terça-feira, 13 de outubro de 2026

Argentina busca submarinos e Brasil pode transformar Itaguaí em plataforma de exportação

 

A disputa argentina por três submarinos convencionais abre uma oportunidade para o Brasil ampliar a atividade industrial, aproveitar os investimentos do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e fortalecer a cooperação no Atlântico Sul. Para a França, a construção dos três meios em Itaguaí, com participação brasileira e incorporação de conteúdo industrial argentino, pode representar uma alternativa à produção integral na Europa. O modelo permitiria combinar tecnologia francesa, capacidade produtiva brasileira e fornecedores argentinos em uma proposta que precisa demonstrar viabilidade comercial, técnica e financeira.

Argentina precisa reconstruir sua capacidade submarina

A Argentina procura recuperar uma capacidade perdida após a tragédia do ARA San Juan, desaparecido em novembro de 2017 com 44 tripulantes a bordo. Desde então, a Armada Argentina permanece sem um submarino operacional, uma lacuna relevante para um país com extensa costa marítima e interesses estratégicos no Atlântico Sul.

A concorrência envolve propostas da francesa Naval Group, com a família Scorpène, e da alemã TKMS, com o Type 209NG. Informações publicadas em setembro e outubro de 2026 indicam que ambas apresentaram alternativas de financiamento integral. A proposta orçamentária argentina para 2027 prevê autorização para contrair até US$ 2,3 bilhões em crédito destinado à aquisição de três submarinos. Até o momento, não há contrato assinado nem decisão anunciada.

O francês Scorpéne e o alemão Type 209NG na mira da Argentina

A escolha dependerá não apenas das características dos submarinos, mas também do custo total do programa, das condições de financiamento, dos prazos de entrega, da transferência de tecnologia e da capacidade de manter os meios operacionais durante décadas. A aquisição envolve tripulações, infraestrutura, manutenção, armamentos e suporte logístico, além da entrega das plataformas.

Nesse cenário, o Brasil pode participar da discussão com uma proposta industrial concreta. Em vez de limitar sua atuação à diplomacia bilateral, Brasília pode negociar com a França uma solução que utilize a capacidade de construção instalada em Itaguaí e incorpore empresas argentinas à cadeia de fornecimento.

Para a Naval Group, essa alternativa merece ser examinada como uma possível extensão da cooperação industrial franco-brasileira. A empresa já participa de um programa que criou no Brasil infraestrutura, pessoal qualificado e experiência de construção associada à família Scorpène. Uma encomenda adicional permitiria avaliar o aproveitamento dessa base para atender um novo mercado, sem pressupor que a produção no Brasil será necessariamente mais barata ou mais rápida.

A lógica é direta: a Argentina precisa reconstruir sua força submarina; o Brasil dispõe de uma estrutura industrial desenvolvida com participação francesa; e a Naval Group possui experiência tecnológica ligada a essa capacidade. Esses elementos justificam estudar uma proposta conjunta, embora não garantam sua escolha nem dispensem uma análise rigorosa de custos, prazos e riscos.

Itaguaí: de investimento estratégico a ativo industrial

O PROSUB foi estabelecido no âmbito da parceria estratégica entre Brasil e França, formalizada em 23 de dezembro de 2008. O programa ampliou a capacidade brasileira de construção naval militar por meio da transferência de tecnologia, da formação de profissionais e do desenvolvimento de infraestrutura para construir e manter submarinos convencionais e, futuramente, o submarino brasileiro de propulsão nuclear. 

A Itaguaí Construções Navais (ICN) consolidou experiência na construção dos submarinos da classe Riachuelo, derivados da família Scorpène. Mais de 250 profissionais brasileiros passaram por treinamento na França no contexto do programa, que contribuiu para formar engenheiros, técnicos e trabalhadores especializados.

A entrega do submarino Tonelero e o avanço do Almirante Karam, demonstram a continuidade dessa atividade industrial. A experiência acumulada constitui uma base para estudar novas encomendas, mas não significa que a ICN esteja automaticamente preparada para iniciar uma série de exportação sem avaliações técnicas, comerciais e contratuais. 

A infraestrutura e as competências desenvolvidas pelo PROSUB exigiram investimento e continuidade institucional. A possibilidade de aproveitar essa capacidade em encomendas externas merece, portanto, ser avaliada como parte de uma estratégia industrial de longo prazo. Novos contratos poderiam ampliar a utilização das instalações, preservar equipes especializadas e gerar trabalho para fornecedores nacionais.

Esses benefícios, contudo, não são automáticos. Uma exportação só contribuirá para a sustentabilidade industrial se o preço, o financiamento, os custos de adaptação e a divisão das atividades forem economicamente justificáveis. O argumento não é que qualquer encomenda externa reduzirá os custos brasileiros, mas que a capacidade instalada deve ser avaliada também pelo potencial de atender a outros mercados, desde que isso não prejudique os programas nacionais.

Reportagens publicadas em 2026 mencionaram Itaguaí como possível local de construção dos submarinos argentinos, no contexto de discussões envolvendo autoridades brasileiras e francesas. A alternativa permanece uma possibilidade, não um acordo firmado. 

Para a Naval Group, a questão central é saber se a produção em Itaguaí pode atender aos requisitos argentinos e preservar uma participação francesa relevante. O local de construção, por si só, não determina a distribuição do valor industrial. Projeto, sistemas, equipamentos, integração, assistência técnica e suporte de longo prazo podem continuar integrando o contrato francês, conforme os termos negociados.

A proposta exigiria definir a divisão de responsabilidades entre Naval Group e ICN, os direitos de propriedade intelectual, o conteúdo nacional, as condições de exportação e a distribuição dos riscos financeiros e industriais. O objetivo seria estabelecer uma cadeia de produção em que cada participante tivesse funções, obrigações e retornos claramente definidos.

Conteúdo argentino: transformar o comprador em participante industrial

A incorporação de conteúdo argentino pode diferenciar a proposta de Itaguaí de uma aquisição convencional. Em vez de participar apenas como comprador dos submarinos, a Argentina poderia integrar atividades industriais selecionadas, desenvolver fornecedores e formar pessoal para apoiar a operação e a manutenção dos meios.

Empresas argentinas poderiam ser avaliadas para fornecer componentes não sensíveis, equipamentos auxiliares e serviços industriais, além de participar de atividades de manutenção e apoio logístico. A seleção dependeria de um levantamento da base industrial local, dos padrões de qualidade exigidos e da capacidade de cumprir os prazos do programa.

Essa participação não deve ser tratada como uma obrigação genérica de conteúdo local nem como promessa de transferência irrestrita de tecnologia. Sistemas de combate, sensores, comunicações, armamentos e outras tecnologias protegidas dependeriam de acordos específicos, autorizações de exportação e requisitos de segurança. O conteúdo argentino precisaria ser definido desde o planejamento da produção, com responsabilidades, metas e critérios de qualificação claros.

A medida permitiria avaliar uma divisão de trabalho na qual a França contribuísse com tecnologia, sistemas e assistência técnica; o Brasil, com infraestrutura e construção naval; e a Argentina, com fornecedores qualificados e competências de apoio. A configuração exata dependeria de estudos técnicos e comerciais, mas a lógica é fazer da encomenda uma oportunidade de cooperação industrial, e não apenas uma transação de compra e entrega.

Para Buenos Aires, a participação produtiva poderia gerar competências e oportunidades econômicas associadas ao programa. Para o Brasil, ampliaria a cadeia regional de fornecimento. Para a França, abriria espaço para uma estrutura de exportação que mantivesse a Naval Group como parceira tecnológica e comercial, ao mesmo tempo que integrasse capacidades industriais dos dois países sul-americanos.

O conteúdo argentino também poderia ter efeitos após a entrega dos submarinos. Treinamento, manutenção, reparos, atualização de equipamentos e gestão de sobressalentes geram necessidades durante toda a vida útil dos meios. Se determinadas atividades puderem ser realizadas regionalmente com padrões adequados, o programa poderá sustentar uma relação industrial mais duradoura entre os três países.

Essa abordagem, entretanto, precisa demonstrar que a participação de novos fornecedores não elevará custos ou atrasará entregas a ponto de comprometer o programa. O objetivo é desenvolver uma cadeia produtiva viável, não distribuir tarefas apenas para cumprir metas políticas.

O que a França pode ganhar com a construção em Itaguaí

Para a França, a proposta deve ser avaliada pelo valor comercial e industrial que pode gerar, e não apenas pelo país em que os submarinos serão construídos. A participação da Naval Group pode abranger projeto, sistemas, equipamentos, integração, assistência técnica, formação e suporte, de acordo com o contrato. A construção no Brasil não exclui essas atividades nem implica, por si só, a transferência de todas as responsabilidades industriais para a ICN.

O PROSUB já criou uma base de cooperação entre a Naval Group e a indústria brasileira. Uma encomenda argentina permitiria estudar se essa estrutura pode sustentar um novo programa de exportação, aproveitando instalações e competências existentes. Para a empresa francesa, a oportunidade seria ampliar sua participação comercial em um mercado adicional sem necessariamente reproduzir na França todas as etapas de produção.

A eventual vantagem dependerá de uma comparação objetiva entre alternativas. Será necessário calcular os custos de produção em Itaguaí, a adaptação da linha, a logística, a qualificação de fornecedores, o cronograma e os riscos contratuais. Também será preciso avaliar quais atividades permaneceriam na França e quais poderiam ser executadas no Brasil ou na Argentina sem comprometer a qualidade, a segurança tecnológica e os requisitos do cliente.

Se o estudo demonstrar viabilidade, a construção em Itaguaí poderá oferecer à Naval Group uma forma de aprofundar a parceria com o Brasil e integrar fornecedores argentinos a uma cadeia industrial regional. A divisão de trabalho precisará preservar os direitos tecnológicos franceses e assegurar responsabilidades claras sobre projeto, integração, certificação e suporte.

Essa possibilidade não deve ser interpretada como uma escolha entre a indústria francesa e a brasileira. A questão é saber se a cooperação entre ambas pode gerar uma solução comercialmente sustentável para a Argentina. Se a alternativa oferecer condições competitivas e retorno adequado para os participantes, a produção no Brasil poderá representar uma extensão da atuação industrial francesa, e não uma substituição automática da base produtiva europeia.

Diplomacia naval: como a Marinha do Brasil pode influenciar a aproximação

A aquisição de submarinos envolve relações de confiança entre governos, forças navais e fornecedores, pois a escolha de uma plataforma condiciona décadas de treinamento, manutenção e planejamento operacional. Nesse ambiente, a diplomacia naval pode aproximar interesses, facilitar o diálogo técnico e ajudar a construir as condições para uma cooperação regional.

A Marinha do Brasil mantém uma relação institucional com a Armada Argentina, construída por meio de exercícios combinados, intercâmbios profissionais, visitas operativas e contatos entre estruturas de comando. Esses canais permitem discutir necessidades de defesa marítima, formação de pessoal e cooperação técnica sem substituir a decisão soberana argentina.

Em agosto de 2026, o submarino brasileiro Humaitá participou da XXXIX edição da Operação Fraterno, com escala em Mar del Plata e embarque de militares argentinos. A atividade demonstra a existência de experiências operacionais compartilhadas e de canais de contato entre as duas forças. 

A Marinha do Brasil pode utilizar essa relação para facilitar o diálogo entre equipes técnicas, identificar oportunidades de treinamento e compartilhar experiências relevantes à operação e à sustentação de submarinos convencionais. Também pode contribuir para que as necessidades de infraestrutura, formação de tripulações e apoio logístico sejam consideradas desde o início da discussão industrial.

A experiência brasileira com a família Scorpène pode oferecer referências úteis, mas não determina a escolha argentina. Os requisitos, as configurações e os sistemas contratados podem diferir. O papel brasileiro deve ser fornecer conhecimento operacional e apoiar a cooperação técnica, sem antecipar o resultado da concorrência.

A influência da Marinha tem limites claros: ela não escolhe o fornecedor pela Argentina, não controla as condições de financiamento e não garante a contratação da ICN. Essas decisões envolvem governos, autoridades responsáveis pela aquisição e empresas. Sua contribuição está em fortalecer a confiança institucional e demonstrar que existe uma base operacional para a cooperação proposta.

Essa diplomacia naval precisa estar articulada ao trabalho do Itamaraty, à política industrial brasileira e à estratégia comercial da Naval Group e da ICN. O diálogo entre as forças pode apoiar a aproximação, mas a viabilidade do programa dependerá de um acordo técnico, financeiro e industrial.

Brasil, França e Argentina: uma proposta industrial integrada

Uma eventual construção em Itaguaí exigiria uma divisão de responsabilidades entre os três países. A Naval Group participaria nos termos acordados para o projeto e a assistência técnica; o Brasil contribuiria com infraestrutura e capacidade de construção; e a Argentina definiria os requisitos operacionais, as condições de financiamento e as atividades industriais que suas empresas poderiam assumir.

O aproveitamento de instalações existentes pode evitar a necessidade de desenvolver do zero uma estrutura equivalente, mas não garante menor custo nem entrega mais rápida. A viabilidade dependerá da capacidade disponível, da configuração dos submarinos, do cronograma e da organização dos fornecedores.

Embora a classe Riachuelo e uma eventual versão argentina estejam associadas à família Scorpène, diferenças de sensores, sistemas de combate, comunicações e armamentos podem exigir adaptações. A padronização de componentes ou procedimentos só poderá ser considerada após a definição dos requisitos argentinos e a análise técnica correspondente.

Para o Brasil, a negociação deve assegurar participação industrial efetiva, contratos para fornecedores nacionais e oportunidades de manutenção. Para a Argentina, deve identificar as atividades que podem ser executadas localmente, os investimentos necessários para qualificar fornecedores e os limites da transferência de tecnologia. Para a França, precisa preservar a proteção tecnológica, definir a responsabilidade da Naval Group e assegurar um retorno comercial compatível com o contrato.

Essa clareza é essencial para evitar que o conteúdo local seja definido tardiamente ou que a divisão de tarefas comprometa o cronograma. Cada participante precisa conhecer suas obrigações, os padrões de qualidade exigidos e os riscos que assumirá.

A cooperação poderá ampliar a relação industrial entre Brasil e França e criar uma nova aplicação para a capacidade desenvolvida pelo PROSUB. Para a Naval Group, representaria uma oportunidade adicional de exportação; para o Brasil, a possibilidade de ampliar a atividade industrial; e para a Argentina, uma forma de combinar a aquisição dos submarinos com participação produtiva. Nenhum desses resultados está garantido: todos dependem dos termos contratuais e da viabilidade demonstrada.

Preservar os programas brasileiros

A possibilidade de exportação precisa ser compatibilizada com as prioridades nacionais. A ICN possui compromissos relacionados ao PROSUB, enquanto o desenvolvimento do submarino brasileiro de propulsão nuclear exige continuidade de recursos, infraestrutura e pessoal especializado.

Antes de assumir novos contratos, será necessário avaliar a capacidade efetiva de produção, a disponibilidade das instalações, a demanda por mão de obra e os impactos sobre os cronogramas brasileiros. Uma encomenda externa não deve atrasar os programas nacionais nem comprometer competências essenciais ao desenvolvimento do submarino nuclear.

O financiamento também exige análise rigorosa. As informações sobre propostas com cobertura integral não eliminam os riscos associados a garantias soberanas, juros, desembolsos e capacidade de pagamento argentina. O contrato precisará estabelecer quem assume cada obrigação e como os riscos serão distribuídos.

Os mesmos critérios devem orientar a avaliação francesa e argentina. A Naval Group deverá analisar o retorno comercial e a proteção de suas tecnologias; o Brasil, os custos e os benefícios industriais; e a Argentina, as condições financeiras, os prazos e a participação de seus fornecedores. A cooperação só será sustentável se os benefícios forem proporcionais aos compromissos de cada parte.

A oportunidade vai além de uma venda

A disputa argentina permite avaliar a combinação de três ativos: a infraestrutura de Itaguaí, a parceria tecnológica com a França e a relação institucional com a Armada Argentina. Juntos, eles oferecem uma base para estudar uma proposta que associe construção naval, conteúdo industrial argentino, apoio logístico e diplomacia de defesa.

O Brasil já assumiu o custo de desenvolver uma capacidade industrial de construção de submarinos. Isso não torna qualquer exportação automaticamente vantajosa, mas justifica avaliar oportunidades capazes de gerar retorno adicional sobre as competências criadas com investimentos de longo prazo.

Itaguaí já demonstrou que o Brasil pode construir submarinos modernos. A oportunidade agora é avaliar se essa capacidade pode sustentar exportações e uma cadeia regional de fornecimento, com benefícios verificáveis para França, Brasil e Argentina. A construção no Brasil não deve ser tratada como uma solução garantida, mas como uma alternativa que merece ser examinada com rigor antes de ser descartada. Se viável, poderá transformar uma parceria tecnológica já existente em um programa industrial trilateral, combinando participação francesa, capacidade brasileira e conteúdo argentino.


Por Angelo Nicolaci


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