Nova versão do míssil de cruzeiro naval da MBDA terá alcance superior a 1.000 quilômetros, maior resistência à guerra eletrônica e capacidade aprimorada de penetração de defesas aéreas. Contratação foi anunciada pela DGA durante a Euronaval 2026, com entregas previstas a partir de 2030.
A França prepara a aquisição de uma nova geração de mísseis de cruzeiro navais MdCN, desenvolvidos pela MBDA. Anunciada pela Direção-Geral do Armamento (DGA) em 6 de novembro, durante a Euronaval 2026, a futura contratação prevê o fornecimento do padrão Mk2, evolução do armamento que já integra o arsenal da Marinha Francesa. As primeiras entregas estão previstas para 2030.
O anúncio representa um passo importante para a manutenção e evolução da capacidade francesa de realizar ataques convencionais de precisão contra alvos terrestres a grandes distâncias, utilizando plataformas navais. A DGA informou que pretende assinar em breve o contrato com a MBDA, mas não divulgou o número de unidades previstas nem o valor da aquisição. Portanto, trata-se de uma contratação anunciada, cuja formalização ainda está pendente, e não de um contrato já concluído.
A capacidade de lançamento por diferentes plataformas amplia as possibilidades de planejamento e posicionamento da força naval. Em uma operação, fragatas e submarinos podem atuar de maneira complementar, oferecendo diferentes eixos de ataque e dificultando a identificação antecipada da origem de uma ameaça.
Evolução tecnológica e resistência às defesas
De acordo com a DGA, o novo padrão terá alcance superior a 1.000 quilômetros e incorporará melhorias de furtividade, letalidade e resistência à interferência dos sistemas de navegação por satélite, conhecidos pela sigla GNSS. A preparação das missões também será aprimorada por recursos de inteligência artificial desenvolvidos pelas equipes da MBDA.
Essas evoluções respondem a um ambiente operacional no qual sistemas integrados de defesa aérea, radares de maior capacidade e recursos de guerra eletrônica tornam mais complexa a realização de ataques de longo alcance. A capacidade de manter a navegação e a precisão mesmo diante de interferências passa a ser tão relevante quanto a distância que o míssil consegue percorrer.
A utilização de recursos de inteligência artificial na preparação das missões também merece atenção. Segundo a DGA, essas ferramentas serão incorporadas ao planejamento do emprego do armamento. Isso não significa que o míssil passe a operar de forma autônoma na escolha de alvos, mas que o processo de preparação poderá contar com recursos avançados para organizar e otimizar os parâmetros da missão.
A MBDA informa que o NCM/LCM Mk2, denominações internacional e terrestre do sistema, respectivamente, mantém a possibilidade de lançamento vertical por meio do sistema SYLVER A70, utilizado em navios de guerra, ou por tubos de torpedo de 533 milímetros em submarinos. A empresa também destaca a capacidade de realizar ataques coordenados, com múltiplos mísseis atingindo seus objetivos em horários sincronizados.
Um armamento que já faz parte da capacidade francesa
O MdCN Mk2 não representa a introdução de uma capacidade inteiramente nova. Seu antecessor já proporciona à França a possibilidade de realizar ataques de longo alcance a partir de meios navais.
O míssil original entrou em serviço na Marinha Francesa em 2017, inicialmente nas fragatas FREMM, e posteriormente foi integrado aos submarinos da classe Suffren. O armamento deriva da experiência acumulada pela MBDA no desenvolvimento de mísseis de cruzeiro como o SCALP/Storm Shadow, mas foi adaptado às exigências de lançamento a partir de navios e submarinos.
A própria DGA destaca que o MdCN complementa a capacidade de ataque proporcionada pelo SCALP-EG, lançado por aeronaves. A diferença está nas plataformas empregadas e nas opções de posicionamento disponíveis: enquanto a aviação permite projetar poder a partir de bases aéreas e aeronaves embarcadas, o MdCN acrescenta a possibilidade de realizar ataques a partir de unidades navais distribuídas em diferentes áreas marítimas.
A experiência operacional também contribuiu para a evolução do sistema. A França empregou o MdCN em ataques contra alvos na Síria durante a Operação Hamilton, em abril de 2018. A experiência acumulada desde sua entrada em serviço integra o processo de aperfeiçoamento que agora desemboca no padrão Mk2.
A decisão francesa ocorre em um momento de reavaliação das capacidades militares europeias, marcado pela necessidade de ampliar estoques de munições, reforçar a capacidade de sustentação de operações prolongadas e desenvolver armamentos capazes de enfrentar sistemas de defesa cada vez mais sofisticados.
Nesse cenário, a evolução do MdCN não deve ser observada apenas pelo alcance superior a 1.000 quilômetros. O aspecto central é a capacidade de preservar a eficácia de um armamento de ataque em profundidade diante de interferências eletrônicas e defesas aéreas modernas. A sobrevivência do míssil durante o percurso, a precisão terminal e a possibilidade de coordenar ataques entre diferentes plataformas são elementos que influenciam diretamente seu valor operacional.
Há também uma dimensão industrial. Ao manter o desenvolvimento e a produção de um míssil de cruzeiro naval sob responsabilidade da MBDA, a França preserva uma competência estratégica que poucos países europeus possuem de forma autônoma. A continuidade desse conhecimento envolve não apenas o projeto do armamento, mas também sua integração às plataformas, a preparação das missões, a manutenção e a capacidade de reposição dos estoques.
A aquisição do Mk2, portanto, representa mais do que a modernização de um míssil já existente. É parte de um esforço para assegurar que a Marinha Francesa mantenha uma capacidade de ataque convencional de longo alcance, disponível tanto em unidades de superfície quanto submarinas, e compatível com as exigências de um cenário de conflito de alta intensidade.
Para a Europa, a decisão também reforça a busca por maior autonomia na produção e no emprego de armamentos estratégicos. Em um ambiente no qual a disponibilidade de munições e a capacidade de reposição podem influenciar a duração de uma campanha militar, possuir um sistema próprio de ataque em profundidade representa uma dimensão relevante da liberdade de ação nacional.
por Angelo Nicolaci
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