quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Operadores Não Atribuíveis: Os Homens que Oficialmente Não Existem

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Na guerra contemporânea, o poder raramente se manifesta apenas por divisões blindadas, frotas navais ou esquadrilhas de caça. Cada vez mais, os conflitos decisivos ocorrem abaixo do limiar formal da guerra, em zonas cinzentas onde atribuição, responsabilidade e até a própria existência dos atores são deliberadamente nebulosas. É nesse espaço que surge uma das figuras mais sensíveis e estratégicas do sistema internacional: o operador especial não atribuível.

Trata-se de um homem preparado por estruturas estatais, geralmente oriundo de forças especiais ou de comunidades de inteligência, com formação aprofundada em operações psicológicas, guerra narrativa, infiltração, contrainteligência, sabotagem e emprego preciso da força. A singularidade desse ativo, contudo, não está apenas no nível de treinamento, mas na condição política de seu emprego: ele não é oficialmente reconhecido, não figura em inventários públicos e não pode ser juridicamente atribuído ao Estado que o formou ou emprega.

Essa “inexistência” não é um detalhe administrativo. É, na verdade, o núcleo do seu valor estratégico.

A lógica do ativo não atribuível

No pensamento estratégico moderno, a capacidade de agir sem assumir publicamente a autoria é tão relevante quanto a capacidade de agir com força aberta. Estados que operam em ambientes de competição permanente, mas que buscam evitar escaladas formais, recorrem a ativos não atribuíveis para influenciar cenários, moldar percepções e criar fatos consumados sem cruzar linhas vermelhas explícitas.

Diferentemente de forças regulares, esses operadores não existem para ocupar território ou travar batalhas convencionais. Seu papel é operar na interseção entre política, informação, inteligência e coerção limitada. Eles são instrumentos de ambiguidade estratégica, concebidos para permitir a chamada negação plausível: a possibilidade de um Estado negar, com razoável credibilidade, qualquer vínculo com a ação executada.

Importância geopolítica no século XXI

O uso desse tipo de ativo se intensificou à medida que o sistema internacional se tornou mais fragmentado e competitivo. Conflitos recentes demonstram que a disputa entre potências ocorre de forma contínua, mesmo em tempos de aparente paz. Influenciar processos políticos, desorganizar cadeias críticas, testar defesas adversárias, apoiar aliados informais ou desestimular ações hostis são tarefas frequentemente conduzidas fora do campo militar tradicional.

Nesse contexto, o operador não atribuível cumpre funções que forças convencionais não podem exercer sem gerar crises diplomáticas imediatas. Ele permite ao Estado ampliar sua margem de manobra estratégica, agir em profundidade e manter pressão constante sobre adversários, tudo isso sem a necessidade de mobilizações ostensivas ou declarações formais de conflito.

Além disso, esses ativos são centrais na chamada guerra narrativa. Em um ambiente em que a percepção pública, a legitimidade e o controle da informação são decisivos, a capacidade de influenciar discursos, desorganizar narrativas adversárias e proteger a própria imagem internacional tornou-se um vetor essencial do poder nacional.

Emprego: princípios, não procedimentos

O emprego de operadores não atribuíveis obedece a princípios claros, ainda que envoltos em sigilo. O primeiro deles é o controle político rigoroso. Ao contrário de forças regulares, esses ativos operam sob cadeias decisórias extremamente restritas, com autorização em níveis elevados do Estado.

O segundo princípio é a integração interagências. Seu uso raramente é isolado. Ele ocorre em coordenação com instrumentos diplomáticos, econômicos, informacionais e de inteligência, compondo uma ação estratégica mais ampla.

O terceiro princípio é a limitação deliberada. Essas operações não visam vitórias espetaculares, mas efeitos específicos, mensuráveis e politicamente controláveis. O sucesso está menos no impacto imediato e mais na capacidade de moldar o ambiente estratégico ao longo do tempo.

Por fim, há o princípio do silêncio institucional. Mesmo quando suas ações produzem efeitos evidentes, o Estado preserva a ambiguidade. Não há medalhas públicas, registros históricos oficiais ou reconhecimento formal. O ativo cumpre sua missão e retorna à sombra.

Riscos e dilemas

O uso desse tipo de homem não é isento de riscos. A exposição involuntária pode gerar crises diplomáticas severas, sanções e perda de credibilidade internacional. Há também dilemas éticos e jurídicos relevantes, especialmente quando operações ocorrem em ambientes civis ou em Estados formalmente em paz.

Por isso, países que recorrem a esses ativos investem não apenas em treinamento técnico, mas em seleção rigorosa, disciplina psicológica e mecanismos internos de controle. O operador não atribuível não é um aventureiro, mas um instrumento de Estado, cuja atuação exige maturidade institucional.

Uma ferramenta invisível, mas decisiva

Na prática, o operador especial não atribuível representa uma adaptação do poder militar às realidades do século XXI. Ele não substitui forças convencionais, mas as complementa em um ambiente onde a guerra raramente é declarada e quase sempre disputada nas margens.

Ignorar a existência desse tipo de ativo é ignorar uma parte essencial da dinâmica geopolítica contemporânea. Compreendê-lo não é glorificar a guerra, mas reconhecer que, no mundo atual, o conflito é tão político e informacional quanto militar — e que, muitas vezes, os movimentos mais decisivos são feitos por aqueles que oficialmente não existem.

Zona cinzenta e tipologias de agentes não atribuíveis

A chamada zona cinzenta descreve o espaço entre a paz formal e a guerra declarada. Nesse ambiente, Estados competem de forma contínua, empregando instrumentos que produzem efeitos estratégicos sem ultrapassar, de maneira inequívoca, os limiares jurídicos e políticos que acionariam respostas abertas. Os operadores não atribuíveis são peças centrais dessa lógica, mas não atuam sozinhos nem de forma homogênea. Há classes distintas de agentes, definidas menos por nacionalidade e mais pela função estratégica que cumprem.

Uma primeira classe é a dos operadores estatais diretos não atribuíveis: indivíduos formados por estruturas militares ou de inteligência e empregados sob negação plausível. Eles operam em missões sensíveis, de curto ou médio prazo, com objetivos delimitados e forte controle político. Sua principal característica é a integração fina com a estratégia nacional do Estado patrocinador.

Uma segunda classe envolve intermediários estatais ou paraestatais. Aqui entram estruturas que mantêm vínculos funcionais com o Estado, mas operam com graus adicionais de separação institucional. Essa camada adiciona amortecimento político, reduzindo riscos de atribuição direta e ampliando a flexibilidade de emprego em ambientes particularmente sensíveis.

Uma terceira classe, cada vez mais relevante, é a de operadores de terceiros países. Nesses casos, Estados recorrem a indivíduos ou células de outra nacionalidade, selecionados por afinidade cultural, acesso geográfico, histórico operacional ou simples conveniência política. O valor estratégico dessa opção está na multiplicação das camadas de negação: mesmo em caso de exposição, a cadeia de responsabilidade torna-se difusa, complexa e difícil de comprovar.

A lógica do emprego indireto

O recurso a operadores não atribuíveis de outras nacionalidades não decorre apenas de oportunismo, mas de cálculo estratégico. Em cenários delicados, especialmente quando o custo diplomático de uma ligação direta seria elevado, a externalização do vetor humano permite ao Estado agir sem se tornar o foco imediato da retaliação política, econômica ou militar.

Essa prática é observada sobretudo em disputas assimétricas, rivalidades regionais prolongadas e conflitos de baixa intensidade, nos quais a escalada aberta não interessa a nenhuma das partes. O objetivo não é a demonstração de força, mas a gestão do ambiente estratégico: desorganizar lideranças, reduzir capacidades adversárias, gerar dissuasão silenciosa ou alterar correlações de poder de forma incremental.

É importante destacar que, do ponto de vista analítico, essas ações não devem ser entendidas como improviso ou terceirização irresponsável da força. Ao contrário, envolvem planejamento sofisticado, avaliação de riscos e um entendimento claro de que o principal ativo protegido não é o operador em si, mas a plausibilidade da negação estatal.

Importância estratégica e limites

Na arquitetura contemporânea de poder, a zona cinzenta tornou-se permanente. Estados que ignoram esse domínio tendem a operar em desvantagem, reagindo apenas quando os efeitos já se consolidaram. Por isso, a capacidade de empregar, coordenar ou neutralizar agentes não atribuíveis, próprios ou de terceiros, passou a ser um indicador relevante de maturidade estratégica.

Ao mesmo tempo, o uso desse instrumento impõe limites claros. Quanto mais difusa a atribuição, maior a dificuldade de controle político fino e maior o risco de efeitos colaterais indesejados. Estados eficazes nesse domínio são aqueles que combinam ambiguidade externa com disciplina interna, evitando que a lógica da zona cinzenta degrade em descontrole ou erosão de legitimidade.

Em síntese, a atuação de agentes e operadores na zona cinzenta não é uma anomalia do sistema internacional, mas uma de suas engrenagens centrais. Compreendê-la é essencial para entender como o poder realmente se exerce no século XXI, não apenas nos campos de batalha visíveis, mas nos espaços onde a guerra não é declarada e, justamente por isso, nunca deixa de acontecer.



por Angelo Nicolaci


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Xmobots, Petrobras e Marinha do Brasil avançam na integração de SARP para defesa naval e monitoramento ambiental

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A Marinha do Brasil dá mais um passo consistente rumo à consolidação do emprego de sistemas autônomos no ambiente marítimo ao avançar em cooperação com a brasileira Xmobots para testes operacionais de Sistemas Aéreos Remotamente Pilotados (SARP) voltados a missões navais e offshore. Mais do que um acordo pontual, o movimento revela uma engrenagem estratégica em formação, unindo defesa, indústria e setor energético em torno de um mesmo eixo: autonomia tecnológica e presença inteligente no mar.

Os testes serão realizados na Base Aérea Naval de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, e também a bordo de embarcações da Marinha, onde serão avaliados requisitos técnicos e operacionais para o uso contínuo dos SARP em cenários reais. Trata-se de um estágio decisivo, pois operar no ambiente naval exige robustez estrutural, resistência à salinidade, ventos e instabilidade de convés, além de integração segura com sistemas de comando, controle e comunicações já consolidados na Força.

Entre as plataformas envolvidas estão o Nauru 1000C e o Nauru 500C, dois vetores que simbolizam a maturidade crescente da indústria nacional de aeronaves não tripuladas. O Nauru 1000C, com autonomia de até dez horas, já acumula experiência em missões de monitoramento de fronteiras com o Exército Brasileiro, demonstrando capacidade de vigilância prolongada e cobertura de amplas áreas. Já o Nauru 500C carrega um marco relevante: é o primeiro eVTOL brasileiro certificado pela ANAC para voos BVLOS, característica que o torna especialmente atrativo para operações embarcadas, onde a decolagem e o pouso vertical eliminam a dependência de pistas e ampliam a flexibilidade tática.

A adaptação dessas aeronaves ao contexto naval amplia o horizonte de missões que vão desde patrulha marítima e monitoramento ambiental até inspeção de plataformas e proteção de rotas estratégicas. Em um momento em que a Amazônia Azul assume papel cada vez mais central na equação econômica e geopolítica brasileira, a adoção de SARP de origem nacional representa simultaneamente ganho operacional e fortalecimento da Base Industrial de Defesa, reduzindo vulnerabilidades externas e agregando valor tecnológico interno.

A sinergia entre Xmobots, Marinha do Brasil e Petrobras sinaliza algo maior do que a simples introdução de novos equipamentos. O que se desenha é uma mudança estrutural na forma como o país encara tecnologias críticas, conectando defesa, energia e inovação em uma mesma arquitetura estratégica. Ao combinar recursos, conhecimento técnico e demanda operacional real, o Brasil avança na construção de capacidades próprias em sistemas autônomos de monitoramento, ampliando sua margem de independência e sua capacidade de resposta.

Não se trata apenas de aeronaves sobrevoando o mar. Trata-se de consciência situacional ampliada, de presença persistente e de inteligência aplicada ao espaço marítimo. Sistemas autônomos passam a atuar como multiplicadores de força, estendendo os olhos e os ouvidos da Esquadra muito além do horizonte visível. É tecnologia a serviço da soberania, inovação alinhada à estratégia e, sobretudo, um indicativo claro de que o domínio do futuro passa, inevitavelmente, pelo domínio dos sistemas que operam sem piloto, mas nunca sem propósito.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MBT e MMBT no século XXI: escolhas estratégicas, poder blindado e a construção de uma força terrestre adequada à realidade brasileira

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O debate contemporâneo sobre carros de combate blindados precisa ser compreendido menos como uma disputa entre plataformas e mais como uma reflexão sobre escolhas estratégicas de Estado. A evolução do campo de batalha, a crescente letalidade dos meios anticarro, a centralidade da informação e as limitações orçamentárias impostas às forças armadas modernas deslocaram o foco da discussão: a questão central deixou de ser qual é o melhor tanque e passou a ser qual combinação de meios melhor atende aos objetivos estratégicos nacionais.

Nesse contexto, a distinção entre Main Battle Tanks (MBT) e Medium ou Modern Main Battle Tanks (MMBT) não é apenas técnica, mas conceitual. Ela reflete diferentes filosofias de emprego, diferentes exigências logísticas e diferentes expectativas quanto ao papel do poder blindado em operações futuras. Para o Exército Brasileiro, cuja missão fundamental é a defesa de um território continental, diverso e com infraestrutura desigual, essa reflexão assume contornos particularmente relevantes.

O MBT tradicional permanece como o instrumento máximo do poder blindado. Concebido para o combate decisivo entre forças equivalentes, ele concentra o maior poder de fogo direto disponível no campo terrestre, associado a níveis elevados de proteção passiva e ativa. Em termos doutrinários clássicos, o MBT é o elemento central das operações de ruptura, exploração e choque, capaz de impor decisões táticas e, em determinados contextos, influenciar diretamente o resultado operacional de uma campanha.

Entretanto, a experiência recente em conflitos de alta intensidade, notadamente na Ucrânia, revelou de forma inequívoca que esse poder vem acompanhado de custos e vulnerabilidades estruturais. MBTs modernos exigem cadeias logísticas extensas, consumo elevado de combustível, manutenção altamente especializada e infraestrutura compatível com seu peso e dimensões. Além disso, sua sobrevivência passou a depender cada vez mais da integração com infantaria, defesa antiaérea de curto alcance, guerra eletrônica e proteção contra drones, o que reforça a ideia de que o tanque pesado, isoladamente, deixou de ser um instrumento autossuficiente.

A guerra na Ucrânia demonstrou que MBTs continuam sendo extremamente eficazes quando empregados de forma combinada, mas também evidenciou que sua presença no campo de batalha é cada vez mais previsível e rastreável. Drones de vigilância persistente, loitering munitions e sistemas anticarro portáteis impõem um ambiente no qual a concentração excessiva de meios pesados se transforma rapidamente em vulnerabilidade. Isso não invalida o MBT, mas o reposiciona como um meio de emprego mais seletivo, associado a missões específicas e a contextos operacionais bem definidos.

É nesse espaço conceitual que surge o MMBT como uma resposta estratégica às transformações do campo de batalha. Diferentemente do tanque pesado clássico, o MMBT não busca supremacia absoluta em proteção ou poder de fogo, mas sim um equilíbrio deliberado entre capacidades. Trata-se de um meio projetado para operar em um ambiente onde mobilidade, flexibilidade e sustentabilidade são tão decisivas quanto a blindagem frontal.

Plataformas como o Kaplan MT, o Tulpar em configurações de combate direto e as variantes de apoio pesado da família CV90 ilustram bem essa lógica. Esses blindados combinam armamento capaz de engajar uma ampla gama de alvos, incluindo carros de combate pesados em determinadas circunstâncias, com peso reduzido, arquitetura digital avançada e maior facilidade de transporte e manutenção. Em termos operacionais, oferecem maior liberdade de manobra, menor dependência logística e melhor adaptação a cenários urbanos, florestais e de infraestrutura limitada.

A experiência ucraniana reforça esse ponto. Embora o conflito tenha envolvido extensivamente MBTs de diversas origens, foram justamente os veículos blindados mais móveis, integrados em rede e capazes de operar de forma distribuída que apresentaram melhores taxas de sobrevivência e maior flexibilidade tática. O sucesso operacional de plataformas como o CV90, amplamente elogiado por tropas ucranianas, não decorreu de invulnerabilidade, mas da combinação de mobilidade, proteção adequada, consciência situacional e integração com infantaria e fogos de apoio. Esses atributos estão muito mais alinhados ao conceito de MMBT do que ao paradigma clássico do tanque pesado isolado.

Ao transpor essa análise para o contexto brasileiro, torna-se evidente que a simples adoção de um modelo pesado, concebido para guerras de manobra em teatros altamente industrializados, não responde plenamente às necessidades nacionais. O Brasil precisa de meios capazes de cobrir grandes extensões territoriais, deslocar-se rapidamente entre regiões, operar em ambientes com infraestrutura limitada e manter-se sustentáveis ao longo do tempo. Além disso, a lógica estratégica brasileira privilegia a dissuasão defensiva e a prontidão regional, e não a projeção de força pesada em cenários externos.

Nesse sentido, o MMBT apresenta-se como uma solução particularmente adequada. Ele permite ampliar a presença blindada do Exército com menor custo unitário, reduz a pressão logística sobre as forças e oferece flexibilidade para uma ampla gama de missões, desde a defesa de fronteiras até operações de manobra em profundidade. Sua arquitetura modular e digital também facilita atualizações ao longo do ciclo de vida, aspecto crucial para uma força que precisa permanecer relevante sem depender de substituições completas e onerosas de frota.

Ainda assim, uma análise honesta de nível Estado-Maior não pode ignorar que o MBT mantém um papel fundamental. Em determinados cenários, especialmente aqueles que envolvem a necessidade de choque frontal, dissuasão explícita ou enfrentamento de forças blindadas equivalentes, o carro de combate pesado continua sendo insubstituível. Sua presença exerce um efeito psicológico e operacional que nenhum meio mais leve consegue replicar integralmente.

Dessa forma, a solução estrategicamente mais coerente para o Brasil não reside na escolha excludente entre MBT ou MMBT, mas na construção de uma força blindada mista, equilibrada e complementar. Um núcleo limitado de MBTs pode ser empregado como elemento de decisão e dissuasão, enquanto uma força mais numerosa de MMBTs amplia a capacidade de presença, mobilidade e sustentação operacional em todo o território nacional. Essa combinação permite ao Exército Brasileiro adaptar-se a diferentes cenários, reduzir vulnerabilidades logísticas e maximizar o retorno estratégico do investimento realizado.

Mais do que uma decisão técnica, essa é uma escolha de Estado. Ela envolve doutrina, indústria, orçamento e visão de longo prazo. Ao optar por um mix equilibrado de MBTs e MMBTs, o Brasil não apenas moderniza sua força blindada, mas alinha seus meios às realidades do século XXI, preservando capacidade dissuasória, ampliando flexibilidade operacional e garantindo sustentabilidade estratégica no tempo.


por Angelo Nicolaci


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A Türkiye como parceiro estratégico do Brasil: indústria de defesa, soberania decisória e a lógica do mundo multipolar

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O debate sobre a autonomia estratégica brasileira no campo da defesa frequentemente permanece aprisionado a um falso dilema entre dependência tecnológica dos Estados Unidos e cooperação industrial com países europeus. Essa leitura, além de limitada, ignora transformações profundas no sistema internacional e, sobretudo, desconsidera experiências concretas de países que conseguiram romper esse ciclo fora do eixo euro‑atlântico tradicional. Entre esses casos, a trajetória da indústria de defesa da Türkiye se impõe como uma das mais relevantes, e mais subestimadas, referências para o Brasil.

Desde 2019, o GBN Defense acompanha de forma sistemática e direta a evolução da base industrial de defesa da Türkiye. Esse acompanhamento não se deu apenas no plano analítico ou jornalístico, mas por meio de interlocução institucional contínua, presença em agendas diplomáticas, visitas à Embaixada da Türkiye no Brasil e diálogos recorrentes com representantes do governo turco e executivos da indústria de defesa daquele país. Ao longo desse período, o GBN tem trazido ao debate estratégico brasileiro uma constatação elementar, mas frequentemente ignorada: a necessidade de o Brasil estabelecer uma parceria mais firme, estruturada e de longo prazo com a indústria de defesa da Türkiye, não como alternativa ideológica, mas como escolha pragmática de política de Estado.

A Türkiye não emergiu como potência industrial de defesa por acaso, tampouco por alinhamento automático a qualquer bloco geopolítico. Ancara fez uma escolha estratégica deliberada: reduzir vulnerabilidades externas, eliminar dependências críticas e construir uma base industrial capaz de sustentar autonomia operacional, liberdade de exportação e capacidade de evolução tecnológica contínua. Esse tripé, autonomia decisória, domínio industrial e escala produtiva, é exatamente o que o Brasil afirma buscar há décadas, mas raramente consegue materializar de forma consistente.

O caso turco é particularmente instrutivo porque demonstra que soberania não nasce de discursos, mas de políticas industriais persistentes, continuidade estratégica e aceitação do risco inerente ao desenvolvimento tecnológico. Ao longo de mais de vinte anos, a Türkiye investiu de forma sistemática na substituição de importações em áreas sensíveis, no fortalecimento de empresas privadas nacionais com forte apoio estatal e na criação de escala por meio de exportações. O resultado é tangível: hoje, a indústria de defesa da Türkiye projeta capacidade tecnológica e industrial nos domínios terrestre, aéreo, naval, espacial e cibernético.

No domínio aeroespacial, a Türkiye construiu um dos ecossistemas mais completos fora do eixo tradicional ocidental. Empresas como a Baykar consolidaram o país como referência global em sistemas de aeronaves remotamente pilotadas, com plataformas testadas em combate real, arquitetura flexível e, sobretudo, concebidas fora das amarras de regimes restritivos como ITAR e BAFA. Essa liberdade de emprego, integração e exportação confere um diferencial estratégico central, especialmente relevante para países que necessitam preservar autonomia decisória ao longo do ciclo de vida do sistema.

Nesse mesmo domínio, a Turkish Aerospace Industries (TAI) desenvolveu capacidades que vão além dos drones. O helicóptero de ataque ATAK representa um exemplo concreto de integração de sensores, armamentos e sistemas de missão em uma plataforma nacional, com potencial de adaptação a requisitos específicos do operador. Já o Hürjet surge como uma solução particularmente interessante para o Brasil: uma aeronave LIFT capaz de cumprir missões de treinamento avançado, apoio aéreo aproximado, ataque leve e, em determinados cenários, funções de caça leve. Em um contexto de restrições orçamentárias e necessidade de versatilidade operacional, o Hürjet representa uma alternativa coerente para complementar a aviação de combate brasileira, preservando doutrina, treinamento e capacidade de transição para vetores mais complexos.

Complementando esse ecossistema, empresas como a Aselsan e a Roketsan posicionaram a Türkiye como um ator relevante em sistemas de defesa aérea, sensores, guerra eletrônica e munições guiadas. Trata-se de um conjunto integrado de capacidades que permite não apenas a aquisição de plataformas, mas o desenvolvimento de uma arquitetura de defesa aérea e de ataque em profundidade, com potencial real de integração a sistemas nacionais brasileiros.

No domínio terrestre, a maturidade da indústria da Türkiye é igualmente evidente e particularmente relevante para as necessidades brasileiras. Empresas como a Otokar dominam todo o ciclo de projeto, engenharia, testes e produção de viaturas blindadas modernas e modulares, com histórico comprovado de produção em escala e exportação para dezenas de países. O interesse brasileiro em plataformas como o Tulpar não se explica apenas por suas características técnicas, mas pela possibilidade concreta de cooperação industrial profunda, integração de sistemas nacionais e produção local.

Nesse mesmo espectro, o FNSS Kaplan MT se destaca como um carro de combate médio equilibrado, concebido para operar em ambientes urbanos, fronteiriços e de alta complexidade geográfica, oferecendo uma solução coerente entre mobilidade, proteção e poder de fogo, características que dialogam diretamente com o cenário operacional brasileiro. Já o FNSS ZAHA representa uma alternativa moderna para substituir ou complementar o atual CLAnf, incorporando conceitos contemporâneos de mobilidade anfíbia, proteção modular e integração de sistemas, alinhados às exigências atuais do combate expedicionário.

A experiência turca no desenvolvimento do carro de combate Altay completa esse quadro. Embora a produção esteja atualmente sob responsabilidade da BMC, o núcleo tecnológico do projeto foi concebido pela Otokar, acumulando conhecimento crítico em arquitetura veicular, integração de sistemas, blindagem e gestão de grandes programas industriais. Esse tipo de aprendizado é precisamente o que falta ao Brasil em seus programas de sistemas de combate pesado e que dificilmente será adquirido por meio de aquisições prontas ou transferências tecnológicas limitadas.

No domínio naval, a Türkiye também construiu uma indústria robusta e diversificada, capaz de projetar, fabricar e integrar plataformas modernas para patrulha costeira, proteção da zona econômica exclusiva e projeção de poder regional. Estaleiros como a STM e a Sedef demonstram competências avançadas em corvetas, fragatas, navios de assalto, embarcações rápidas e sistemas de combate integrados. As soluções navais turcas privilegiam modularidade, arquitetura aberta e integração de sensores e armamentos, oferecendo ao parceiro estratégico liberdade de adaptação tecnológica e transferência real de know‑how.

Para o Brasil, cuja Marinha enfrenta o desafio simultâneo de renovar meios, preservar capacidade industrial e garantir autonomia operacional, essas plataformas representam oportunidades concretas de codesenvolvimento e integração com sistemas nacionais, fortalecendo a base industrial de defesa e reduzindo dependências externas ao longo do ciclo de vida.

O ponto central, contudo, vai além de plataformas específicas. O verdadeiro diferencial estratégico da Türkiye reside no modelo de cooperação que oferece. Diferentemente de parcerias marcadas por transferências tecnológicas simbólicas ou condicionadas, a indústria turca opera sob a lógica do codesenvolvimento, da produção local e da integração plena de sistemas nacionais do parceiro. Trata‑se de pragmatismo industrial: o próprio sucesso da Türkiye depende da construção de redes internacionais que ampliem escala, reduzam custos e consolidem sua posição no mercado global.

Para o Brasil, isso é decisivo. Autonomia em defesa não significa produzir tudo internamente, mas preservar liberdade de decisão após a aquisição. Significa poder integrar sistemas de diferentes origens, modernizar plataformas sem autorizações externas, exportar produtos desenvolvidos em parceria e evitar que decisões políticas de terceiros se transformem em gargalos operacionais.

Nada disso implica romper ou substituir relações com Estados Unidos ou Europa. A lógica não é de exclusão, mas de diversificação estratégica. Em defesa, diversificar parceiros é reduzir riscos. Apostar em um único eixo é aceitar vulnerabilidades sistêmicas. A indústria de defesa da Türkiye não é um substituto automático, mas um complemento de altíssimo valor estratégico, especialmente em um mundo cada vez mais multipolar, no qual autonomia relativa deixou de ser luxo e passou a ser condição de sobrevivência.

Ignorar essa oportunidade por inércia diplomática ou apego a paradigmas ultrapassados seria um erro estratégico. O mundo já mudou, a indústria de defesa global já se reorganizou e a Türkiye é uma das evidências mais claras dessa transformação. Cabe ao Brasil decidir se continuará como comprador recorrente de soluções prontas ou se construirá poder industrial, tecnológico e militar com parceiros dispostos a compartilhar risco, conhecimento e futuro.

No fim, poder militar duradouro não se adquire por catálogo. Ele é construído ao longo do tempo, com escolhas estratégicas coerentes, parceiros adequados e visão de Estado. A Türkiye oferece exatamente isso: uma oportunidade concreta de transformar discurso em capacidade.


por Angelo Nicolaci


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Embraer e Adani unem forças para estruturar a aviação regional na Índia e ampliar cooperação industrial Brasil–Índia

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A Embraer e a Adani Defence & Aerospace deram um passo relevante na consolidação da aviação regional indiana ao anunciarem a assinatura de um Memorando de Entendimento voltado ao desenvolvimento de um ecossistema integrado de jatos regionais no país. Mais do que uma parceria comercial, o acordo sinaliza uma convergência estratégica entre duas potências emergentes, combinando capacidade industrial, transferência de conhecimento e alinhamento a políticas nacionais de desenvolvimento.

O entendimento prevê cooperação em toda a cadeia de valor da aviação regional, abrangendo a fabricação de aeronaves, a construção de uma cadeia local de suprimentos, serviços de manutenção e pós-venda, além de treinamento de pilotos. No centro da iniciativa está a intenção de instalar uma unidade de produção de aeronaves na Índia, com ampliação gradual do conteúdo local, em sintonia com o programa indiano de Aeronaves de Transporte Regional (RTA) e com a política Aatmanirbhar Bharat, que busca reduzir a dependência externa e fortalecer a base industrial nacional.

A parceria também dialoga diretamente com o programa UDAN, voltado à ampliação da conectividade aérea regional, um dos pilares da estratégia indiana para integrar economicamente regiões periféricas e cidades médias ao eixo de crescimento do país. Nesse sentido, a aviação regional é tratada não apenas como um segmento de mercado, mas como instrumento de política pública, desenvolvimento territorial e inclusão econômica.

Para a Embraer, a iniciativa reforça uma estratégia já consolidada de atuação em mercados emergentes com forte demanda por soluções eficientes, confiáveis e adaptadas à realidade local. A empresa brasileira traz para a parceria sua ampla experiência em engenharia, certificação e produção seriada de jatos regionais, além de um histórico consistente de operação dessas aeronaves em ambientes diversos, tanto na aviação civil quanto em aplicações governamentais e de defesa.

A presença da Embraer na Índia não é recente. Atualmente, cerca de 50 aeronaves da companhia operam no país em diferentes segmentos, incluindo aviação comercial, executiva e militar. Na Força Aérea Indiana, plataformas como o Legacy 600 e o sistema Netra AEW&C, baseado no ERJ145, desempenham papel relevante em missões estratégicas. No mercado civil, companhias como a Star Air operam jatos E175 e ERJ145 em rotas regionais, reforçando a aderência do portfólio da Embraer às necessidades do país.

Do lado indiano, a Adani Defence & Aerospace aporta um diferencial decisivo: sua presença transversal na cadeia de valor da aviação. O grupo atua desde a infraestrutura aeroportuária até a produção aeroespacial, passando por serviços de MRO, treinamento de pilotos e desenvolvimento de plataformas tripuladas e não tripuladas. Essa integração permite não apenas absorver tecnologia, mas estruturar um ecossistema industrial sustentável, capaz de gerar empregos qualificados e manter capacidades no longo prazo.

Executivos das duas companhias destacaram que o objetivo central da parceria é avaliar, de forma conjunta, as soluções mais eficientes e viáveis para apoiar o desenvolvimento do programa RTA, criando as bases para uma indústria de aviação regional robusta na Índia. A expectativa é atender à demanda doméstica crescente e, ao mesmo tempo, posicionar o país como um polo relevante no cenário aeroespacial global.

Sob uma perspectiva estratégica mais ampla, o acordo também reforça as relações entre Brasil e Índia, dois países que compartilham interesses convergentes em temas como autonomia industrial, diversificação de parcerias e fortalecimento de cadeias produtivas fora dos tradicionais eixos euro-atlânticos. A cooperação entre Embraer e Adani exemplifica um modelo de parceria Sul-Sul baseado em complementaridade de capacidades, e não apenas em relações cliente-fornecedor.

Além do impacto industrial direto, a iniciativa tem potencial para gerar efeitos estruturantes. A criação de empregos nas áreas de engenharia, manufatura, logística e suporte técnico contribui para a formação de capital humano, enquanto a ampliação da conectividade aérea regional favorece o crescimento econômico descentralizado, reduz desigualdades regionais e fortalece o mercado interno indiano.

Ao apostar na aviação regional como vetor de desenvolvimento e na produção local como eixo estratégico, Embraer e Adani posicionam a parceria como um projeto de longo prazo, alinhado às transformações em curso no setor aeroespacial global. Trata-se de um movimento que vai além da venda de aeronaves e se insere em uma lógica mais ampla de soberania industrial, integração econômica e projeção estratégica.


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

T4 Taurus e a modernização do armamento individual do Corpo de Fuzileiros Navais: análise técnica, doutrinária e estratégica

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O Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil (CFN) mantém historicamente o fuzil calibre 5,56×45 mm M16A2 como armamento individual padrão da maior parte de sua tropa. Trata-se de uma plataforma consagrada, robusta e amplamente difundida internacionalmente, mas concebida dentro de uma lógica operacional dos anos 1980, em um período em que fatores como modularidade, integração com sistemas optrônicos avançados e capacidade de operação em ambientes confinados não eram prioritários.

Mais recentemente, com o objetivo de recompor estoques e atender demandas específicas, a Marinha adquiriu 140 fuzis M4 da Colt. Essa carabina representa uma evolução direta do M16 A2, com cano mais curto, coronha retrátil e maior adequação a operações embarcadas, urbanas e anfíbias. A quantidade limitada adquirida evidencia que não se trata de um processo de padronização plena, mas de uma solução pontual dentro de um inventário que permanece heterogêneo.

Esse cenário abre espaço para uma reflexão mais ampla sobre o futuro do armamento individual do Corpo de Fuzileiros Navais, especialmente considerando que forças anfíbias modernas demandam flexibilidade, integração tecnológica, logística simplificada e interoperabilidade plena, elementos decisivos para a eficiência operacional.

O fuzil T4, desenvolvido pela Taurus, merece atenção técnica e estratégica nesse contexto. O T4 é baseado na plataforma AR, a mesma família de projeto que originou os fuzis M16 e as carabinas M4, hoje constituindo o núcleo do armamento individual empregado pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. O USMC utiliza predominantemente sistemas derivados da plataforma AR, como o M4 e o M27 Infantry Automatic Rifle, compartilhando princípios mecânicos, ergonomia, modularidade e compatibilidade logística. Trata-se de uma plataforma validada em operações anfíbias, expedicionárias e de alta intensidade, exatamente o espectro de missões que caracteriza fuzileiros navais.

Do ponto de vista técnico, a adoção de um fuzil nacional baseado na plataforma AR proporciona integração completa com sistemas modernos de mira óptica, dispositivos de visão noturna, miras termais, apontadores laser e lanternas táticas, além de permitir a instalação de acessórios modulares essenciais ao combate contemporâneo. A ergonomia da plataforma, já conhecida por tropas treinadas no M16A2 e no M4, reduz significativamente a curva de adaptação, simplificando treinamento e transição operacional.

Embora o T4 ainda não tenha sido oficialmente escolhido ou incorporado pelo Corpo de Fuzileiros Navais, a Taurus realizou visitas ao Comando-Geral para apresentar a plataforma e suas capacidades. Seu uso consolidado por forças policiais brasileiras, inclusive em unidades especializadas, e sua exportação para outros países demonstram que não se trata de um projeto experimental. O T4 já passou por ciclos reais de emprego, manutenção e aperfeiçoamento, acumulando experiência operacional relevante.

Para uma força anfíbia, fatores como resistência à corrosão, confiabilidade em ambientes salinos, facilidade de manutenção embarcada e disponibilidade de peças de reposição são tão importantes quanto o desempenho balístico. A produção nacional do T4 representa uma vantagem estratégica significativa: garante suporte técnico em território brasileiro, reduz dependência de cadeias logísticas externas e aumenta a previsibilidade no fornecimento de componentes, impactando diretamente a prontidão da tropa.

Do ponto de vista doutrinário, o T4 deve ser analisado como uma evolução natural dentro da mesma família de sistemas já utilizada pelo CFN. Sua arquitetura permite padronização progressiva, interoperabilidade com aliados e compatibilidade com doutrinas consolidadas em operações anfíbias, seguindo referências históricas e operacionais do USMC, reconhecido internacionalmente como modelo de força expedicionária de fuzileiros navais.

Sob a perspectiva estratégica, a avaliação do T4 transcende a escolha de um fuzil específico. Trata-se de uma decisão que dialoga diretamente com a autonomia logística, o fortalecimento da Base Industrial de Defesa e a sustentabilidade de longo prazo dos meios empregados pela Força. Em cenários de restrição orçamentária, instabilidade internacional ou limitações de fornecimento externo, a capacidade de contar com soluções nacionais maduras se torna um multiplicador de poder.

Considerando o emprego ainda predominante do M16A2, a aquisição pontual de 140 fuzis M4 da Colt e a necessidade de pensar o futuro do armamento individual de forma integrada, o T4 se apresenta como uma alternativa que merece avaliação técnica aprofundada. Não se trata de uma substituição imediata, mas de um processo racional de análise, testes e eventual incorporação, alinhado às melhores práticas internacionais e às exigências operacionais específicas de uma força anfíbia moderna.

A discussão sobre o T4, portanto, não é apenas sobre um fuzil, mas sobre como o Corpo de Fuzileiros Navais pode evoluir mantendo coerência doutrinária, eficiência logística e compromisso com a soberania industrial brasileira. O T4 Taurus emerge como uma solução nacional madura, estratégica e plenamente compatível com a doutrina e os desafios da tropa expedicionária brasileira.


por Angelo Nicolaci


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Indo-Pacífico: o verdadeiro centro de gravidade do século XXI

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Durante grande parte do século XX, o eixo central da política internacional esteve ancorado no Atlântico Norte. Europa Ocidental e Estados Unidos concentravam poder econômico, militar e normativo, enquanto o restante do mundo orbitava esse centro decisório. No século XXI, essa lógica se rompeu. O coração da geopolítica global deslocou-se de forma inequívoca para o Indo-Pacífico, região que hoje concentra as principais disputas de poder, as maiores economias emergentes, os fluxos comerciais mais relevantes e, sobretudo, os riscos mais elevados de conflito entre grandes potências.

É no Indo-Pacífico que se encontram os principais vetores estratégicos do sistema internacional contemporâneo: a ascensão da China como potência, a centralidade de Taiwan na cadeia global de semicondutores, o crescimento acelerado da Índia como ator no cenário de defesa e econômico, a ressignificação do papel do Japão e a presença contínua, embora cada vez mais desafiada, dos Estados Unidos como potência garantidora da ordem regional.

A China é o elemento estruturante dessa equação. Pequim deixou de ser apenas uma potência econômica para se tornar um ator no âmbito militar plenamente consciente de seus interesses estratégicos. O Exército de Libertação Popular passou por uma transformação profunda, com investimentos maciços em mísseis balísticos e de cruzeiro, capacidades navais de águas azuis, guerra cibernética, espacial e integração de sensores e cadeia sofisticada de comando e controle. O objetivo é claro: reduzir, e eventualmente neutralizar, a capacidade de intervenção dos Estados Unidos em seu entorno imediato, especialmente no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan.

Taiwan, por sua vez, não é apenas uma questão identitária ou política para Pequim. A ilha ocupa uma posição absolutamente crítica na economia global por concentrar parte significativa da produção mundial de semicondutores avançados. Qualquer instabilidade no Estreito de Taiwan teria impactos imediatos sobre cadeias industriais, sistemas militares, setores de alta tecnologia e mercados financeiros em escala planetária. Trata-se de um dos poucos pontos do globo onde um conflito regional pode rapidamente se transformar em uma crise sistêmica global.

A Índia surge como um contraponto cada vez mais relevante à China. Com uma população que já supera a chinesa, crescimento econômico sustentado e um processo gradual de modernização militar, Nova Délhi busca consolidar-se como potência regional e ator global. Sua postura é pragmática: cooperação seletiva com os Estados Unidos e parceiros do Indo-Pacífico, manutenção de autonomia estratégica e contenção direta da China em áreas sensíveis como o Himalaia e o Oceano Índico. Diferentemente da Europa, a Índia pensa sua defesa a partir de ameaças concretas e geograficamente próximas.

O Japão, por décadas limitado por restrições constitucionais e uma cultura estratégica defensiva, passa por uma inflexão histórica. Tóquio ampliou seu orçamento de defesa, revisou diretrizes estratégicas e investe em capacidades de ataque de longo alcance, defesa antimísseis e interoperabilidade com forças norte-americanas. A percepção japonesa é simples: o ambiente regional tornou-se mais hostil, e depender exclusivamente do guarda-chuva de Washington é um risco que não pode mais ser ignorado.

Os Estados Unidos continuam sendo o principal ator no cenário do Indo-Pacífico, mas sua posição já não é de supremacia incontestável. Washington mantém uma vasta rede de alianças, bases e acordos de defesa, incluindo Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Austrália, além de iniciativas como o AUKUS. Ainda assim, o custo de projetar poder na região cresce, enquanto a China opera cada vez mais próxima de seu território, com vantagens geográficas e logísticas evidentes.

Nesse contexto, a Europa surge como um ator progressivamente irrelevante do ponto de vista militar fora de seu entorno imediato. Apesar do discurso político ambicioso, a realidade é que as capacidades europeias de projeção de poder são limitadas, fragmentadas e dependentes dos Estados Unidos. A guerra na Ucrânia expôs de forma contundente as fragilidades industriais, logísticas e operacionais do continente, que luta para sustentar um conflito de grande intensidade mesmo em sua vizinhança direta.

No Indo-Pacífico, a presença europeia é essencialmente simbólica. Envio ocasional de navios, exercícios pontuais e declarações diplomáticas não alteram o equilíbrio de poder regional. França e Reino Unido, apesar de possuírem capacidades mais robustas que seus parceiros continentais, operam no limite de seus meios. A União Europeia como bloco, carece de vontade política, coesão estratégica e instrumentos militares compatíveis com suas ambições declaradas.

Para o Brasil, a compreensão do Indo-Pacífico como centro de gravidade do século XXI é mais do que um exercício acadêmico. Trata-se de um imperativo estratégico. O país depende do comércio marítimo, tem a China como principal parceiro comercial, importa tecnologias críticas e opera no sistema internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências. Ignorar essa dinâmica é aceitar uma posição periférica no mundo que está sendo redefinido longe do Atlântico Sul.

O Indo-Pacífico não é apenas uma região distante. É o espaço onde se decide o futuro da ordem internacional, das cadeias produtivas, da tecnologia e do equilíbrio militar global. Entender esse tabuleiro com profundidade e realismo, é condição básica para qualquer país que aspire a ter voz, autonomia e relevância no século XXI.


por Angelo Nicolaci


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GE Aerospace fortalece suporte à FAB com novo Acordo de Assistência Técnica

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A GE Aerospace anunciou a assinatura de um Acordo de Assistência Técnica (AAT) com a Força Aérea Brasileira (FAB), que amplia a capacidade operacional e de manutenção dos motores F414-GE-39E, utilizados nos jatos Gripen E/F da FAB. O acordo prevê suporte técnico especializado, programas de treinamento e acesso a dados críticos para a operação e integração dos motores, reforçando a prontidão da frota brasileira.

De acordo com o acordo, a GE Aerospace fornecerá materiais técnicos detalhados, conduzirá treinamentos de alta complexidade e atuará como representante local para garantir que a FAB possa operar, testar e manter os motores com maior autonomia. A MDS Aero Support Corporation será responsável por fornecer serviços de bancos de teste e suporte na elaboração de desenhos de equipamentos, complementando a assistência técnica.

Asha Belarski, gerente geral de suporte ao cliente de Defesa & Sistemas da GE Aerospace, destacou que o AAT reforça a parceria histórica entre a empresa e a FAB. "Ao oferecermos treinamento de última geração e suporte técnico à FAB, contribuímos para o sucesso operacional da frota Gripen e ampliamos a capacidade de defesa do Brasil", afirmou Belarski.

O acordo se insere em um contexto mais amplo de cooperação da GE Aerospace com as Forças Armadas brasileiras. Em 2025, a FAB comemorou os 50 anos da incorporação do F-5 à frota nacional, equipado com o motor J85 da GE. Além disso, a empresa mantém um Acordo de Assistência Técnica para o motor T700, presente nos helicópteros Sikorsky UH-60 Black Hawk. Todos os acordos seguem as diretrizes da Regulamentação sobre Tráfico Internacional de Armas (ITAR), assegurando que a transferência de dados técnicos e serviços de defesa seja autorizada e controlada.

Com mais de um século de experiência em propulsão e sistemas aeroespaciais, a GE Aerospace mantém aproximadamente 50.000 motores instalados em aeronaves comerciais e 30.000 em aeronaves militares, além de uma equipe global de 57.000 profissionais. A empresa reforça com o AAT seu compromisso de elevar a capacidade tecnológica da FAB e de contribuir para a segurança e autonomia operacional do Brasil no setor aeroespacial.


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UE e Índia aproximam agendas de defesa em meio à reconfiguração do equilíbrio estratégico global

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A União Europeia e a Índia avançam para uma nova etapa de cooperação em segurança e defesa, sinalizando uma inflexão relevante na arquitetura estratégica euro-asiática. Um documento preliminar de parceria, consultado pela Reuters, indica que Bruxelas e Nova Délhi irão explorar a participação indiana em iniciativas europeias de defesa, abrindo espaço para diálogo industrial, coordenação política e possíveis sinergias tecnológicas.

O movimento ocorre em um contexto de transformação profunda do ambiente internacional. A Europa busca reduzir sua dependência estratégica tanto dos Estados Unidos quanto da China, ao mesmo tempo em que procura ampliar seus vínculos diplomáticos, econômicos e de segurança com potências emergentes. A Índia, por sua vez, consolida-se como ator central no Indo-Pacífico e como polo industrial e tecnológico com crescente relevância militar.

Segundo o texto do acordo, que deve ser formalmente assinado nos próximos dias, a União Europeia e a Índia estabelecerão consultas regulares sobre suas respectivas iniciativas de defesa, incluindo intercâmbios estruturados sobre temas relacionados à indústria de defesa. O documento prevê ainda a exploração, quando houver interesse mútuo e alinhamento de prioridades de segurança, da participação indiana em programas e iniciativas europeias consideradas relevantes, sempre em conformidade com os marcos legais de ambas as partes.

Mais do que um gesto diplomático, a proposta reflete uma convergência de interesses estratégicos. A União Europeia enfrenta desafios crescentes relacionados à autonomia estratégica, à segurança marítima, à resiliência cibernética e à proteção de cadeias industriais críticas. A Índia, por sua vez, investe de forma consistente na modernização de suas Forças Armadas e no fortalecimento de sua base industrial de defesa, combinando políticas de indigenização com parcerias internacionais seletivas.

O acordo também prevê a criação de um diálogo anual de alto nível sobre segurança e defesa, além do aprofundamento da cooperação em áreas sensíveis como segurança marítima, cibersegurança e combate ao terrorismo. Esses domínios refletem a natureza híbrida das ameaças contemporâneas, nas quais fronteiras entre paz e conflito, civil e militar, tornam-se cada vez mais difusas.

O próprio documento reconhece esse cenário ao destacar que a crescente complexidade das ameaças globais, o aumento das tensões geopolíticas e o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas exigem uma cooperação mais estreita e estruturada entre a UE e a Índia. Trata-se de um reconhecimento explícito de que segurança deixou de ser um tema regional ou restrito a alianças tradicionais, passando a depender de redes flexíveis de parceiros com interesses convergentes.

Do ponto de vista industrial, a aproximação abre espaço para debates sensíveis sobre interoperabilidade, acesso a tecnologias críticas, regimes de exportação e complementaridade entre bases industriais distintas. Para a Europa, a Índia representa não apenas um mercado, mas um potencial parceiro na diversificação de fornecedores, no codesenvolvimento de sistemas e na mitigação de riscos associados a dependências externas excessivas. Para a Índia, o diálogo com a UE oferece acesso a ecossistemas tecnológicos avançados e a oportunidades de inserção em cadeias de valor mais sofisticadas.

A assinatura da parceria em defesa deve coincidir com outro anúncio de peso: a conclusão das longas negociações para um acordo de livre comércio entre a União Europeia e a Índia. A simultaneidade dos dois movimentos reforça a leitura de que Bruxelas e Nova Délhi buscam uma relação abrangente, na qual comércio, indústria, tecnologia e segurança passam a ser tratados de forma integrada.

Em um mundo cada vez mais multipolar e competitivo, a aproximação entre UE e Índia indica uma tentativa de construir alternativas estratégicas fora dos eixos tradicionais. Mais do que alianças formais, o que se desenha é uma arquitetura de cooperação pragmática, orientada por interesses concretos, resiliência industrial e autonomia decisória. Para ambos os lados, o desafio será transformar o diálogo político em mecanismos efetivos de cooperação, sem comprometer suas respectivas ambições estratégicas de longo prazo.


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com Reuters

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A Jordânia e a transição para a doutrina de sexta geração: adaptação estratégica em um ambiente regional volátil

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A recente diretiva emitida pelo rei Abdullah II para a reestruturação das Forças Armadas Jordanianas marca um movimento estratégico de grande relevância no contexto do Oriente Médio. Mais do que uma modernização administrativa ou uma simples atualização de meios, a decisão aponta para uma mudança deliberada de doutrina, abandonando o modelo tradicional de emprego de forças em favor de uma abordagem alinhada ao que vem sendo descrito como doutrina de sexta geração.

Segundo a Corte Real Hachemita, a orientação inclui a formulação de uma estratégia e de um roteiro de transformação estrutural a ser implementado ao longo dos próximos três anos. O objetivo declarado é adequar o Exército Árabe da Jordânia à natureza dos desafios emergentes, caracterizados por ameaças híbridas, assimétricas e multidimensionais, em um ambiente regional cada vez mais instável.

Na leitura do analista militar e estratégico Nidal Abu Zeid, a diretiva reflete uma convergência clara com as tendências globais de transformação militar. Elementos como dissuasão estratégica, métodos modernos de combate, operações cibernéticas defensivas e ofensivas, emprego de sistemas não tripulados e incorporação de inteligência artificial aparecem como pilares centrais da nova visão de poder militar jordaniano. Trata-se de uma redefinição que desloca o foco do volume e da massa para a eficiência, a agilidade e o domínio da informação.

O conceito orientador descrito como simplicidade e eficácia não deve ser interpretado como redução de ambição, mas como racionalização estratégica. Em termos práticos, isso implica priorizar a proteção dos centros de gravidade estratégicos e operacionais do Estado, reduzindo vulnerabilidades críticas e ampliando a capacidade de resposta rápida frente a ameaças difusas. A doutrina proposta se aproxima do modelo “lean and mean”, adotado por diversas forças armadas modernas, no qual forças menores, altamente treinadas e tecnologicamente integradas substituem estruturas pesadas e pouco flexíveis.

Do ponto de vista operacional, a mudança sinaliza um afastamento do emprego clássico de grandes unidades terrestres em favor de operações baseadas em inteligência, forças especiais, poder aéreo e integração de domínios. A guerra terrestre passa a ser concebida como parte de um sistema mais amplo, no qual sensores, dados, redes e capacidades cibernéticas desempenham papel tão decisivo quanto o combate cinético. Esse modelo busca maximizar impacto estratégico com menor custo político, econômico e humano.

A experiência regional reforça essa escolha. Abu Zeid observa que a reestruturação periódica das forças armadas é uma prática comum, citando reformas conduzidas por Israel em 2015 e 2020 como resposta direta à evolução das ameaças em seu entorno estratégico. No caso jordaniano, a última reestruturação abrangente ocorreu em 2005, o que torna o atual movimento não apenas oportuno, mas necessário diante das transformações acumuladas nas últimas duas décadas.

Outro elemento relevante é a crescente aproximação da Jordânia com a OTAN. A abertura, em junho de 2025, de um escritório de ligação da aliança em Amã consolidou uma parceria que já se estende por quase trinta anos e introduziu novos parâmetros doutrinários, especialmente no que se refere a operações conjuntas, interoperabilidade e agilidade operacional. A incorporação desses conceitos reforça a transição para uma força mais flexível, capaz de operar em coalizões e responder rapidamente a crises regionais.

Essa adaptação ocorre em um contexto de pressão constante sobre as fronteiras do Reino. Nas últimas duas décadas, a Jordânia enfrentou desafios persistentes relacionados ao terrorismo, ao contrabando de armas e drogas e ao uso crescente de sistemas não tripulados por atores estatais e não estatais. Os números divulgados pelas Forças Armadas, incluindo centenas de tentativas de infiltração frustradas e o abatimento de dezenas de drones apenas em 2025, ilustram a natureza concreta e imediata dessas ameaças.

Dentro desse cenário, a ênfase na manutenção de uma força de reserva suficiente assume caráter estratégico. Mais do que um instrumento quantitativo, a reserva é vista como vetor de transição para a guerra de próxima geração, integrada a um esforço mais amplo de desenvolvimento tecnológico e autossuficiência. Nesse ponto, ganha destaque o papel do Gabinete de Design e Desenvolvimento da Jordânia, criado em 1999 como uma instituição civil-militar voltada à pesquisa, desenvolvimento e fabricação de tecnologias de defesa.

A diretriz real indica uma intenção clara de fortalecer essa estrutura como um polo nacional de inovação em defesa, alinhado a padrões internacionais, mas orientado às necessidades específicas do Estado jordaniano. A busca por autonomia em áreas como operações cibernéticas, sistemas não tripulados e gestão de reservas reforça a compreensão de que, na guerra contemporânea, dependência tecnológica equivale a vulnerabilidade estratégica.

Em síntese, a reestruturação das Forças Armadas da Jordânia não deve ser vista como um movimento isolado, mas como parte de uma tendência global de redefinição do poder militar. Ao adotar uma doutrina de sexta geração, o Reino sinaliza que compreende a natureza das mudanças em curso na guerra moderna e busca posicionar-se de forma realista em um ambiente regional marcado por competição estratégica, instabilidade crônica e rápida evolução tecnológica.


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Elbit Systems amplia contrato com o Exército dos EUA para fornecimento do sistema Iron Fist ao Bradley

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A Elbit Systems anunciou a assinatura de um contrato adicional no valor de US$ 228 milhões para o fornecimento do Sistema de Proteção Ativa Iron Fist, destinado ao programa de modernização do Veículo de Combate de Infantaria Bradley, em uso pelo Exército dos Estados Unidos. O contrato foi concedido pela General Dynamics Ordnance and Tactical Systems após a emissão, em 29 de setembro de 2025, de uma nova ordem de serviço relacionada ao sistema de proteção ativa da plataforma.

Com vigência de três anos, o novo acordo dá continuidade a um contrato inicial anunciado em maio de 2024, reforçando os esforços em curso para a integração definitiva do Iron Fist à frota de Bradley. Segundo a Elbit Systems, esta é a terceira vez que o sistema é selecionado pelo Exército dos Estados Unidos, indicando um elevado grau de maturidade tecnológica e confiança operacional por parte das autoridades militares norte-americanas.

O Iron Fist é um sistema de proteção ativa de destruição direta, desenvolvido para ampliar a capacidade de sobrevivência de veículos blindados frente às ameaças modernas do campo de batalha. Concebido como um sistema de segunda geração das Forças de Defesa de Israel, ele se destaca por sua arquitetura compacta, baixo peso, reduzido consumo de energia e facilidade de integração em plataformas já existentes.

De acordo com a empresa, o sistema oferece cobertura de 360 graus contra uma ampla gama de ameaças, incluindo foguetes anticarro, mísseis guiados antitanque, munições de ataque direto, sistemas aéreos não tripulados e munições de energia cinética empregadas por carros de combate. O Iron Fist foi projetado para operar com eficácia tanto em terrenos abertos quanto em ambientes urbanos densos, onde o risco de engajamentos a curta distância é elevado.

No contexto internacional, o Iron Fist é frequentemente comparado a outros sistemas de proteção ativa amplamente conhecidos. O Trophy, desenvolvido pela Rafael e amplamente empregado em carros de combate Merkava e no M1A2 Abrams, prioriza elevada robustez e confiabilidade, sendo considerado o sistema mais testado em combate real, embora apresente maior peso e demanda energética, o que o torna mais adequado a plataformas pesadas.

Já o sistema russo Afghanit, integrado ao carro de combate T-14 Armata, combina sensores radar e eletro-ópticos com interceptores de destruição direta, mas ainda enfrenta questionamentos quanto à sua maturidade operacional e disponibilidade em escala, além da limitada transparência sobre seu desempenho real em operações de combate.

Nesse cenário, o Iron Fist se posiciona como uma solução intermediária, combinando capacidade de proteção, menor impacto sobre a mobilidade do veículo e maior flexibilidade de integração, características particularmente relevantes para veículos de combate de infantaria, como o Bradley, que operam cada vez mais próximos da linha de frente.

A Elbit Systems observa que o Iron Fist já foi selecionado por forças armadas de países membros da OTAN e de outras nações para diferentes plataformas de combate. Para o Exército dos Estados Unidos, a ampliação do contrato reforça a prioridade atribuída à proteção ativa como elemento central da modernização de sua frota de veículos blindados, especialmente diante da proliferação de mísseis anticarro e munições guiadas no campo de batalha contemporâneo.

Ao comentar o anúncio, o presidente e CEO da Elbit Systems, Bezhalel Machlis, destacou que o sistema continua demonstrando sua vantagem tecnológica, ressaltando a parceria estratégica com a General Dynamics e o Exército dos Estados Unidos, bem como o foco na proteção das tropas em operações reais.


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O Reino Unido acelera a modernização do Eurofighter com o radar ECRS Mk2 e reforça capacidades de guerra eletrônica

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O Ministério da Defesa do Reino Unido anunciou uma nova encomenda de 40 radares multifuncionais AESA ECRS Mk2 destinados à modernização da frota de caças Eurofighter Typhoon da Força Aérea Real (RAF). Avaliado em aproximadamente 650 milhões de libras, o contrato reforça a prioridade britânica em ampliar as capacidades de guerra eletrônica, supressão e destruição de defesas aéreas inimigas em um ambiente operacional cada vez mais contestado.

A decisão de avançar com uma encomenda adicional sinaliza que o ECRS Mk2 deixou de ser apenas um programa de atualização incremental e passou a ocupar posição central na estratégia britânica de combate aéreo. Em um contexto marcado pela proliferação de sistemas avançados de defesa aérea, sensores distribuídos e ameaças de negação de área, o radar torna-se um elemento crítico para a sobrevivência e a eficácia dos vetores de combate.

O Reino Unido, em parceria com a Itália, lidera o desenvolvimento e a introdução operacional do ECRS Mk2, que representa um salto qualitativo significativo em relação ao radar ECRS Mk0 atualmente em serviço. A ênfase do novo sistema não está apenas na detecção e rastreamento de alvos, mas na integração profunda de capacidades de guerra eletrônica ao próprio radar, ampliando o papel do Typhoon como plataforma multifuncional em operações de alta intensidade.

Desenvolvido conjuntamente pela BAE Systems e pela Leonardo UK, o ECRS Mk2 responde a uma exigência específica da RAF por maior potência de saída e capacidades aprimoradas de SEAD e DEAD. A incorporação dessas funções diretamente no radar permite que a aeronave atue de forma mais autônoma, reduzindo a dependência de plataformas dedicadas exclusivamente à guerra eletrônica e aumentando a flexibilidade tática do conjunto.

Entre as principais melhorias introduzidas pelo ECRS Mk2 destaca-se a formação de feixe adaptativa, que permite ao radar ajustar dinamicamente seus padrões de emissão para evitar interferências inimigas e operar de forma mais resiliente em ambientes eletronicamente degradados. A presença de receptores dedicados para funções de ESM amplia a consciência situacional da aeronave, permitindo não apenas detectar emissões adversárias, mas também classificá-las e explorá-las de forma ativa no planejamento da missão.

Outro avanço relevante está no aumento da potência de interferência, aspecto fundamental para missões de supressão de defesas aéreas modernas. Ao combinar capacidades de radar e de guerra eletrônica em um único sistema, o Typhoon equipado com o ECRS Mk2 passa a desempenhar um papel mais agressivo na penetração de áreas fortemente defendidas, degradando sensores inimigos e abrindo janelas de oportunidade para outras plataformas.

Do ponto de vista tecnológico, o radar incorpora uma arquitetura de antena reformulada, combinando módulos de transmissão e recepção baseados em GaN e GaAs. Essa solução híbrida permite elevar a potência, a eficiência térmica e a confiabilidade do sistema, além de aumentar o número total de TRMs em comparação com o ECRS Mk0. O resultado é um radar com maior alcance efetivo, melhor desempenho em ambientes saturados e maior versatilidade de modos de operação.

Enquanto o Reino Unido e a Itália avançam com o ECRS Mk2, a Alemanha e a Espanha optaram por uma solução alternativa para a modernização de suas frotas de Eurofighter. O radar ECRS Mk1, desenvolvido pela Hensoldt em parceria com a Indra, será adotado tanto para a atualização das aeronaves em serviço quanto para futuras encomendas. Essa divisão reflete abordagens distintas dentro do consórcio Eurofighter, equilibrando requisitos operacionais, custos e estratégias industriais nacionais.

A coexistência das versões Mk1 e Mk2 ilustra a flexibilidade do programa Eurofighter, mas também evidencia uma tendência mais ampla: a fragmentação de soluções tecnológicas dentro de alianças, à medida que cada país busca alinhar capacidades militares com interesses industriais e estratégicos próprios. No caso britânico, a aposta em um radar com forte ênfase em guerra eletrônica reforça a intenção de manter o Typhoon relevante frente a ameaças de última geração, mesmo em um cenário de transição para plataformas de quinta e sexta gerações.

A encomenda dos ECRS Mk2, portanto, não deve ser vista apenas como uma atualização de sensor, mas como parte de uma reconfiguração mais ampla do papel do Eurofighter no combate aéreo moderno. Ao integrar detecção, ataque eletrônico e supressão de defesas em um único sistema, o Reino Unido busca garantir que sua frota permaneça capaz de operar com credibilidade em teatros altamente contestados, preservando autonomia operacional e relevância estratégica nas próximas décadas.


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