A decisão do Itamaraty de condenar os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã, sob o argumento de defesa do Direito Internacional e da “máxima contenção”, revela mais do que uma posição diplomática tradicional: expõe uma dificuldade recorrente do Brasil em alinhar princípios normativos com cálculo estratégico de longo prazo.
O Brasil historicamente sustenta uma política externa baseada na solução pacífica de controvérsias e no multilateralismo. Contudo, ao emitir condenação direta sem ponderar o contexto estratégico envolvendo o avanço do programa nuclear iraniano e a percepção de ameaça por parte de Israel e dos Estados Unidos, o governo brasileiro assume um posicionamento que pode ser interpretado como assimétrico. Em crises de alta complexidade, a escolha das palavras é, por si só, um instrumento de poder.
O ponto central não é defender o uso da força como solução automática, mas reconhecer que, no sistema internacional real, decisões militares muitas vezes são tomadas sob cálculo de dissuasão e percepção de risco existencial. Ao ignorar essa dimensão, o Brasil reforça uma postura declaratória que nem sempre dialoga com a lógica estratégica das grandes potências.
O impacto disso pode ultrapassar o campo simbólico e atingir áreas sensíveis da política nacional, especialmente defesa e economia.
Israel é hoje um dos principais parceiros estratégicos do Brasil na área de tecnologia militar. Sistemas de monitoramento de fronteiras, sensores, aeronaves remotamente pilotadas, modernização de blindados e soluções de guerra eletrônica contam com forte presença israelense em contratos e cooperação tecnológica. Um distanciamento político prolongado pode afetar transferências de tecnologia, acordos industriais e futuras negociações estratégicas.
Da mesma forma, os Estados Unidos continuam sendo ator central em programas de cooperação militar, exercícios conjuntos e acesso a determinados equipamentos e sistemas sensíveis. Embora retaliações econômicas formais sejam improváveis no curto prazo, o ambiente diplomático influencia decisões políticas, exportações de tecnologia dual-use e até a fluidez de parcerias industriais. Em um cenário internacional polarizado, percepções importam.
No campo econômico, o Brasil também depende da estabilidade global para manter previsibilidade cambial, fluxo de investimentos e estabilidade nos preços de energia e commodities. Caso o conflito se prolongue e afete rotas estratégicas no Golfo, com impactos no petróleo e no comércio marítimo, o reflexo chega ao Brasil via inflação importada, pressão sobre combustíveis e aumento de custos logísticos. A política externa, portanto, não é dissociada da política econômica.
Há ainda um elemento geopolítico mais amplo: o Brasil busca projeção internacional como ator global relevante, pleiteando maior protagonismo em fóruns multilaterais. Para isso, precisa ser percebido como interlocutor confiável por múltiplos polos de poder. Uma diplomacia excessivamente declaratória, sem cálculo de impacto estratégico, pode reduzir margem de manobra futura.
Isso não significa que o Brasil deva abandonar seus princípios históricos. Significa, porém, que princípios precisam ser combinados com pragmatismo. Em crises dessa magnitude, a diferença entre neutralidade ativa e condenação seletiva pode definir o grau de influência que um país terá no cenário internacional.
O desafio para o Itamaraty não é apenas condenar ou apoiar. É entender que cada posicionamento público produz efeitos estratégicos reais, inclusive sobre nossos programas de defesa, nossa economia e nossas alianças tecnológicas. Em um mundo cada vez mais multipolar e menos previsível, o custo de uma palavra mal calibrada pode ser maior do que parece no momento da sua emissão.
por Angelo Nicolaci
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