segunda-feira, 6 de abril de 2026

Editorial - "Entre dissuasão, escalada e multipolaridade: o risco calculado de um mundo em transição"

A ideia de que a guerra pode ser utilizada como instrumento para evitar um conflito maior sempre ocupou um espaço ambíguo no pensamento estratégico. Ela não é apenas uma construção política ou retórica, está profundamente enraizada em correntes clássicas das relações internacionais, que enxergam o sistema internacional como inerentemente competitivo, instável e, em última instância, regido pela capacidade de coerção dos Estados.

Essa visão remonta a pensadores como Thomas Hobbes, que ao descrever o estado de natureza como uma condição de permanente insegurança, estabeleceu as bases para compreender a guerra como consequência direta da ausência de uma autoridade superior capaz de regular os conflitos. Séculos depois, Carl von Clausewitz consolidaria essa leitura ao afirmar que a guerra é a continuação da política por outros meios, não um desvio, mas uma extensão racional da disputa entre Estados. Mas o mundo que sustentou essas teorias já não é o mesmo.

Durante a Guerra Fria, a lógica da dissuasão, especialmente a nuclear, operava dentro de um equilíbrio relativamente previsível. Como analisado por Thomas Schelling, a força não precisava necessariamente ser utilizada; bastava ser crível. A ameaça, quando bem calibrada, era suficiente para moldar o comportamento do adversário. Dois polos dominantes, canais de comunicação estabelecidos e uma compreensão mútua dos custos da escalada criavam um ambiente onde o conflito direto era evitado não por ausência de tensão, mas por excesso de risco. Era um sistema perigoso, mas compreensível.

Hoje, o cenário é outro, o sistema internacional caminha para uma configuração multipolar, onde diferentes centros de poder coexistem com interesses divergentes, percepções de ameaça distintas e níveis variados de tolerância ao risco. Nesse ambiente, a aplicação automática das teorias clássicas de dissuasão se torna cada vez mais problemática. É exatamente nesse contexto que se inserem três teatros fundamentais: o Oriente Médio, o Leste Europeu e o Indo-Pacífico.

No caso do Irã, o debate gira em torno de uma questão central: até que ponto a contenção, inclusive a militar, pode impedir uma reconfiguração regional considerada indesejável por potências ocidentais e aliados locais. A preocupação com o avanço do programa nuclear iraniano não é abstrata. Ela está diretamente ligada à possibilidade de alteração do equilíbrio de poder numa região historicamente volátil.

No entanto, a hipótese de uma ação militar preventiva carrega consigo um paradoxo estratégico. Ao mesmo tempo em que busca limitar capacidades futuras, ela pode acelerar exatamente o processo que pretende evitar. Como advertia Kenneth Waltz, sistemas internacionais tendem ao equilíbrio não pela eliminação de ameaças, mas pela adaptação a elas. Pressões externas intensas podem paradoxalmente fortalecer a coesão interna de um Estado e legitimar políticas mais assertivas.

E esse dilema não é exclusivo do Oriente Médio. No Leste Europeu, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia expõe uma outra dimensão do problema: a coexistência entre guerra convencional e dissuasão nuclear. Aqui, a lógica de John Mearsheimer sobre o realismo ofensivo se torna visível, onde grandes potências buscam maximizar sua segurança, mesmo que isso gere insegurança para outros.

A presença de arsenais nucleares limita a escalada direta entre grandes potências, mas não impede conflitos prolongados, destrutivos e de alto custo humano e material através de atores periféricos. A guerra não foi evitada. Ela foi transformada.

Já no Indo-Pacífico, a relação entre China e Taiwan representa talvez o exemplo mais sensível de dissuasão contemporânea. Trata-se de um cenário onde o custo de não agir pode ser percebido como perda estratégica irreversível, enquanto o custo de agir pode desencadear um conflito de escala global.

É o dilema da credibilidade, já explorado por Hans Morgenthau, para quem o poder e a percepção de poder são elementos centrais na política internacional. Nenhum dos lados pode recuar facilmente sem comprometer sua posição estratégica. O problema é que esse limite não é fixo, ele se desloca conforme percepções, capacidades e decisões políticas.

Ao analisar esses três cenários em conjunto, emerge uma característica comum: a erosão dos mecanismos tradicionais de previsibilidade. A dissuasão continua existindo, mas dentro de um ambiente muito mais fragmentado, onde atores estatais e não estatais interagem, tecnologias reduzem barreiras e decisões táticas podem gerar consequências estratégicas.

Nesse contexto, a ideia de uma “guerra necessária” para evitar uma guerra maior precisa ser reavaliada com rigor. Ela pressupõe controle. Pressupõe capacidade de calibrar intensidade, duração e efeitos. Pressupõe, sobretudo, que os atores envolvidos compartilham uma compreensão mínima dos limites aceitáveis. Mas o cenário atual oferece poucos indícios de que essas condições estejam plenamente presentes.

Isso não significa que o uso da força deixou de ser uma ferramenta legítima. Como lembrava Sun Tzu, a suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar, uma ideia que, paradoxalmente, reforça a centralidade da dissuasão, mas também evidencia seus limites quando o confronto se torna inevitável.

O mundo não está à beira de um único grande conflito, ele está inserido em múltiplas tensões simultâneas, interconectadas, onde decisões em um teatro podem influenciar diretamente outros. A fragmentação do sistema internacional não elimina o risco de uma guerra de grandes proporções, ao contrário, pode torná-lo mais difuso e mais difícil de antecipar.

No fim, a pergunta central permanece, não é apenas se uma guerra pode evitar outra, é se em um mundo cada vez mais complexo, ainda existe capacidade real de controlar as consequências de uma guerra iniciada com esse propósito.

Porque, se essa capacidade estiver se perdendo, então o maior risco não está na guerra em si, está na crença de que ela ainda pode ser plenamente controlada.


Por Angelo Nicolaci


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