sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Portugal avança para viabilizar a venda de três KC-390 à Grécia em acordo de € 590 milhões

Operação governo a governo amplia o papel português na expansão europeia do cargueiro da Embraer, com apoio logístico, guerra eletrônica e treinamento incluídos no pacote.

Portugal deu um passo decisivo para viabilizar a venda de três aeronaves KC-390 Millennium à Grécia. A Resolução do Conselho de Ministros n.º 207/2026, aprovada em 14 de outubro e publicada no Diário da República em 22 de outubro, autorizou encargos de até € 589,98 milhões para a aquisição das aeronaves, o apoio logístico inicial, os equipamentos de guerra eletrônica, a formação de pessoal e a gestão do programa. O valor ainda está sujeito ao IVA previsto na legislação portuguesa. 

A decisão não se limita à autorização para comprar e transferir três aeronaves. Ela estabelece a estrutura financeira e administrativa necessária para uma operação governo a governo (Government-to-Government, G2G), na qual Portugal atuará como interlocutor estatal na aquisição grega, utilizando a experiência acumulada na operação do KC-390 e sua participação industrial no programa da Embraer.

Há, contudo, uma etapa importante a cumprir: a resolução autoriza as despesas, mas prevê que os recursos venham do contrato de venda à Grécia, ainda a celebrar. Portanto, o documento representa um avanço formal na preparação do negócio, e não a confirmação de que todas as etapas contratuais já foram concluídas. 

Como os € 589,98 milhões serão distribuídos

A autorização portuguesa divide os encargos em duas frentes. A primeira, de até € 532,89 milhões, cabe à Direção-Geral de Armamento e Patrimônio do Ministério da Defesa Nacional e contempla a aquisição das três aeronaves junto ao consórcio formado pela Embraer S.A. e pela Embraer Portugal S.A., além do pacote de apoio logístico para a entrada em serviço.

A segunda parcela, de até € 57,08 milhões, ficará sob responsabilidade da Força Aérea Portuguesa (FAP). O montante cobre a suíte de guerra eletrônica (Electronic Warfare Suite, EW Suite), a formação de tripulações e equipes de manutenção, o apoio logístico, a sustentação de equipes técnicas em território grego, a gestão do programa e atividades associadas à atualização das capacidades das aeronaves. Os valores são limites autorizados, aos quais se acrescenta o IVA legalmente aplicável. 

A inclusão desses itens é operacionalmente relevante. A entrega de uma aeronave militar não equivale à disponibilização imediata de uma capacidade plenamente utilizável: a força compradora precisa preparar tripulações e mantenedores, estabelecer procedimentos, organizar a cadeia de suprimentos e garantir suporte técnico. Ao contemplar esses elementos no mesmo arranjo, Portugal e Grécia buscam estruturar a introdução da plataforma como um sistema de armas, e não apenas como a aquisição de células.

A referência à suíte de guerra eletrônica também merece atenção, mas exige cautela. A resolução confirma sua inclusão no pacote, sem identificar publicamente o fornecedor, a arquitetura ou os recursos específicos do sistema. Não é possível, portanto, atribuir ao equipamento capacidades particulares de alerta radar, interferência ou autoproteção sem documentação adicional.

O modelo português e a expansão do KC-390 na Europa

O papel de Portugal tem raízes anteriores à negociação com Atenas. Em 2010, o país manifestou interesse em participar do desenvolvimento e da produção do KC-390, buscando fortalecer sua base tecnológica e industrial aeronáutica. Em 2019, contratou cinco aeronaves, um simulador de voo e os serviços de sustentação logística correspondentes. 

Em 2025, Lisboa exerceu a opção de compra de uma sexta aeronave e formalizou a possibilidade de facilitar futuras aquisições de até dez unidades adicionais por países europeus ou integrantes da OTAN, por meio de acordos governo a governo. A iniciativa ampliou o papel português para além do de operador da aeronave, abrindo espaço para atuar como parceiro de referência em futuras negociações internacionais. 

Esse posicionamento também se apoia na experiência operacional da Força Aérea Portuguesa. Segundo o governo, a FAP desenvolveu e testou a configuração OTAN do KC-390 na Base Aérea n.º 11, em Beja, e obteve sua certificação pela Autoridade Aeronáutica Nacional. Lisboa também pretende consolidar a base como Centro de Treinamento de Excelência do programa, criando uma estrutura que pode apoiar a preparação de operadores aliados.

A vantagem portuguesa, portanto, combina três elementos: experiência de operação, participação industrial e capacidade de apoiar a formação e a sustentação de outras forças aéreas. Para a Embraer, esse arranjo pode reduzir barreiras práticas à entrada em novos mercados europeus; para Portugal, representa uma oportunidade de ampliar o retorno econômico e tecnológico de sua participação no programa.

Isso não significa, porém, que o país se torne automaticamente o principal integrador do KC-390 para toda a OTAN. A resolução e os documentos consultados sustentam a intenção de fortalecer esse papel, mas não estabelecem uma exclusividade portuguesa nem uma função formal de integração para toda a Aliança.

Grécia: modernização e cooperação militar

O interesse grego ganhou forma institucional em 2026. Durante visita oficial a Portugal em maio, o ministro da Defesa da Grécia, Nikos Dendias, discutiu com seu homólogo português, Nuno Melo, a possibilidade de aprofundar a cooperação bilateral e adquirir aeronaves C-390 produzidas em Portugal. A agenda incluiu ainda outras áreas de cooperação tecnológica e de defesa.

Em agosto, o Ministério da Defesa português aprovou a minuta de um memorando de entendimento para estabelecer uma parceria estratégica relativa à capacidade de transporte aéreo militar. O despacho foi posteriormente revisto em setembro, com nova aprovação da minuta e delegação de poderes para a assinatura. Esses atos documentam o avanço institucional da negociação, mas não devem ser confundidos com a conclusão do contrato comercial de aquisição. 

Para a Grécia, a escolha do KC-390 oferece a perspectiva de incorporar um transporte militar a jato, multimissão, capaz de combinar deslocamento de tropas e cargas com outras funções previstas na configuração contratada. O pacote de treinamento e apoio técnico será importante para transformar a aquisição em disponibilidade operacional e estabelecer a sustentação da frota em território grego.

O cronograma, a configuração final das aeronaves, os equipamentos específicos de guerra eletrônica e os termos completos do contrato ainda precisam ser acompanhados à medida que a negociação avance. A resolução portuguesa não detalha esses elementos nem permite antecipar, com segurança, a data de entrega de cada unidade.

Um negócio que vai além da venda de aeronaves

A operação demonstra como a participação industrial em um programa de defesa pode criar oportunidades que ultrapassam a encomenda inicial de um país. Portugal construiu experiência operacional, desenvolveu competências industriais e agora utiliza essa posição para facilitar o acesso de um aliado europeu ao KC-390.

O modelo G2G pode dar maior coordenação estatal à negociação, mas seu êxito dependerá da execução contratual, da capacidade de entrega, da formação das equipes e da sustentação logística. A venda também poderá reforçar a presença da Embraer em um mercado no qual interoperabilidade, suporte regional e previsibilidade de manutenção pesam tanto quanto o desempenho da plataforma.

Para o Brasil, o avanço é relevante porque amplia as perspectivas de exportação de uma aeronave desenvolvida pela indústria nacional e evidencia o valor estratégico da participação de parceiros estrangeiros na cadeia produtiva. Portugal não substitui a Embraer como fabricante: atua como operador experiente, parceiro industrial e possível facilitador de novas aquisições europeias.

A etapa seguinte será observar a assinatura do acordo governo a governo e a formalização dos contratos correspondentes. Até lá, o anúncio representa uma autorização orçamentária robusta e um sinal concreto de avanço, mas não deve ser apresentado como uma venda definitivamente concluída.


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