da MB.
A classe Tamandaré é naturalmente uma referência nesse debate por representar o núcleo da renovação da Esquadra, mas a discussão não precisa ficar limitada a ela. Diferentes classes de navios podem demandar níveis distintos de defesa contra drones, mísseis e outras ameaças aéreas, de acordo com seu valor, missão e área de emprego.
Para a Amazônia Azul, essa questão assume uma dimensão adicional. A Marinha precisa preservar capacidade de presença e reação em uma área marítima de dimensões continentais, o que exige combinar plataformas, sensores e armas dentro de uma arquitetura sustentável. A defesa de ponto é uma dessas capacidades e precisa ser dimensionada de acordo com a importância e a vulnerabilidade de cada meio.
Também existe uma dimensão industrial. Qualquer eventual cooperação deveria considerar a participação da Base Industrial de Defesa brasileira, capacidade de integração nacional, manutenção, treinamento, suporte logístico, domínio de interfaces e possibilidade de evolução do sistema. A experiência turca é interessante justamente porque demonstra como o domínio de componentes críticos pode transformar uma necessidade operacional em capacidade industrial exportável.
Por isso, a pergunta mais importante não é simplesmente se o Brasil deveria comprar o GÖKDENİZ. O ponto é verificar se as soluções desenvolvidas pela Türkiye oferecem vantagens técnicas, operacionais ou industriais que justifiquem sua comparação com alternativas nacionais e estrangeiras.
A passagem do N.E. Brasil por Istambul e a posterior presença de uma delegação da Marinha brasileira ocorrem no momento em que essa comparação pode ser particularmente produtiva. Sem atribuir à missão objetivos que não foram oficialmente divulgados, a aproximação abre espaço para que a MB conheça diretamente uma arquitetura naval construída em torno de sensores, guerra eletrônica, mísseis e defesa aproximada de desenvolvimento nacional.
Se o GÖKDENİZ está efetivamente entre os sistemas observados pela delegação brasileira, ainda não se sabe. Mas suas características, somadas às soluções complementares oferecidas pelo GÖKSUR e pelo LEVENT, justificam que a capacidade turca seja colocada lado a lado com as alternativas disponíveis no mercado internacional e com os caminhos tecnológicos que o próprio Brasil pretende desenvolver.
Para uma Marinha diante de ameaças cada vez mais diversificadas, ampliar o universo de soluções disponíveis é parte da própria construção de capacidade. Nesse sentido, uma avaliação técnica e comparativa do GÖKDENİZ e de seus sistemas complementares poderia oferecer à MB mais um parâmetro para decidir como deverá ser estruturada a defesa de ponto das plataformas que operarão na Amazônia Azul nas próximas décadas.
por Angelo Nicolaci
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