Com entrega prevista para 2028, o NRP Fernando Pessoa integra a modernização da Marinha Portuguesa e oferece ao Brasil uma oportunidade para avaliar a capacidade industrial turca, em meio à necessidade futura de substituir seu atual navio-tanque.
A Marinha Portuguesa avançou na renovação de sua capacidade logística com a cerimônia de assentamento do primeiro bloco da quilha do futuro NRP Fernando Pessoa, realizada em 20 de outubro, no estaleiro ADA Shipyard em Tuzla, Istambul, na Türkiye. A embarcação será a segunda unidade de uma nova classe de Navios Reabastecedores de Esquadra e Logísticos, projetada para ampliar a autonomia das operações navais portuguesas.
A cerimônia foi presidida pelo chefe do Estado-Maior da Armada de Portugal, almirante Jorge Nobre de Sousa, e contou com a presença do comandante naval da Marinha da Türkiye, almirante Kadir Yıldız, além de representantes militares e civis dos dois países. O projeto combina a modernização da frota portuguesa com a capacidade de construção naval turca, inserindo o estaleiro de Istambul no programa estratégico para Lisboa.
Com 137 metros de comprimento e deslocamento de aproximadamente 11 mil toneladas, o NRP Fernando Pessoa terá propulsão híbrida, combinando sistemas diesel e elétrico, e velocidade máxima superior a 18 nós. A guarnição será composta por 50 militares, com alojamentos adicionais para receber temporariamente mais de 100 pessoas.
O navio transportará e fornecerá combustível para embarcações e aeronaves, água potável, munições e carga geral, além de oferecer apoio logístico diversificado e recursos hospitalares ampliados. Essas capacidades permitirão sustentar operações prolongadas, apoiar forças navais afastadas de suas bases e contribuir para missões humanitárias e de resposta a catástrofes.
O programa inclui também o NRP Luís de Camões. Juntos, os dois navios deverão ampliar a capacidade portuguesa de manter unidades navais em operação por períodos mais longos, reforçando a presença do país no Atlântico e o cumprimento de compromissos internacionais, como a OTAN. A entrega do NRP Fernando Pessoa está prevista para o final de 2028.
A construção na Türkiye demonstra a participação da indústria naval turca em programas internacionais de modernização de frotas, uma experiência que pode interessar a países que buscam renovar suas capacidades e avaliar alternativas de cooperação industrial.
O programa português representa oportunidade para o Brasil?
A experiência merece atenção da Marinha do Brasil. A extensão do litoral, a proteção da Amazônia Azul e a necessidade de operar em áreas distantes tornam o reabastecimento no mar essencial para ampliar a permanência de escoltas e outros meios navais em missão, reduzindo a dependência de apoio em terra.
Atualmente, a Marinha brasileira dispõe do Navio-Tanque Almirante Gastão Motta, incorporado em 1991, para o apoio logístico oceânico à Esquadra. Além da idade, a embarcação possui casco simples, característica que impõe limitações diante de determinadas exigências ambientais e condições de operação internacional. A aplicação dessas restrições depende das normas e do contexto operacional, mas a configuração do navio é um fator relevante no planejamento de longo prazo. A dependência de uma única plataforma também reforça a importância de preparar sua futura substituição.
Nesse cenário, acompanhar a construção do NRP Fernando Pessoa pode oferecer ao Brasil uma referência concreta para avaliar a indústria naval turca. O andamento do cronograma, a execução do projeto e a capacidade de entrega do estaleiro são aspectos que podem ajudar a dimensionar a experiência industrial da Türkiye na construção de navios logísticos dessa categoria.
Existe um canal institucional que pode facilitar esse acompanhamento. Em abril de 2026, durante a LAAD, as Marinhas do Brasil e de Portugal assinaram um instrumento de entendimento voltado à cooperação e ao intercâmbio de informações sobre programas navais. Esse mecanismo abre espaço para conhecer melhor a experiência portuguesa com o projeto, incluindo aspectos de contratação, construção e avaliação da capacidade de entrega do fornecedor turco.
O intercâmbio não significa que o Brasil adotará o mesmo projeto. As necessidades brasileiras exigem avaliação própria de requisitos operacionais, capacidade de transporte e transferência de combustível, autonomia, custos de ciclo de vida e integração com os meios existentes, além de construção no Brasil. Ainda assim, as informações obtidas por meio da cooperação com Portugal podem contribuir para uma análise mais fundamentada de alternativas disponíveis no mercado internacional.
A perspectiva ganha outra dimensão com o Acordo sobre Cooperação em Indústria de Defesa entre Brasil e Türkiye, assinado em 2022 e aprovado pelo Congresso Nacional em setembro de 2025. O instrumento estabelece uma base para ampliar a cooperação técnico-industrial entre os dois países, criando condições para examinar oportunidades que envolvam desenvolvimento de capacidades, participação industrial e transferência de conhecimento.
A combinação dos dois mecanismos, com o intercâmbio de informações navais entre Brasil e Portugal e o acordo de cooperação em defesa entre Brasília e Ancara, abre uma janela interessante para estudar possíveis caminhos para a renovação da capacidade logística naval brasileira. A experiência portuguesa pode servir tanto para observar o desempenho da indústria turca quanto para compreender como um parceiro europeu estruturou a contratação de uma nova classe de navios de apoio.
Para o Brasil, o desafio será transformar essas referências em uma avaliação alinhada às suas próprias necessidades, considerando a participação da indústria nacional, a sustentação ao longo da vida útil e a autonomia operacional. Com a futura substituição do Almirante Gastão Motta no horizonte do planejamento naval, acompanhar um programa em execução na Türkiye por meio de um parceiro que já mantém relação institucional com a Marinha brasileira pode representar uma oportunidade concreta de ampliar o conhecimento disponível antes de uma eventual decisão.
por Angelo Nicolaci
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