quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Exército inicia incorporação da versão nacional da VBMT Guaicurus e amplia produção de blindados no Brasil

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"Primeira unidade produzida em Sete Lagoas marca uma nova etapa do programa, que prevê 420 viaturas e fortalece a capacidade brasileira de fabricação e manutenção de veículos blindados"

O Exército Brasileiro recebe nesta quarta-feira (9) em Sete Lagoas, Minas Gerais, a primeira unidade da versão nacional da Viatura Blindada Multitarefa Guaicurus. A solenidade marca o início de uma nova etapa do programa que além de ampliar a frota blindada da Força, estabelece uma capacidade industrial permanente para a produção e sustentação da plataforma em território brasileiro.

A nova fase teve origem no contrato firmado com a IDV em 2024, no valor de aproximadamente R$ 1,4 bilhão, que prevê o fornecimento de 420 viaturas. As entregas estão previstas até 2033 e integram o Programa Forças Blindadas, iniciativa estratégica que visa a incorporação de mais de 2.100 novos blindados de diferentes tipos ao Exército até 2040.

Mais do que o número de viaturas, entretanto, o aspecto de maior relevância estratégica está na nacionalização da linha de montagem. Concluída neste ano em Sete Lagoas, a estrutura passa a permitir a montagem dos veículos no Brasil e a fabricação de componentes em território nacional, criando uma cadeia que poderá participar não apenas da produção, mas também da manutenção e da evolução da frota ao longo de seu ciclo de vida.

Essa capacidade é particularmente importante em programas militares de longa duração. Uma frota de centenas de viaturas representa uma demanda permanente por peças, manutenção, mão de obra especializada e atualização de sistemas. Ao manter parte desse conhecimento e dessa estrutura produtiva no Brasil, o Exército reduz sua dependência de cadeias externas e cria condições para maior autonomia logística.

Uma capacidade intermediária para a Força Terrestre

A VBMT Guaicurus ocupa uma posição específica dentro da estrutura de meios terrestres do Exército. A viatura foi concebida para preencher a lacuna existente entre os veículos leves utilizados para transporte e patrulha, normalmente com proteção limitada, e os blindados sobre rodas 6x6 e 8x8 ou sobre lagartas.

Essa característica permite empregar uma plataforma protegida e de elevada mobilidade em missões nas quais seria desnecessário ou pouco eficiente utilizar um blindado de maior porte.

A proteção contra explosões é um dos elementos centrais do projeto. A viatura conta com uma célula de sobrevivência e assoalho em formato de “V”, solução destinada a reduzir os efeitos de explosões de minas e outros artefatos sob o veículo.

A arquitetura também permite diferentes configurações. O mesmo chassi pode ser adaptado para missões como patrulha armada, guerra eletrônica e ambulância, entre outras aplicações.

Essa modularidade ganha importância diante da necessidade da força terrestre operar em ambientes distintos sem manter uma plataforma específica para cada função. A capacidade de reconfiguração permite aproveitar uma mesma família de viaturas em diferentes missões, simplificando parte da estrutura logística e ampliando a flexibilidade operacional.

Produção nacional amplia o potencial do programa

O Exército já possui 32 Guaicurus provenientes de um primeiro contrato com a IDV. O novo acordo, com outras 420 unidades, elevará significativamente a presença da plataforma na Força, mas introduz uma mudança relevante: a produção passa a contar com uma estrutura nacionalizada.

A fábrica de Sete Lagoas entregará outras 14 unidades ainda em 2026, totalizando 15 viaturas neste primeiro ano da nova fase. As demais 405 unidades serão entregues de forma contínua até 2033.

O cronograma prolongado também tem importância para a Base Industrial de Defesa. Em vez de uma produção concentrada em curto período, o contrato estabelece uma demanda que se estende por vários anos, permitindo manter mão de obra qualificada, fornecedores e conhecimento técnico associados ao programa.

Esse efeito é relevante porque a nacionalização de um sistema de defesa não deve ser medida apenas pelo percentual de componentes fabricados localmente. A capacidade de manter uma cadeia produtiva ativa e capaz de evoluir a plataforma ao longo do tempo é igualmente importante para a autonomia de defesa.

Guaicurus poderá incorporar sistemas brasileiros

A produção nacional também favorece a integração da VBMT com equipamentos desenvolvidos pela própria indústria de defesa brasileira. Entre os sistemas citados estão a família de rádios Mallet, produzida pela IMBEL, e sistemas de armas automatizados equipados com câmeras termais, nos calibres .50 e 7,62 mm.

A integração desses equipamentos amplia o potencial da viatura dentro da arquitetura de combate do Exército. O Guaicurus deixa de ser apenas um meio protegido de transporte e passa a poder atuar como uma plataforma conectada aos sistemas de comunicações, observação e armas utilizados pela Força.

A presença de sistemas de armas remotamente controlados também permite ao operador empregar o armamento a partir do interior da célula protegida, aumentando a segurança da guarnição e melhorando a capacidade de observação e resposta.

Esse caminho é particularmente importante porque permite que a plataforma acompanhe a evolução tecnológica sem que seja necessário substituí-la integralmente a cada nova geração de equipamentos.

O papel dentro do Programa Forças Blindadas

A aquisição dos 420 Guaicurus precisa ser observada dentro de um processo muito maior de renovação dos meios blindados do Exército. O Programa Forças Blindadas prevê mais de 2.100 novos blindados até 2040, contemplando diferentes categorias de veículos e necessidades operacionais. O Guaicurus não substitui as plataformas de combate de maior porte, mas complementa essa estrutura ao oferecer proteção e mobilidade em uma faixa intermediária.

Essa composição é importante para uma força terrestre que precisa administrar diferentes níveis de ameaça. Empregar um grande blindado em todas as missões seria logisticamente mais complexo e economicamente menos racional. Da mesma forma, utilizar veículos leves sem proteção em ambientes de maior risco pode comprometer a sobrevivência das tropas. O Guaicurus procura justamente ocupar esse espaço intermediário, oferecendo uma combinação de mobilidade, proteção e flexibilidade.

A distribuição das capacidades entre diferentes categorias de blindados também permite ao Exército preservar seus meios mais pesados para missões que realmente exijam maior poder de fogo e proteção, enquanto plataformas como a VBMT podem assumir uma parcela maior das tarefas de patrulha, transporte protegido, reconhecimento e apoio.

Um blindado pensado para um ciclo de décadas

Outro aspecto que merece atenção é que a entrega das primeiras unidades representa apenas o começo de um ciclo muito mais longo. A previsão de entregas até 2033 significa que o Guaicurus estará presente na estrutura do Exército por muitos anos, tornando decisiva a capacidade brasileira de sustentá-lo e modernizá-lo.

É justamente nesse ponto que a nacionalização da linha ganha maior significado. A existência de uma estrutura produtiva em Sete Lagoas cria uma referência industrial dentro do país para atender às necessidades da frota, ao mesmo tempo em que permite acumular conhecimento sobre o veículo.

A possibilidade de incorporar novos equipamentos brasileiros também abre caminho para atualizações futuras, mantendo a plataforma relevante diante da evolução das ameaças.

Em programas militares, portanto, a capacidade de produzir é apenas uma parte da equação. A capacidade de manter, atualizar e adaptar o meio durante décadas é o que determina, em grande medida, sua efetiva autonomia operacional.

O nome Guaicurus

A denominação da viatura homenageia os Mbayá-Guaicuru, povo indígena historicamente associado ao Pantanal e ao Chaco, em áreas que atualmente abrangem partes de Mato Grosso do Sul, Paraguai e Bolívia.

Os Guaicurus eram reconhecidos pela habilidade no emprego de cavalos e pela capacidade de combater em movimento, inclusive lançando flechas durante a cavalgada. Essa tradição de mobilidade e combate tornou o grupo conhecido na história militar da região.

Durante o período colonial, alianças entre os Guaicurus e os portugueses tiveram importância na manutenção dos territórios sob domínio português diante das disputas com os espanhóis. Posteriormente, integrantes do povo Guaicuru participaram voluntariamente das tropas brasileiras durante a Guerra da Tríplice Aliança.

A escolha do nome estabelece, assim, uma referência histórica à mobilidade e à capacidade de combate, características que também estão presentes na proposta da moderna viatura blindada.

A primeira Guaicurus produzida em Sete Lagoas representa, nesse sentido, mais do que a chegada de uma nova viatura ao Exército. Ela marca o início de uma fase em que uma plataforma estrangeira passa a contar com uma estrutura produtiva e de sustentação estabelecida no Brasil.

Com 420 unidades previstas, entregas distribuídas até 2033 e possibilidade de integração com sistemas desenvolvidos pela indústria nacional, o programa combina renovação operacional com uma estratégia de fortalecimento da Base Industrial de Defesa.

O desafio, a partir de agora, será transformar essa nacionalização em capacidade permanente, garantindo que a estrutura criada para produzir o Guaicurus também seja capaz de sustentar e evoluir a frota durante as próximas décadas. É nesse aspecto que a iniciativa ganha peso estratégico: não apenas pelo número de blindados que chegarão às unidades do Exército, mas pelo conhecimento, pela infraestrutura e pela autonomia que podem permanecer no país depois que a última viatura do contrato deixar a linha de montagem.


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Aviação do Exército prepara nova arquitetura de combate com UH-60M, drones e criação do BARP

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"Em entrevista, General Amorim revela ao GBN Defense os planos para integrar helicópteros, SARP, inteligência artificial e guerra eletrônica diante de um campo de batalha cada vez mais transparente e contestado"

A Aviação do Exército atravessa um processo de transformação que vai muito além da simples renovação de sua frota de helicópteros. A evolução dos conflitos recentes, marcada pela presença massiva de drones, pelo emprego crescente da Guerra Eletrônica, pela dimensão cibernética e pela redução da liberdade de ação no espaço aéreo, está levando a Força Terrestre a repensar a forma como emprega suas capacidades aéreas.

Em entrevista ao GBN Defense, o General de Brigada Evandro Luís Amorim Rocha, Comandante da Aviação do Exército, apresentou um panorama das mudanças em curso e das prioridades que deverão orientar a AvEx nos próximos anos. A transformação envolve desde a incorporação dos novos HM-2A Black Hawkdesignação brasileira do UH-60M, até a criação de uma estrutura dedicada à operação de sistemas remotamente pilotados, passando pelo desenvolvimento de novas doutrinas, treinamento em simuladores, inteligência artificial e capacidades de Comando e Controle.

Segundo General Amorim, o ponto de partida para compreender essa transformação está na própria mudança do ambiente operacional.

O cenário operacional que se descortina apresenta um campo de batalha cada vez mais transparente, devido à existência de recursos tecnológicos democratizados a exemplo dos drones, da Guerra Eletrônica e da Cibernética”, explicou o General.

Esse processo produz uma consequência direta sobre o emprego da aviação militar. O espaço aéreo deixa de ser um ambiente no qual as aeronaves podem operar com relativa liberdade e passa a ser progressivamente disputado, monitorado e ameaçado por diferentes sistemas.

O comandante define esse cenário como um “domínio aéreo cada vez mais sobrecarregado e negado”, condição que exige tripulações mais preparadas e uma capacidade de adaptação permanente.

Nesse contexto, a missão da Aviação do Exército não se limita a operar aeronaves. A estrutura precisa acompanhar a evolução das ameaças, identificar lacunas de capacidade e transformar essas informações em soluções capazes de ampliar as possibilidades de emprego da Força Terrestre.

Cabe ressaltar que a Aviação sempre observará as possíveis ameaças e, a partir delas, construirá capacidades que contribuam para as Capacidades Militares Terrestres, especialmente no Enfrentamento e na Pronta-resposta”, afirmou General Amorim.

HM-2A marca uma nova etapa para a frota

Uma das mudanças mais importantes está na incorporação do HM-2A, designação adotada pelo Exército Brasileiro para o UH-60M Black Hawk. A aeronave está sendo incorporada por meio do Projeto Capacidade de Manobra, inserido no Programa Estratégico Exército Aviação e Drones.

A chegada do novo helicóptero não representa apenas a aquisição de uma plataforma. Segundo General Amorim, o objetivo é realizar sua incorporação completa à estrutura da Aviação, envolvendo operação, formação de pessoal, treinamento, regulamentação e logística.

O processo já está em andamento. Tripulações estão sendo formadas, estruturas de treinamento e apoio logístico estão sendo adaptadas e documentos doutrinários relacionados ao emprego da aeronave estão sendo atualizados ou produzidos.

Do contrato estabelecido, uma aeronave já foi recebida. Outras oito estão previstas para 2028 e as três últimas para 2029. A introdução do HM-2A também está diretamente relacionada à necessidade de substituir plataformas que se aproximam do final de seus ciclos de vida. 

A prioridade é substituir principalmente os HM-3 Cougar e os HM-2 Black Hawk (variante S-70A), mantendo na medida do possível, parte da frota atual em operação durante a transição.

Alguns HM-3 serão desativados durante esse período, mas teremos um incremento da frota com a chegada dos novos helicópteros, compensando a perda relativa”, explicou o comandante.

O desafio está em realizar essa transição sem ampliar de maneira desproporcional a estrutura de pessoal. A Aviação precisa manter os Cougar disponíveis enquanto forma e consolida as competências necessárias para operar o HM-2A.


O planejamento da manutenção da capacidade operacional é conduzido em conjunto pelo Comando de Operações Terrestres (COTER) e pelo Estado-Maior do Exército (EME), com assessoramento do Comando de Aviação do Exército (CAvEx) e do Comando Logístico (COLOG).

Drones deixam de ser complemento e passam a integrar a manobra

Se a renovação dos helicópteros representa uma evolução importante na capacidade de manobra, os drones introduzem uma transformação ainda mais profunda na doutrina de emprego da Aviação do Exército.

O emprego de SARP pelo Exército Brasileiro já está em desenvolvimento, tendo começado com a Companhia de SARP do 1º Batalhão de Aviação do Exército. Em abril de 2026, a Portaria EME/C Ex Nº 1.720 estabeleceu a Diretriz de Iniciação do Projeto de criação do Núcleo do Batalhão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, estrutura que deverá evoluir para o BARP.


A doutrina vem sendo construída a partir da observação de forças estrangeiras e principalmente do estudo dos conflitos recentes. O Centro de Instrução de Aviação do Exército também passou a estruturar programas de formação para os diferentes tipos de sistemas empregados pela Força.

No caso dos drones menores, a formação de multiplicadores nas brigadas permite ampliar a capacidade de treinamento e inserir a qualificação dos operadores no Sistema de Instrução Militar do Exército. Para os sistemas de maior porte, a formação permanece centralizada no CIAvEx, incluindo aspectos de emprego, doutrina e integração com as aeronaves tripuladas.

BARP deverá moldar o ambiente aéreo

A criação do BARP representa uma mudança importante na maneira como o Exército pretende utilizar seus sistemas remotamente pilotados. A ideia não é simplesmente multiplicar a quantidade de drones disponíveis, mas empregá-los de maneira coordenada para modificar as condições do espaço aéreo e criar oportunidades para as demais forças.

“Entendemos que o BARP irá operar drones das categorias 0, 1, 2 e 3, moldando o domínio aéreo e proporcionando aos SARP Categoria 3 liberdade para atuar nas ‘ações principais’, com grande alcance e letalidade”, afirmou General Amorim.

Essa concepção nasce diretamente das experiências observadas nos conflitos contemporâneos. O emprego de drones passou a ser associado principalmente à Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos e aos ataques de precisão, mas a realidade operacional é mais complexa.

Para o comandante, as manobras de drones devem ser compreendidas como parte de uma arquitetura maior.

“Manobras de drones moldam o ambiente operacional para permitir as ações principais e ações em profundidade nos níveis tático e estratégico-operacional”, explicou.

Essa lógica pode ser aplicada tanto em operações diretamente relacionadas ao campo de batalha quanto em ações contra estruturas de importância estratégica.

Categoria 3 amplia alcance da Aviação

Dentro desse processo, os SARP Categoria 3 ocupam posição de destaque. O projeto está em andamento dentro do Subprograma Drones do Programa Estratégico Exército Aviação e Drones.

A intenção, no curto prazo, é adquirir sistemas de Categoria 3 compatíveis com os padrões da OTAN para emprego pela Força Terrestre. Os Requisitos Operacionais, Técnicos, Industriais e Logísticos já foram publicados e os potenciais fornecedores foram informados.

Entre as exigências estabelecidas está uma maturidade tecnológica superior ao grau 9, com sistemas comprovados em combate, capacidade comprovada de apoio de fogo e ausência de restrições internacionais que impeçam seu fornecimento ao Brasil.

O alcance estimado de até 1.000 quilômetros e a elevada autonomia projetada para esses sistemas representam uma mudança significativa na capacidade de projeção da Aviação do Exército.

Os novos SARP não deverão substituir os helicópteros. A proposta é complementar as capacidades existentes, permitindo que drones e aeronaves tripuladas atuem isoladamente, de forma coordenada ou integrados em uma mesma operação.

“Os novos sistemas atuarão de forma complementar aos helicópteros da Aviação do Exército, podendo atuar de forma isolada, em uma manobra de drones ou ainda em conjunto com plataformas tripuladas”, explicou.

Essa integração deverá ser particularmente relevante para ações de Direct Action e IRVA em profundidade, ampliando a capacidade de apoiar os objetivos da manobra terrestre.

Helicópteros e drones passam a formar um sistema integrado

A experiência dos conflitos recentes mostra que a divisão entre aeronaves tripuladas e sistemas não tripulados tende a perder importância. O que ganha relevância é a capacidade de integrar diferentes plataformas em uma mesma arquitetura operacional.

A proliferação de drones militarizados e comerciais transformou o campo de batalha em um ambiente muito mais transparente. Tropas, posições, deslocamentos e concentrações de meios estão mais expostos, aumentando a vulnerabilidade das forças.

A resposta, portanto, não pode ser simplesmente adquirir mais drones. É necessário estabelecer uma doutrina capaz de coordenar sensores, plataformas de ataque, sistemas de Comando e Controle e meios de guerra eletrônica, utilizando cada categoria de drone de acordo com sua função.

É justamente nesse ponto que o BARP ganha importância. A estrutura deverá permitir a utilização coordenada de diferentes categorias de SARP, inclusive em ondas, com a finalidade de saturar ou suprimir defesas aéreas adversárias e criar janelas de oportunidade para o emprego das aeronaves tripuladas.

Essa arquitetura poderá aumentar significativamente a liberdade de ação dos helicópteros, reduzindo parte dos riscos impostos por um ambiente aéreo cada vez mais contestado.

A ameaça dos próprios drones

A Aviação do Exército também trabalha sobre o outro lado desse problema: os drones como ameaça às suas próprias aeronaves. O desenvolvimento de capacidades de defesa contra sistemas remotamente pilotados envolve estudos de Comando e Controle, identificação e armamentos que poderão ser incorporados às aeronaves da AvEx. Segundo General Amorim, estão sendo avaliadas soluções para a defesa ativa e passiva das plataformas.

A preocupação é coerente com a evolução observada nos conflitos recentes, nos quais pequenos drones passaram a representar uma ameaça concreta inclusive contra plataformas que, tradicionalmente, eram consideradas mais protegidas. Para os helicópteros, isso significa rever procedimentos, treinamento e técnicas de emprego.

Simulação ganha espaço no treinamento

A preparação das tripulações também está sendo modificada. O uso de simuladores deverá assumir papel cada vez maior na formação e no aperfeiçoamento dos militares, permitindo reproduzir situações complexas que seriam difíceis ou excessivamente dispendiosas de serem treinadas exclusivamente em voo real.

Os treinamentos deverão incorporar cenários inspirados nos conflitos contemporâneos, incluindo a presença de drones hostis contra formações de helicópteros, tanto no solo quanto durante o voo, isoladamente ou em enxames. Esses cenários exigem das tripulações capacidade de reação rápida e tomada de decisão sob pressão.

“Essas situações demandam rápidas reações e decisões das tripulações”, destacou o comandante.

A construção de bancos de imagens e a utilização de ambientes virtuais também deverão contribuir para preparar as equipes para identificar ameaças antes que elas sejam capazes de comprometer a missão.

Inteligência artificial entra na equação

A transformação não se limita às plataformas. A Aviação também avalia o emprego de inteligência artificial, especialmente nas áreas de Inteligência de Imagens, Comando e Controle, seleção e formação de pessoal. Os projetos do SARP Categoria 3 e do BARP já consideram essas tecnologias dentro de seu planejamento.

Inicialmente, os primeiros operadores deverão ser selecionados entre pilotos de helicópteros, enquanto oficiais formados no Curso de Observador Aéreo do Exército também deverão integrar outras equipes.

Com o amadurecimento da atividade e a consolidação dos níveis de segurança necessários, o Exército poderá avaliar a criação de uma formação específica para pilotos de drones, sem exigir necessariamente uma formação anterior como piloto de aeronaves tripuladas. Esse processo mostra que a transformação da Aviação do Exército envolve também uma mudança no perfil profissional necessário para operar seus sistemas.

Sábado Aéreo aproxima a Aviação do Exército da sociedade

Se no campo operacional a Aviação do Exército trabalha para ampliar suas capacidades diante do ambiente cada vez mais complexo, no relacionamento com a sociedade a prioridade também é aproximar a instituição do cidadão.

O Sábado Aéreo realizado em 29 de agosto, se consolidou como uma das principais iniciativas nesse sentido, permitindo que o público conheça de perto os meios, as missões e o cotidiano da Aviação do Exército.

Segundo General Amorim, essa aproximação possui um significado que ultrapassa o caráter recreativo do evento.

O Sábado Aéreo é uma oportunidade de mostrar à sociedade o que é a Aviação do Exército, o que ela faz e qual é a sua importância para a Força Terrestre”, explicou.

Mais de 60 mil pessoas visitaram as instalações da Aviação do Exército durante as atividades abertas ao público. Para o comandante, receber a sociedade dentro das organizações militares permite estabelecer um contato direto com aqueles que muitas vezes conhecem a instituição apenas por imagens ou informações divulgadas pelos meios de comunicação.

“O evento permite que as pessoas conheçam nossas aeronaves, nossas capacidades e principalmente o nosso pessoal. É uma oportunidade de vivenciar um pouco do ambiente da Aviação do Exército, conhecer nossa história e compreender a nossa missão”, destacou General Amorim.

A iniciativa também possui uma dimensão de integração. Ao abrir suas portas, a Aviação cria um espaço para que crianças, jovens, famílias e entusiastas tenham contato com a atividade militar de maneira organizada, conhecendo não apenas as aeronaves, mas também os valores que orientam aqueles que operam e mantêm esses meios.

Essa aproximação ajuda a fortalecer os vínculos entre as Forças Armadas e a sociedade, permitindo que o cidadão compreenda melhor o papel desempenhado pelo Exército, e particularmente, pela Aviação do Exército.

A edição deste ano ganhou um significado adicional por ocorrer no contexto dos 40 anos da recriação da Aviação do Exército. Dessa forma, o Sábado Aéreo representou não apenas uma oportunidade de apresentar aeronaves e capacidades, mas também de compartilhar com a sociedade parte da trajetória construída pela AvEx e mostrar como essa estrutura vem se preparando para os desafios futuros.

Uma nova arquitetura para o combate

As respostas de General Amorim deixam claro que a transformação da Aviação do Exército não está concentrada em um único projeto. O HM-2A representa a renovação da capacidade de manobra. Os SARP ampliam a capacidade de observação e atuação em profundidade. O BARP deverá organizar e coordenar diferentes categorias de drones. A inteligência artificial e o Comando e Controle deverão aumentar a velocidade de processamento e decisão. A simulação permitirá preparar as tripulações para ambientes mais complexos.

Ao mesmo tempo, a Aviação trabalha para preservar a disponibilidade de sua frota e elevar sua prontidão logística, condição indispensável para que toda essa arquitetura funcione.

Entre as prioridades apresentadas pelo comandante estão preservar a capacidade de manobra, ampliar a capacidade de combate por meio de aeronaves multimissão para Direct Action e IRVA, implementar o BARP, aperfeiçoar o treinamento técnico e tático com o uso de simuladores e elevar a disponibilidade da frota e a prontidão logística.

O objetivo final é permitir que a Aviação do Exército continue cumprindo sua função de proporcionar mobilidade e capacidade de combate à Força Terrestre mesmo em um ambiente no qual o domínio aéreo se torna cada vez mais disputado.

Nesse sentido, a transformação em curso na Aviação do Exército pode representar uma mudança de paradigma: de uma força essencialmente centrada na plataforma tripulada para uma estrutura multidomínio, na qual helicópteros e sistemas não tripulados atuam de forma complementar para produzir efeitos sobre o campo de batalha.

O resultado esperado é uma Aviação mais conectada, mais distribuída e capaz de operar em um ambiente no qual a superioridade aérea local não pode mais ser presumida. Essa evolução terá impacto direto sobre a capacidade de manobra da Força Terrestre e em última instância, sobre a própria capacidade brasileira de dissuasão.


por Angelo Nicolaci


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BRICS chega a Nova Délhi diante do desafio de transformar peso econômico em resultados concretos

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A 18ª Cúpula do BRICS será realizada em 12 e 13 de setembro, em Nova Délhi, sob uma presidência indiana que pretende deslocar o centro da discussão do campo das grandes declarações políticas para resultados concretos em comércio, finanças, tecnologia e cadeias de suprimentos.

O encontro ocorre no cenário marcado pela fragmentação das cadeias globais de produção, disputas comerciais, conflitos armados, restrições à exportação de tecnologias estratégicas e avanço acelerado da inteligência artificial. Para a Índia, esses fatores reforçam a necessidade de aumentar a capacidade de seus membros de reduzir vulnerabilidades sem transformar o BRICS um bloco econômico fechado.

Sob o lema “Building for Resilience, Innovation, Cooperation and Sustainability”, a presidência indiana estruturou sua agenda em torno de três grandes pilares: cooperação política e de segurança, cooperação econômica e financeira e intercâmbio entre povos. Ao longo de 2026, mais de 350 reuniões e encontros de alto nível foram realizados em mais de 25 cidades indianas como preparação para a cúpula.

A prioridade econômica está na construção de mecanismos capazes de facilitar o comércio entre os próprios integrantes. A Índia vem defendendo uma estratégia para 2030 que abrange comércio de bens e serviços, investimentos, economia digital, indústria, inovação e cooperação financeira, além de maior participação das micro, pequenas e médias empresas nas cadeias internacionais de valor.

A questão das cadeias de suprimentos ganhou importância diante da experiência dos últimos anos. Pandemia, guerras, restrições comerciais e problemas no transporte marítimo demonstraram como a concentração da produção em determinados países ou regiões pode transformar uma interrupção localizada em um problema global.

A proposta indiana é criar maior resiliência sem estabelecer uma estrutura comercial fechada. O objetivo é diversificar fornecedores, ampliar as conexões entre os mercados do BRICS e reduzir a exposição a choques externos, mantendo simultaneamente a Organização Mundial do Comércio (OMC) como referência para o sistema multilateral. A própria reunião de ministros do Comércio realizada em Jaipur no mês de agosto, avançou nas discussões sobre a Estratégia para a Parceria Econômica 2030.

No setor financeiro, a agenda também é pragmática. Em vez de concentrar esforços na criação de uma moeda única do BRICS, proposta que enfrenta obstáculos econômicos, monetários e políticos consideráveis, o grupo trabalha com alternativas como liquidações em moedas nacionais, integração de sistemas de pagamentos e maior utilização de tecnologias financeiras.

Essa abordagem já havia sido defendida pelo Brasil durante sua presidência do grupo em 2025. O governo brasileiro deixou claro naquele período que uma moeda comum não estava em discussão e que o objetivo era reduzir custos das transações comerciais e financeiras entre os membros.

A tecnologia é outro eixo em que a Índia pretende ampliar a cooperação. Inteligência artificial, infraestrutura digital, computação de alto desempenho, novas redes de comunicação e tecnologias críticas passaram a ocupar espaço crescente dentro da estrutura do BRICS. A programação indiana de 2026 inclui, inclusive, grupos de trabalho dedicados a IA, tecnologias digitais e inovação.

Essa agenda possui uma dimensão estratégica. O acesso a tecnologias críticas passou a ser diretamente influenciado por disputas geopolíticas, controles de exportação e competição industrial. Para economias emergentes, desenvolver capacidades próprias ou estabelecer parcerias alternativas significa reduzir dependências e aumentar a margem de manobra diante das grandes potências.

A expansão do BRICS, entretanto, tornou o processo decisório mais complexo. O grupo reúne atualmente Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Indonésia e Arábia Saudita. São economias com estruturas produtivas, sistemas políticos e interesses estratégicos bastante diferentes.

Essa diversidade é simultaneamente uma força e uma limitação. O conjunto possui peso econômico, energético, demográfico e territorial significativo, mas não existe uma visão comum sobre temas como a relação com os Estados Unidos, a guerra na Ucrânia, a segurança no Oriente Médio ou a própria velocidade da transformação do sistema internacional.

A relação entre Índia e China é um dos exemplos mais importantes. Os dois países possuem interesses econômicos convergentes em determinadas áreas, mas também mantêm uma competição estratégica própria. Para Nova Délhi, portanto, fortalecer o BRICS não significa necessariamente aceitar uma orientação política definida por Pequim ou Moscou.

Essa característica explica parte da estratégia indiana de priorizar temas nos quais o consenso é mais viável: comércio, pagamentos, tecnologia, desenvolvimento, infraestrutura, saúde, energia e financiamento.

O debate sobre a governança internacional permanece, contudo, no centro da agenda. A Índia defende maior participação das economias emergentes nas instituições multilaterais, incluindo Organização das Nações Unidas, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio.

A reforma do Conselho de Segurança da ONU também permanece como uma questão relevante para o Brasil e para a própria Índia. Ambos defendem maior representação dos países em desenvolvimento na estrutura decisória internacional, embora os interesses nacionais nem sempre coincidam em todas as questões.

O papel brasileiro

Para o Brasil, a cúpula de Nova Délhi representa uma oportunidade que vai muito além da dimensão diplomática. O principal interesse brasileiro está em transformar o peso político do BRICS em acesso efetivo a mercados, investimentos, tecnologia e financiamento.

O país possui uma posição particularmente relevante dentro do grupo por combinar uma das maiores economias emergentes, grande capacidade agrícola, recursos minerais, matriz energética diversificada e potencial de produção de combustíveis de baixo carbono. Isso permite ao Brasil negociar a partir de ativos concretos, e não apenas de alinhamentos políticos.

No comércio, o desafio brasileiro é ampliar a diversificação das exportações e aumentar o valor agregado dos produtos destinados aos mercados do BRICS. A existência de grandes compradores de alimentos, energia, minerais e produtos industriais abre oportunidades, mas também exige que o Brasil avance em infraestrutura, logística, financiamento e competitividade industrial.

A agenda tecnológica também interessa diretamente ao país. A cooperação em inteligência artificial, computação, infraestrutura digital e tecnologias críticas pode permitir ao Brasil ampliar sua capacidade de desenvolvimento próprio e estabelecer parcerias industriais com países que possuem competências complementares.

Nesse ponto, o Brasil precisa evitar uma posição meramente comercial. O objetivo estratégico deveria ser transformar o BRICS em plataforma para projetos conjuntos de pesquisa, desenvolvimento e produção, especialmente em setores nos quais o país já possui capacidade instalada.

O mesmo raciocínio vale para defesa. O Brasil possui uma Base Industrial de Defesa relevante, com competências em aeronaves, sistemas navais, veículos militares, sensores, comunicações, mísseis e sistemas não tripulados. Uma agenda de cooperação tecnológica dentro do BRICS pode abrir espaço para novos mercados e projetos conjuntos, desde que sejam preservadas as necessidades brasileiras de propriedade intelectual, transferência de tecnologia e autonomia operacional.

O Novo Banco de Desenvolvimento, o NDB, é outro instrumento importante. O Brasil pode buscar maior utilização do banco para financiar infraestrutura, energia, transporte, digitalização e projetos capazes de elevar a produtividade nacional. O ponto central é transformar o financiamento multilateral em projetos que gerem capacidade econômica permanente, e não apenas crédito para obras isoladas.

No campo diplomático, o Brasil também possui uma vantagem específica: sua capacidade de dialogar simultaneamente com diferentes polos de poder. O país mantém relações econômicas profundas com China, Estados Unidos, Europa, Rússia e demais integrantes do BRICS. Essa posição permite a Brasília atuar como interlocutor e evitar que o grupo seja reduzido a uma estrutura de confronto com o Ocidente.

Esse talvez seja o principal interesse brasileiro na atual configuração do BRICS. O país pode defender uma ordem internacional mais representativa sem transformar sua participação no grupo em alinhamento automático a qualquer potência.

A cúpula de Nova Délhi, portanto, será um teste não apenas para a Índia, mas para o próprio modelo de funcionamento do BRICS ampliado. Se o grupo conseguir produzir mecanismos concretos de comércio, pagamentos, financiamento, tecnologia e integração produtiva, sua relevância internacional tende a crescer de maneira consistente.

Para o Brasil, o resultado mais importante não será uma nova declaração política, mas a capacidade de converter sua participação no bloco em investimentos, mercados, tecnologia, financiamento e maior autonomia estratégica.

O BRICS já possui peso suficiente para influenciar a economia internacional. O próximo passo é demonstrar que também consegue transformar esse peso em resultados mensuráveis para seus integrantes.


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Irã captura drone submarino dos EUA no Estreito de Ormuz

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O Irã capturou no Estreito de Ormuz um veículo submarino autônomo (UUV) utilizado pela Marinha dos Estados Unidos. O equipamento foi identificado como um Dive-LD, desenvolvido pela Anduril, plataforma projetada para operar sem tripulação em missões de inteligência, reconhecimento, guerra de minas e levantamento do fundo marinho.

A captura ocorreu em meio à crescente tensão militar entre Washington e Teerã na região do Golfo Pérsico. Segundo a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), o veículo foi localizado e interceptado durante uma operação de inteligência. Os Estados Unidos, por outro lado, confirmaram a perda do equipamento, mas afirmaram que ele apresentava falhas havia mais de um dia e estava praticamente inoperante quando foi localizado.

A versão norte-americana também sustenta que o veículo era um modelo mais antigo e não transportava equipamentos classificados, como sonares ou radares sensíveis. O Pentágono não confirmou, contudo, em que condições o Dive-LD foi recuperado pelos iranianos.

O episódio ganhou relevância porque o Dive-LD não é simplesmente um drone destinado à observação. Com aproximadamente 5,8 metros de comprimento, 1,2 metro de diâmetro, cerca de três toneladas e capacidade de operar a até 6.000 metros de profundidade, o sistema foi desenvolvido para permanecer submerso por até dez dias. Sua arquitetura modular permite transportar diferentes cargas úteis de acordo com a missão.

Entre as aplicações previstas estão inteligência e reconhecimento no ambiente submarino, guerra de minas, mapeamento do leito marinho e colocação de cargas ou sensores. A propulsão elétrica e a arquitetura aberta também permitem adaptar o veículo a diferentes configurações operacionais.

O Dive-LD foi selecionado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos para o programa Replicator, iniciativa voltada à aquisição de sistemas autônomos capazes de operar em grande quantidade e com custos suficientemente baixos para serem empregados em missões de maior risco. A lógica é diferente daquela aplicada a plataformas tripuladas de alto valor: determinados sistemas não tripulados precisam ser capazes de entrar em áreas contestadas mesmo quando existe a possibilidade de sua perda.

É justamente nesse ponto que a captura no Estreito de Ormuz ganha importância. Mesmo que o veículo não contenha tecnologia classificada, um UUV completo pode fornecer informações sobre arquitetura interna, propulsão, sistemas de navegação, gerenciamento de energia, sensores, interfaces e integração de cargas úteis.

Por isso, é provável que o Irã tente realizar algum nível de engenharia reversa do equipamento. A análise física do veículo pode permitir identificar soluções empregadas pelos Estados Unidos em autonomia submarina e comparar essas tecnologias com os sistemas iranianos em desenvolvimento.

Existe ainda uma consequência potencialmente mais ampla. Caso Teerã consiga extrair informações relevantes, não se pode descartar o compartilhamento de parte desse conhecimento com China ou Rússia. Os três países mantêm relações de cooperação militar e tecnológica, e tanto Moscou quanto Pequim possuem programas próprios de veículos submarinos não tripulados. Não há, até o momento, confirmação de qualquer transferência, mas a possibilidade aumenta o valor estratégico da captura.

O incidente também evidencia uma característica crescente da guerra naval moderna: o fundo do mar está se transformando um espaço cada vez mais disputado por sistemas autônomos. UUVs podem realizar reconhecimento, localizar minas, mapear áreas de interesse, monitorar cabos e outras infraestruturas submarinas e operar em regiões onde o emprego de uma plataforma tripulada representaria risco elevado.

No caso do Estreito de Ormuz, essa capacidade possui importância adicional. A região é um dos principais pontos de estrangulamento do comércio mundial de petróleo e concentra atividades militares, infraestrutura energética e rotas marítimas críticas. A possibilidade de empregar sistemas autônomos para monitorar o ambiente submarino amplia significativamente as opções de inteligência e vigilância de qualquer força que opere na área.

Para os Estados Unidos, a perda de um único Dive-LD pode ser operacionalmente absorvível dentro do conceito de sistemas descartáveis e de baixo custo. O principal problema está no acesso de um adversário ao veículo físico. Mesmo sem equipamentos classificados, a plataforma pode revelar soluções de engenharia que Washington preferiria manter fora do alcance de seus rivais.

A captura, portanto, representa mais do que a perda de um drone submarino. Ela cria a possibilidade de que uma plataforma desenvolvida para ampliar a capacidade de guerra submarina dos Estados Unidos passe a ser utilizada pelo próprio adversário como fonte de inteligência tecnológica.


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V2X recebe contrato de até US$ 19 milhões para sistemas antidrone móveis do USMC

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A V2X recebeu um contrato de até US$ 19 milhões para fornecer sistemas móveis de defesa contra drones Tempest ao US Marine Corps (USMC). O acordo prevê a aquisição de veículos e serviços associados conforme as necessidades operacionais do USMC, permitindo que os pedidos sejam realizados de forma progressiva.

Além dos próprios sistemas, a V2X será responsável por manutenção, fornecimento de peças de reposição, gerenciamento de software, treinamento e assistência técnica. A estrutura contratual permite adaptar a quantidade de equipamentos e o suporte às demandas identificadas durante as operações.

O Tempest foi desenvolvido para acompanhar unidades empregadas na linha de frente, oferecendo proteção contra sistemas aéreos não tripulados durante deslocamentos, avanços ou reposicionamentos. A proposta responde a uma das principais dificuldades da defesa contra drones no campo de batalha: manter a proteção acompanhando a força, em vez de depender exclusivamente de sistemas instalados em posições fixas.

O sistema reúne sensores e atuadores destinados a detectar, acompanhar e neutralizar ameaças aéreas não tripuladas. Sua arquitetura foi concebida para operar em ambientes onde a mobilidade e o tempo de reação são fatores críticos.

Conceito “shoot-and-scoot”

A V2X apresentou publicamente o Tempest em 2025, descrevendo-o como uma plataforma móvel desenvolvida em grande parte com componentes comerciais disponíveis no mercado.

O protótipo apresentado utilizava dois lançadores e foi projetado para enfrentar drones classificados como Classe 2 e Classe 3, categorias que abrangem sistemas maiores, mais rápidos e com maior capacidade operacional do que os pequenos drones empregados em missões de reconhecimento de curta distância.

Uma das características do Tempest é o conceito de emprego conhecido como “shoot-and-scoot”. Depois de realizar um engajamento, o veículo pode abandonar rapidamente a posição, reduzindo o período em que permanece exposto à observação e a possíveis ataques adversários.

Essa capacidade é particularmente importante em um ambiente no qual os próprios sistemas de defesa contra drones podem se transformar em alvos. A emissão de sinais, o emprego de armamentos e a atividade dos sensores podem revelar a posição de uma unidade antidrone, criando a necessidade de mudar rapidamente de local.

O Tempest foi projetado para operar em condições meteorológicas adversas e permitir atualizações conforme as ameaças e os requisitos operacionais evoluam.

Da proteção de posições à proteção da força

A adoção do sistema pelos Fuzileiros Navais acompanha uma mudança na forma como as forças armadas vêm tratando a ameaça representada pelos drones.

Sistemas fixos continuam importantes para proteger instalações, depósitos, aeródromos e outros pontos estratégicos. Porém, unidades que operam em movimento precisam de soluções capazes de acompanhar seu deslocamento e reagir a ameaças que podem surgir a qualquer momento.

É nesse espaço que o Tempest pretende atuar. A plataforma pode se deslocar com as forças protegidas, estabelecer uma posição, detectar e enfrentar a ameaça e, posteriormente, mudar de localização.

Para o Corpo de Fuzileiros Navais, essa característica é especialmente relevante diante do conceito de operações distribuídas, no qual pequenas unidades podem operar dispersas e mudar constantemente de posição. Nesse cenário, a defesa contra drones precisa possuir mobilidade suficiente para não se transformar em um elemento estático dentro de uma força que permanece em movimento.

A V2X também oferece uma configuração do Tempest instalada em reboque. Essa versão é destinada a missões nas quais a proteção de uma determinada área precisa ser mantida por períodos prolongados, como aeródromos e depósitos de munição.

O contrato com o USMC representa, assim, mais um passo na incorporação de sistemas móveis antidrone às forças norte-americanas. O foco deixa de estar apenas na capacidade de derrubar drones e passa a incluir a possibilidade de detectar, enfrentar a ameaça e sobreviver à resposta adversária sem perder a mobilidade necessária para acompanhar a força.


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Saab recebe contrato de 2,9 bilhões de coroas para desenvolver futuro caça sueco

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A Suécia avançou mais uma etapa no desenvolvimento de sua próxima geração de sistemas de combate aéreo. A Administração de Materiais de Defesa da Suécia (FMV) assinou com a Saab um contrato de aproximadamente 2,9 bilhões de coroas suecas para atividades de desenvolvimento e demonstração entre 2026 e 2028, com opções de extensão para 2029 e 2030.

O contrato dá continuidade aos acordos firmados com a Saab em 2024 e 2025 e mantém em andamento o programa sueco de pesquisa voltado ao futuro da aviação de combate. Mais do que desenvolver uma nova aeronave, a iniciativa busca testar tecnologias antes que Estocolmo tome uma decisão sobre a configuração de seu próximo sistema de combate aéreo.

A abordagem permite à Suécia avançar no desenvolvimento tecnológico sem se comprometer antecipadamente com um projeto definitivo. O objetivo é reduzir riscos técnicos, ampliar o conhecimento nacional e preservar alternativas para uma futura decisão de aquisição.

Demonstradores tripulados e não tripulados

A Saab deverá desenvolver demonstradores de voo e estáticos, além de conduzir estudos e avaliações de conceitos para futuros sistemas de combate. O programa contempla tanto aeronaves tripuladas quanto plataformas não tripuladas.

Entre as áreas investigadas estão integração de sistemas, autonomia, gerenciamento e adaptação de assinaturas, propulsão e desenvolvimento digital. A intenção é testar diferentes soluções e verificar sua maturidade antes de uma eventual aplicação em um futuro sistema operacional.

A participação de aeronaves não tripuladas também indica que o programa não está sendo tratado exclusivamente como o desenvolvimento de um novo caça convencional. A Suécia está avaliando uma arquitetura mais ampla, na qual diferentes plataformas e tecnologias poderão atuar de forma integrada.

Esse aspecto é particularmente relevante para um país que mantém uma indústria aeronáutica de defesa própria e que historicamente buscou preservar autonomia para projetar, desenvolver e sustentar seus sistemas de combate.

Tecnologia antes da decisão

A estratégia adotada por Estocolmo permite separar o desenvolvimento tecnológico da decisão sobre a configuração final do futuro sistema de combate aéreo.

Em vez de definir imediatamente uma aeronave e depois desenvolver suas tecnologias, o programa procura testar diferentes soluções primeiro. Isso permite identificar limitações, amadurecer conceitos e preparar a indústria para uma eventual produção futura.

O contrato também inclui atividades destinadas a preservar competências técnicas e preparar capacidades industriais para futuros sistemas de aeronaves de combate. Dessa forma, o programa não está voltado apenas ao desenvolvimento de tecnologias, mas também à manutenção da capacidade sueca de projetar e produzir sistemas aeronáuticos militares.

A decisão sobre o futuro caça, portanto, permanece em aberto. A Suécia utiliza esta fase para ampliar suas opções antes de definir quais tecnologias e conceitos deverão avançar para um eventual programa de desenvolvimento e produção.

“Estamos muito satisfeitos que a FMV continue demonstrando confiança na Saab por meio deste novo contrato”, afirmou Lars Tossman, chefe da área de Aeronáutica da Saab. Segundo o executivo, o trabalho será importante para desenvolver e demonstrar tecnologias destinadas aos futuros sistemas de combate.

O novo contrato mantém a Saab no centro dessa preparação tecnológica até pelo menos 2028, com possibilidade de continuidade nos dois anos seguintes. Para a Suécia, o objetivo é chegar à próxima decisão sobre sua aviação de combate com tecnologias testadas, uma indústria preparada e maior liberdade para escolher o caminho que deverá seguir nas próximas décadas.


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Marinha Espanhola receberá três sistemas SIMBAD RC

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A Marinha Espanhola vai incorporar uma capacidade que atualmente não possui. A MBDA assinou um acordo para fornecer três sistemas SIMBAD RC, equipados com o míssil Mistral, destinados a reforçar a proteção de unidades navais contra ameaças aéreas e mísseis antinavio.

Os equipamentos serão instalados em navios que já estão em serviço, dentro do plano do Ministério da Defesa e da Armada Española para ampliar as capacidades de defesa da frota. As plataformas receberão uma solução de curto alcance destinada a enfrentar ameaças que consigam chegar às proximidades do navio.

O SIMBAD RC é um sistema remotamente controlado desenvolvido para emprego naval e baseado no Mistral, míssil superfície-ar de guiagem infravermelha produzido pela MBDA. O conjunto pode engajar aeronaves, drones e mísseis antinavio, funcionando como uma solução independente ou integrada aos demais sistemas de combate da embarcação.

A estação pode ser operada por um único militar e foi projetada para funcionamento contínuo, inclusive em condições meteorológicas adversas. Sua arquitetura permite a instalação em diferentes tipos de embarcações, sem exigir a mesma infraestrutura de um sistema de defesa aérea de maior porte.

A escolha ganha importância diante da evolução das ameaças contra navios de guerra. O emprego crescente de drones e a disseminação de mísseis antinavio de diferentes perfis têm levado marinhas a reforçar os meios destinados ao combate a curta distância, especialmente para proteger plataformas que não dispõem de sistemas mais sofisticados.

Para a Armada Española, os três SIMBAD RC representam a criação de uma capacidade adicional sem depender da substituição imediata das plataformas. A solução poderá complementar os recursos já disponíveis nos navios selecionados, ampliando suas possibilidades de sobrevivência em um ambiente de ameaça aérea.

Primeiro contrato direto com a Armada

O acordo também marca uma nova etapa na relação entre a MBDA e a Espanha. Segundo a empresa, trata-se do primeiro contrato direto firmado com a Marinha Espanhola, ampliando sua participação nos programas de defesa do país.

A MBDA pretende utilizar o acordo como base para ampliar a cooperação com as Forças Armadas e com a indústria espanhola, incluindo novas oportunidades nas áreas de defesa e suporte aos sistemas fornecidos.

O acordo é um marco histórico para a MBDA e demonstra nossa crescente presença e compromisso de longo prazo com a Espanha”, afirmou Eric Béranger, CEO da empresa.

Com a aquisição, a Marinha Espanhola passa a contar com o SIMBAD RC como uma nova opção para proteção de suas unidades navais. O contrato é limitado a três sistemas, mas representa a entrada de uma capacidade que até agora não fazia parte da estrutura de defesa aproximada da frota.


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ASELSAN fecha novo contrato para sistemas de reconhecimento na Polônia

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A ASELSAN assinou durante a MSPO 2026, em Kielce, um novo contrato com a empresa polonesa AMZ Kutno para o fornecimento de 24 conjuntos do sistema ARSUS de reconhecimento e vigilância às Forças Armadas da Polônia. O acordo amplia uma parceria que já vinha sendo construída desde 2024 e reforça a presença da indústria de defesa da Türkiye no mercado polonês.

As entregas dos novos sistemas estão previstas para ocorrer entre 2028 e 2029. O contrato complementa o acordo firmado entre as duas empresas em 2024, que prevê outras entregas ao longo dos próximos anos, com cronograma que se estende até 2035.

O movimento ganha relevância pelo perfil da cooperação que vem sendo estabelecida entre a ASELSAN e a indústria polonesa. A relação deixou de estar concentrada em uma única capacidade e passou a envolver diferentes áreas, acompanhando o processo de modernização das Forças Armadas da Polônia.

O ARSUS será empregado em missões de reconhecimento e vigilância, ampliando a capacidade das forças polonesas de obter informações sobre o ambiente operacional. Em um campo de batalha cada vez mais dependente de sensores, sistemas não tripulados e redes de comando e controle, a capacidade de localizar, acompanhar e identificar alvos tornou-se um dos elementos centrais da consciência situacional.

O novo contrato também ocorre na sequência de um acordo de maior dimensão assinado em dezembro de 2025, avaliado em US$ 410 milhões, envolvendo sistemas de guerra eletrônica da ASELSAN. A sucessão dos contratos mostra que a relação entre as empresas está avançando para além de uma aquisição isolada.

Atualmente, a ASELSAN afirma trabalhar com mais de 20 fornecedores poloneses e mantém uma estrutura local no país. A empresa também avalia novas oportunidades envolvendo treinamento, manutenção e a criação de centros de excelência.

Uma presença que cresce no mercado polonês

A Polônia tornou-se um dos principais mercados de defesa da Europa nos últimos anos. A necessidade de reforçar suas capacidades militares, particularmente diante da situação no flanco oriental da OTAN, levou Varsóvia a acelerar programas de aquisição e modernização de equipamentos.

É nesse ambiente que a ASELSAN vem ampliando sua participação. A estratégia combina a venda de sistemas desenvolvidos pela indústria turca com a aproximação da cadeia industrial polonesa, permitindo que a cooperação avance para áreas como suporte logístico, manutenção e treinamento.

Durante a MSPO 2026, a empresa apresentou um portfólio que vai muito além do ARSUS. Entre os sistemas expostos estão soluções de defesa contra drones, guerra eletrônica, defesa antiaérea, sensores para veículos aéreos não tripulados e sistemas navais.

Na área antidrones, a ASELSAN apresentou o DRONEDEF, integrado à arquitetura de defesa aérea STEEL DOME. A solução reúne diferentes meios para detectar e neutralizar sistemas aéreos não tripulados, incluindo o İHTAR, o sistema laser GÖKBERK, o KORKUT 100/25, o GÖKALP, o ŞAHİN de 40 mm e o sistema de contramedidas eletromagnéticas de alta potência EJDERHA/AD HPEM.

Também fazem parte da exposição os sistemas de guerra eletrônica da família KORAL e cargas úteis para UAVs, incluindo o ANTIDOT e o radar de abertura sintética FULMAR 200A.

No setor naval, a empresa apresenta veículos não tripulados destinados a diferentes funções, entre eles o KILIÇ, de emprego submarino, o TUFAN, veículo de superfície não tripulado, e o MARLİN 100 ASW, destinado a missões de guerra antissubmarino.

A variedade de sistemas oferecidos ajuda a explicar o movimento da ASELSAN no mercado europeu. Em vez de atuar apenas como fornecedora de um equipamento específico, a empresa procura inserir diferentes tecnologias dentro das arquiteturas de defesa de seus clientes.

Reconhecimento, guerra eletrônica e defesa contra drones

A entrada do ARSUS na relação com a Polônia amplia justamente esse espectro. Depois de conquistar espaço no segmento de guerra eletrônica, a ASELSAN passa a avançar também no campo de reconhecimento e vigilância.

Essa combinação tem importância operacional. Sistemas de reconhecimento fornecem informações que podem alimentar redes de comando e controle, enquanto os meios de guerra eletrônica e defesa antiaérea permitem atuar sobre as ameaças identificadas.

A tendência observada na Polônia acompanha uma transformação mais ampla das forças armadas europeias, nas quais sensores, guerra eletrônica, sistemas não tripulados e defesa contra drones passam a operar de maneira cada vez mais integrada.

Para a ASELSAN, o novo contrato representa mais uma etapa de expansão em um mercado considerado estratégico. Para a indústria polonesa, a aproximação oferece acesso a tecnologias e, ao mesmo tempo, abre espaço para maior participação de fornecedores locais.

O resultado é uma relação que vem adquirindo uma dimensão maior do que a simples compra de equipamentos. Com contratos de diferentes áreas, uma rede de fornecedores e perspectivas de cooperação em manutenção, treinamento e suporte, a ASELSAN começa a consolidar uma posição mais permanente dentro do ecossistema de defesa da Polônia.


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

"Quem são os verdadeiros heróis do Brasil?"

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Uma nova série do GBN Defense revisita homens e mulheres que ajudaram a construir o Brasil e questiona o que estamos fazendo com a memória, os valores e os exemplos que deixaremos para as próximas gerações.

Em algum momento, quase sem percebermos, a palavra “herói” começou a perder parte de seu significado. Durante séculos, o conceito esteve associado à coragem diante do perigo, ao sacrifício, ao serviço, à liderança, à capacidade de enfrentar adversidades e, sobretudo, à disposição de colocar algo maior do que a própria existência acima dos interesses individuais. Hoje, porém, o termo é utilizado com uma facilidade que merece ser questionada. Pessoas que alcançam enorme popularidade, vencem competições, acumulam seguidores, aparecem constantemente na televisão, em reality shows e nas redes sociais ou constroem carreiras de sucesso são, não raramente, apresentadas como referências quase naturais para toda uma sociedade. A fama deixou de ser apenas consequência da notoriedade e passou a funcionar, em muitos casos, como uma espécie de certificado de importância. Mas será que ser conhecido significa, necessariamente, ser admirável? Ter milhões de seguidores é suficiente para transformar alguém em exemplo?

Essa transformação revela uma alteração na maneira como escolhemos nossos referenciais. Não há qualquer problema em admirar um atleta de alto rendimento, reconhecer o talento de um artista ou celebrar alguém que alcançou excelência em sua profissão. O esporte produz histórias de disciplina e perseverança; a arte é capaz de transformar a cultura e atravessar gerações; o entretenimento também possui seu espaço legítimo na vida social. O problema aparece quando o êxito profissional é automaticamente convertido em grandeza humana e quando a visibilidade passa a ser confundida com mérito. Uma pessoa pode ser excepcional em determinado campo e ainda assim não representar aquilo que uma sociedade deveria necessariamente apresentar como exemplo às suas crianças e aos seus jovens. Quando admiramos alguém, estamos admirando apenas aquilo que essa pessoa conquistou para si mesma ou também aquilo que foi capaz de fazer pelos outros?

Vivemos uma época em que a atenção se tornou uma das formas mais valiosas de capital. O que aparece mais é percebido como mais relevante; quem possui milhões de seguidores adquire uma autoridade que muitas vezes não está relacionada à sua competência; quem domina o espaço público passa a ter sua opinião considerada importante simplesmente porque é conhecido. O problema dessa lógica é que o algoritmo mede aquilo que consegue prender nossa atenção, não aquilo que necessariamente contribui para melhorar uma sociedade. Ele não sabe quantas vidas um pesquisador poderá transformar depois de vinte anos de trabalho, quantas gerações serão influenciadas por um professor, quantas pessoas foram protegidas por um militar ou quantos conflitos foram evitados por um diplomata. Mede cliques, visualizações, compartilhamentos e permanência. Se aquilo que recebe mais atenção não é necessariamente aquilo que possui maior valor, por que estamos permitindo que a lógica da audiência determine quem merece nossa admiração?

É nesse ambiente que o GBN Defense propõe uma pergunta que parece simples, mas talvez seja uma das mais necessárias para o Brasil contemporâneo: Quem são os verdadeiros heróis do Brasil?

A pergunta não pretende produzir um ranking de brasileiros ilustres nem estabelecer uma lista definitiva de personagens que deveriam ocupar o topo de um suposto panteão nacional. O Brasil é grande demais, sua história é complexa demais e suas conquistas foram numerosas demais para caber em uma seleção fechada. A proposta é investigar o próprio conceito de heroísmo e, a partir dele, revisitar homens e mulheres que, em diferentes épocas e circunstâncias, fizeram algo que ultrapassou os limites de suas próprias vidas. Mas o que significa ultrapassar esses limites? É deixar um nome conhecido? Acumular riqueza? Ser lembrado por milhões? Ou construir alguma coisa que continue beneficiando outras pessoas mesmo quando ninguém mais se lembrar do rosto de quem a criou?

Isso significa olhar para esses personagens sem a necessidade de transformá-los em santos. A História não precisa de personagens perfeitos para produzir exemplos importantes. Homens e mulheres são produtos de seu tempo, carregam as limitações de suas sociedades, tomam decisões acertadas e equivocadas e muitas vezes precisam agir em circunstâncias nas quais as alternativas são imperfeitas. Compreender um personagem histórico exige reconhecer seus feitos sem apagar suas contradições, analisar suas decisões dentro das circunstâncias em que foram tomadas e compreender suas consequências. Se um personagem histórico cometeu erros, isso deve apagar tudo aquilo que construiu? Ou compreender também suas limitações nos permite entender melhor a dimensão de suas escolhas?

Retirar esses personagens das estátuas e devolvê-los à História talvez seja uma das melhores maneiras de preservá-los. Quando uma sociedade coloca o nome de alguém em uma escola, uma avenida, um hospital, um navio, uma praça, uma instituição científica ou uma unidade militar, não está apenas homenageando uma pessoa. Está transmitindo às gerações seguintes a mensagem de que aquela trajetória possui algo que merece permanecer. A memória, nesse sentido, também é uma escolha de valores e uma forma de educação. Quando uma criança passa todos os dias diante de um nome gravado em uma placa, alguém deveria ser capaz de explicar quem aquela pessoa foi e por que merece estar ali. Estamos fazendo isso? Quantos brasileiros sabem por que determinadas ruas, escolas, navios e instituições carregam os nomes que carregam?

Durante muito tempo, a memória nacional foi povoada por personagens cujas trajetórias estavam diretamente relacionadas à formação do Estado, à defesa do território, à consolidação das instituições, à ciência, à educação, à diplomacia, à integração nacional e à capacidade de enfrentar desafios que pareciam maiores do que os próprios indivíduos. Muitos desses nomes permanecem presentes em monumentos e denominações oficiais, mas seus feitos são cada vez menos conhecidos por uma parcela significativa da população. O nome continua visível, mas a história que justificou sua permanência começa, pouco a pouco, a desaparecer. Que sentido existe em conservar uma homenagem se esquecemos o motivo pelo qual ela foi criada?

O Duque de Caxias é um dos exemplos mais importantes dessa tradição. Luís Alves de Lima e Silva viveu em um Brasil ainda jovem, marcado por profundas disputas políticas, revoltas e ameaças à unidade territorial. Sua trajetória não pode ser compreendida apenas pela imagem institucional do “Pacificador”, construída posteriormente pela memória militar e nacional. É necessário observar o ambiente político do Império, a fragilidade das instituições, os conflitos que ameaçavam a unidade do Brasil e o papel atribuído às Forças Armadas na preservação daquela estrutura estatal.

É justamente nesse contexto que Caxias se torna relevante para a discussão sobre heroísmo. Sua importância não está apenas nas batalhas que comandou, mas na responsabilidade assumida em momentos nos quais a fragmentação política e territorial poderia ter consequências profundas para o futuro brasileiro. Estudar sua trajetória significa discutir liderança, disciplina, autoridade e serviço ao Estado, mas também compreender que a construção de uma nação frequentemente acontece em períodos de crise, quando decisões difíceis precisam ser tomadas por pessoas que carregam responsabilidades muito maiores do que suas próprias vidas. Quando olhamos para Caxias, estamos apenas diante de um militar do século XIX ou diante de uma discussão sobre o preço da responsabilidade pública em momentos de ruptura?

A trajetória do Almirante Tamandaré permite observar uma dimensão diferente dessa construção nacional. Joaquim Marques Lisboa pertenceu a uma geração que ajudou a formar e consolidar a Marinha do Brasil em um período no qual o país ainda precisava transformar sua independência política em capacidade efetiva de defesa. Uma nação com uma costa extensa, interesses comerciais ligados ao mar e vastos espaços marítimos precisava possuir meios para proteger suas comunicações, sua economia e sua soberania. A construção do poder naval, portanto, não era uma questão meramente militar: fazia parte da própria construção do Estado brasileiro.

Tamandaré representa o profissional que dedicou sua vida a essa tarefa. Sua trajetória permite lembrar que soberania não é apenas uma palavra inscrita em documentos ou mapas. Ela depende da capacidade de um país proteger seu território, seus recursos, suas linhas de comunicação e seus interesses. Para o Brasil, essa dimensão permanece particularmente relevante em razão de sua extensão territorial e marítima. Se hoje consideramos natural que o país possua uma Marinha capaz de patrulhar e defender seus espaços marítimos, quantos conseguem perceber o esforço de gerações que tornaram isso possível?

O Almirante Barroso acrescenta a essa discussão o elemento da decisão sob pressão. Francisco Manuel Barroso da Silva tornou-se uma das figuras centrais da memória naval brasileira em razão de sua atuação na Batalha Naval do Riachuelo, durante a Guerra da Tríplice Aliança. Entretanto, transformar sua história em uma simples celebração da vitória seria desperdiçar justamente aquilo que ela pode ensinar. Em situações de combate, decisões tomadas em minutos podem alterar o destino de operações inteiras. Liderança deixa de ser uma palavra abstrata e passa a significar responsabilidade concreta sobre vidas humanas e sobre o resultado de uma missão.

É nesse tipo de circunstância que o heroísmo assume uma de suas formas mais tradicionais: a capacidade de permanecer diante do perigo e tomar decisões quando medo, incerteza e risco fazem parte da realidade. Mas a coragem diante do fogo inimigo é apenas uma das manifestações possíveis de uma qualidade que também pode aparecer na ciência, na diplomacia, na educação ou em uma emergência cotidiana. O que fazemos com uma sociedade que reconhece coragem diante de uma batalha, mas tem dificuldade para perceber a coragem de quem passa décadas enfrentando problemas que não produzem manchetes?

O Barão do Rio Branco demonstra isso de maneira particularmente clara. José Maria da Silva Paranhos Júnior não construiu seu principal legado por meio do comando de tropas ou da condução de batalhas. Sua principal ferramenta foi o conhecimento. História, geografia, direito, documentação e diplomacia foram utilizados na defesa dos interesses brasileiros em questões territoriais decisivas. Em um período no qual disputas de fronteira poderiam facilmente transformar-se em conflitos armados, sua capacidade de argumentação e negociação ajudou a consolidar posições brasileiras sem que a guerra fosse o instrumento necessário para alcançar esses objetivos.

Há uma lição importante nessa trajetória: o poder de uma nação não se mede apenas pela capacidade de combater, mas também pela capacidade de compreender, negociar e defender seus interesses com inteligência. Conhecimento pode ser instrumento de soberania tanto quanto a força militar. Para um país de dimensões continentais e fronteiras extensas, essa capacidade continua sendo estratégica. Mas quantos jovens brasileiros são ensinados a enxergar o conhecimento dessa maneira? Quantos compreendem que um mapa, um documento histórico, uma pesquisa ou uma negociação diplomática também podem ser instrumentos de poder nacional?

Essa dimensão da construção nacional aparece novamente na trajetória do Marechal Rondon. Cândido Mariano da Silva Rondon dedicou parte fundamental de sua vida à expansão das comunicações e à integração de regiões remotas do território brasileiro. As expedições que liderou aconteceram em uma época na qual avançar pelo interior significava enfrentar isolamento, doenças, dificuldades logísticas e enormes obstáculos naturais. Levar linhas telegráficas a essas regiões não significava apenas instalar equipamentos. Significava abrir caminhos, estabelecer presença e conectar áreas que permaneciam distantes dos centros de decisão.

Hoje, quando uma mensagem pode atravessar o território brasileiro em segundos, é difícil dimensionar o esforço necessário para construir as primeiras redes de comunicação de longa distância. Rondon representa uma forma de contribuição que não depende de grandes espetáculos. Seu trabalho esteve ligado à construção silenciosa da presença nacional em um território que, pela própria dimensão, sempre impôs ao Brasil o desafio de integrar aquilo que a geografia separou. Quantas pessoas que utilizam hoje as estruturas de comunicação e integração do país conhecem aqueles que enfrentaram florestas, distâncias e condições extremas para começar a construí-las?

Quando deixamos o campo militar e entramos na ciência, a discussão sobre heroísmo se torna ainda mais reveladora. A ciência exige uma forma particular de coragem porque frequentemente trabalha no campo onde as respostas ainda não existem. Pesquisadores passam anos estudando problemas que podem não produzir resultados imediatos, convivem com hipóteses que fracassam e dependem de uma disciplina que raramente recebe reconhecimento proporcional ao impacto potencial de seu trabalho.

Oswaldo Cruz é um dos maiores exemplos brasileiros dessa realidade. Ao enfrentar epidemias e participar da construção de uma nova concepção de saúde pública, encontrou resistência social e política. Seu trabalho ocorreu em um Brasil no qual conhecimento científico e políticas sanitárias ainda precisavam disputar espaço com preconceitos, desinformação e interesses diversos. Sua trajetória demonstra que transformar conhecimento em política pública exige não apenas competência técnica, mas também disposição para enfrentar resistências. O que teria acontecido com a saúde pública brasileira se pesquisadores como ele tivessem desistido diante da oposição que encontraram?

Carlos Chagas amplia essa história de maneira extraordinária. Sua investigação sobre a doença que posteriormente receberia seu nome constituiu uma realização científica de enorme importância. Chagas identificou o agente causador, reconheceu o vetor e descreveu manifestações clínicas, construindo uma compreensão abrangente de uma enfermidade que afetava populações brasileiras. Seu trabalho não foi apenas uma descoberta individual. Representou também a demonstração de que a ciência produzida no Brasil poderia realizar investigações originais e relevantes internacionalmente.

É impossível não confrontar esse legado com a maneira como distribuímos atenção atualmente. Quantos brasileiros conseguem explicar quem foi Carlos Chagas? Quantos conhecem a dimensão de sua contribuição para a medicina? Ao mesmo tempo, nomes de celebridades e personalidades do entretenimento são reconhecidos instantaneamente por milhões de pessoas. Isso não é, por si só, um problema. A questão está no desequilíbrio. Quando uma sociedade conhece profundamente aqueles que entretêm, mas quase nada sabe sobre aqueles que produzem conhecimento capaz de salvar vidas, existe uma questão cultural que merece ser enfrentada. Que mensagem estamos transmitindo quando uma criança sabe o nome, a vida e os hábitos de uma celebridade, mas nunca ouviu falar de um brasileiro responsável por uma descoberta que beneficiou milhões?

E essa questão começa na infância. Uma sociedade educa não apenas por meio de seus currículos, mas também por aquilo que celebra. Crianças e adolescentes observam quem recebe atenção, quem é apresentado como referência e quem ocupa capas, telas e conversas familiares. Aprendem, ainda que indiretamente, o que significa “dar certo” na vida. Se os modelos mais visíveis forem aqueles associados exclusivamente à fama, à riqueza e à exposição, existe o risco de que essas características sejam confundidas com o próprio conceito de realização. Que tipo de adulto estamos formando quando ensinamos uma criança a desejar ser famosa antes mesmo de ensiná-la a desejar ser competente?

É por isso que recuperar a memória de cientistas, médicos, professores, engenheiros, diplomatas, militares e outros construtores do Brasil não significa diminuir a importância da cultura popular. Significa ampliar o horizonte de referências disponível para uma geração. Uma sociedade não precisa escolher entre seus artistas e seus cientistas, entre seus atletas e seus militares, entre seus escritores e seus engenheiros. Precisa apenas compreender que talento e fama não são sinônimos de heroísmo e que diferentes formas de contribuição podem coexistir sem que uma precise apagar a outra.

Santos Dumont é um exemplo particularmente poderoso dessa necessidade. Sua trajetória pode ser apresentada simplesmente como a de um brasileiro associado aos primeiros capítulos da aviação, mas isso seria insuficiente. Dumont representa a combinação entre curiosidade, engenharia, experimentação e persistência. Seu trabalho foi construído por sucessivas tentativas, modificações, erros e aperfeiçoamentos em uma época na qual a possibilidade de controlar uma máquina voadora ainda parecia pertencer ao território da especulação.

Seu legado, portanto, não está apenas naquilo que conseguiu fazer voar. Está também na disposição de experimentar aquilo que ainda não havia sido plenamente realizado. Em uma época em que o Brasil precisa ampliar sua capacidade tecnológica e sua cultura de inovação, essa dimensão de sua história merece ser lembrada, especialmente porque desenvolvimento tecnológico não nasce apenas de recursos financeiros ou estruturas industriais, mas também de uma cultura que valoriza quem tenta resolver problemas difíceis. Será que ainda ensinamos nossos jovens a experimentar, construir e persistir como valores de realização, ou estamos ensinando que o objetivo principal é simplesmente alcançar reconhecimento?

Dom Pedro II também oferece uma oportunidade para escapar das simplificações. O imperador foi uma figura central do Segundo Reinado e esteve ligado a um período marcado por profundas transformações políticas, econômicas e sociais. Sua trajetória possui contradições e precisa ser analisada dentro das estruturas do Império, inclusive em relação aos problemas e desigualdades daquele período. Ao mesmo tempo, sua relação com a ciência, a cultura, a educação e o conhecimento constitui parte relevante de sua história e permite discutir o papel que essas áreas podem desempenhar na formação de uma nação.

Não se trata de transformar Dom Pedro II em um personagem idealizado, mas de reconhecer que figuras históricas podem ser simultaneamente complexas e importantes e que compreender sua contribuição exige mais do que repetir elogios ou condenações. O mesmo vale para José Bonifácio, Tiradentes, André Rebouças, Irineu Evangelista de Sousa, Vital Brazil, Adolfo Lutz, César Lattes e tantos outros brasileiros que ajudaram, cada um à sua maneira, a construir estruturas, conhecimentos e capacidades que continuam presentes no Brasil. Quantos desses nomes ainda são apresentados às novas gerações como referências de realização? E quantos foram simplesmente reduzidos a nomes de ruas, prédios e livros escolares sem que seus feitos sejam realmente conhecidos?

A diversidade dessas trajetórias é justamente o que torna inadequada qualquer tentativa de reduzir o heroísmo a uma única profissão ou campo de atuação. Alguns participaram diretamente da formação do Estado. Outros defenderam o território, transformaram a medicina, criaram infraestrutura, desenvolveram tecnologias, ampliaram o conhecimento científico ou ajudaram a integrar regiões isoladas.

E é nesse ponto que a série chega ao presente. Seria confortável imaginar que os grandes heróis pertencem ao passado, que foram aqueles cujos nomes foram gravados em bronze e colocados em praças. Mas o heroísmo não desapareceu. O que talvez tenha diminuído seja nossa capacidade de percebê-lo quando ele não vem acompanhado de fama. Ele pode estar em uma sala de aula, em um laboratório, em um hospital, em uma unidade militar, em uma embarcação, em uma comunidade isolada ou em uma situação de emergência.

A professora Heley de Abreu Silva Batista, que em outubro de 2017, após enfrentar um vigia que ateou fogo na creche Gente Inocente, em Janaúba, Minas Gerais, ajudou a salvar dezenas de crianças do incêndio e morreu em decorrência das graves queimaduras que sofreu, representa exatamente essa dimensão contemporânea. Sua história não precisa de fama anterior para adquirir significado. Diante de uma situação extrema, ela colocou a proteção de seus alunos acima da própria segurança. Naquele momento, não havia audiência, prêmio, contrato ou expectativa de recompensa, mas uma emergência e uma escolha humana diante dela. Quantas pessoas seriam capazes de fazer a mesma escolha? E quantas vezes passamos por atos de coragem semelhantes sem sequer perceber que estamos diante de um herói?

A ciência contemporânea apresenta outra dimensão desse mesmo compromisso com a sociedade. Pesquisadores dedicam anos ao desenvolvimento de tratamentos para doenças e condições incapacitantes, enfrentando limitações de recursos, fracassos e um longo processo de validação científica que raramente recebe atenção pública. Um exemplo brasileiro é a bióloga, professora e pesquisadora da UFRJ, Dra. Tatiana Sampaio, que lidera pesquisas com a polilaminina, uma molécula desenvolvida a partir de estudos sobre substâncias presentes na placenta humana e investigada como possível tratamento para lesões da medula espinhal. Resultados preliminares e aplicações experimentais em casos de emergência indicaram recuperação de movimentos em alguns pacientes, embora a terapia ainda esteja em processo de desenvolvimento e validação.

O trabalho de Tatiana recoloca uma pergunta fundamental desta série: quantos brasileiros conhecem o nome de uma pesquisadora cujo trabalho pode transformar a vida de pessoas com paralisia? Se a sociedade concede enorme visibilidade a quem consegue permanecer sob os holofotes, mas quase não conhece aqueles que trabalham silenciosamente para mudar vidas, não estamos confundindo fama com legado?

Essa distinção também impede que a série crie uma nova forma de idolatria. Militares não são heróis simplesmente por vestirem uma farda. Cientistas não são heróis apenas por possuírem títulos acadêmicos. Professores não são heróis automaticamente porque trabalham em uma escola. Médicos, políticos, empresários, artistas ou atletas tampouco recebem virtude por decreto em razão da profissão que escolheram. O que importa é o que cada pessoa faz com suas capacidades, responsabilidades e oportunidades. Não seria igualmente equivocado substituir a idolatria da fama por uma idolatria da profissão?

É possível existir heroísmo em uma trincheira e em um laboratório, em uma sala de aula e em uma negociação diplomática, em uma embarcação e diante de uma emergência cotidiana. O denominador comum não está na profissão, mas na relação entre a pessoa e aquilo que decide fazer quando suas escolhas podem beneficiar, proteger ou transformar a vida de outros.

Uma celebridade pode ser um exemplo. Um atleta pode ser um exemplo. Um artista pode ser um exemplo. Um militar pode ser um exemplo. Um cientista pode ser um exemplo. Mas nenhum deles deveria receber automaticamente o título de herói apenas por aquilo que é ou pelo tamanho de sua fama. O heroísmo está relacionado às ações, às circunstâncias em que foram realizadas, aos riscos assumidos e àquilo que permanece como consequência delas. Afinal, se todos podem ser chamados de heróis, o que a palavra ainda significa?

Quando olhamos dessa maneira, o Brasil revela um universo muito maior de pessoas dignas de serem lembradas. Não haverá “os dez maiores heróis” nem uma seleção encerrada depois de determinado número de personagens. A cada trajetória estudada surgirão outras, algumas conhecidas e outras esquecidas, que também poderão ajudar a responder à pergunta que dá nome a esta jornada.

Caxias nos permite discutir liderança e responsabilidade em tempos de crise; Tamandaré, a construção do poder naval e a soberania; Barroso, a decisão e o comando diante do risco; Rio Branco, a força do conhecimento e da diplomacia; Rondon, a integração de um território continental; Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, a ciência colocada a serviço da vida; Santos Dumont, a inovação e a persistência; Dom Pedro II, a relação entre Estado, cultura e conhecimento. Outros personagens revelarão novas dimensões dessa mesma questão e alguns talvez nos obriguem a rever ideias que durante muito tempo aceitamos sem questionamento.

Ao lado deles estarão pessoas que talvez nunca tenham ocupado um lugar importante nos livros de História, mas que fizeram algo extraordinário quando a situação exigiu. Um ato de coragem pode não alterar o destino de um país, mas alterar para sempre o destino de uma família. Uma descoberta pode não ganhar manchetes, mas oferecer uma nova possibilidade para milhares de pacientes. Um professor pode não se tornar famoso, mas mudar a trajetória de centenas de alunos. Um profissional pode passar décadas fazendo seu trabalho com excelência e responsabilidade sem jamais receber uma homenagem. Se é assim, por que ainda temos tanta dificuldade para reconhecer como heróis aqueles que nunca tiveram oportunidade de aparecer?

O impacto histórico de uma ação e o impacto humano de uma vida não são necessariamente proporcionais à fama de quem a realizou, e é justamente por isso que memória é uma responsabilidade. Quando esquecemos aqueles que construíram instituições, defenderam o território, produziram conhecimento, educaram gerações ou sacrificaram a própria segurança para proteger outras pessoas, não estamos apenas perdendo informações sobre o passado. Estamos perdendo referências sobre aquilo que uma sociedade considera valioso.

Quando esse espaço permanece vazio, a indústria da fama encontra terreno fértil para transformar notoriedade em autoridade e exposição em exemplo. Isso não acontece porque todas as pessoas famosas sejam indignas de admiração, mas porque uma sociedade que não conhece seus próprios construtores acaba tendo dificuldade para escolher conscientemente quem deseja admirar. O problema não está na existência de ídolos, mas na ausência de critérios capazes de separar o entretenimento do exemplo, o talento do caráter, o sucesso da contribuição e a popularidade do mérito. Será que estamos realmente escolhendo nossos exemplos ou simplesmente aceitando aqueles que os algoritmos escolhem colocar diante de nós?

Essa mudança de perspectiva também altera a maneira como olhamos para a própria ideia de sucesso. Existe valor na conquista individual, na ambição e na busca pela excelência. Mas uma sociedade não pode sobreviver apenas de indivíduos buscando chegar ao topo. Ela precisa também de pessoas dispostas a construir aquilo que permanecerá depois delas. O que significa vencer na vida se tudo aquilo que conquistamos desaparece junto conosco? E o que significa perder, se aquilo que construímos continua beneficiando outras pessoas?

É nesse ponto que o conceito de legado se torna fundamental. Um homem pode morrer e deixar dinheiro; outro pode deixar fama; outro, troféus; outro, obras de arte; outro, empresas. Há, porém, pessoas que deixam instituições, conhecimento, descobertas, vidas salvas, territórios protegidos, gerações educadas e caminhos abertos para aqueles que virão depois. São legados que não desaparecem necessariamente com a morte de seus autores porque passam a fazer parte da capacidade coletiva de uma sociedade.

Caxias não pode mais defender o Brasil porque pertence ao passado. Tamandaré não pode mais comandar um navio. Barroso não pode mais tomar uma decisão em combate. Rio Branco não pode mais sentar-se à mesa de negociação. Carlos Chagas não pode mais entrar em um laboratório. Santos Dumont não pode mais construir uma aeronave. Rondon não pode mais atravessar as regiões que percorreu. Todos eles, porém, continuam capazes de influenciar o presente por meio daquilo que deixaram. Esse é um dos maiores poderes da memória: permitir que pessoas que já morreram continuem participando da formação daqueles que ainda estão vivos.

Por isso, revisitar nossos heróis não é um exercício de nostalgia. É uma tentativa de recuperar uma conversa que talvez tenha sido abandonada: o que merece ser admirado? A resposta nunca será completamente objetiva. Sociedades diferentes valorizam coisas diferentes, e a própria interpretação histórica muda com o tempo. Mas isso não significa que todos os critérios tenham o mesmo peso ou que qualquer forma de notoriedade deva ser confundida com grandeza. Se a fama não é suficiente, então quais critérios devemos utilizar? Coragem? Sacrifício? Conhecimento? Serviço? Resultado? Caráter? Legado?

Uma sociedade precisa discutir seus valores e compreender por que homenageia alguém, quais histórias coloca diante de seus jovens e quais características deseja transformar em referência. Memória também é educação, e aquilo que uma geração escolhe preservar influencia a maneira como a seguinte compreenderá conceitos como coragem, responsabilidade, serviço, conhecimento, liderança, sacrifício e sucesso. Que valores estamos ensinando quando escolhemos quem merece uma estátua? Que mensagem transmitimos quando decidimos quais nomes serão lembrados?

Talvez os verdadeiros heróis do Brasil estejam justamente entre aqueles que fizeram coisas importantes quando ninguém estava olhando. Essa possibilidade nos obriga a ampliar o olhar para além dos grandes acontecimentos e dos nomes consagrados, alcançando também os que estudaram quando seria mais fácil desistir, pesquisaram quando o resultado parecia distante, ensinaram quando seus próprios esforços dificilmente seriam reconhecidos, defenderam o país quando o custo pessoal era alto, negociaram para evitar conflitos, abriram caminhos onde não havia estradas, cuidaram de doentes sem saber se seriam lembrados ou, diante do perigo, escolheram proteger outra pessoa.

É essa inquietação que orienta a série. Não procuraremos personagens perfeitos, porque pessoas perfeitas não existem. Procuraremos trajetórias que nos permitam pensar sobre coragem, responsabilidade, conhecimento, serviço, liderança, inovação, sacrifício, perseverança e compromisso com algo que ultrapasse o indivíduo. Alguns personagens serão conhecidos por praticamente todos os brasileiros; outros provavelmente serão descobertos por muitos leitores. Alguns estarão ligados às grandes decisões nacionais; outros aparecerão em histórias particulares que, justamente por sua dimensão humana, podem revelar ainda mais sobre o que significa ser um exemplo.

No fundo, a pergunta que dá nome à série talvez seja maior do que parece. Quem são os verdadeiros heróis do Brasil? Ela pergunta quem merece ser lembrado, mas também quem merece ser imitado. Pergunta quais vidas consideramos importantes e quais valores estamos transmitindo. E, principalmente, pergunta que tipo de sociedade estamos construindo quando permitimos que a fama determine quem deve ser admirado.

Talvez a resposta não esteja nos mais ricos, nos mais famosos, nos mais seguidos ou nos mais fotografados, mas naqueles cuja existência produziu algo que continuou beneficiando outras pessoas depois que eles próprios deixaram de estar presentes. Alguns defenderam o Brasil, outros o estudaram, ensinaram, curaram, conectaram ou representaram diante do mundo. Outros simplesmente salvaram alguém quando poderiam ter escolhido não fazê-lo. O que os aproxima não é a profissão, o uniforme, o cargo ou a fama, mas a dimensão do legado que suas ações foram capazes de produzir.

Toda geração escolhe seus exemplos, mesmo quando não percebe que está fazendo essa escolha. A nossa também está escolhendo, diariamente, por meio das pessoas que celebra, das histórias que conta e da atenção que distribui. Aquilo que colocarmos diante dos olhos das próximas gerações ajudará a determinar não apenas quem elas admirarão, mas também que tipo de grandeza aprenderão a reconhecer.

E é por isso que esta jornada começa agora. Não para entregar ao leitor uma lista pronta de heróis, mas para percorrer suas histórias e permitir que cada trajetória seja julgada pelo seu tempo, pelas suas escolhas, pelos seus feitos e pelo legado que deixou.

Porque talvez os verdadeiros heróis do Brasil não estejam reunidos em um único panteão. Eles estão espalhados pela nossa história, entre grandes acontecimentos e gestos anônimos, entre homens e mulheres que deixaram territórios protegidos, conhecimento produzido, instituições construídas, vidas salvas e exemplos capazes de atravessar gerações.

E antes de decidir quem merece esse nome, vale começar com uma pergunta ainda mais próxima de nós: quando nossos filhos perguntarem quem foram os grandes brasileiros de sua geração, quais nomes gostaríamos que eles soubessem responder, e por quê?


por Angelo Nicolaci


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