domingo, 4 de janeiro de 2026

A guerra antes da guerra: inteligência, soberania e as lições da operação na Venezuela

A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos não foi fruto de improviso, nem de uma simples demonstração de poder militar. O que ocorreu na Venezuela expôs, de forma quase pedagógica, uma realidade incontornável dos conflitos modernos: a guerra começa muito antes do primeiro tiro, e o fator decisivo raramente está no campo de batalha visível.

O êxito rápido da operação, a ausência de baixas e a capacidade de localizar, capturar e extrair o chefe de Estado em poucas horas indicam que o território, o ambiente político e as estruturas de poder venezuelanas já estavam profundamente mapeados e fragilizados. Isso não se constrói em dias, mas em meses, às vezes até anos de trabalho silencioso de inteligência.

Esse tipo de operação só é possível quando o Estado-alvo já foi exaustivamente estudado em suas camadas formais e informais: cadeias de comando oficiais e paralelas, disputas internas, lealdades reais versus aparentes, rotinas pessoais, falhas de segurança, vulnerabilidades psicológicas e dependências logísticas. A ação militar, nesse contexto, é apenas o momento final de um processo muito mais longo e complexo.

Inteligência como o verdadeiro centro de gravidade do conflito moderno

No século XXI, a superioridade militar deixou de estar exclusivamente ligada ao número de soldados, tanques ou aeronaves. Hoje, quem vence é quem possui informação de qualidade, antecipada e confiável. Inteligência humana, interceptação de comunicações, análise de redes sociais, mapeamento de rotinas, estudo de cadeias de comando e identificação de fissuras institucionais são elementos tão ou mais decisivos do que o emprego direto da força.

O conceito clássico de centro de gravidade, desenvolvido por Clausewitz, deslocou-se progressivamente do campo físico para o campo informacional e cognitivo. O alvo prioritário já não é apenas a força inimiga, mas sua capacidade de decidir, reagir e manter coesão interna. Quando a inteligência funciona, o combate se transforma em formalidade. O inimigo já está identificado, isolado, monitorado e, muitas vezes, neutralizado psicologicamente e politicamente antes mesmo de perceber que está sob ataque.

O caso venezuelano ilustra isso com clareza. Não houve surpresa estratégica por parte dos executores da operação, apenas a materialização de um cenário que já estava, na prática, decidido.

Venezuela: um Estado que perdeu o controle de si mesmo

A ausência de uma resposta coordenada das forças venezuelanas sugere um Estado que já não controlava plenamente suas próprias engrenagens. A localização precisa do presidente, a previsibilidade de seus deslocamentos e a incapacidade de reação indicam falhas graves de contrainteligência, segurança institucional e comando.

Mais do que falhas pontuais, o que se observou foi a perda de controle sistêmico. Um Estado funcional é aquele capaz de proteger informações sensíveis, manter compartimentação, garantir lealdade institucional e detectar anomalias em seus próprios fluxos de poder. Quando isso não ocorre, a estrutura passa a operar de forma transparente para o adversário, e opaca para si mesma.

Não se trata apenas de superioridade externa, mas de colapso interno. Um Estado que permite infiltração, vazamento de informações e cooptação de quadros estratégicos torna-se vulnerável por definição. Nesse estágio, a soberania já está comprometida antes mesmo de qualquer ação militar aberta.

Expurgos, aparelhamento e a erosão silenciosa da defesa

Um dos fatores centrais para essa fragilidade foi o processo prolongado de aparelhamento ideológico das instituições venezuelanas. Ao longo dos anos, expurgos e promoções baseadas em lealdade política corroeram a profissionalização das Forças Armadas e dos órgãos de segurança.

Quando a meritocracia é substituída por alinhamento ideológico, a competência dá lugar à desconfiança interna, a iniciativa é sufocada e a contrainteligência se enfraquece. Oficiais e agentes passam a operar mais preocupados em demonstrar fidelidade política do que em cumprir sua função institucional. O resultado é a quebra do espírito crítico, a redução da capacidade de antecipação e a paralisia decisória.

A defesa nacional deixa de ser uma política de Estado e passa a ser um instrumento de governo, e isso historicamente cobra um preço alto. Estados que trilham esse caminho tornam-se previsíveis, penetráveis e, em última instância, descartáveis do ponto de vista estratégico.

Soberania não é discurso, é capacidade real

A Venezuela demonstra que soberania não se sustenta em retórica. Soberania exige capacidade concreta de detectar ameaças, reagir a elas e negar acesso ao adversário. Quando um país não consegue identificar infiltrações, proteger seus centros decisórios e garantir o funcionamento de suas instituições em crise, sua soberania existe apenas no papel.

No mundo contemporâneo, a violação da soberania raramente ocorre por meio de invasões clássicas. Ela se dá pela captura de processos decisórios, pela manipulação de elites, pelo controle indireto de informações e pela erosão da confiança interna. Quando o Estado percebe, o dano já está feito. Essa é uma lição dura, mas necessária.

O alerta para o Brasil: inteligência como política de Estado

O caso venezuelano deve servir de alerta direto para o Brasil. Apesar de sua dimensão continental e relevância regional, o país ainda apresenta fragilidades importantes em sua estrutura de inteligência estratégica e contrainteligência.

A defesa do espaço aéreo, marítimo, cibernético e de infraestruturas críticas depende menos de discursos e mais de informação qualificada, integrada e antecipada. Sem inteligência eficaz, qualquer capacidade militar torna-se reativa, limitada e vulnerável. Grandes plataformas, armamentos modernos e efetivos numerosos perdem valor quando operam às cegas.

Nesse contexto, o fortalecimento da Agência Brasileira de Inteligência é fundamental. A ABIN precisa ser pensada como um instrumento de Estado, não de governo, com autonomia técnica, visão estratégica e foco na proteção dos interesses nacionais, independentemente de ideologias, ciclos eleitorais ou pressões conjunturais.

Uma agência de inteligência só cumpre sua função quando consegue dizer verdades desconfortáveis ao poder político, e sobreviver institucionalmente a isso.

Concurso é necessário, mas não é suficiente

Uma agência de inteligência moderna pode sim contar com quadros concursados, especialmente nas áreas analíticas e administrativas. No entanto, a experiência internacional mostra que isso é insuficiente para a construção de uma capacidade real de inteligência operacional.

Ativos estratégicos e agentes de campo não surgem apenas de provas teóricas. Eles exigem vivência, discrição, capacidade de leitura de ambientes complexos, habilidade de adaptação e acesso natural a círculos de poder e informação. Esses perfis são raros e, muitas vezes, não se encaixam em modelos burocráticos tradicionais.

Por essa razão, serviços de inteligência maduros combinam diferentes formas de recrutamento e seleção, incorporando profissionais oriundos da diplomacia, das forças armadas, do setor empresarial estratégico, da indústria de defesa, da tecnologia, da comunicação e das relações internacionais.

Inteligência se faz com pessoas, não apenas com organogramas, normas e carimbos.

Ativos não óbvios: onde está a informação hoje

No mundo contemporâneo, informação sensível não circula apenas em quartéis ou gabinetes oficiais. Ela transita por embaixadas, empresas de tecnologia, indústrias de defesa, organismos internacionais, ambientes acadêmicos, círculos empresariais e no ecossistema da comunicação e redes sociais.

Pessoas com acesso legítimo a esses ambientes, que dialogam regularmente com diplomatas, empresários, políticos, militares, adidos, gestores públicos e formadores de opinião, possuem uma capacidade única de percepção de tendências, mudanças de humor político, alinhamentos internacionais e riscos emergentes.

Quando devidamente selecionadas, treinadas e enquadradas dentro de parâmetros legais e éticos, essas pessoas podem tornar-se ativos estratégicos de altíssimo valor. Não se trata de espionagem indiscriminada, mas da construção de redes de percepção, antecipação e compreensão profunda de cenários.

Inteligência moderna é, acima de tudo, a capacidade de entender o que está mudando antes que todos percebam.

Meritocracia acima de rótulos

O ponto central é que a seleção desses quadros deve ser feita por mérito, perfil e capacidade real, não por origem institucional, filiação política ou alinhamento ideológico. Civis e militares podem desempenhar funções estratégicas, desde que possuam preparo técnico, equilíbrio emocional, ética sólida e compromisso inequívoco com o Estado e a nação.

Quando a inteligência se submete a disputas políticas, interesses de partidos políticos ou modelos excessivamente burocráticos, ela deixa de ser instrumento de proteção nacional e passa a ser apenas mais uma repartição administrativa, inofensiva para o adversário e perigosa para o próprio país.

A lição silenciosa da Venezuela

A operação que resultou na captura de Nicolás Maduro deixa uma mensagem inequívoca. No mundo atual, guerras não são vencidas por quem grita mais alto, faz discursos inflamados ou desfila mais tropas, mas por quem enxerga antes, entende melhor e age com precisão cirúrgica.

Países que negligenciam inteligência, contrainteligência e profissionalização institucional descobrem tarde demais que a guerra já foi decidida, e não a seu favor.

Para o Brasil, a escolha é clara. Investir seriamente em inteligência, tecnologia e capital humano não é uma opção ideológica, é uma necessidade estratégica. Soberania real só existe quando o Estado é capaz de se proteger por dentro, antecipar ameaças e agir como nação, e não como projeto de poder temporário.


por Angelo Nicolaci


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