segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Rafale M realiza primeiro pouso no porta-aviões INS Vikrant da Marinha Indiana

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A variante embarcada Rafale M, desenvolvido pela francesa Dassault Aviation, realizou em 29 de outubro seu primeiro pouso no porta-aviões INS Vikrant da Marinha Indiana. A operação foi concluída com sucesso na primeira tentativa e representa um marco no processo de integração da aeronave ao navio-aeródromo indiano, que deverá receber o modelo como parte da modernização de sua aviação naval.

A Marinha Indiana divulgou o resultado em 30 de outubro, acompanhando o anúncio com imagens do pouso. Segundo a instituição, os ensaios em andamento representam os primeiros passos para a futura operacionalização do Rafale M em sua estrutura de aviação embarcada. O comunicado, entretanto, não detalhou todas as etapas ainda necessárias para a conclusão do processo de integração.

O teste está relacionado ao programa de aquisição de 26 aeronaves Rafale Marine, contratado junto à França em abril de 2025. O acordo intergovernamental, assinado em 28 de abril daquele ano, contempla 22 caças monopostos e quatro aeronaves biposto, além de treinamento de tripulações, simuladores, equipamentos associados, armamentos e suporte logístico baseado em desempenho.

Programa de aquisição e modernização da aviação naval

A contratação dos Rafale M foi formalizada em um acordo de aproximadamente 63 mil crore de rúpias, equivalente a cerca de US$ 7,5 bilhões na divulgação internacional do contrato. As aeronaves foram selecionadas para equipar os porta-aviões INS Vikrant e INS Vikramaditya, ampliando as opções disponíveis à Marinha Indiana para suas operações aéreas embarcadas.

O Rafale M é a versão naval do caça francês Rafale, desenvolvida para operar a partir de porta-aviões. Sua aquisição permitirá à Índia incorporar uma plataforma de combate embarcada que compartilha características e sistemas com os Rafale já operados pela Força Aérea Indiana, favorecendo a interoperabilidade, treinamento, logística e suporte.

De acordo com o Ministério da Defesa indiano, o contrato também contempla transferência de tecnologia para permitir a integração de armamentos de fabricação local às aeronaves. O acordo prevê ainda a instalação de uma unidade de produção de fuselagens do Rafale na Índia, além de estruturas de manutenção, reparo e revisão geral para motores, sensores e armamentos. Essas iniciativas estão inseridas no esforço de ampliar a participação da indústria indiana no programa e sua integração à cadeia de fornecimento da aeronave.

O cronograma oficial estabelece que a entrega das 26 aeronaves seja concluída até 2030, com treinamento das tripulações na França e na Índia. A incorporação dos caças deverá ampliar a capacidade de operação aérea dos dois porta-aviões indianos, proporcionando à Marinha uma nova plataforma para suas missões no ambiente marítimo.

Um marco na integração ao INS Vikrant

O primeiro pouso bem-sucedido no INS Vikrant representa uma etapa importante para a futura operação do Rafale M a partir do porta-aviões de construção indiana. O resultado demonstra o avanço dos ensaios de integração entre a aeronave e o navio, mas não significa que a incorporação operacional esteja concluída.

Com as entregas previstas para os próximos anos, a Marinha Indiana seguirá conduzindo as etapas necessárias à preparação de suas tripulações e à integração do novo caça à estrutura embarcada. O ensaio de 29 de outubro marca, assim, o início de uma nova fase do programa, aproximando a aviação naval indiana da operação do Rafale Marine em seus porta-aviões.


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França transforma Rafale em laboratório voador para desenvolver o futuro padrão F5

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A Direção-Geral de Armamento da França (DGA) recebeu o Rafale B374, primeira aeronave do modelo destinada ao centro DGA Essais en vol na configuração de avião-banco de ensaios (ABE). A aeronave será utilizada no desenvolvimento e na avaliação de equipamentos e armamentos previstos para as futuras evoluções do caça, incluindo o padrão F5.

Construído pela Dassault Aviation, o B374 foi entregue na configuração F4.1 e corresponde à 73ª e última aeronave do quarto lote de produção do Rafale. Antes de receber as modificações permanentes, o caça será equipado com instalações reversíveis de ensaio e medição. Essa configuração inicial permitirá que participe das atividades de desenvolvimento do padrão atualmente em serviço, enquanto são preparados os trabalhos necessários para sua transformação em uma plataforma dedicada aos testes de voo.

A próxima etapa está prevista para o segundo trimestre de 2027, quando a Dassault Aviation realizará uma modificação mais abrangente na aeronave. O trabalho incluirá a instalação das interfaces necessárias para que a DGA Essais en vol incorpore instrumentação completa e permanente, ampliando os recursos disponíveis para acompanhar e avaliar os sistemas submetidos aos ensaios.

Preparação para os testes do Rafale F5

A configuração de avião-banco de ensaios permitirá que o B374 opere como um laboratório voador, equipado com instrumentos de medição, registradores de dados e ligação de dados com as equipes responsáveis pelo acompanhamento das atividades em solo. Esses recursos permitirão avaliar tecnologias aeronáuticas em condições reais de voo, incluindo sistemas de navegação e ataque, sensores, armamentos, comunicações e softwares embarcados.

O retorno da aeronave à frota de ensaios está previsto para 2028. Nessa etapa, o B374 deverá incorporar uma versão específica, denominada “laranja”, do Ensemble Modulaire de Traitement de l’Information (EMTI), sistema modular de processamento de informações que utiliza um software de computador de bordo configurado especialmente para atividades de teste.

Essa configuração permitirá a instalação e avaliação de futuros sensores previstos para o padrão F5, entre eles o radar de nova geração RBE2 XG, que se encontra em desenvolvimento. Além de apoiar os trabalhos relacionados ao F5, o B374 também será empregado nos ensaios das próximas evoluções do padrão F4.

Renovação da frota de ensaios

O B374 será o primeiro Rafale configurado como avião-banco de ensaios (ABE) incorporado diretamente à DGA Essais en vol, substituindo o B348, que vinha sendo disponibilizado ao centro por meio de um empréstimo de longo prazo da Força Aérea e Espacial Francesa. Sua chegada faz parte do processo de renovação da frota de aeronaves empregadas pela DGA na avaliação de sistemas aeronáuticos e armamentos, assegurando uma plataforma dedicada ao acompanhamento das evoluções tecnológicas do Rafale. Após as modificações previstas, o B374 permitirá concentrar em uma única aeronave os recursos de instrumentação e medição necessários aos ensaios de voo, apoiando tanto a validação de atualizações do padrão F4 quanto o desenvolvimento e a integração de tecnologias destinadas ao futuro F5.


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Saab inicia produção da nova lancha de combate CB90 CX para a Marinha da Suécia

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A Saab apresentou a CB90 CX (Combat Boat 90 Capability X), nova versão da família de embarcações de combate CB90, desenvolvida para ampliar as capacidades operacionais da plataforma. A embarcação incorpora sistemas atualizados e maior capacidade de carga útil, passando a oferecer configurações voltadas à guerra antinavio, inteligência, vigilância e reconhecimento, além de defesa aérea de curto alcance. A produção da nova embarcação já está em andamento para a Suécia, seu cliente lançador. A Marinha sueca deverá operar a CB90 CX em conjunto com a CB90 NG, versão de menor porte da família.

Segundo a Saab, a CB90 CX é maior que suas antecessoras e foi projetada para operar em uma gama mais ampla de condições marítimas. A plataforma mantém características das versões anteriores, tradicionalmente empregadas no transporte de tropas, mas incorpora capacidade para receber uma variedade maior de equipamentos e sistemas de missão.

Um dos principais elementos da nova embarcação é o Núcleo Oceânico Autônomo da Saab, desenvolvido para permitir operações tripuladas e não tripuladas. A empresa não detalhou no anúncio os níveis de autonomia disponíveis nem os procedimentos específicos previstos para cada modalidade de operação.

Três configurações operacionais

A CB90 CX foi apresentada com três configurações distintas, cada uma direcionada a uma função operacional.

Na configuração de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), a embarcação utiliza o radar Giraffe 1X, também desenvolvido pela Saab, para ampliar a consciência situacional em múltiplos domínios. A versão antinavio foi concebida para proporcionar capacidade de ataque contra embarcações de superfície além do horizonte. O comunicado, entretanto, não identifica o armamento que será empregado nessa configuração nem apresenta informações sobre alcance ou parâmetros de engajamento. Já a configuração de defesa aérea de curto alcance utiliza um canhão automático antiaéreo, acrescentando uma capacidade específica de proteção contra ameaças aéreas.

De acordo com a Saab, as três configurações poderão operar conjuntamente ou integradas a uma força mais ampla, combinando vigilância e armamentos em diferentes posições e áreas de atuação.

Uma evolução da família CB90

A nova CB90 CX preserva a proposta básica da família CB90, mas amplia o conjunto de capacidades que podem ser incorporadas à plataforma. A possibilidade de operar com ou sem tripulação também representa uma das principais novidades anunciadas pela fabricante.

“Ao passo que as realidades operacionais mudam, o mesmo acontece com a CB90”, afirmou Anders Hellman, chefe da unidade de negócios Docksta da Saab. Segundo o executivo, o futuro das operações navais envolve distribuir maior capacidade de combate por toda a força, e não apenas ampliar o número de plataformas disponíveis.

A família CB90 está em serviço em nove marinhas, distribuídas pela Europa, Oriente Médio, África, Ásia-Pacífico e Américas. Com a CB90 CX, a Saab amplia a oferta da linha, mantendo a plataforma voltada a diferentes necessidades operacionais e incorporando novas configurações de missão. A Suécia será a primeira operadora da nova versão, que passará a integrar sua frota ao lado da CB90 NG.


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ZOPACAS 40 anos: Brasil e o desafio de transformar liderança diplomática em segurança estratégica no Atlântico Sul

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Quatro décadas depois de sua criação, a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul ganha novo impulso sob a presidência brasileira. Estratégia aprovada no Rio de Janeiro amplia a agenda para defesa, segurança marítima e proteção de infraestruturas críticas, mas sua efetividade dependerá da capacidade dos países-membros de converter compromissos políticos em iniciativas permanentes.

O Atlântico Sul ocupa uma posição que ultrapassa sua dimensão geográfica. É uma via essencial para o comércio internacional, abriga importantes recursos naturais, conecta economias de dois continentes e concentra infraestruturas indispensáveis ao funcionamento de sociedades cada vez mais dependentes da circulação de dados, energia e mercadorias. Cabos submarinos, portos, instalações offshore, rotas comerciais e áreas de exploração de recursos marinhos compõem uma rede de interesses estratégicos cuja proteção exige mais do que iniciativas isoladas de cada país.

É nesse contexto que a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS) chega aos 40 anos. Criada em 27 de outubro de 1986, por iniciativa brasileira e por meio da Resolução 41/11 da Assembleia Geral das Nações Unidas, a organização reúne 24 países da América do Sul e da costa ocidental africana. Sua concepção nasceu no ambiente internacional marcado pela Guerra Fria, pela disputa entre grandes potências e pela preocupação dos países da região em preservar o Atlântico Sul como espaço de paz, cooperação e desenvolvimento, afastado da lógica de confrontação militar que caracterizava outros ambientes estratégicos.

A iniciativa também refletia uma preocupação particularmente relevante para os países do hemisfério sul: impedir que a região se transformasse em palco de rivalidades externas, corrida armamentista ou instalação de estruturas militares capazes de comprometer sua autonomia política. A resolução que estabeleceu a ZOPACAS reforçou a necessidade de preservar a região como zona livre de armas nucleares e de outras armas de destruição em massa, ao mesmo tempo em que estimulava a cooperação econômica, científica, ambiental e política entre seus integrantes.

Quatro décadas depois, o cenário internacional é profundamente diferente, mas a preocupação que deu origem ao mecanismo permanece atual. A competição entre potências voltou a ocupar posição central na agenda internacional, enquanto a segurança marítima passou a envolver ameaças que não se limitam à presença de forças navais convencionais. Ações de espionagem, pesca ilegal, tráfico internacional, sabotagem, ameaças cibernéticas e riscos às infraestruturas submarinas ampliaram a complexidade da proteção dos espaços marítimos.

A preservação do Atlântico Sul como região de paz, portanto, não significa ignorar os riscos ou abrir mão da capacidade de defesa. Ao contrário, exige que os países costeiros desenvolvam condições para conhecer o que acontece em suas águas, proteger seus interesses e responder de maneira coordenada a ameaças que ultrapassam fronteiras nacionais.

Uma iniciativa estratégica que precisa superar os períodos de baixa atividade

A trajetória da ZOPACAS demonstra que sua relevância política nem sempre foi acompanhada por continuidade institucional. Embora tenha sido criada em 1986, o mecanismo enfrentou longos intervalos entre suas reuniões ministeriais. Depois de encontros realizados em diferentes momentos de sua história, a VIII Reunião Ministerial ocorreu apenas em 2023, em Mindelo, Cabo Verde, dez anos após a reunião anterior, realizada em Montevidéu.

Esse intervalo evidencia uma das principais fragilidades históricas da iniciativa: a dificuldade de manter uma agenda de trabalho contínua entre as reuniões de alto nível. A existência de objetivos comuns e de declarações políticas não assegura, por si só, a execução de projetos, a manutenção de canais de comunicação ou a construção de capacidades compartilhadas.

A Resolução 75/312 da Assembleia Geral da ONU de 2021, contribuiu para a retomada institucional ao estimular a realização periódica de reuniões ministeriais e encontros anuais à margem da Assembleia Geral. A reunião de Mindelo em 2023, representou um passo importante nesse processo, e a presidência cabo-verdiana impulsionou discussões que contribuíram para a construção de uma agenda mais organizada de cooperação.

O Brasil assumiu novamente papel central em abril de 2026, quando sediou no Rio de Janeiro, a IX Reunião Ministerial da ZOPACAS. O encontro, realizado nos dias 8 e 9 de abril, reuniu representantes de 21 dos 24 Estados-membros e marcou o início da presidência brasileira pro tempore, que sucedeu Cabo Verde e terá duração de três anos.

Mais importante do que a transferência da presidência foi a adoção da Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro, documento que procura estabelecer uma metodologia de trabalho e organizar as prioridades dos países participantes. A reunião também aprovou a Declaração do Rio de Janeiro, reafirmando os princípios políticos que orientam o mecanismo.

A nova estratégia representa uma tentativa de superar o modelo baseado predominantemente em encontros diplomáticos e declarações de intenção. O documento organiza a cooperação em 11 blocos temáticos, distribuídos entre áreas relacionadas à governança oceânica, defesa e segurança marítimas, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.

O instrumento, entretanto, possui natureza política e cooperativa não vinculante. Isso significa que não cria obrigações jurídicas internacionais automáticas para os países participantes. A adesão a cada bloco e às respectivas ações é voluntária, condicionada às legislações nacionais, às políticas públicas e aos recursos disponíveis de cada Estado.

Essa característica preserva a flexibilidade diplomática da ZOPACAS, mas também impõe uma exigência: a continuidade das iniciativas dependerá da disposição política dos governos, da capacidade de coordenação e da disponibilidade de recursos para transformar as propostas em atividades efetivas.

Segurança marítima e defesa: o núcleo estratégico da nova agenda

Entre os aspectos mais relevantes da Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro está a ampliação da agenda de defesa e segurança marítima. A proteção do Atlântico Sul deixou de ser uma questão restrita à defesa das águas territoriais e passou a envolver um conjunto de interesses que se estendem por toda a infraestrutura econômica, energética e digital da região.

O documento prevê iniciativas de cooperação em defesa, intercâmbio de instrutores e alunos, desenvolvimento de projetos conjuntos relacionados a materiais, equipamentos e sistemas de defesa, consultas entre os países e realização de exercícios. Também estimula a aquisição preferencial de produtos, sistemas e plataformas de vigilância produzidos pelos próprios Estados-membros, desde que atendidos padrões de interoperabilidade.

Esse ponto merece atenção especial. A cooperação em defesa não se resume à realização de exercícios ou à aproximação entre instituições militares. Ela pode criar oportunidades para que os países da região desenvolvam soluções tecnológicas, ampliem a capacidade de suas indústrias e reduzam vulnerabilidades decorrentes da dependência externa em áreas consideradas estratégicas.

Para o Brasil, essa agenda dialoga diretamente com os interesses da Base Industrial de Defesa. O país possui empresas e instituições capazes de fornecer sistemas de comunicação, sensores, radares, soluções de vigilância, plataformas navais, aeronaves e equipamentos empregados em diferentes ambientes operacionais. A aproximação com países africanos pode abrir oportunidades para projetos conjuntos, capacitação, transferência de conhecimento e integração de sistemas.

Entretanto, a possibilidade de cooperação industrial dependerá de iniciativas concretas, estudos de requisitos, financiamento, acordos entre governos e capacidade de sustentação dos equipamentos ao longo de seu ciclo de vida. A existência de uma previsão na estratégia não significa que contratos ou programas de aquisição tenham sido estabelecidos.

Outro eixo importante é o fortalecimento da Consciência Situacional Marítima. Conhecer o tráfego, identificar embarcações suspeitas, acompanhar atividades em áreas de interesse e compartilhar informações são capacidades fundamentais para a segurança marítima. Nenhum país precisa, ou consegue, manter isoladamente vigilância permanente sobre toda a extensão dos espaços oceânicos que afetam seus interesses.

A cooperação entre centros de monitoramento, autoridades marítimas e forças navais pode ampliar a capacidade de identificar atividades irregulares e construir um quadro mais abrangente da situação no mar. Para isso, porém, é necessário estabelecer procedimentos de compartilhamento de informações, padrões técnicos, mecanismos de proteção de dados e canais de comunicação que funcionem também fora dos períodos de exercício.

A interoperabilidade, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como a capacidade de equipamentos diferentes operarem em conjunto. Ela envolve doutrina, treinamento, protocolos, comunicações e confiança institucional. Sem esses elementos, a disponibilidade de sensores e sistemas de vigilância não se converte necessariamente em uma resposta coordenada.

Cabos submarinos, energia e infraestruturas críticas: a dimensão menos visível da segurança

A proteção das infraestruturas críticas marítimas constitui outra frente de grande relevância para o futuro da ZOPACAS. Os cabos submarinos de telecomunicações transportam parcela essencial do tráfego internacional de dados, conectando continentes, centros financeiros, governos e sistemas de comunicação. Sua interrupção pode produzir efeitos que ultrapassam o setor de telecomunicações, afetando serviços públicos, operações comerciais e atividades econômicas.

O Atlântico Sul também abriga instalações portuárias, plataformas de exploração de petróleo e gás, terminais, rotas de abastecimento e estruturas de apoio à atividade marítima. No caso brasileiro, a dimensão energética é particularmente significativa, considerando a importância da produção offshore e a concentração de atividades econômicas em áreas marítimas.

A proteção desses ativos exige coordenação entre autoridades civis, operadores privados, órgãos de inteligência e instituições de defesa. Também demanda capacidade de monitoramento, identificação de anomalias e resposta a incidentes que podem envolver desde acidentes e danos ambientais até ações deliberadas de sabotagem.

A Estratégia do Rio de Janeiro reconhece a proteção de infraestruturas críticas como tema de cooperação. A inclusão desse assunto demonstra uma compreensão mais ampla da segurança marítima, na qual a proteção do oceano não se limita à defesa contra ameaças militares tradicionais.

A questão central será definir como essa cooperação poderá funcionar na prática. O compartilhamento de informações sobre incidentes, a realização de avaliações conjuntas de risco, o intercâmbio de boas práticas e a capacitação de equipes especializadas são caminhos possíveis. A construção de mecanismos permanentes de comunicação entre os países seria especialmente importante para evitar que cada ocorrência seja tratada como um episódio isolado.

Também será necessário considerar as diferenças de capacidade entre os membros. Alguns países possuem estruturas avançadas de vigilância e resposta, enquanto outros enfrentam limitações de recursos, tecnologia e pessoal especializado. Uma agenda de cooperação efetiva deverá considerar essas assimetrias e buscar soluções que permitam ampliar a capacidade regional sem criar dependências excessivas.

A aproximação com a África e a dimensão industrial da cooperação

A ZOPACAS possui uma característica geopolítica singular: reúne países sul-americanos e africanos em torno de um espaço marítimo compartilhado. Essa configuração oferece ao Brasil uma oportunidade de ampliar sua presença diplomática e estratégica na costa ocidental africana, região que possui importância crescente para o comércio, a segurança marítima, a exploração de recursos naturais e a conectividade entre os dois continentes.

A relação com os países africanos não deve ser tratada apenas como uma agenda de política externa. Existe uma dimensão econômica e tecnológica que pode aproximar instituições de pesquisa, universidades, centros de formação militar e empresas da Base Industrial de Defesa.

A cooperação pode abranger formação de pessoal, manutenção de equipamentos, intercâmbio de experiências operacionais, desenvolvimento de soluções de vigilância e projetos conjuntos em áreas nas quais o Brasil possui conhecimento acumulado. A experiência brasileira em operações navais, monitoramento marítimo, construção naval e desenvolvimento de sistemas de defesa pode oferecer oportunidades de colaboração, desde que exista demanda identificada e capacidade de execução.

A própria estratégia estimula projetos conjuntos de materiais, equipamentos e serviços de defesa, além de incentivar a preferência por produtos desenvolvidos pelos países da região. Trata-se de uma diretriz que pode favorecer a integração industrial, mas cuja implementação dependerá de condições comerciais, financiamento, padronização e confiança entre os participantes.

Para o GBN Defense, esse é um dos aspectos que merece acompanhamento: a ZOPACAS pode funcionar como ambiente de aproximação entre a demanda por segurança marítima dos países africanos e as capacidades tecnológicas e industriais disponíveis no Brasil. Contudo, essa possibilidade somente ganhará consistência quando surgirem projetos identificáveis, apoio do governo federal, fontes de financiamento, objetivos definidos de politica externa e de comércio exterior.

Meio ambiente marinho: o primeiro acordo negociado no âmbito da ZOPACAS

A agenda ambiental também ganhou um instrumento de maior alcance durante a reunião ministerial de abril. Em 9 de abril de 2026, foi assinada no Rio de Janeiro a Convenção para a Proteção do Meio Ambiente Marinho no Atlântico Sul, apresentada pelo governo brasileiro como o primeiro acordo negociado no âmbito da ZOPACAS.

O texto estabelece compromissos de cooperação, capacitação, prevenção e controle de danos ao ambiente marinho, além de prever medidas de proteção de espécies, intercâmbio de informações e promoção da cultura oceânica. Sua importância está em reconhecer que a preservação do Atlântico Sul exige uma abordagem regional, especialmente diante de problemas que não respeitam limites marítimos nacionais, como poluição, degradação de ecossistemas e atividades pesqueiras irregulares.

É necessário, porém, distinguir assinatura de entrada em vigor. A convenção prevê que começará a produzir efeitos internacionais 30 dias após o depósito do quarto instrumento de ratificação. Na consulta ao Portal Concórdia, do Itamaraty, em 2 de novembro de 2026, o acordo ainda aparecia como assinado/adotado, em tramitação no Ministério das Relações Exteriores, sem registro de instrumentos de ratificação depositados ou de entrada em vigor.

Portanto, embora a assinatura represente um avanço diplomático, a convenção ainda depende das etapas internas e internacionais necessárias para se tornar juridicamente efetiva. Esse processo será um indicador importante da disposição dos países em transformar compromissos ambientais em obrigações concretas.

A dimensão ambiental também possui relação direta com a segurança marítima. A degradação de ecossistemas, a pesca ilegal e a exploração inadequada de recursos podem comprometer a estabilidade econômica de comunidades costeiras e ampliar tensões entre países. A proteção ambiental, nesse sentido, não é uma agenda paralela à segurança: integra a própria sustentabilidade dos interesses marítimos da região.

O desafio da implementação começa agora

A Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro estabeleceu um método para organizar o trabalho. Os países poderiam manifestar interesse em participar de blocos específicos no prazo de até um mês após a adoção do documento. Depois da formação dos blocos, deveriam ser designados coordenadores em até 45 dias. Cada bloco deverá elaborar um programa de ação em até sete meses a partir da adoção da estratégia, contendo iniciativas acordadas, cronograma indicativo e, quando possível, necessidades de recursos e fontes potenciais de financiamento.

O documento também prevê mecanismos de acompanhamento. Os participantes deverão informar resultados, desafios e lições aprendidas a partir das ações concluídas, permitindo avaliar a evolução dos projetos e considerar sua ampliação para outros parceiros.

A dimensão institucional também merece atenção. Ao encerrar a reunião ministerial de abril, o chanceler Mauro Vieira anunciou a criação no Ministério das Relações Exteriores, de uma unidade dedicada exclusivamente à ZOPACAS, que deverá sediar o Centro de Pontos Focais do mecanismo. A estrutura foi concebida para supervisionar e coordenar a implementação da estratégia e de seus programas de ação.

A iniciativa responde a uma fragilidade histórica: a necessidade de manter a articulação entre os países mesmo quando não há reuniões ministeriais. Sem uma estrutura de acompanhamento, a continuidade das ações tende a depender excessivamente da iniciativa individual de governos ou de instituições participantes.

O 3º Simpósio Marítimo da ZOPACAS realizado em 10 de abril, foi apresentado pelo chanceler como a primeira entrega concreta da estratégia recém-adotada. O encontro coordenado pela Marinha do Brasil, reuniu autoridades civis e militares para discutir o fortalecimento da cooperação marítima e da segurança no Atlântico Sul. Sua realização demonstrou a possibilidade de dar continuidade técnica à agenda ministerial, embora um simpósio, por si só, não represente a criação de uma capacidade operacional permanente.

Em 27 de outubro, data em que a ZOPACAS completou quatro décadas, a Escola Superior de Defesa (ESD) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) promoveram o seminário “40 anos da ZOPACAS: cooperação e paz no entorno estratégico”. O encontro reuniu autoridades, pesquisadores e especialistas para discutir a relevância estratégica do Atlântico Sul e as perspectivas de cooperação entre os países da região. A programação acadêmica contribuiu para o debate sobre o futuro do mecanismo, mas não deve ser confundida com uma nova deliberação ministerial ou com a execução de projetos operacionais.

O Atlântico Sul como responsabilidade estratégica brasileira

Para o Brasil, a presidência da ZOPACAS representa uma oportunidade de articular interesses que já fazem parte da política de defesa e de sua estratégia marítima. A dimensão do litoral, a extensão das águas sob jurisdição nacional, a importância da Amazônia Azul, a exploração de petróleo e gás, os recursos pesqueiros e a dependência de rotas marítimas e cabos submarinos tornam a estabilidade do Atlântico Sul uma questão diretamente ligada à soberania e ao desenvolvimento nacional.

Essa responsabilidade não pode ser exercida apenas por meio de declarações diplomáticas. A liderança brasileira exigirá capacidade de articulação, continuidade institucional e disposição para contribuir com meios técnicos, conhecimento, formação e projetos que também atendam às necessidades dos parceiros africanos.

A Marinha do Brasil possui papel relevante nesse processo, tanto pela experiência acumulada em operações e exercícios quanto pela capacidade de promover intercâmbio profissional e cooperação naval. Entretanto, a complexidade dos desafios exige participação coordenada de diferentes órgãos do Estado, incluindo Defesa, Relações Exteriores, ciência e tecnologia, meio ambiente, autoridades portuárias e operadores de infraestruturas críticas.

Também será necessário preservar a coerência entre a ambição diplomática e a capacidade nacional de sustentação. A cooperação regional não substitui a responsabilidade brasileira de manter meios navais, sistemas de vigilância, pessoal especializado e estruturas capazes de proteger os próprios interesses marítimos. Da mesma forma, a construção de uma agenda comum não deve ser interpretada como a formação de uma aliança militar ou de uma força naval permanente. A ZOPACAS continua sendo um mecanismo de articulação política e cooperação, não uma organização de defesa coletiva.

A diferença é importante: preservar o Atlântico Sul como zona de paz não significa desconsiderar a competição internacional ou renunciar à capacidade de dissuasão. Significa fortalecer a autonomia dos países da região para decidir seus próprios caminhos, proteger seus recursos e cooperar diante de ameaças comuns, sem transformar o oceano em extensão de disputas externas.

Aos 40 anos, a ZOPACAS encontra uma oportunidade de renovar seu papel. A estratégia aprovada no Rio de Janeiro oferece uma estrutura mais organizada, a presidência brasileira estabelece uma responsabilidade política e os temas selecionados refletem a complexidade dos desafios contemporâneos. Mas a experiência das últimas décadas recomenda cautela: a distância entre o compromisso diplomático e a capacidade efetiva de cooperação pode ser grande.

O resultado dessa nova fase deverá ser medido por entregas verificáveis: programas de ação implementados, mecanismos de compartilhamento de informações em funcionamento, exercícios e capacitações realizados, projetos industriais desenvolvidos, infraestruturas críticas protegidas e instrumentos ambientais efetivamente ratificados.

O aniversário de 40 anos, portanto, não deve ser entendido apenas como uma celebração de sua trajetória. É um marco para avaliar se os países do Atlântico Sul estão dispostos a transformar uma visão política compartilhada em uma arquitetura de cooperação capaz de produzir resultados duradouros. Para o Brasil, o desafio é fazer da presidência uma oportunidade de liderança concreta, e não apenas mais um capítulo de sua diplomacia marítima.


por Angelo Nicolaci


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Pesquisa da EGN projeta economia bilionária na manutenção das Fragatas Tamandaré com novo modelo logístico

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Pesquisa sobre Logística Baseada em Desempenho identifica potencial de economia de até R$ 2 bilhões em 30 anos, mas evidencia que a disponibilidade da nova Esquadra dependerá de previsibilidade orçamentária, gestão logística e capacidade de sustentação industrial.

A construção de uma nova geração de fragatas representa muito mais do que a renovação dos meios da esquadra. Significa incorporar sistemas de combate mais complexos, sensores avançados, armamentos modernos e uma arquitetura tecnológica que exige uma estrutura de manutenção compatível com as capacidades operacionais pretendidas. Para a Marinha do Brasil, entretanto, o desafio não termina com a entrega das Fragatas Classe Tamandaré. É justamente a partir de sua entrada em serviço que começa uma das etapas mais importantes e financeiramente exigentes do programa: garantir sua disponibilidade ao longo das próximas décadas.

Essa questão foi examinada pelo oficial Alexandre Almeida dos Santos, em dissertação apresentada em 2024 à Escola de Guerra Naval (EGN), durante o Curso de Estado-Maior para Oficiais Superiores. Intitulado “A logística baseada em desempenho: viabilidade para a implantação nas Fragatas Classe ‘Tamandaré’”, o trabalho investiga a aplicação da Performance-Based Logistics (PBL), ou Logística Baseada em Desempenho, como alternativa para organizar a manutenção e o apoio logístico dos quatro navios.

A pesquisa parte de uma realidade conhecida pelas forças navais: a aquisição de um meio moderno não assegura, por si só, sua disponibilidade operacional. A capacidade de manter uma fragata pronta para cumprir suas missões depende de uma cadeia que envolve sobressalentes, reparos, documentação técnica, infraestrutura, pessoal especializado, atualização de sistemas e recursos financeiros continuamente disponíveis.

No caso brasileiro, essa equação ganha uma dimensão ainda maior diante das restrições orçamentárias enfrentadas pela Marinha e da necessidade de sustentar simultaneamente os meios que já compõem a Esquadra e aqueles que estão sendo incorporados por meio dos programas de modernização e renovação da esquadra.

O custo que começa depois da entrega

O debate sobre o Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT) costuma concentrar-se na construção dos navios, nas capacidades de combate e na participação da indústria nacional. São aspectos fundamentais, mas representam apenas parte do investimento necessário para transformar a nova classe em capacidade militar efetiva.

Uma fragata precisa permanecer operacional durante décadas, período no qual seus equipamentos estarão sujeitos a desgaste, falhas, obsolescência e necessidade de modernização. Sistemas de propulsão, geração de energia, sensores, comunicações, armamentos e gerenciamento de combate possuem ciclos de manutenção próprios e exigem planejamento permanente.

É nesse contexto que a Gestão do Ciclo de Vida (GCV) e o Apoio Logístico Integrado (ALI) assumem importância estratégica. Em vez de tratar a manutenção como uma necessidade posterior à aquisição, essas metodologias procuram incorporar desde a fase de obtenção os requisitos necessários para operar, reparar e sustentar os sistemas ao longo de sua vida útil.

A dissertação destaca que o modelo de obtenção por construção adotado no PFCT oferece vantagens nesse sentido. Diferentemente de uma compra de oportunidade, na qual frequentemente existem limitações para obter informações técnicas e históricos de manutenção, o desenvolvimento de um novo meio permite estruturar antecipadamente a documentação, os processos e os recursos necessários ao suporte logístico.

Essa é uma vantagem que precisa ser preservada. O investimento realizado na construção dos navios só alcançará seu pleno retorno se o conhecimento técnico e os instrumentos de gestão previstos no programa forem efetivamente incorporados à rotina da Marinha.

PBL: remunerar resultados, não apenas serviços

A Logística Baseada em Desempenho propõe uma mudança na relação entre o contratante e seus fornecedores. No modelo tradicional, a contratação costuma estar associada ao fornecimento de peças, à execução de reparos ou à realização de serviços específicos. No PBL, o foco passa a ser o resultado operacional previamente estabelecido.

Na prática, a Marinha poderia definir metas de disponibilidade de equipamentos, confiabilidade, tempo de resposta para reparos e cumprimento dos prazos de fornecimento de componentes. A remuneração do contratado estaria vinculada ao atendimento desses parâmetros, criando incentivos para reduzir falhas, antecipar necessidades de manutenção e melhorar a eficiência do suporte.

A lógica é interessante porque procura alinhar os interesses da Força e da indústria. O fornecedor deixa de ter como objetivo exclusivo executar intervenções e entregar componentes, passando a ter interesse direto em manter os sistemas disponíveis e reduzir a ocorrência de falhas que elevem os custos de sustentação.

A dissertação utiliza experiências internacionais para examinar essa possibilidade, incluindo contratos de apoio logístico aos motores dos helicópteros Apache, no Reino Unido, e às aeronaves de transporte C-130J Super Hercules da Força Aérea Australiana.

Essas experiências demonstram que o modelo pode ser aplicado a sistemas militares complexos. Entretanto, sua reprodução no Brasil exige considerar as características da estrutura industrial, a disponibilidade de fornecedores, os mecanismos de fiscalização e, principalmente, a capacidade de assegurar o cumprimento dos compromissos financeiros assumidos.

O PBL também não significa transferir integralmente a manutenção ou o conhecimento técnico à iniciativa privada. A Marinha precisa preservar competências próprias, domínio sobre a configuração dos sistemas, capacidade de fiscalização e condições para atuar diante de situações em que o fornecedor não consiga cumprir suas obrigações. Em sistemas de defesa, eficiência contratual e autonomia técnica precisam caminhar juntas.

A projeção financeira revela a dimensão do desafio

Um dos pontos mais expressivos do trabalho está na comparação entre os custos projetados de manutenção das quatro fragatas e os recursos destinados ao Programa Geral de Manutenção da Marinha (PROGEM).

Com base em informações levantadas em 2024, o pesquisador utilizou como referência um orçamento aproximado de R$ 371 milhões para o PROGEM naquele exercício. Para projetar a evolução desse montante até 2029, adotou uma expectativa de inflação anual de 4,02%, extraída do cenário econômico disponível à época.

A partir dessa premissa, o orçamento de referência alcançaria aproximadamente R$ 451,8 milhões em 2029.

Paralelamente, o estudo estimou os custos anuais de manutenção das quatro Fragatas Classe Tamandaré entre R$ 280 milhões e R$ 450 milhões, considerando a entrada de todos os navios na fase de operação e apoio.

A comparação é significativa. Pelas premissas adotadas na dissertação, a manutenção da nova classe poderia representar entre aproximadamente 62% e praticamente a totalidade do PROGEM projetado para 2029.

É importante ressaltar que não estamos diante de despesas já realizadas ou de dotações orçamentárias aprovadas para aquele exercício. São estimativas acadêmicas construídas em 2024, com base nas informações e premissas disponíveis naquele momento. A evolução dos preços, os contratos de manutenção, o cronograma de incorporação dos navios e as decisões orçamentárias podem modificar substancialmente esse cenário.

Ainda assim, o exercício expõe uma questão que não pode ser ignorada: a entrada em operação das quatro fragatas acrescentará uma demanda expressiva à estrutura de manutenção da Marinha, que continuará responsável pela sustentação de submarinos, navios de superfície, aeronaves e demais meios empregados no cumprimento de suas atribuições.

O problema, portanto, não se limita a encontrar recursos para manter as Tamandaré. É necessário evitar que a concentração de despesas em uma nova classe comprometa a disponibilidade dos demais meios da Esquadra.

Até R$ 2 bilhões em economia: o potencial e seus limites

Ao examinar os benefícios financeiros do PBL, o pesquisador utiliza referências do Departamento de Defesa dos Estados Unidos que apontam possibilidades de redução dos custos de manutenção entre 5% e 15% ao ano, dependendo das condições de aplicação do modelo.

Aplicando o percentual máximo de 15% ao limite superior da estimativa de manutenção das quatro fragatas de R$ 450 milhões anuais, chega-se a uma economia potencial de R$ 67,5 milhões por ano.

Considerando os 30 anos de vida operativa projetados para os navios, a dissertação apresenta uma redução acumulada que poderia alcançar aproximadamente R$ 2 bilhões, sem considerar a inflação ao longo do período.

O resultado é expressivo, mas precisa ser interpretado dentro de seus limites metodológicos. Não representa uma economia já obtida, uma previsão contratual consolidada ou um compromisso assumido pelos fornecedores do programa. Trata-se de uma simulação construída a partir de percentuais de experiências internacionais aplicados às estimativas brasileiras.

Para transformar essa possibilidade em resultado concreto, seria necessário demonstrar que os contratos conseguem efetivamente reduzir custos sem comprometer a qualidade dos serviços, a disponibilidade dos sistemas e a capacidade de resposta da Marinha.

Também seria indispensável estabelecer indicadores objetivos, mecanismos de auditoria e critérios claros para atribuir responsabilidades por falhas ou indisponibilidades. Uma redução aparente de despesas não representa necessariamente ganho operacional se vier acompanhada de atrasos na reposição de componentes, perda de capacidade de manutenção ou dependência excessiva de um único fornecedor. O verdadeiro resultado de um contrato PBL deve ser medido pela relação entre custo, disponibilidade e desempenho entregue.

A estrutura logística prevista no programa pode fazer a diferença

Um aspecto particularmente relevante da dissertação está na identificação dos instrumentos de gestão logística previstos no próprio Programa Fragatas Classe Tamandaré.

Entre eles está o MB LCM Solution, sistema informatizado desenvolvido para o projeto brasileiro, destinado ao gerenciamento do ciclo de vida dos navios e ao acesso às informações necessárias às atividades de manutenção.

O programa também prevê a entrega de um Plano de Gestão do Ciclo de Vida para cada fragata, contemplando indicadores de desempenho e eficácia dos sistemas, gerenciamento de configuração, garantia da qualidade, gestão de riscos e gerenciamento da obsolescência. Outro instrumento importante é o Banco de Dados de Apoio Logístico (BDAL), que deverá reunir informações técnicas sobre componentes, especificações, sobressalentes e requisitos necessários à execução das atividades de manutenção.

Esses recursos podem constituir a base para contratos orientados por desempenho, pois permitem conhecer antecipadamente as necessidades de suporte e acompanhar a evolução dos sistemas durante sua vida operacional.

Entretanto, é necessário distinguir a previsão contratual de entrega dessas ferramentas de sua efetiva maturidade operacional. A existência de um sistema informatizado ou de um banco de dados não garante, isoladamente, a qualidade das informações ou sua utilização adequada.

Será necessário manter os registros atualizados, integrar os dados aos processos de manutenção e desenvolver capacidade institucional para transformar essas informações em decisões. Indicadores como disponibilidade operacional, tempo médio entre falhas, tempo médio de reparo e cumprimento dos prazos de fornecimento precisam ser acompanhados de forma contínua e verificável. Sem essa disciplina, o PBL corre o risco de se transformar em um contrato baseado em metas formais, sem correspondência efetiva com a disponibilidade dos meios.

A indústria nacional precisa fazer parte da equação

A sustentação das Fragatas Classe Tamandaré também abre uma discussão importante sobre o papel da Base Industrial de Defesa brasileira. A capacidade de construir navios de guerra representa uma conquista relevante, mas a consolidação de uma indústria naval de defesa exige continuidade. A manutenção, a modernização e a atualização dos sistemas precisam gerar oportunidades para empresas nacionais, técnicos e engenheiros que possam acumular conhecimento e atender às necessidades da Marinha.

Nesse contexto, a adoção de contratos de longo prazo pode contribuir para dar previsibilidade à cadeia de fornecedores, estimular investimentos em infraestrutura e ampliar a capacidade de atendimento no País.

Entretanto, esse resultado não é automático. A estrutura contratual precisa considerar a participação da indústria nacional, a transferência efetiva de conhecimento, o acesso à documentação técnica e a preservação de competências estratégicas.

A dependência excessiva de fornecedores externos pode criar vulnerabilidades, especialmente em períodos de crise internacional, restrições de exportação ou interrupções nas cadeias globais de suprimentos.

Para uma Marinha que precisa garantir a defesa de um espaço marítimo de dimensões continentais, a autonomia logística possui valor estratégico. Não basta possuir um navio moderno; é necessário ter condições de mantê-lo disponível sem ficar excessivamente condicionado às decisões comerciais ou políticas de terceiros.

Previsibilidade orçamentária: o elo entre o contrato e a disponibilidade da Esquadra

A adoção da Logística Baseada em Desempenho exige uma condição que, embora não seja novidade no planejamento de defesa brasileiro, continua sendo um dos seus maiores desafios: a capacidade de assegurar recursos ao longo do tempo. Um contrato dessa natureza não se sustenta apenas pela definição de metas e indicadores. Ele pressupõe que a Marinha consiga honrar compromissos plurianuais e que os fornecedores tenham condições de planejar investimentos, manter estoques, qualificar pessoal e estruturar uma cadeia de suporte compatível com as exigências dos navios.

Essa relação é particularmente sensível quando se trata de sistemas de combate complexos, cuja manutenção depende de componentes específicos, assistência técnica especializada, em determinados casos com fornecedores estrangeiros. A interrupção do fluxo financeiro pode repercutir muito além do contrato diretamente afetado, comprometendo a reposição de peças, adiando intervenções programadas e ampliando o tempo necessário para recuperar equipamentos indisponíveis. O efeito acaba chegando ao nível operacional: uma fragata pode estar incorporada à Esquadra, mas ter sua capacidade de emprego reduzida por limitações na sustentação.

Há ainda uma questão que merece atenção. O modelo PBL transfere ao fornecedor parte da responsabilidade pelos resultados de suporte, mas não elimina os riscos que estão fora de seu controle. Atrasos nos pagamentos, restrições de importação, dificuldades na cadeia internacional de suprimentos e alterações nas prioridades de financiamento podem afetar o cumprimento das metas contratadas. Por isso, não basta estabelecer indicadores de disponibilidade e penalidades por desempenho insuficiente. É necessário construir contratos que distribuam adequadamente os riscos, definam responsabilidades e ofereçam condições reais para que os compromissos assumidos sejam cumpridos.

Para a Marinha, isso significa incorporar a sustentação das Tamandaré ao planejamento financeiro de longo prazo, sem tratar a manutenção como uma despesa residual, disputando recursos apenas depois de atendidas as necessidades de aquisição. O mesmo raciocínio precisa alcançar a Base Industrial de Defesa. Empresas nacionais dificilmente investirão na formação de equipes, infraestrutura e capacidade de fornecimento especializada se não houver perspectiva de continuidade das demandas. A previsibilidade, nesse caso, não beneficia apenas a administração naval ou os contratados: contribui para preservar conhecimento, ampliar a participação industrial brasileira e reduzir vulnerabilidades externas.

A pesquisa, entretanto, não deve ser interpretada como uma proposta contratual pronta para implementação. O próprio trabalho não desenvolve uma análise jurídica completa dos instrumentos de contratação do PBL à luz da legislação brasileira, nem demonstra a execução prática desse modelo nas Fragatas Classe Tamandaré. A viabilidade apontada é, portanto, uma avaliação acadêmica que identifica caminhos e condicionantes, mas cuja aplicação ainda exigiria estudos complementares, definição de responsabilidades, avaliação de riscos e estruturação de mecanismos de fiscalização.

O ponto central é que a Marinha não poderá colher os benefícios de um modelo de manutenção orientado por desempenho se não houver condições de financiar o desempenho que pretende exigir. A modernização da Esquadra precisa ser acompanhada por uma política de sustentação compatível com a complexidade dos meios incorporados. Caso contrário, o País corre o risco de investir na aquisição de capacidades que, por falta de continuidade financeira e logística, não conseguirão entregar todo o potencial operacional previsto.

O desafio estratégico é sustentar a Esquadra, não apenas incorporar novos navios

A contribuição mais relevante da pesquisa de Alexandre Almeida dos Santos está em trazer para o centro do debate uma dimensão frequentemente secundarizada nos programas de modernização naval: a capacidade de sustentar os meios incorporados durante toda a sua vida operacional. No caso das Fragatas Classe Tamandaré, essa discussão ganha especial importância porque estamos diante de uma nova geração de navios, dotada de sistemas cuja complexidade tecnológica exige uma estrutura de apoio compatível, tanto em recursos financeiros quanto em infraestrutura, pessoal e capacidade industrial.

A Logística Baseada em Desempenho oferece uma alternativa para organizar essa estrutura, aproximando os interesses da Marinha e dos fornecedores em torno de resultados mensuráveis. Entretanto, seria um equívoco tratar o PBL como solução isolada para as limitações de financiamento da Força. Um contrato bem estruturado pode melhorar a gestão dos estoques, reduzir o tempo de reparo e estimular maior confiabilidade dos equipamentos, mas não consegue compensar a ausência de recursos, a fragilidade de uma cadeia de fornecimento ou a falta de capacidade técnica para fiscalizar os serviços contratados. A eficiência logística depende de uma estrutura institucional e financeira capaz de sustentar os compromissos assumidos.

É justamente nessa relação que identificamos o principal alerta da dissertação. A incorporação de meios tecnologicamente mais avançados eleva também o nível de exigência sobre a estrutura responsável por mantê-los. Sensores, sistemas de armas, propulsão e equipamentos eletrônicos possuem necessidades específicas de manutenção, ciclos de obsolescência e dependências de fornecimento que precisam ser consideradas desde o planejamento da aquisição. Quando a expansão das capacidades operacionais não é acompanhada por uma evolução correspondente dos recursos destinados à sustentação, surge um desequilíbrio que pode comprometer o próprio resultado da modernização.

Essa questão não diz respeito apenas às quatro fragatas. A Marinha precisa administrar uma estrutura diversificada de meios, com diferentes gerações tecnológicas, requisitos de manutenção e demandas operacionais. A chegada das Tamandaré acrescenta novas capacidades à Esquadra, mas também introduz obrigações permanentes de financiamento e suporte. A disputa por recursos entre programas de construção, manutenção, modernização e operação exige planejamento integrado, capaz de evitar que a sustentação de uma nova classe ocorra à custa da disponibilidade de outros meios igualmente importantes para o cumprimento das atribuições navais.

A dimensão industrial também precisa integrar essa equação. O conhecimento adquirido durante a construção dos navios somente se converterá em autonomia duradoura se houver continuidade na participação de empresas brasileiras nas atividades de manutenção, atualização e suporte dos sistemas. Isso exige acesso à documentação técnica, capacitação de profissionais, desenvolvimento de fornecedores e condições para que a indústria invista em estruturas especializadas. Sem uma perspectiva de demanda ao longo do ciclo de vida, parte do conhecimento desenvolvido durante a construção corre o risco de não se consolidar em capacidade nacional permanente, mantendo a sustentação condicionada a fornecedores externos.

Por isso, a discussão sobre o PBL deve ser acompanhada de uma reflexão mais ampla sobre a forma como o Brasil planeja e financia seus programas estratégicos de defesa. A sustentação precisa deixar de ser tratada como uma etapa posterior à aquisição e passar a integrar, desde o início, as decisões sobre requisitos, contratos, financiamento e participação industrial. Isso pressupõe continuidade administrativa, previsibilidade orçamentária e mecanismos que permitam à Marinha planejar compromissos de longo prazo sem perder a capacidade de responder às necessidades imediatas da Esquadra.

As Fragatas Classe Tamandaré representam um investimento importante na renovação do Poder Naval brasileiro. Entretanto, o resultado desse esforço não será definido exclusivamente pela entrega dos navios ou pelas capacidades incorporadas ao seu projeto. Será determinado também pela capacidade de financiar sua operação, preservar o conhecimento necessário à manutenção e assegurar que os sistemas permaneçam disponíveis ao longo das décadas de serviço. A pesquisa da Escola de Guerra Naval contribui justamente para colocar essa responsabilidade em perspectiva: modernizar a Esquadra exige não apenas recursos para construir novos meios, mas uma estrutura orçamentária permanente capaz de mantê-los operacionais.


por Angelo Nicolaci


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Marinha cria Comando do Grupamento de Embarcações de Desembarque e reorganiza estrutura de apoio às operações anfíbias

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A Marinha do Brasil criou o Comando do Grupamento de Embarcações de Desembarque (ComGptED), nova Organização Militar sediada em Niterói (RJ), destinada a contribuir para a realização do Movimento Navio-Terra (MNT) durante as operações anfíbias. Estabelecida pela Portaria nº 264/MB/MD, assinada em 23 de outubro de 2026 e publicada no Diário Oficial da União em 26 de outubro, a medida representa um movimento de especialização organizacional em uma capacidade essencial para a projeção de forças a partir do mar.

A decisão merece atenção não apenas pela criação de uma nova estrutura de comando, mas também por seu contexto histórico e operacional. A Marinha já possui experiência anterior na organização de meios especializados para o desembarque anfíbio. Em 1991, as Embarcações de Desembarque de Carga Geral (EDCG) da Classe Guarapari deixaram de ser classificadas como navios de 4ª classe e passaram à subordinação do então Grupo de Embarcações de Desembarque (GED), posteriormente incorporado à estrutura do Comando do 1º Esquadrão de Apoio (ComEsqdAp-1).

Mais de três décadas depois, a criação do ComGptED estabelece novamente uma organização militar especificamente identificada com essa capacidade, agora com estrutura administrativa e responsabilidades de implantação formalmente definidas. O movimento indica a retomada da especialização organizacional em torno das embarcações responsáveis por estabelecer a ligação entre os navios e a área de desembarque, atividade que exige preparo técnico, coordenação e disponibilidade permanente dos meios.

Uma estrutura própria, mas integrada à Esquadra

A Portaria nº 264/MB/MD estabelece que o ComGptED ficará subordinado ao Comando do 1º Esquadrão de Apoio, será comandado por um Capitão de Fragata do Corpo da Armada e terá semiautonomia administrativa. Sua sede será em Niterói, aproveitando a estrutura de apoio já existente na região.

Um aspecto particularmente interessante da decisão está na distribuição das responsabilidades administrativas. O Centro de Intendência da Marinha em Niterói (CeIMNi) ficará encarregado de prover os recursos de rancho e do pagamento de pessoal, enquanto o Comando da Força de Superfície (ComForSup) será responsável pelo alojamento.

Essa divisão demonstra que a nova organização não foi concebida para reproduzir integralmente estruturas administrativas já existentes. Em vez disso, sua implantação utilizará serviços de organizações militares estabelecidas, concentrando o novo comando nas atribuições relacionadas à sua finalidade.

A escolha de Niterói também possui relevância logística. A proximidade com o Complexo Naval de Mocanguê, a Base Naval do Rio de Janeiro e os meios da Esquadra proporciona um ambiente favorável à integração com as organizações que participam do preparo, apoio e emprego das embarcações.

A criação formal do comando, entretanto, não significa que sua estrutura já esteja plenamente ativada. A própria portaria estabelece uma fase de implantação conduzida pelo Núcleo de Implantação do ComGptED (NI-ComGptED), responsável por assumir gradualmente a estrutura física, organizacional e orçamentária da nova unidade.

O núcleo terá regulamento provisório aprovado pelo Comandante de Operações Navais e será automaticamente extinto durante a cerimônia de Mostra de Ativação do ComGptED. A data dessa cerimônia, assim como o efetivo previsto e a dotação definitiva de meios, ainda não foram divulgados no ato.

O histórico das EDCG e a experiência acumulada pela Marinha

A trajetória das embarcações de desembarque brasileiras ajuda a compreender a importância dessa reorganização. As EDCG da Classe Guarapari foram concebidas a partir de um projeto baseado no modelo LCU-1600 da Marinha dos Estados Unidos, com construção realizada no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro.

Após sua incorporação em 1980, essas embarcações passaram por mudanças administrativas e operacionais. Em 1991, foram transferidas para o então Grupo de Embarcações de Desembarque. Posteriormente, passaram à estrutura do Comando do 1º Esquadrão de Apoio.

Em novembro de 2021, após aproximadamente três décadas, as EDCG Guarapari, Tambaú e Camboriú foram reincorporadas à Armada como navios de 4ª classe, depois de um período de revitalização que envolveu obras estruturais, adaptações e melhorias nos compartimentos habitáveis.

A EDCG Marambaia, incorporada à Marinha em 2016, ampliou essa capacidade. Originalmente pertencente à Marinha Nacional Francesa, a embarcação foi adquirida juntamente com o NDM Bahia e passou a integrar a estrutura brasileira de apoio às operações anfíbias.

Atualmente, a relação de meios da Esquadra publicada pela Marinha identifica quatro EDCG em serviço: Marambaia, Guarapari, Tambaú e Camboriú. Essas embarcações são destinadas ao transporte e desembarque de pessoal, viaturas, equipamentos e suprimentos, podendo operar diretamente em praias e áreas sem instalações portuárias.

Entretanto, a Portaria nº 264/MB/MD não determina expressamente quais dessas embarcações serão subordinadas ao novo comando. A definição dessa composição será importante para compreender como a Marinha pretende organizar a gestão, o preparo e o emprego dos meios a partir da ativação do ComGptED.

Marambex II demonstra a dimensão do Movimento Navio-Terra

A importância de uma estrutura especializada fica mais clara quando observamos o volume de atividades exigido em uma operação real. Em agosto de 2025, durante a comissão MARAMBEX II, a EDCG Marambaia conduziu uma série de operações com o Corpo de Fuzileiros Navais, contribuindo para a formação e o aperfeiçoamento de sargentos e cabos nas disciplinas práticas de Infantaria e Engenharia.

Entre os dias 11 e 13 de agosto, a embarcação participou da mobilização de dois Carros-Lagarta Anfíbios (CLAnf), nove viaturas UNIMOG, três caminhões e aproximadamente 540 militares. As atividades envolveram embarques e desembarques em diferentes pontos do litoral fluminense, incluindo a Base de Fuzileiros Navais da Ilha das Flores, a Base de Fuzileiros Navais da Ilha do Governador, a Praia de Itacuruçá e a Praia B10, na Ilha da Marambaia.

Ao longo da comissão, foram realizadas 21 abicagens, incluindo operações diurnas e noturnas. A atividade demonstrou a importância do planejamento e da coordenação necessários para transportar pessoal e equipamentos entre o navio e diferentes pontos do litoral, mantendo a segurança e a continuidade do movimento.

O exercício também evidencia que o emprego das EDCG não se limita ao transporte de tropas. Essas embarcações desempenham papel importante na movimentação de viaturas, equipamentos de engenharia, suprimentos e outros componentes necessários à sustentação de uma força em terra.

O desempenho observado na MARAMBEX II oferece um exemplo concreto da complexidade da atividade que estará no centro das atribuições do novo comando. Não se trata apenas de conduzir embarcações até a praia, mas de coordenar uma sequência de movimentos que precisa acompanhar as necessidades da força desembarcada.

O elo entre a Esquadra e os Fuzileiros Navais

O Movimento Navio-Terra representa uma das etapas determinantes de uma operação anfíbia. É nesse processo que a capacidade de transporte dos navios se converte efetivamente em presença e poder de combate em terra.

A operação exige integração entre os navios de transporte, as embarcações de desembarque e os elementos da Força de Fuzileiros da Esquadra. A sequência de desembarque precisa considerar a natureza da missão, as condições hidrográficas, o estado do mar, as características do litoral e a prioridade de introdução dos diferentes componentes da força.

Nesse contexto, a criação do ComGptED pode favorecer a concentração de conhecimentos, a padronização de procedimentos e o aperfeiçoamento do adestramento das tripulações. Também abre espaço para uma gestão mais especializada das embarcações e das atividades relacionadas ao desembarque.

A importância dessa integração cresce quando consideramos os principais meios de projeção anfíbia da Marinha, como o Navio Doca Multipropósito Bahia e o Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico. Ambos ampliam as possibilidades de transporte e emprego de forças, mas sua contribuição depende de uma cadeia logística capaz de levar pessoal e equipamentos até a área de operação.

O desembarque pode ocorrer por diferentes modalidades, incluindo embarcações de superfície, viaturas anfíbias e meios aeronavais. A combinação dessas capacidades permite desenvolver operações mais flexíveis, mas exige coordenação entre os componentes navais e terrestres.

A especialização do comando responsável pelas embarcações de desembarque deve ser compreendida dentro dessa arquitetura. Seu papel não substitui as responsabilidades dos navios de transporte ou dos Fuzileiros Navais, mas busca fortalecer um elo específico e indispensável à execução das operações anfíbias.

A reorganização precisa ser acompanhada pela disponibilidade dos meios

Apesar da relevância organizacional da iniciativa, sua contribuição efetiva dependerá das condições materiais e humanas disponibilizadas à nova unidade. A existência de um comando especializado não resolve, isoladamente, os desafios relacionados à disponibilidade das embarcações, à manutenção, à renovação dos meios e à formação de tripulações.

As EDCG representam ativos importantes, mas sua idade e a necessidade de manutenção contínua tornam indispensável acompanhar os planos de revitalização e eventual substituição. A continuidade da capacidade anfíbia exige previsibilidade orçamentária, disponibilidade de peças, infraestrutura de apoio e investimentos compatíveis com a importância operacional desses meios.

Também será necessário conhecer como ficará a distribuição de pessoal entre o novo comando e as organizações que atualmente participam do preparo e apoio das embarcações. A definição de responsabilidades sobre manutenção, adestramento, gestão dos meios e planejamento operacional permitirá avaliar a extensão da reorganização promovida pela Marinha.

Outro ponto relevante é a evolução das ameaças no ambiente litorâneo. A presença de sensores, sistemas não tripulados, armas de precisão e capacidades de negação de acesso aumenta as exigências sobre qualquer força que precise realizar um desembarque. Nesse cenário, a eficiência do Movimento Navio-Terra dependerá cada vez mais da integração, da consciência situacional e da capacidade de coordenar diferentes meios sob condições operacionais adversas.

A criação do ComGptED representa, portanto, um passo organizacional importante, mas sua efetividade deverá ser medida pela capacidade de transformar especialização administrativa em maior disponibilidade, preparo e eficiência operacional.

Uma estrutura especializada para uma capacidade essencial

A decisão da Marinha de criar o Comando do Grupamento de Embarcações de Desembarque recupera uma dimensão importante da organização dos meios anfíbios brasileiros. O histórico iniciado com o antigo Grupo de Embarcações de Desembarque em 1991, demonstra que a especialização dessa atividade já fazia parte da experiência institucional da Força. A nova organização estabelece uma estrutura própria, com subordinação, responsabilidades administrativas e processo de implantação definidos.

O próximo passo será acompanhar a Mostra de Ativação, a composição do efetivo e a definição dos meios que ficarão sob sua responsabilidade. Também será importante conhecer os planos de manutenção e modernização das EDCG, além das atribuições específicas que serão assumidas pelo novo comando.

Em operações anfíbias, a capacidade de transportar tropas até a área de desembarque só se concretiza quando existe uma estrutura capaz de colocar esses homens, viaturas e equipamentos em terra e manter o fluxo logístico necessário à missão. É nesse ponto que se encontra a importância do Movimento Navio-Terra.

Com a criação do ComGptED, a Marinha estabelece uma organização dedicada a fortalecer esse elo entre a Esquadra e a força projetada em terra. O desafio será dotá-la das condições necessárias para que a especialização organizacional se traduza em capacidade operacional efetiva.


por Angelo Nicolaci


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KC-390 padrão OTAN: o que muda na aeronave e o que justifica os €57 milhões adicionais na aquisição grega?

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A aquisição de três aeronaves KC-390 Millennium pela Grécia, por meio de um acordo governamental com Portugal, abre uma discussão que vai além do valor anunciado de aproximadamente €590 milhões. A operação coloca em evidência uma dimensão importante da indústria de defesa contemporânea: a diferença entre adquirir uma plataforma militar e incorporá-la a uma arquitetura de interoperabilidade, proteção eletrônica e sustentação operacional compatível com as exigências de uma aliança militar.

Embora o KC-390 brasileiro e a configuração desenvolvida com participação portuguesa compartilhem a mesma plataforma, a versão preparada para atender aos requisitos da OTAN incorpora modificações relevantes em seus sistemas de comunicação, navegação, identificação e consciência situacional. São recursos que ampliam a capacidade de operar em ambientes multinacionais, nos quais a troca segura de informações, a identificação de aeronaves e a coordenação com outras forças são determinantes.

A diferença, portanto, não está em uma nova aeronave ou uma alteração radical de seu projeto estrutural, mas na integração de sistemas e procedimentos que permitem explorar a plataforma em um ambiente operacional mais exigente e conectado.

Da configuração brasileira à interoperabilidade OTAN

O KC-390 Millennium foi concebido como uma aeronave multimissão, capaz de executar transporte de tropas e cargas, lançamento de paraquedistas, evacuação aeromédica, busca e salvamento, reabastecimento em voo e missões humanitárias. Sua arquitetura já incorpora aviônicos modernos, sistemas digitais de controle de voo e recursos de gerenciamento de missão.

A configuração OTAN desenvolvida com participação portuguesa acrescenta uma camada de integração voltada às necessidades de operação com forças aliadas. O processo envolveu a Força Aérea Portuguesa, a Embraer, a OGMA e empresas especializadas, incluindo Northrop Grumman e Rockwell Collins, sob coordenação da fabricante brasileira.

Entre as modificações identificadas na configuração portuguesa estão sistemas seguros de comunicação de voz e dados, recursos de navegação e consciência situacional adaptados ao ambiente operacional aliado. Também se destacam a integração de sistemas de identificação amigo-inimigo (IFF), incluindo os modos 4 e 5, e o enlace tático de dados Link 16, fundamentais para a troca de informações entre plataformas e centros de comando compatíveis.

O Link 16 permite compartilhar informações táticas em tempo quase real com outras unidades participantes da rede, contribuindo para a coordenação das operações e a construção de uma imagem operacional comum. Já o IFF Mode 5 oferece recursos modernos de identificação criptografada, reduzindo riscos de identificação equivocada em ambientes de elevada densidade operacional.

A integração desses recursos exige mais do que a instalação de equipamentos. Envolve compatibilidade entre sistemas, testes, validação de interfaces, procedimentos operacionais e certificação aeronáutica. Em outubro de 2024, a Autoridade Aeronáutica Nacional portuguesa formalizou a certificação das modificações realizadas na configuração base do KC-390, reconhecendo sua adequação aos requisitos das alianças internacionais das quais Portugal participa.

Esse processo representa um diferencial importante para países que pretendem incorporar a aeronave sem precisar desenvolver individualmente uma solução de integração com a estrutura de comando e controle da OTAN.

Guerra eletrônica e autoproteção: uma camada adicional de sobrevivência

Outro componente relevante da contratação grega é a aquisição de uma suíte de guerra eletrônica. É importante distinguir esse conjunto da configuração de interoperabilidade OTAN: embora complementares, são capacidades diferentes.

Enquanto os sistemas de comunicação, identificação e enlace de dados permitem a integração da aeronave com forças aliadas, os recursos de guerra eletrônica e autoproteção buscam aumentar sua capacidade de sobrevivência diante de ameaças.

Uma suíte dessa natureza pode reunir receptores de alerta radar, sensores de alerta laser, sistemas de alerta de aproximação de mísseis e dispensadores de contramedidas, como chaff e flare. Dependendo da configuração contratada, também pode incluir sistemas de contramedidas infravermelhas direcionais (DIRCM), destinados a interferir no funcionamento de determinados mísseis guiados por infravermelho.

Esses recursos são particularmente relevantes para uma aeronave de transporte militar. Diferentemente de um caça, cuja concepção prioriza velocidade, manobrabilidade e combate aéreo, o KC-390 frequentemente precisa transportar pessoal, equipamentos e suprimentos até regiões onde a ameaça pode ser significativa.

A capacidade de detectar emissões hostis, identificar ameaças e reagir por meio de contramedidas amplia as possibilidades de emprego em cenários operacionais complexos. Para a Grécia, integrante da OTAN e situada em uma região de elevada sensibilidade estratégica, essa camada de proteção possui relevância operacional.

Entretanto, não se deve presumir que todos os equipamentos disponíveis na suíte de autoproteção apresentada pela Embraer estejam necessariamente incluídos na configuração grega. A documentação pública da contratação confirma a aquisição de uma EW Suite, mas não apresenta a lista completa de componentes, fornecedores, quantidades e níveis de integração.

O que representam os €57 milhões adicionais?

A Resolução do Conselho de Ministros português nº 207/2026, publicada em 22 de outubro, apresenta a composição financeira da operação e permite compreender melhor a diferença entre o fornecimento das aeronaves e os serviços necessários à sua incorporação pela Força Aérea Helênica.

Dos €589,98 milhões autorizados, €532,89 milhões correspondem à aquisição das três aeronaves e a um pacote de apoio logístico para entrada em serviço. Os outros €57,08 milhões abrangem equipamentos de guerra eletrônica, formação, apoio logístico, manutenção e sustentação de equipes de apoio técnico na Grécia, gestão do programa e atividades relacionadas, incluindo investimentos na atualização das capacidades das aeronaves.

A parcela adicional representa aproximadamente 10,7% do montante destinado às aeronaves e ao pacote logístico inicial. Dividindo os valores totais por três, chega-se a uma média de aproximadamente €196,66 milhões por aeronave, considerando todo o conjunto contratado. É importante observar que esse cálculo representa uma média do pacote, e não o preço unitário de fábrica de cada KC-390.

Os €57 milhões não podem ser interpretados simplesmente como o custo de conversão para o padrão OTAN. A configuração de interoperabilidade já foi desenvolvida e certificada no âmbito do programa português. O valor adicional contempla um conjunto mais amplo de capacidades, serviços e compromissos de sustentação, cuja distribuição individual ainda não foi divulgada.

A formação inicial de pilotos e mecânicos gregos, prevista para ocorrer na Base Aérea de Beja, em Portugal, integra essa estrutura. Também estão previstas equipes de assistência técnica na Grécia, apoio à transição operacional e acompanhamento da entrada em serviço.

Na prática, Atenas não está adquirindo apenas três aeronaves. Está contratando uma estrutura que deverá permitir sua incorporação progressiva à Força Aérea Helênica, com treinamento, apoio técnico e equipamentos necessários à operação.

Os €33 milhões de retorno português: negócio ou política industrial?

Outro aspecto que merece atenção é o retorno financeiro previsto para Portugal. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Defesa português, a operação deverá gerar aproximadamente €33 milhões para o Estado, equivalentes a cerca de €11 milhões por aeronave comercializada.

Esse retorno está relacionado à participação portuguesa no desenvolvimento e na produção do KC-390, além do trabalho realizado na adaptação e certificação da aeronave para atender aos requisitos da OTAN, além fo pacote de suporte pós-venda.

Os recursos deverão ser direcionados à indústria nacional portuguesa, reforçando a capacidade de reinvestimento no setor aeronáutico e a continuidade do programa.

A iniciativa também evidencia a estratégia adotada por Lisboa em 2025, quando estabeleceu, em acordo com a Embraer, a possibilidade da aquisição de até dez aeronaves adicionais destinadas a futuras vendas a países europeus e integrantes da OTAN.

Portugal passou, assim, a utilizar sua participação industrial no programa como instrumento de cooperação governamental e expansão comercial. Esse modelo possui uma dimensão estratégica: ao participar do desenvolvimento, da produção e da certificação, o país não apenas absorve conhecimento e gera empregos, mas também conquista condições para participar de futuras oportunidades de exportação.

A compra direta da Embraer seria mais econômica?

A pergunta é inevitável. Se a aeronave é brasileira e a Embraer é sua fabricante, por que a Grécia não realizou simplesmente uma aquisição direta junto à empresa?

Em uma contratação convencional, a compra direta poderia representar um caminho comercial mais simples. Entretanto, seria necessário assegurar, em paralelo, a configuração de interoperabilidade, a certificação, os equipamentos de guerra eletrônica, a formação de pessoal, a assistência técnica e a estrutura de sustentação.

A participação portuguesa oferece à Grécia um mecanismo de contratação Governo a Governo, com uma configuração já desenvolvida, testada e certificada pela autoridade aeronáutica portuguesa. Também permite aproveitar a experiência acumulada pela Força Aérea Portuguesa e a estrutura de treinamento estabelecida em Beja, na própria Europa.

Isso não significa que o modelo seja necessariamente mais barato do que uma contratação direta. Para estabelecer essa conclusão, seria necessário comparar propostas comerciais equivalentes, considerando os mesmos equipamentos, serviços, cronogramas, garantias e condições de suporte.

A documentação disponível não apresenta uma proposta alternativa da Embraer diretamente à Grécia que permita estabelecer essa comparação. O que se pode afirmar é que Portugal conseguiu transformar sua participação no programa em vantagem comercial e diplomática, agregando serviços e competências nacionais à exportação de uma plataforma brasileira.

O que o Brasil pode aprender com o modelo português?

A operação grega oferece uma reflexão importante para a Base Industrial de Defesa brasileira. O KC-390 é um produto desenvolvido pela Embraer, mas seu processo de internacionalização demonstra que o sucesso de uma plataforma não depende exclusivamente de suas características técnicas ou de sua competitividade comercial.

A participação portuguesa mostra como a integração industrial, a certificação, a formação de pessoal e a construção de uma estrutura de apoio regional podem se transformar em instrumentos de influência e geração de negócios.

Para o Brasil, o desafio é garantir que a expansão internacional do KC-390 também fortaleça a capacidade industrial nacional, preserve o domínio sobre tecnologias estratégicas e amplie a participação brasileira nas cadeias globais de defesa.

O caso grego evidencia que uma aeronave pode se transformar em plataforma de cooperação entre Estados, gerando oportunidades que ultrapassam a venda do equipamento. Portugal compreendeu esse mecanismo e conseguiu posicionar sua indústria como parte da solução oferecida ao cliente.

O KC-390 continua sendo um produto brasileiro. Entretanto, a experiência portuguesa demonstra que o valor estratégico de um programa de defesa também está na capacidade de construir parceiros que contribuam para sua expansão internacional.

Mais do que uma venda de três aeronaves, o acordo com a Grécia revela uma dimensão da competição industrial que merece atenção: quem participa do desenvolvimento, da certificação, da integração e da sustentação de um sistema de defesa também pode conquistar uma posição relevante nos negócios que surgem a partir dele.


Por Angelo Nicolaci


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