sábado, 31 de outubro de 2026

Diplomacia naval e indústria de defesa — a presença que o Brasil precisa transformar em influência

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Um navio de guerra que atraca em um porto estrangeiro leva consigo muito mais do que sua tripulação e seus sistemas de armas. Representa seu país, demonstra capacidade tecnológica e operacional e transmite uma mensagem política. Mesmo sem disparar um único tiro, sua presença pode aproximar governos, fortalecer relações entre Marinhas e ampliar a influência internacional de seu país.

Conhecida na tradição naval como showing the flag, ou mostrar a bandeira, essa prática é uma das manifestações da diplomacia naval. Por meio de visitas oficiais, comissões internacionais, exercícios combinados e intercâmbios, o Poder Naval atua como instrumento da política externa, contribuindo para a cooperação e demonstrando a capacidade de manter presença além das próprias águas.

Essa presença, contudo, não tem significado único. Pode representar aproximação diplomática, apoio a um parceiro ou sinalização de interesse estratégico em determinada região. Seu efeito depende do contexto político, dos objetivos da missão e, sobretudo, da capacidade operacional que a sustenta.

Para o Brasil, essa dimensão oferece oportunidades ainda pouco exploradas. A extensa costa atlântica, os interesses estratégicos no Atlântico Sul e a responsabilidade sobre uma vasta área marítima justificam uma atuação mais consistente da Marinha como instrumento de aproximação internacional.

Visitas a portos, exercícios multinacionais e operações de cooperação regional produzem efeitos que ultrapassam o campo militar. Aproximam instituições, estabelecem canais de diálogo e fortalecem a confiança entre países. A BRACOLPER, realizada pelas Marinhas do Brasil, da Colômbia e do Peru, é um exemplo dessa dimensão: além do treinamento operacional em ambiente fluvial, a operação contribui para a cooperação e a presença brasileira na região.

A Operação Fraterno XXXIX, realizada em agosto de 2026, oferece outro exemplo e acrescenta uma dimensão industrial a essa discussão. Pela primeira vez em um exercício combinado internacional, a fragata Tamandaré (F200) e o submarino Humaitá (S41) operaram juntos em águas argentinas, ao lado da fragata União e do navio de socorro submarino Guillobel. A comissão permitiu demonstrar capacidades da nova geração de meios da Marinha do Brasil e ampliar a interoperabilidade com a Armada Argentina.

A presença desses dois navios ganha relevância diante dos planos argentinos de reconstrução de sua força naval. O projeto de Orçamento de 2027 apresentado pelo governo prevê autorização para negociar financiamentos de até US$ 2,3 bilhões destinados à aquisição de três submarinos convencionais e até US$ 1,2 bilhão para duas fragatas multimissão. Ainda não se trata de contratos ou aquisições aprovadas, mas de uma iniciativa que sinaliza necessidades concretas de reequipamento da Armada Argentina.

Nesse contexto, a Fraterno também evidencia uma oportunidade para a indústria brasileira. A Tamandaré, construída no Brasil com participação de uma cadeia industrial nacional, e o Humaitá, integrante da Classe Riachuelo desenvolvida no âmbito do PROSUB, representam experiências distintas de construção, integração e operação de meios navais complexos. Sua presença em um exercício internacional permite que parceiros conheçam essas capacidades em ambiente operacional. Isso não significa que exista uma oferta brasileira formal à Argentina, mas demonstra como a cooperação naval pode criar condições favoráveis à aproximação industrial e à apresentação de soluções nacionais.

Há, portanto, outra oportunidade que merece maior atenção: utilizar a diplomacia naval para promover a Base Industrial de Defesa (BID).

Quando uma Marinha realiza comissões internacionais com navios e sistemas desenvolvidos ou produzidos em seu país, oferece uma demonstração concreta de sua capacidade industrial. Fragatas, navios-patrulha e meios de apoio podem funcionar como vitrines de plataformas, sensores, radares, sistemas de armas, comunicações e soluções de integração tecnológica.

Essa exposição pode abrir oportunidades de exportação, acordos de cooperação, manutenção e desenvolvimento conjunto. Para potenciais compradores, conhecer equipamentos em operação e observar sua utilização por uma Marinha constitui uma referência relevante. A conversão dessa visibilidade em negócios, entretanto, depende também de competitividade, financiamento, suporte logístico e capacidade de atendimento durante todo o ciclo de vida dos sistemas.

O Brasil reúne empresas e competências em diferentes segmentos dessa cadeia, desde a construção naval até o desenvolvimento de sensores, sistemas de combate, comunicações e armamentos. O desafio é integrar essas capacidades a uma estratégia de promoção internacional, articulando Marinha, Ministério da Defesa, Ministério das Relações Exteriores e empresas nacionais. Comissões no exterior podem ser aproveitadas para aproximar indústrias de potenciais parceiros, promover demonstrações técnicas e ampliar oportunidades comerciais.

Essa ambição depende, entretanto, de uma condição essencial: uma Esquadra moderna, disponível e capaz de operar além das águas jurisdicionais brasileiras.

A renovação dos meios navais não se resume à substituição de navios envelhecidos. É necessária para recuperar a capacidade de presença, proteger os interesses marítimos nacionais e oferecer à política externa instrumentos concretos de atuação. Uma Marinha com disponibilidade limitada e dificuldades para sustentar comissões prolongadas encontra restrições para manter presença internacional regular e assumir compromissos de maior alcance.

Programas como o PROSUB e a construção das fragatas da Classe Tamandaré demonstram como a renovação naval pode estar associada ao desenvolvimento industrial e tecnológico. Além de atender às necessidades operacionais da Marinha, esses projetos contribuem para formar profissionais, preservar conhecimento e ampliar a participação de empresas brasileiras em atividades de elevada complexidade.

O objetivo deve ser consolidar uma capacidade industrial permanente, capaz de desenvolver, construir, integrar, manter e modernizar sistemas navais. Isso reduz vulnerabilidades externas e amplia as possibilidades de cooperação e exportação. Para alcançar esse resultado, porém, os programas precisam de continuidade, e essa continuidade não pode ficar condicionada às prioridades circunstanciais de cada administração.

A construção dessa capacidade exige mais do que autorizações orçamentárias pontuais. Programas navais são empreendimentos de longo prazo, com compromissos financeiros distribuídos por vários exercícios. A indústria precisa de previsibilidade para investir, contratar profissionais, qualificar fornecedores e manter linhas de produção. A Marinha, por sua vez, depende de fluxo regular de recursos para cumprir cronogramas, assegurar manutenção, adquirir munições, treinar tripulações e preservar a disponibilidade dos meios incorporados.

Quando os recursos são liberados de forma irregular, contingenciados ou reduzidos durante a execução dos projetos, os efeitos ultrapassam o atraso na entrega de um navio. Podem ocorrer reprogramações, aumento de custos, perda de produtividade, desmobilização de equipes e enfraquecimento de fornecedores. O Estado corre, assim, o risco de comprometer investimentos anteriores e perder competências industriais cuja reconstrução pode exigir anos e recursos ainda maiores.

Por isso, a renovação da Esquadra precisa estar vinculada a um orçamento de defesa robusto, estável e compatível com as necessidades nacionais, acompanhado de mecanismos de planejamento e financiamento plurianuais. Não se trata apenas de destinar mais recursos, mas de assegurar que os compromissos assumidos tenham condições reais de execução. A previsibilidade transforma planejamento em encomendas, encomendas em produção e produção em capacidade operacional e tecnológica.

É por isso que a defesa precisa ser tratada como política de Estado. A definição das capacidades que o Brasil pretende manter, a renovação de sua Esquadra, o fortalecimento da BID e a projeção internacional de seus interesses não podem começar do zero a cada mudança de governo. Exigem planejamento estratégico duradouro, metas nacionais, financiamento compatível e mecanismos que assegurem continuidade aos programas prioritários. Governos podem definir prioridades e aperfeiçoar os caminhos, mas não deveriam comprometer capacidades essenciais à soberania por decisões de curto prazo ou oscilações políticas.

O Brasil pode explorar a diplomacia naval de forma mais abrangente, utilizando sua presença marítima para fortalecer relações, ampliar a cooperação e promover a indústria nacional. Mas essa ambição precisa estar inserida em uma estratégia permanente, na qual política externa, Poder Naval e desenvolvimento industrial sejam tratados como partes de um mesmo projeto nacional.

Mostrar a bandeira é projetar presença. Transformá-la em influência exige uma Esquadra renovada, uma BID competitiva e recursos contínuos e previsíveis. Acima de tudo, exige que o país compreenda que defender seus interesses marítimos e projetar sua capacidade internacional não são tarefas de um governo, mas compromissos permanentes do Estado brasileiro.


Por Angelo Nicolaci


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SecNSNQ apresenta desafios do licenciamento nuclear naval brasileiro em conferência da AIEA

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A ampliação do uso da tecnologia nuclear para além da geração convencional de eletricidade está colocando novos desafios para os órgãos reguladores, especialmente diante de aplicações em ambientes marítimos, instalações offshore e localidades remotas. Nesse cenário, o Brasil levou à Conferência Ministerial Internacional sobre Energia Nuclear 2026, organizada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma discussão sobre os requisitos de segurança e o licenciamento de embarcações dotadas de plantas nucleares.

Realizado entre 27 e 29 de outubro em Incheon, na Coreia do Sul, o encontro reuniu autoridades governamentais, organizações internacionais, representantes de órgãos reguladores e integrantes da indústria nuclear. A programação abordou a expansão das aplicações da tecnologia, os desafios da inovação, a cooperação internacional e a necessidade de adequação dos mecanismos regulatórios às novas possibilidades de emprego da energia nuclear.

A participação brasileira ocorreu no dia 29 de outubro, durante o painel “Emerging Applications: Nuclear for Maritime, Offshore and Remote Sites”. O Vice-Almirante (EN-RM1) Guilherme Dionizio Alves, Subsecretário da Secretaria Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), integrou o debate ao lado de representantes da França, Coreia do Sul, Rússia, Indonésia e Canadá.

Na ocasião, o oficial apresentou a perspectiva do Órgão Regulador Naval de Segurança Nuclear brasileiro sobre os desafios de aplicar os requisitos de segurança nuclear ao ambiente marítimo. Um dos pontos centrais foi a necessidade de coordenação entre a SecNSNQ e a Autoridade Marítima, com definição clara das competências e responsabilidades de cada estrutura na avaliação e autorização de embarcações que utilizem propulsão ou outras plantas nucleares.

A questão tem implicações práticas para o marco regulatório brasileiro. A SecNSNQ estuda estabelecer o licenciamento nuclear naval, já realizado pela Secretaria no âmbito de suas atribuições legais, como requisito obrigatório para que a Autoridade Marítima autorize a operação de embarcações com plantas nucleares a bordo nas Águas Jurisdicionais Brasileiras.

Caso seja implementada, a medida acrescentará uma etapa específica de avaliação de segurança nuclear ao processo de autorização marítima. Isso significa que a autorização para operar em águas brasileiras passaria a depender também da comprovação de que a embarcação atende aos requisitos definidos pelo órgão regulador especializado. A proposta exigirá procedimentos articulados entre as instituições, delimitação de responsabilidades e critérios consistentes para análise e fiscalização.

O estudo ainda não representa uma nova exigência em vigor, mas sinaliza uma preocupação em antecipar a estrutura regulatória necessária para lidar com operações nucleares no ambiente marítimo. A definição desses mecanismos também é relevante diante da possibilidade de diferentes tipos de embarcações e projetos nucleares demandarem avaliação específica, considerando seus sistemas, características operacionais e requisitos de segurança.

A discussão apresentada pelo Brasil está inserida em um debate internacional mais amplo sobre como adaptar os marcos regulatórios à evolução tecnológica. A utilização da energia nuclear em aplicações marítimas e offshore envolve desafios que ultrapassam a engenharia dos sistemas de propulsão ou geração de energia, alcançando a segurança das operações, a fiscalização e a articulação entre autoridades nacionais.

Para o Brasil, essa preparação possui importância estratégica. O desenvolvimento do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e do projeto de propulsão nuclear naval exige não apenas domínio tecnológico e capacidade industrial, mas também uma estrutura regulatória capaz de acompanhar sistemas de elevada complexidade. Antecipar regras, competências e procedimentos é parte da construção dessa capacidade: sem segurança jurídica e regulatória, o avanço tecnológico pode encontrar obstáculos justamente quando precisar ser convertido em capacidade operacional.


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Rheinmetall entrega primeiros veículos Caracal de série às Forças Armadas da Alemanha e dos Países Baixos

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A Rheinmetall realizou em 29 de outubro na unidade de produção de Ede, nos Países Baixos, a cerimônia de entrega dos primeiros veículos Caracal de produção em série às Forças Armadas alemãs e holandesas. O marco representa o início das entregas de um programa que prevê mais de 1.500 unidades até 2030.

A entrega foi conduzida pela Rheinmetall Landsysteme GmbH e pela Rheinmetall Defence Nederland B.V., que transferiram os primeiros veículos ao Escritório Federal de Equipamentos, Tecnologia da Informação e Apoio em Serviço das Forças Armadas alemãs (BAAINBw) e ao Ministério da Defesa dos Países Baixos. O primeiro exemplar holandês já havia sido recebido em 29 de setembro, destinado ao treinamento de motoristas.

Designado oficialmente como Einsatzsystem Luftlandeplattform, ou Sistema de Emprego Plataforma Aeromóvel, o Caracal foi desenvolvido para atender às necessidades de forças aeromóveis, tropas aerotransportadas e unidades leves especializadas. Sua configuração combina mobilidade, modularidade e capacidade de transporte aéreo, permitindo diferentes possibilidades de emprego.

O veículo utiliza o chassi militar da mais recente geração do Mercedes-Benz Classe G, série 464, também empregado no Wolf 2. Sua estrutura superior modular e leve é configurada de acordo com a missão, enquanto a montagem final ocorre na unidade industrial da Rheinmetall Defence Nederland em Ede.

Na configuração básica, o Caracal transporta quatro militares, além de seus equipamentos pessoais e materiais específicos da missão. Suas dimensões compactas permitem o transporte tanto no interior de aeronaves quanto como carga suspensa por helicópteros de transporte pesado, ampliando as possibilidades de deslocamento das forças leves.

A modularidade também se reflete nas configurações disponíveis. Segundo a Rheinmetall, o veículo conta atualmente com 28 diferentes conjuntos de equipamentos, permitindo sua adaptação a uma ampla variedade de cenários operacionais.

A proteção é modular e escalável contra ameaças balísticas e minas. No campo do armamento, o Caracal pode receber diferentes sistemas instalados em seu reparo circular, incluindo metralhadoras MG5, metralhadoras pesadas, lançadores automáticos de granadas e armas anticarro. O veículo também dispõe de armamento secundário, composto por uma metralhadora instalada em um suporte para o operador auxiliar.

Além do fornecimento das viaturas, o contrato contempla suporte completo durante todo o ciclo de vida dos veículos por um período de 20 anos. O programa prevê a entrega de mais de 1.500 unidades às Forças Armadas da Alemanha e dos Países Baixos até 2030, estabelecendo uma estrutura de sustentação de longo prazo para as frotas.

A Rheinmetall destaca que o projeto reúne a atuação de suas equipes na Alemanha e nos Países Baixos, em cooperação com outros parceiros industriais. A produção e a montagem final em Ede integram essa estrutura de cooperação entre os dois países.


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CTEx realiza primeiros testes de tiro remoto do sistema REMAX integrado à plataforma não tripulada Apollo

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O sistema de armas remotamente controlada (SARC) REMAX, desenvolvido pela brasileira ARES Aeroespacial e Defesa, deu um novo passo em sua trajetória ao realizar sua primeira execução de tiro remoto durante testes de integração com a plataforma terrestre não tripulada Apollo. Os ensaios foram conduzidos pelo Centro Tecnológico do Exército (CTEx), em parceria com a ARES e a Ambipar Robotics, entre os dias 25 e 29 de outubro, no Centro de Avaliações do Exército (CAEx), no Rio de Janeiro.

A atividade teve como objetivo verificar a eficiência e a confiabilidade da integração entre os dois sistemas. Segundo o CTEx, os ensaios permitiram uma avaliação preliminar da estabilidade e do desempenho do conjunto, demonstrando o funcionamento adequado da plataforma terrestre operada remotamente.

Tradicionalmente empregado em blindados tripulados, o SARC REMAX permite que o atirador opere o sistema de armas protegido no interior da viatura. Com sua integração ao UGV Apollo, o equipamento passa a ser empregado em plataforma não tripulada, permitindo o engajamento de alvos sem expor diretamente os operadores aos riscos do campo de batalha.

O teste representa um marco para o desenvolvimento nacional de veículos terrestres não tripulados armados (UGV - sigla em inglês) e amplia as possibilidades de aplicação de uma tecnologia já desenvolvida pela indústria brasileira. A iniciativa reúne a experiência da ARES no desenvolvimento do REMAX, a atuação da Ambipar Robotics na plataforma Apollo e a participação do CTEx na condução dos ensaios de integração.

O resultado ainda corresponde a uma validação preliminar, mas demonstra um caminho de desenvolvimento que aproxima sistemas de armas nacionais de novas plataformas de emprego militar.

Tecnologia nacional exige continuidade

A integração do SARC REMAX à Apollo evidencia a importância de investir em soluções desenvolvidas no Brasil e apoiar a evolução de tecnologias concebidas pela Base Industrial de Defesa. Mais do que desenvolver equipamentos, é necessário garantir continuidade aos programas de pesquisa, testes e aperfeiçoamento, criando condições para que empresas nacionais transformem conhecimento em sistemas confiáveis e capazes de atender às necessidades das Forças Armadas. O domínio dessas tecnologias fortalece a autonomia operacional, reduz dependências externas e amplia a capacidade brasileira de desenvolver soluções próprias para os desafios futuros da Defesa.



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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Marinha incorpora o Mangaratiba e reforça debate sobre renovação da Esquadra e proteção da Amazônia Azul

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A incorporação do Navio-Patrulha Mangaratiba (P73), realizada nesta sexta-feira (30), no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), representa mais uma entrega à Marinha do Brasil e um passo na recuperação de sua capacidade de patrulhamento. Entretanto, além da entrada em serviço de uma nova embarcação, o episódio permite observar um desafio muito maior: garantir continuidade aos programas de construção naval, preservar a capacidade industrial nacional e assegurar recursos suficientes para que a renovação dos meios não fique subordinada às oscilações orçamentárias de cada exercício. O GBN Defense acompanhou a cerimônia, representado por seu editor, Angelo Nicolaci, acompanhado de sua assessora, Joyce Nicolaci.

Quarto navio da Classe Macaé, o Mangaratiba foi construído no próprio AMRJ e será subordinado ao 4º Distrito Naval, em Belém (PA). Sua incorporação amplia a presença da Marinha na região Norte, particularmente em uma área de crescente relevância estratégica, que compreende a foz do Amazonas e a Margem Equatorial brasileira.

Com 54,2 metros de comprimento, calado de 2,48 metros e deslocamento de aproximadamente 500 toneladas, o navio possui casco de aço e superestrutura de alumínio. Sua autonomia de cerca de 2.500 milhas náuticas permite realizar operações marítimas e fluviais, características importantes para o ambiente operacional sob responsabilidade do 4º Distrito Naval.

A Classe Macaé tem como base o projeto francês Vigilante 400 CL54, desenvolvido pela Constructions Mécaniques de Normandie (CMN), posteriormente adaptado às necessidades operacionais da Marinha brasileira.

Sistemas ampliam a capacidade de vigilância e controle

O Mangaratiba incorpora sistemas que contribuem para ampliar a capacidade de vigilância, comando e controle da embarcação. Entre eles está o SisC2Geo, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas da Marinha (IPqM), que integra informações de sensores, navegação, radar, enlaces de dados e sistemas de armas, contribuindo para a formação do quadro tático e para a consciência situacional da tripulação.

O navio também dispõe de comunicações satelitais em banda X, recurso que amplia o alcance e a segurança das comunicações com escalões superiores. Informações técnicas apuradas durante a cobertura indicam que a antena permite o acesso à rede SISDABRA, conectando a embarcação à intranet do Ministério da Defesa e ampliando sua integração aos sistemas de comando e controle.

Outro equipamento relevante é a alça optrônica ATENA NG, desenvolvida pela ARES Aeroespacial e Defesa. Estabilizada em dois eixos, reúne câmera termal, câmera diurna e telêmetro laser, permitindo vigilância independente durante o dia e à noite.

Quando integrada ao sistema de gerenciamento de combate do navio, a câmera estabilizada pode detectar automaticamente diferentes ameaças de forma simultânea, permitindo ao operador acompanhar alvos em frações de segundo. O equipamento também pode ser empregado como sistema de direção de tiro. Seu projeto facilita a manutenção dos sensores e a continuidade operacional, admite a instalação de proteção balística STANAG 2 e possui cobertura de 360 graus, com alcance laser de 50 metros a 10 quilômetros.

A combinação desses recursos amplia as possibilidades de emprego do navio em missões de patrulhamento, fiscalização e proteção de interesses brasileiros. Contudo, a disponibilidade de sensores e sistemas modernos precisa estar acompanhada de uma estrutura capaz de manter as embarcações operacionais durante todo o seu ciclo de vida. É justamente nesse ponto que a discussão sobre a renovação naval ultrapassa a incorporação de um único navio.

PRONAPA: a construção naval entre a retomada e a falta de continuidade

O Mangaratiba integra o Programa de Obtenção de Navios-Patrulha (PRONAPA), que prevê a construção de 11 embarcações de aproximadamente 500 toneladas, reunindo navios da Classe Macaé e o projeto NPa500BR. A trajetória do programa, entretanto, revela como dificuldades industriais e limitações de financiamento podem comprometer o planejamento de longo prazo da Defesa.

Um dos episódios mais relevantes foi a crise financeira da EISA e o encerramento das atividades do estaleiro, que interromperam a construção de navios-patrulha ainda inacabados. Diante da situação, a Marinha transferiu as embarcações para o Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, que assumiu a responsabilidade de dar continuidade aos trabalhos e concluir os navios.

A transferência representou um desafio técnico e industrial. O AMRJ precisou absorver projetos iniciados em outra estrutura produtiva, avaliar o estágio de execução das embarcações e reorganizar os trabalhos para retomar a construção. A iniciativa evitou que os cascos e os investimentos já realizados fossem definitivamente perdidos, mas também evidenciou o custo de uma interrupção industrial: recuperar cronogramas exige recursos, planejamento, mão de obra especializada e capacidade de gestão.

A retomada conduzida pelo Arsenal começa a apresentar resultados concretos. Além do Navio-Patrulha Maracanã (P72) e do Navio-Patrulha Mangaratiba (P73), o Navio-Patrulha Miramar (P74), próximo meio da Classe Macaé, encontra-se em estágio avançado de construção no AMRJ, com lançamento previsto para 2028. O NPa Magé ainda integra o planejamento de continuidade do programa, apesar de depender de definições

O avanço do Miramar é particularmente relevante porque demonstra a importância de preservar uma estrutura nacional capaz de assumir empreendimentos interrompidos e manter a construção naval em andamento. O AMRJ não atua apenas como local de construção: sua capacidade técnica e industrial constitui um ativo estratégico para a Marinha, especialmente diante das dificuldades de manter uma cadeia produtiva estável no setor naval de Defesa.

Mas a experiência da EISA também deixa uma lição que não pode ser ignorada. A contratação de um estaleiro, por si só, não assegura a entrega de um navio. É necessário que os projetos disponham de financiamento previsível, mecanismos de acompanhamento, fornecedores preparados e continuidade administrativa. Quando esses elementos falham, o resultado pode ser a paralisação de obras, o aumento de custos e a necessidade de transferir empreendimentos para outras estruturas, com impactos sobre o cronograma e a capacidade de planejamento da Força.

Previsibilidade orçamentária: o desafio que compromete a renovação

As dificuldades do PRONAPA não se limitam à crise enfrentada pela EISA. As restrições orçamentárias também têm impacto direto sobre a capacidade da Marinha de executar seus programas estratégicos.

O Relatório de Gestão da Marinha referente a 2025 registra limitações na execução dos recursos destinados ao PRONAPA, ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) e ao Programa Nuclear da Marinha (PNM). Os recursos inicialmente previstos para esses programas, que somavam R$ 2,260 bilhões, sofreram uma redução de R$ 91 milhões, resultando em R$ 2,169 bilhões. Mesmo com o aporte antecipado de R$ 1 bilhão de dotações de 2026, viabilizado pela Lei Complementar nº 221/2025, a própria Marinha reconheceu que os recursos permaneceram abaixo das necessidades.

O documento também aponta dificuldades decorrentes da liberação tardia de recursos, limitações para movimentação e empenho, renegociações e custos adicionais. Essas condições afetam diretamente o ritmo dos projetos e contribuem para atrasos na entrega de meios, prolongando a utilização de embarcações que já deveriam ter sido substituídas.

Esse quadro precisa ser observado sob uma perspectiva estratégica. A construção de um navio de guerra ou de um navio-patrulha não se ajusta ao calendário político ou à disponibilidade eventual de recursos. São empreendimentos plurianuais, que dependem de compromissos financeiros contínuos, contratos de longo prazo, fornecedores especializados e equipes técnicas cuja qualificação precisa ser preservada.

Quando os investimentos são interrompidos ou sofrem contingenciamentos sucessivos, os efeitos ultrapassam o atraso de uma entrega. A indústria perde previsibilidade, fornecedores deixam de investir, profissionais especializados podem ser deslocados para outras atividades e a retomada dos trabalhos tende a exigir recursos adicionais. Em última análise, o Estado pode acabar pagando mais para receber menos capacidade operacional no prazo inicialmente planejado.

Por isso, a renovação dos meios navais precisa ser tratada como política de Estado, e não como iniciativa condicionada às prioridades fiscais de cada governo. A previsibilidade orçamentária não é apenas uma questão administrativa: constitui um requisito para a soberania, para a manutenção da capacidade industrial e para a disponibilidade dos meios necessários ao cumprimento das missões constitucionais da Marinha.

Novos projetos e a necessidade de uma política industrial consistente

A continuidade do PRONAPA também depende da viabilização dos três novos navios-patrulha de 500 toneladas do projeto NPa500BR, conduzido pela EMGEPRON e incluído na carteira de projetos aprovada pelo Conselho Diretor do Fundo da Marinha Mercante (CDFMM) em julho de 2026.

A aprovação representa uma etapa importante para a possível viabilização do empreendimento, mas não significa que o financiamento ou a contratação das embarcações já estejam concluídos. Ainda são necessárias as etapas administrativas e financeiras para que seja realizada a licitação, e a construção possa avançar.

Paralelamente, os investimentos previstos no Novo PAC para oficinas especializadas do AMRJ podem contribuir para recuperar competências, ampliar a capacidade produtiva e fortalecer a estrutura de manutenção dos meios navais. Em um cenário de restrições orçamentárias e envelhecimento de parte da Esquadra, preservar a infraestrutura existente é tão importante quanto iniciar novos projetos.

O desafio, portanto, não está apenas em anunciar a construção de novas embarcações, mas em estabelecer uma sequência sustentável de projetos que mantenha estaleiros, fornecedores e profissionais em atividade. Uma indústria naval de Defesa não se consolida por meio de encomendas isoladas, mas pela continuidade de uma carteira de projetos compatível com as necessidades estratégicas do país.

Margem Equatorial: riqueza marítima exige capacidade de proteção

A incorporação do Mangaratiba ao 4º Distrito Naval também ganha relevância diante dos interesses estratégicos associados à Margem Equatorial. A Amazônia Azul, com aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados, concentra recursos naturais, rotas comerciais, infraestrutura energética e interesses econômicos e de soberania que exigem presença e capacidade de fiscalização permanentes.

A ampliação das atividades econômicas offshore e a perspectiva de exploração de recursos na Margem Equatorial reforçam a necessidade de meios capazes de monitorar, fiscalizar e proteger essas áreas. A presença naval não pode ser vista como um elemento secundário da política de desenvolvimento marítimo: ela integra as condições necessárias para que o Brasil exerça seus direitos e proteja seus interesses no mar.

Nesse contexto, uma proposta a ser considerada é a criação de um mecanismo permanente de financiamento para a renovação dos meios navais, com possibilidade de destinar parte das receitas futuras provenientes da exploração de recursos offshore ao fortalecimento da capacidade de vigilância, proteção e fiscalização marítima.

A iniciativa exigiria estrutura legal e orçamentária própria, com governança, transparência e critérios claros de aplicação. Não se trata de estabelecer uma vinculação automática de receitas, mas de discutir instrumentos que permitam transformar parte da riqueza produzida em áreas marítimas estratégicas em capacidade permanente de proteção desses mesmos espaços.

A lógica é direta: se o país pretende ampliar o aproveitamento econômico de seus recursos marítimos, precisa assegurar os meios para monitorar e proteger as áreas onde esses recursos estão localizados. Isso envolve não apenas navios-patrulha, mas também escoltas, aeronaves, sistemas de vigilância, infraestrutura de apoio e capacidade de manutenção.

Uma entrega importante, mas um desafio que permanece

A incorporação do Mangaratiba representa uma entrega concreta e amplia a presença da Marinha na região Norte. O avanço do Miramar e a retomada dos trabalhos no AMRJ também demonstram que a capacidade industrial nacional pode desempenhar papel decisivo na continuidade dos programas navais, inclusive quando empreendimentos enfrentam dificuldades no setor privado.

Entretanto, o histórico do PRONAPA evidencia que a renovação da Esquadra não depende somente de projetos, tecnologia ou capacidade de construção. Depende, sobretudo, de continuidade institucional, planejamento de longo prazo e previsibilidade orçamentária.

A experiência com a EISA demonstra o impacto que uma ruptura industrial pode provocar. As restrições registradas pela própria Marinha mostram que, mesmo quando existe capacidade técnica para executar os projetos, a falta de recursos suficientes e liberados no momento adequado compromete os resultados.

O Brasil precisa superar a lógica de investimentos descontínuos e construir uma política de Defesa que preserve seus programas estratégicos ao longo dos ciclos de governo. A proteção da Amazônia Azul, a segurança das rotas marítimas e a defesa dos interesses nacionais exigem uma Marinha equipada e uma indústria capaz de sustentá-la.

O Mangaratiba chega à Esquadra como um novo meio operacional. O desafio maior, porém, permanece: garantir que sua incorporação não seja um episódio isolado, mas parte de um processo contínuo de renovação naval, sustentado por investimentos, capacidade industrial e compromisso de Estado com a soberania marítima brasileira.


Por Angelo Nicolaci


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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Exército testa tiro embarcado com REMAX durante transposição aquática do blindado Guarani

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O Exército Brasileiro realizou um exercício inédito de adestramento com a Viatura Blindada de Transporte de Pessoal (VBTP) Guarani 6×6, combinando o emprego do Sistema de Armas REMAX com a transposição de um curso d’água. A atividade foi conduzida pelo 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado, em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, e reuniu mobilidade, tiro embarcado e compartilhamento de informações em uma mesma situação de treinamento.

Durante a atividade, os militares executaram disparos com o REMAX enquanto o Guarani realizava a travessia do obstáculo aquático. O exercício exigiu coordenação entre os integrantes da guarnição e domínio dos procedimentos de operação da viatura e do sistema de armas em uma condição que combina deslocamento e emprego do armamento.

Outro aspecto relevante foi a transmissão, em tempo real, das imagens captadas pelo visor do atirador ao comandante do pelotão. O recurso permite que o comandante acompanhe a perspectiva do operador do sistema, ampliando o compartilhamento de informações e contribuindo para a consciência situacional da fração.

A atividade evidencia a importância da integração entre os sistemas embarcados e os procedimentos de comando e controle. Em um ambiente operacional, a capacidade de compartilhar imagens e informações pode favorecer a coordenação das ações, embora o desempenho desse recurso dependa das condições de comunicação e da configuração dos equipamentos empregados.

O REMAX é um sistema de armas remotamente controlado desenvolvido no Brasil, em uma parceria entre o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e a empresa ARES. Sua operação a partir do interior da viatura permite que o militar empregue o armamento sem precisar ficar exposto diretamente no posto de armas, contribuindo para a proteção da guarnição.

Integrado ao Guarani, o sistema combina a mobilidade da plataforma blindada com a capacidade de engajamento proporcionada pela estação de armas. A viatura, por sua vez, integra o Programa Estratégico Forças Blindadas e representa um dos principais projetos de modernização da capacidade mecanizada do Exército Brasileiro.

Mais do que demonstrar o emprego de equipamentos já incorporados à Força, o exercício realizado pelo 10º RC Mec chama atenção pela exploração conjunta de capacidades em uma situação específica de adestramento. A combinação entre transposição aquática, tiro embarcado e compartilhamento de imagens permite treinar procedimentos que exigem coordenação entre tripulação, operador do sistema de armas e comando da fração.

A experiência também reforça a importância do adestramento para extrair o potencial dos meios disponíveis. A incorporação de tecnologias nacionais à frota mecanizada precisa ser acompanhada por treinamento contínuo, integração entre sistemas e desenvolvimento de procedimentos operacionais que permitam seu emprego eficiente em diferentes cenários.


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Saab e GA-ASI testam capacidade AEW não tripulada integrada ao MQ-9B

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A Saab e a General Atomics Aeronautical Systems (GA-ASI) realizaram com sucesso um teste em voo da capacidade de alerta aéreo antecipado (AEW) LoyalEye, integrada à aeronave remotamente pilotada MQ-9B. A atividade representa um avanço no desenvolvimento de uma solução não tripulada voltada à vigilância e ao acompanhamento de alvos aéreos.

O ensaio foi conduzido nas instalações Desert Horizon Flight Operations Facility, da GA-ASI, no sul da Califórnia, e avaliou o desempenho do sistema integrado. Durante o voo, foram demonstradas capacidades de detecção, rastreamento e classificação de alvos aéreos, com acompanhamento em tempo real por representantes das empresas e demais participantes do programa.

O teste dá continuidade a um programa de avaliação iniciado em maio de 2026, quando ocorreu o primeiro voo do sistema. A nova etapa permitiu verificar a integração do radar LoyalEye, desenvolvido pela Saab, à plataforma MQ-9B em condições representativas de emprego operacional.

Segundo Carl-Johan Bergholm, responsável pela área de negócios Surveillance da Saab, o resultado constitui um marco no desenvolvimento de capacidades não tripuladas de alerta aéreo antecipado. A proposta é complementar os sistemas AEW&C convencionais, oferecendo maior flexibilidade e permanência em operação.

David R. Alexander, presidente da GA-ASI, também destacou o interesse internacional pela integração. Segundo ele, a solução responde à demanda de potenciais clientes por uma capacidade de alerta aéreo antecipado embarcada em uma plataforma não tripulada.

O conceito permite que o MQ-9B equipado com o LoyalEye opere de forma independente ou em coordenação com aeronaves AEW&C tripuladas. A combinação pode ampliar a cobertura de vigilância, especialmente em cenários nos quais a permanência prolongada, o alcance geográfico e a redução da exposição de tripulações sejam fatores relevantes.

A integração também aponta para uma evolução no emprego de sistemas não tripulados em missões tradicionalmente associadas a aeronaves especializadas de alerta aéreo antecipado. Em vez de substituir necessariamente plataformas tripuladas, o MQ-9B com o LoyalEye poderá atuar como elemento complementar de uma arquitetura de vigilância em rede, ampliando a persistência e a distribuição dos sensores no teatro de operações.

O teste, contudo, representa uma etapa de validação do desenvolvimento. A maturidade operacional da capacidade e sua eventual adoção por operadores dependerão das próximas fases de avaliação e qualificação do sistema.


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AIAB alerta para riscos da dependência tecnológica estrangeira à soberania nacional

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A dependência de tecnologias estrangeiras em sistemas militares e infraestruturas estratégicas pode representar uma vulnerabilidade que vai além da capacidade de aquisição e operação de equipamentos. O controle de softwares, componentes eletrônicos, atualizações e serviços de suporte por fornecedores externos levanta uma questão central para a soberania nacional: até que ponto um país mantém o domínio efetivo sobre os meios que utiliza para defender seus próprios interesses?

O tema foi abordado por Júlio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), durante o XXVIII Simpósio de Aplicações Operacionais em Áreas de Defesa (SIGE), realizado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), entre 29 de setembro e 1º de outubro de 2026. Em sua apresentação, intitulada “Soberania Nacional x Ameaça de Kill Switches em Sistemas Estrangeiros”, Shidara chamou atenção para os riscos associados à possibilidade de fabricantes ou governos estrangeiros restringirem ou interromperem o funcionamento de equipamentos fornecidos a outros países.

A discussão envolve mecanismos conhecidos como kill switches, recursos que podem permitir a desativação ou limitação remota de determinadas funcionalidades, e backdoors, portas de acesso que podem possibilitar o controle ou acesso não autorizado a sistemas. Embora sejam conceitos distintos, ambos levantam preocupações quando incorporados a tecnologias utilizadas em áreas sensíveis, especialmente quando o país usuário não possui acesso ao código, domínio sobre os componentes críticos ou capacidade independente de manutenção e atualização.

Durante a apresentação, Shidara recorreu a exemplos históricos para demonstrar como a dependência tecnológica pode se converter em instrumento de pressão estratégica. Entre os episódios citados está a Guerra das Malvinas, em 1982, quando a Argentina empregou mísseis Exocet contra embarcações britânicas. O presidente da AIAB mencionou relatos de que mecanismos de bloqueio teriam sido associados ao armamento francês. Esse tipo de afirmação, contudo, exige cautela: a existência de um dispositivo específico de desativação remota nos Exocet não deve ser tratada como fato estabelecido sem documentação independente.

Outro exemplo apresentado foi a restrição de acesso ao GPS. O episódio da Terceira Crise do Estreito de Taiwan, em 1996, é frequentemente associado à decisão chinesa de desenvolver uma capacidade própria de navegação por satélite, que posteriormente deu origem ao sistema BeiDou. A Índia também enfrentou limitações de acesso ao GPS durante a Guerra de Kargil, em 1999, experiência que reforçou a busca por autonomia nesse domínio e contribuiu para o desenvolvimento do NavIC, seu sistema regional de navegação por satélite.

A experiência indiana também foi mencionada em relação à dependência de componentes estrangeiros. Segundo os exemplos apresentados por Shidara, ocorrências envolvendo drones fabricados na Índia, mas equipados com componentes críticos de origem chinesa, teriam evidenciado riscos relacionados à disponibilidade e ao controle dos sistemas. Esses relatos reforçam a importância de conhecer a procedência dos componentes e assegurar mecanismos de verificação e controle sobre os equipamentos utilizados pelas Forças Armadas.

O Brasil também aparece nesse debate. Shidara citou relatos de que teria ocorrido negação de acesso ao GPS durante os primeiros lançamentos do Veículo Lançador de Satélites (VLS), em 1997 e 1999, no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. A afirmação foi relacionada ao artigo “Quem mexeu no meu queijo?”, de autoria do professor Waldemar de Castro Leite Filho. Trata-se de um episódio que merece investigação documental, especialmente para estabelecer as circunstâncias técnicas e a eventual participação de interferência externa.

A discussão ganhou novas dimensões com a crescente utilização de serviços comerciais de comunicação por satélite em operações militares. O emprego de redes estrangeiras, como a Starlink, oferece conectividade e amplia as possibilidades de comunicação em regiões remotas, mas também cria dependências relacionadas à disponibilidade do serviço, às decisões do operador e às condições de acesso impostas pelo fornecedor. O desafio está em aproveitar essas capacidades sem comprometer a autonomia de comando e a continuidade das operações nacionais.

Shidara também chamou atenção para os riscos associados à cadeia global de fornecimento de componentes eletrônicos. Um microchip comprometido, uma atualização maliciosa de firmware ou uma vulnerabilidade deliberadamente introduzida em equipamentos de rede podem afetar sistemas inteiros. Em infraestruturas críticas, como redes de comunicações, sistemas de comando e controle e instalações estratégicas, uma vulnerabilidade desse tipo pode produzir consequências que ultrapassam o equipamento individual.

Entre os exemplos internacionais citados na apresentação estão questionamentos sobre possíveis mecanismos de controle em sistemas de defesa e equipamentos industriais de alta tecnologia. Relatos envolvendo o fornecimento de armamentos à Ucrânia, aeronaves de combate, sistemas de mísseis e equipamentos de fabricação de semicondutores ilustram a preocupação crescente com a possibilidade de restrições externas ao uso de tecnologias estratégicas. Entretanto, a existência de kill switches em cada um desses sistemas não está publicamente comprovada de maneira uniforme, sendo necessário distinguir mecanismos tecnicamente possíveis de ocorrências efetivamente documentadas.

Para o presidente da AIAB, a ausência de incidentes conhecidos envolvendo equipamentos estrangeiros em operação no Brasil não representa garantia de que esses sistemas permaneceriam disponíveis em um cenário de conflito ou de deterioração das relações internacionais. Em uma crise, decisões políticas e restrições comerciais podem afetar o fornecimento de peças, atualizações, suporte técnico e serviços essenciais à operação de equipamentos militares.

A questão, portanto, não se limita à existência de um dispositivo capaz de desligar remotamente um sistema. A dependência de fornecedores externos pode produzir formas mais amplas de cerceamento tecnológico, desde a interrupção de atualizações e manutenção até a restrição de acesso a componentes indispensáveis. Mesmo sem um mecanismo de bloqueio incorporado, um equipamento pode perder sua disponibilidade operacional caso o país usuário não consiga mantê-lo de maneira independente.

A resposta defendida por Shidara passa pelo fortalecimento da Base Industrial de Defesa e pelo desenvolvimento endógeno de tecnologias críticas. O objetivo não seria eliminar toda aquisição internacional, algo pouco realista diante da complexidade das cadeias globais de tecnologia, mas reduzir vulnerabilidades por meio do domínio nacional de conhecimentos, componentes, softwares e processos de manutenção essenciais.

A Índia foi apresentada como referência por sua política de autossuficiência tecnológica, conhecida como Aatmanirbharta, que busca ampliar a capacidade nacional de desenvolver e produzir tecnologias estratégicas. A experiência demonstra a importância de uma política de Estado que articule indústria, universidades, centros de pesquisa e estruturas governamentais em torno de objetivos de longo prazo.

Para o Brasil, esse debate tem implicações diretas sobre programas estratégicos das Forças Armadas, sistemas de comunicações, navegação, sensores, defesa aérea, plataformas aeronáuticas e tecnologias espaciais. A aquisição de equipamentos modernos precisa ser acompanhada de estratégias que assegurem acesso ao conhecimento necessário para operá-los, mantê-los, atualizá-los e, quando necessário, adaptá-los às necessidades nacionais.

A soberania tecnológica não exige que o Brasil produza isoladamente tudo aquilo que utiliza. Exige, porém, que o país tenha capacidade de compreender, avaliar e controlar os elementos essenciais dos sistemas dos quais depende. Como alerta a AIAB, a autonomia sobre tecnologias críticas precisa ser considerada parte integrante da capacidade de defesa nacional, e não apenas uma questão industrial ou comercial.


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Empresas brasileiras se unem para desenvolver satélite de monitoramento da Amazônia

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A indústria espacial brasileira avança na articulação de competências para desenvolver soluções nacionais de monitoramento ambiental. A Fundação Ezute, Concert Space, HORUSEYE TECH, TR Radares e CRON Sistemas assinaram, em 20 de outubro, na sede da Ezute, em São Paulo, um Memorando de Entendimentos (MoU) para cooperar no desenvolvimento da Missão ATTOSat, iniciativa que prevê a construção, o lançamento e a operação de um satélite de pequeno porte dedicado à observação atmosférica e climática da Amazônia.

A proposta busca ampliar a capacidade de obtenção de dados sobre fenômenos que influenciam o clima e a qualidade do ar na região. Entre os parâmetros previstos estão aerossóis, formação de nuvens, queimadas e poluição atmosférica, além da possibilidade de monitoramento de gases de efeito estufa. Essas informações poderão subsidiar pesquisas científicas, aprimorar o acompanhamento de fenômenos ambientais e oferecer elementos técnicos para políticas públicas de preservação e enfrentamento das mudanças climáticas.

O projeto reúne empresas e instituições com competências distintas, em uma estrutura de cooperação voltada ao desenvolvimento de uma missão espacial completa. A participação da Fundação Ezute acrescenta experiência em engenharia de sistemas e gestão de projetos complexos, enquanto as demais organizações integram o conjunto de capacidades tecnológicas reunidas para viabilizar a iniciativa.

Para o diretor-presidente da Fundação Ezute, Roberto Lorenzoni, a cooperação representa uma oportunidade de aplicar conhecimento e tecnologia nacionais a um desafio de interesse público. A iniciativa, segundo ele, busca conectar inovação e desenvolvimento tecnológico à produção de informações capazes de apoiar a ciência, a preservação ambiental e a tomada de decisões.

Na avaliação de Rafael Mordente, CEO da Concert Space, a entrada da Ezute fortalece a estruturação da missão. O executivo ressaltou que a experiência da fundação em engenharia de sistemas e gestão de projetos complexos complementa as competências já reunidas pelo grupo e contribui para organizar as próximas etapas do desenvolvimento.

O planejamento do ATTOSat contempla todo o ciclo de vida da missão, desde o desenvolvimento e a integração dos sistemas até o lançamento, os testes em órbita e a operação do satélite. A iniciativa também prevê uma infraestrutura terrestre para receber, processar e disponibilizar os dados coletados, com período de operação planejado de pelo menos dois anos.

Um marco importante ocorreu no primeiro semestre de 2026, quando o projeto foi admitido pela Agência Espacial Brasileira (AEB) na Carteira de Qualificação do ProSAME. Essa etapa permite avançar para estudos mais aprofundados de viabilidade técnica, científica e orçamentária, mas não representa, por si só, aprovação definitiva de financiamento ou autorização para lançamento.

O desenvolvimento do ATTOSat evidencia a importância de reunir competências nacionais para transformar conhecimento científico em capacidade tecnológica. Para a Amazônia, uma região de dimensões continentais e marcada por fenômenos ambientais complexos, a disponibilidade de dados obtidos por satélite poderá ampliar os instrumentos de observação e análise. Para o setor espacial brasileiro, a iniciativa representa uma oportunidade de fortalecer a participação da indústria nacional em uma missão que integra engenharia, tecnologia espacial e aplicações ambientais.


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Integração dos pods RECCELITE e Litening amplia capacidades do F-39E Gripen da FAB

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A Força Aérea Brasileira (FAB) avança na evolução das capacidades do F-39E Gripen com a integração dos pods RECCELITE e Litening. Entre 6 e 8 de outubro, na Base Aérea de Anápolis (BAAN), o caça realizou os primeiros voos com os dois equipamentos, durante uma campanha de Testes de Aceitação em Solo e em Voo (SAT), destinada a verificar o funcionamento dos sistemas e sua integração à aeronave.

Embora instalados externamente no caça, RECCELITE e Litening desempenham funções distintas e complementares. O primeiro é dedicado ao reconhecimento aéreo e à obtenção de imagens, enquanto o segundo reúne recursos para detectar, identificar e acompanhar alvos, além de realizar designação a laser para o emprego de armamentos compatíveis. Juntos, ampliam as possibilidades de emprego do Gripen, combinando coleta de informações e apoio a missões de ataque de precisão.

Voltado às missões de inteligência, vigilância e reconhecimento, o RECCELITE utiliza sensores eletro-ópticos e infravermelhos para obter imagens de alta resolução durante o dia e à noite. Sua capacidade de monitorar áreas e registrar detalhes de pontos de interesse permite produzir informações relevantes para o planejamento e a condução das operações. O sistema também possibilita transmitir e processar imagens em tempo real, disponibilizando o material captado pela aeronave para análise em solo.

O Litening atua em outra dimensão da missão. Seu conjunto de sensores permite observar, identificar e acompanhar objetivos, inclusive em condições de baixa luminosidade. O equipamento também oferece capacidade de designação a laser para armamentos compatíveis, contribuindo para a precisão dos ataques. Dessa forma, enquanto o RECCELITE concentra-se na coleta de informações e no reconhecimento do ambiente operacional, o Litening oferece recursos diretamente associados à identificação e ao engajamento de alvos.

A campanha realizada em Anápolis reuniu militares da FAB e representantes da Embraer, Saab e Rafael, fabricante dos equipamentos. Além dos voos, os trabalhos contemplaram o recebimento e a verificação das estações e dos equipamentos de solo, bem como avaliações de conectividade e integração entre os sistemas embarcados e a estrutura de apoio.

Um dos aspectos destacados pela Força Aérea foi o emprego do datalink, que permite acompanhar a missão em tempo real e receber em solo imagens captadas durante o voo. Essa conectividade aproxima as equipes responsáveis pelo acompanhamento das operações das informações produzidas pela aeronave, permitindo que o material seja analisado ainda durante a missão.

O Tenente Engenheiro Nickolas Batista Mendonça Machado, responsável pela equipe técnica da FAB envolvida nos testes, destacou a importância desse recurso para o acompanhamento das atividades e o fluxo de informações entre a aeronave e os operadores em solo.

A campanha SAT representa uma etapa de verificação dos equipamentos, das estações terrestres e dos procedimentos necessários à integração dos sistemas ao F-39. Segundo a FAB, novos avanços no desenvolvimento dessas capacidades estão previstos para 2027.

Com a integração do RECCELITE e do Litening, o Gripen brasileiro amplia seu conjunto de recursos para reconhecimento, produção de inteligência e apoio ao ataque de precisão. O avanço não se limita à instalação de novos sensores: envolve também a capacidade de conectar a coleta de informações em voo à análise em solo, fortalecendo o suporte informacional ao planejamento e à execução das missões da Força Aérea.


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Com FAB

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