domingo, 8 de novembro de 2026

Editorial - Defesa além das armas: o investimento que pode impulsionar toda a economia

 

O crescimento dos investimentos em Defesa na Europa está produzindo efeitos que ultrapassam a indústria de defesa. Um dos sinais mais expressivos dessa transformação aparece em um setor que, tradicionalmente, não costuma ocupar o centro das discussões sobre Defesa: a indústria de máquinas e equipamentos. O movimento revela uma dimensão econômica frequentemente ignorada no debate público: a capacidade da Defesa de estimular cadeias produtivas, impulsionar a inovação e fortalecer setores inteiros da economia.

Uma reportagem recentemente publicada pela Reuters apresenta um retrato dessa transformação a partir de um levantamento da associação alemã VDMA, que representa aproximadamente 3.500 empresas de engenharia mecânica e instalações industriais. Segundo a pesquisa, 43% das empresas consultadas que já fornecem ao setor de segurança e Defesa esperam pelo menos dobrar suas receitas relacionadas a esse mercado até 2030, enquanto outros 46% projetam crescimento moderado.

O dado merece atenção porque demonstra que a expansão da demanda por produtos de Defesa não beneficia apenas quem fabrica o equipamento final. Ela alcança empresas responsáveis por máquinas industriais, ferramentas de precisão, componentes, automação e soluções de engenharia, muitas das quais também abastecem segmentos como o automotivo, aeronáutico, energético, agrícola e de infraestrutura.

Essa é uma das dimensões mais importantes do investimento em Defesa: sua capacidade de movimentar uma estrutura produtiva que não se limita à Base Industrial de Defesa (BID). A construção de um navio, por exemplo, demanda aço, ligas especiais, motores, sistemas elétricos, componentes eletrônicos, softwares, máquinas, serviços de engenharia e logística. A fabricação de uma aeronave exige materiais avançados, ferramentas de precisão, processos industriais sofisticados, sistemas de controle e uma extensa rede de fornecedores. Grande parte dessas competências também encontra aplicação em atividades civis.

Quando o Estado estabelece programas consistentes, com encomendas previsíveis e perspectivas de continuidade, cria condições para que empresas invistam em instalações, equipamentos, pesquisa e qualificação profissional. A demanda inicial pode estar associada à Defesa, mas a capacidade produtiva desenvolvida não precisa permanecer restrita a esse mercado. É nesse processo que ocorre o chamado transbordamento tecnológico: conhecimentos, materiais, métodos de produção e soluções desenvolvidos ou aperfeiçoados em projetos de Defesa passam a encontrar aplicações em outros setores da economia.

A experiência internacional demonstra que essa relação merece ser considerada nas decisões de investimento público. O Banco Central Europeu, em suas análises sobre a expansão dos gastos em Defesa, aponta o potencial de ganhos de produtividade no longo prazo por meio de economias de escala, aprendizado industrial e transferência de conhecimentos para atividades civis. A OCDE também identificou uma associação positiva entre a presença de estruturas produtivas ligadas à Defesa e níveis mais elevados de renda regional em 15 países europeus. Não se trata de afirmar que qualquer aumento de orçamento produz automaticamente crescimento econômico, mas de reconhecer que uma política de Defesa bem estruturada pode fortalecer capacidades produtivas que beneficiam toda a economia.

Os efeitos aparecem em diferentes segmentos. A demanda por materiais de elevada resistência estimula a siderurgia, a metalurgia e a engenharia de materiais. A necessidade de processos industriais mais precisos impulsiona máquinas, ferramentas, robótica e automação. Sistemas de comunicação, sensores, processamento de dados e inteligência artificial ampliam competências que também podem ser aplicadas na agricultura de precisão, mineração, logística e infraestrutura. Ao mesmo tempo, projetos de elevada complexidade criam demanda por engenheiros, técnicos, pesquisadores e profissionais especializados, fortalecendo a formação de mão de obra qualificada.

A Defesa, portanto, não deve ser avaliada exclusivamente pela quantidade de equipamentos incorporados às Forças Armadas ou pelo volume de contratos assinados com fabricantes especializados. Seu impacto potencial alcança a produtividade industrial, a capacidade tecnológica, a formação profissional e a competitividade de empresas que atuam muito além desse mercado.

O Brasil e o custo de investir pouco

É nesse contexto que o Brasil precisa rever a dimensão econômica e estratégica de sua política de Defesa. O país possui uma base industrial diversificada, universidades, centros de pesquisa e empresas capazes de desenvolver soluções de elevada complexidade. Entretanto, a irregularidade dos investimentos, a baixa previsibilidade das encomendas e a dificuldade de sustentar programas de longo prazo limitam a transformação desse potencial em capacidade produtiva permanente.

Os números ajudam a compreender o problema. Dados do Banco Mundial, baseados na série do SIPRI, situam as despesas brasileiras com Defesa em aproximadamente 1,1% do PIB em 2025. Mais importante do que o percentual isolado é a composição desse orçamento. Em análise apresentada em 2025, a Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados apontou que aproximadamente 90% dos recursos estavam comprometidos com despesas obrigatórias, deixando uma parcela reduzida para investimentos e modernização.

Essa configuração produz consequências que ultrapassam o planejamento das Forças Armadas. Sem previsibilidade orçamentária, empresas encontram dificuldades para justificar investimentos em novas instalações, equipamentos, pesquisa e contratação de profissionais. Fornecedores deixam de ampliar sua capacidade, projetos tecnológicos perdem continuidade e o país tem dificuldade para consolidar cadeias produtivas capazes de atender tanto à demanda nacional quanto ao mercado internacional.

O problema não está apenas em quanto o Brasil gasta, mas também em como transforma esses recursos em capacidade industrial, conhecimento e desenvolvimento econômico. Uma encomenda interrompida ou sucessivamente adiada não representa apenas um atraso na entrega de um equipamento. Pode significar perda de escala, desmobilização de fornecedores, interrupção de investimentos e desperdício de competências construídas ao longo de anos.

Programas como o PROSUB, as Fragatas Classe Tamandaré, o Gripen, o KC-390 e os sistemas de vigilância de fronteiras demonstram a dimensão dessa oportunidade. São projetos que mobilizam engenharia, metalurgia, eletrônica, software, integração de sistemas, infraestrutura e serviços especializados. Seu valor não deve ser medido somente pelo equipamento entregue, mas também pelas competências industriais e tecnológicas que permanecem no país.

Essa capacidade, contudo, precisa encontrar continuidade e mercados. Desenvolver tecnologia sem assegurar demanda, escala produtiva e oportunidades de comercialização limita o retorno dos investimentos. Por isso, a política de Defesa precisa estar articulada à política industrial, científica e de comércio exterior.

O Estado precisa ir além da compra e apoiar a conquista de mercados

A exportação é parte fundamental dessa equação. Quando uma empresa brasileira conquista contratos no exterior, amplia sua escala de produção, fortalece sua rede de fornecedores e cria condições para sustentar investimentos em engenharia e desenvolvimento tecnológico. O resultado pode alcançar empresas que nem sequer atuam diretamente no segmento de Defesa, mas participam de sua cadeia produtiva.

O Brasil já demonstrou que possui capacidade para disputar esse mercado. Segundo o Ministério da Defesa, as autorizações para exportação de produtos e serviços do setor alcançaram aproximadamente US$ 3,4 bilhões em 2025. No primeiro semestre de 2026, somaram US$ 1,815 bilhão, crescimento de 29% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Esses resultados mostram que existe demanda internacional por soluções brasileiras. Entretanto, autorizações não equivalem necessariamente a contratos executados ou receitas efetivamente recebidas. Mais do que comemorar os números, é necessário transformar oportunidades em negócios duradouros.

Nesse ponto, o papel do Estado é decisivo. Empresas brasileiras disputam mercados com concorrentes que contam com apoio diplomático, financiamento, garantias de crédito, articulação governamental e presença institucional de seus países de origem. A qualidade técnica de um produto é indispensável, mas nem sempre suficiente para conquistar um contrato internacional. Em operações de elevado valor, a capacidade de oferecer financiamento, garantias e segurança política e comercial pode ser determinante.

O Brasil dispõe de instrumentos de apoio, incluindo mecanismos de financiamento à exportação e iniciativas de promoção comercial. O Banco do Brasil, por exemplo, retomou em 2024 sua participação no Sistema de Crédito Oficial à Exportação para operações do setor de Defesa. O Ministério da Defesa também desenvolve iniciativas de divulgação da indústria nacional e articulação com outras instituições governamentais.

A existência desses instrumentos, porém, não elimina a necessidade de ampliar sua escala, coordenação e continuidade. A promoção internacional não pode depender apenas da iniciativa individual das empresas ou de participações pontuais em feiras. Exige diplomacia econômica ativa, presença institucional nos mercados estratégicos, financiamento competitivo e articulação entre Defesa, Relações Exteriores, Indústria e Comércio Exterior.

O apoio governamental à exportação também precisa ser entendido como uma política de desenvolvimento econômico. Cada contrato internacional capaz de sustentar uma linha de produção pode gerar encomendas para fornecedores nacionais, estimular a contratação de profissionais, manter investimentos tecnológicos e ampliar a competitividade de empresas brasileiras em mercados civis e industriais.--

Uma oportunidade que ultrapassa a Base Industrial de Defesa

A experiência europeia apresentada pela Reuters reforça uma discussão que o Brasil ainda precisa enfrentar com maior profundidade: a política de Defesa não deve ser tratada apenas como instrumento de reequipamento das Forças Armadas, mas também como uma política de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico. O investimento em capacidades de defesa pode gerar efeitos econômicos que alcançam setores muito além da Base Industrial de Defesa (BID), desde que exista uma estratégia deliberada para transformar a demanda do Estado em capacidade produtiva nacional.

Programas de defesa exigem competências que dificilmente se desenvolvem de forma isolada. A construção de navios, aeronaves, veículos militares, radares e sistemas de armas mobiliza cadeias que envolvem siderurgia, metalurgia, eletrônica, materiais avançados, software, telecomunicações, inteligência artificial, máquinas de precisão e engenharia. Também demanda universidades, centros de pesquisa, laboratórios, empresas de pequeno e médio porte e profissionais altamente qualificados. Quando essas competências são desenvolvidas no país, seus efeitos podem alcançar aplicações civis, elevar a produtividade industrial e ampliar a capacidade de inovação de outros segmentos da economia.

O ponto central não é simplesmente gastar mais, mas investir com objetivos definidos. Uma aquisição concentrada na importação de sistemas completos pode atender a uma necessidade operacional imediata, mas tende a gerar menor domínio tecnológico e menor retenção de valor no Brasil. Da mesma forma, a exigência formal de conteúdo local não garante autonomia se as empresas nacionais permanecerem restritas à fabricação de componentes de baixa complexidade, sem acesso à engenharia, à propriedade intelectual, à integração de sistemas e à capacidade de evolução dos produtos.

O desenvolvimento de uma indústria de defesa competitiva exige continuidade de encomendas, previsibilidade orçamentária, transferência efetiva de tecnologia, formação de mão de obra e participação nacional em etapas de maior valor agregado. Exige também que os programas sejam concebidos desde o início considerando não apenas as necessidades das Forças Armadas, mas a possibilidade de exportação, a sustentabilidade da cadeia de fornecedores e a capacidade de manter e modernizar os sistemas ao longo de décadas, além de impulsionar outros setores da indústria brasileira.

A previsibilidade orçamentária precisa ser tratada como condição para a existência de uma indústria estratégica, e não como uma questão administrativa secundária. Não é razoável esperar que empresas invistam em instalações, equipamentos, pesquisa, contratação e qualificação de pessoal quando não há segurança sobre a continuidade dos programas que justificam esses investimentos. Projetos de defesa exigem ciclos longos de desenvolvimento e produção. Quando recursos são contingenciados, cronogramas são interrompidos ou encomendas são reduzidas sem planejamento, o prejuízo ultrapassa o atraso na entrega de um equipamento: fornecedores perdem escala, profissionais especializados deixam o setor, investimentos privados são desestimulados e capacidades tecnológicas construídas ao longo de anos podem se perder.

Por isso, programas estratégicos precisam de planejamento plurianual, compromissos financeiros compatíveis com seus cronogramas e mecanismos institucionais que preservem sua execução diante das mudanças de governo. Isso não significa orçamento ilimitado ou ausência de responsabilidade fiscal. Significa estabelecer prioridades, dimensionar os compromissos de acordo com os recursos disponíveis e evitar que decisões orçamentárias de curto prazo inviabilizem projetos que exigem continuidade. Sem previsibilidade, o Estado não consegue induzir investimentos privados de longo prazo nem oferecer aos parceiros internacionais a segurança necessária para estabelecer cooperação industrial.

A experiência europeia oferece uma referência importante justamente pela articulação entre demanda militar, investimento tecnológico e integração industrial. A participação em cadeias internacionais permite ampliar a escala de produção, conquistar mercados externos e distribuir os custos de desenvolvimento por uma base maior de clientes. O resultado pode envolver exportações, empregos qualificados, arrecadação, fortalecimento de fornecedores e retenção de conhecimento estratégico. Para o Brasil, isso significa reconhecer que a competitividade da BID não depende apenas das encomendas nacionais, mas de sua capacidade de disputar mercados internacionais.

Essa estratégia precisa ir além da substituição de importações. O Brasil deve investir para produzir, dominar tecnologia e exportar. Cada programa estratégico deveria responder a uma questão objetiva: quais capacidades permanecerão no país após a entrega dos equipamentos às Forças Armadas e como poderão gerar novos negócios? Isso implica estimular produtos com potencial de mercado externo, apoiar certificações internacionais, fortalecer mecanismos de financiamento às exportações, desenvolver acordos de cooperação industrial e ampliar a participação de empresas brasileiras em programas multinacionais. O mercado interno pode oferecer a demanda inicial necessária para consolidar uma linha de produção, mas dificilmente será suficiente para sustentar sozinho uma indústria de alta tecnologia.

É justamente nesse ponto que o governo brasileiro precisa assumir uma postura muito mais ativa. Não basta apoiar a indústria nacional por meio de encomendas domésticas ou participar de feiras internacionais. A promoção das exportações de defesa precisa integrar a política externa, a diplomacia econômica e a estratégia de Defesa do Brasil. O Estado deve atuar como articulador dos interesses nacionais, identificando oportunidades, aproximando empresas brasileiras de governos e forças armadas estrangeiras, apoiando negociações e utilizando sua rede diplomática para abrir portas em mercados nos quais a presença institucional brasileira pode fazer diferença.

Essa atuação precisa envolver diretamente o Ministério da Defesa, o Ministério das Relações Exteriores, os órgãos responsáveis pela promoção comercial e os mecanismos públicos de financiamento. Em visitas oficiais, reuniões bilaterais, comissões de cooperação, fóruns multilaterais e agendas com autoridades estrangeiras, as capacidades da indústria brasileira devem fazer parte da pauta. Quando houver interesse e condições políticas e comerciais, o governo deve utilizar sua influência diplomática para apoiar propostas nacionais, construir confiança entre os países e facilitar o diálogo entre fabricantes e potenciais compradores.

A atuação governamental não deve significar interferência nas decisões soberanas de outros países ou favorecimento indiscriminado de empresas. Deve representar uma política coordenada de promoção comercial, sustentada por credibilidade, transparência e compromissos de longo prazo. Na área de defesa, a decisão de compra envolve muito mais do que preço e especificações técnicas: considera relacionamento estratégico, confiança política, disponibilidade de financiamento, suporte logístico, treinamento, transferência de tecnologia e garantias de continuidade. Se outros países utilizam suas estruturas diplomáticas para apoiar suas indústrias, o Brasil também precisa organizar seus instrumentos de Estado para competir em condições internacionais.

O apoio às exportações deve contemplar ainda financiamento competitivo, garantias de crédito, instrumentos de seguro, acordos de compensação tecnológica quando pertinentes e mecanismos de apoio à manutenção e à sustentação dos sistemas vendidos. Uma venda de defesa não termina na entrega do equipamento. Ela pode estabelecer uma relação de décadas, envolvendo peças, modernizações, treinamento, assistência técnica e novos negócios. O governo precisa compreender esse ciclo e apoiar a indústria para que uma primeira exportação se transforme em presença duradoura no mercado comprador.

Uma política de compras públicas orientada também para a exportação pode produzir um ciclo virtuoso. A demanda nacional oferece a referência inicial, permite aperfeiçoar produtos e consolidar linhas de produção; a conquista de clientes estrangeiros amplia a escala, dilui custos, fortalece fornecedores e reduz a dependência de encomendas governamentais. Com maior volume de produção, as empresas podem reinvestir em pesquisa, inovação e modernização. Para isso, os equipamentos precisam atender a padrões internacionais, permitir adaptações às necessidades de diferentes usuários e apresentar condições comerciais competitivas. Não basta produzir nacionalmente: é necessário desenvolver produtos que possam conquistar compradores e permanecer competitivos no mercado externo.

Essa visão precisa estar vinculada a objetivos mensuráveis. Não basta anunciar programas de nacionalização ou estabelecer percentuais de conteúdo local. É necessário acompanhar quanto do investimento permanece na economia brasileira, quais tecnologias passam a ser dominadas no país, quantos fornecedores conseguem evoluir, quais capacidades de engenharia são incorporadas e quais resultados comerciais são alcançados no exterior. Também é necessário avaliar a participação brasileira em cadeias internacionais e o volume de negócios gerados a partir dos investimentos públicos. Sem esses critérios, o discurso sobre desenvolvimento pode encobrir projetos dependentes de importações, com baixa absorção tecnológica e reduzido retorno industrial.

O Brasil já dispõe de empresas, instituições de pesquisa e experiências industriais capazes de sustentar uma política mais ambiciosa. O desafio está em conectar essas capacidades por meio de programas de longo prazo, evitando que mudanças de governo, contingenciamentos orçamentários e decisões de curto prazo interrompam projetos antes que alcancem maturidade tecnológica e escala comercial. A descontinuidade desestimula investimentos privados, fragiliza fornecedores e reduz a confiança de parceiros e compradores internacionais. Ao mesmo tempo, a ausência de uma estratégia coordenada de promoção comercial faz com que oportunidades externas sejam disputadas sem todo o respaldo diplomático, financeiro e institucional que o Estado brasileiro poderia oferecer.

A política de Defesa precisa, assim, ser tratada como política de Estado, com objetivos que ultrapassem os ciclos eleitorais e mecanismos capazes de preservar a execução dos programas estratégicos. Isso não significa proteger empresas de qualquer avaliação de desempenho ou justificar despesas sem retorno operacional. Significa assegurar que os recursos públicos destinados à Defesa atendam às necessidades militares e também contribuam para ampliar a capacidade tecnológica e produtiva do país. O retorno econômico não substitui o requisito militar, mas deve ser considerado desde a concepção dos programas, orientando decisões sobre nacionalização, transferência de tecnologia, desenvolvimento de fornecedores e potencial de exportação.

A questão brasileira não se resume a quanto investir, mas a quais capacidades pretende construir, quanto desse conhecimento permanecerá sob domínio nacional e que mercados poderão ser alcançados a partir dele. Navios, aeronaves e sistemas de armas são resultados visíveis de uma política de Defesa. Por trás deles estão a engenharia, a pesquisa, a indústria, os empregos qualificados e a possibilidade de inserir empresas brasileiras em cadeias globais de alto valor agregado. Quando o Estado oferece previsibilidade à produção, utiliza seu poder de compra para estimular tecnologias nacionais e mobiliza sua influência diplomática para apoiar as exportações, o investimento em Defesa pode se transformar em um instrumento concreto de crescimento econômico.

A soberania depende da capacidade de defender o território e os interesses nacionais, mas também de projetar, produzir, manter e modernizar os meios necessários para isso. O Brasil precisa superar a lógica de adquirir equipamentos conforme a disponibilidade orçamentária de cada momento e avançar para uma política que associe planejamento militar, continuidade financeira, domínio tecnológico, financiamento competitivo e promoção internacional. A indústria brasileira não deve encontrar no próprio governo apenas seu principal cliente, mas também um parceiro ativo na conquista de mercados. É nessa integração entre Defesa, política externa e desenvolvimento econômico que o país poderá transformar investimentos estratégicos em capacidade nacional, riqueza e presença internacional duradoura.


Por Angelo Nicolaci


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