A eventual retomada do programa VBCOAP 155 mm SR deixou de ser apenas uma discussão sobre a aquisição de um novo obuseiro autopropulsado para o Exército Brasileiro. O que está em jogo agora é uma oportunidade estratégica de modernizar a artilharia da Força Terrestre, fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID) e contribuir para a recuperação de uma das mais importantes empresas do setor de defesa nacional: a Avibras.
As informações publicadas pelo jornalista Marcelo Godoy apontam para a construção de uma solução que envolve a Elbit Systems, a AEL Sistemas e a Avibras, com produção e integração no Brasil, além da possibilidade de incluir o sistema de foguetes PULS em um pacote mais amplo de cooperação industrial e tecnológica.
Para quem acompanhou de perto o processo de seleção do VBCOAP 155 mm SR, é importante deixar um ponto claro: o ATMOS não foi escolhido por razões políticas. O sistema foi selecionado após uma concorrência internacional conduzida pelo próprio Exército Brasileiro, que definiu requisitos operacionais específicos para a realidade nacional.
Dentro desses requisitos, o ATMOS apresentou o melhor equilíbrio entre mobilidade estratégica, capacidade de deslocamento em longas distâncias, rapidez de entrada e saída de posição, simplicidade logística, interoperabilidade, poder de fogo e custo-benefício operacional.
Essa distinção é fundamental. Não se trata de afirmar que o ATMOS é o melhor obuseiro autopropulsado do mundo em qualquer cenário, mas sim que foi a solução considerada mais adequada para atender às necessidades operacionais do Exército Brasileiro. Essa foi a conclusão alcançada ao final de um criterioso processo de avaliação técnica conduzido pela própria Força Terrestre.
Uma necessidade operacional real
O programa de aquisição da Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas integra o Processo de Transformação do Exército e busca substituir sistemas concebidos há décadas por uma capacidade compatível com os desafios do campo de batalha contemporâneo.
A guerra na Ucrânia evidenciou aquilo que muitos especialistas já defendiam há anos: mesmo diante da proliferação de drones, sensores e sistemas de precisão, a artilharia continua sendo um dos principais protagonistas das operações terrestres. Alcance, mobilidade, rapidez de resposta, precisão e capacidade de sobrevivência permanecem fatores decisivos para o sucesso das operações.
No caso brasileiro, as dimensões continentais do território nacional tornam a mobilidade estratégica um requisito ainda mais importante. A capacidade de deslocar rapidamente sistemas de artilharia por milhares de quilômetros utilizando a infraestrutura rodoviária disponível representa uma vantagem operacional significativa para uma força terrestre que precisa estar preparada para atuar em qualquer região do país.
Avibras: muito mais do que um offset
O aspecto mais interessante da proposta atualmente em discussão talvez seja justamente aquele que recebeu menos atenção até o momento: a participação da Avibras.
Não se trata apenas de um mecanismo tradicional de compensação industrial. A inserção da empresa no programa representa uma oportunidade concreta de preservar competências estratégicas acumuladas ao longo de mais de seis décadas em áreas como integração de sistemas, engenharia de foguetes, mísseis, eletrônica embarcada e sistemas complexos de defesa.
A Avibras é responsável pelo desenvolvimento do Sistema ASTROS, um dos principais produtos da indústria brasileira de defesa e um dos sistemas lançadores múltiplos de foguetes de maior prestígio no mercado internacional. Presente em diferentes forças armadas e continuamente modernizado, o ASTROS tornou-se um símbolo da capacidade tecnológica nacional e um dos maiores casos de sucesso da Base Industrial de Defesa.
Diante do momento delicado que passa a empresa, sua participação em um programa estratégico dessa dimensão pode contribuir para preservar empregos altamente qualificados, manter equipes de engenharia, proteger conhecimentos acumulados ao longo de décadas e assegurar que competências críticas permaneçam no Brasil.
Perder esse patrimônio tecnológico significaria ter que reconstruir do zero, capacidades que levaram décadas para serem desenvolvidas.
O PULS pode impulsionar a próxima evolução do ASTROS
Outro aspecto de enorme relevância é a possibilidade de incorporar o sistema de foguetes PULS ao pacote de cooperação industrial e tecnológica.
À primeira vista, a proposta pode parecer apenas uma compensação comercial. Entretanto, seu potencial estratégico é muito maior.
Os conflitos modernos demonstram que os sistemas lançadores múltiplos de foguetes evoluíram significativamente nos últimos anos, incorporando munições guiadas, diferentes alcances, maior precisão, novas arquiteturas eletrônicas e a capacidade de empregar uma ampla família de armamentos a partir de uma única plataforma.
Nesse contexto, uma eventual cooperação envolvendo o PULS pode representar uma oportunidade única para acelerar a evolução da família ASTROS.
Não se trata de substituir um sistema pelo outro. Pelo contrário. O ASTROS permanece como um dos principais ativos tecnológicos da indústria brasileira de defesa. Porém, a absorção de tecnologias, conhecimentos e soluções desenvolvidas para o PULS poderá contribuir para a evolução da plataforma nacional, agregando capacidades que hoje ainda não fazem parte do sistema brasileiro.
Caso essa cooperação seja estruturada com efetiva transferência de tecnologia e participação da engenharia nacional, a Avibras poderá incorporar novos conhecimentos em áreas como munições guiadas, integração de sistemas, arquitetura eletrônica, comando e controle e soluções de longo alcance, criando as condições para desenvolver uma nova geração de sistemas de artilharia de foguetes.
Essa evolução não apenas fortaleceria a capacidade operacional do Exército Brasileiro, como também poderia resultar em novos produtos nacionais altamente competitivos em um mercado internacional que vive um momento de forte expansão. A demanda global por sistemas de foguetes de alta precisão nunca foi tão elevada, e poucos países possuem a experiência acumulada que a Avibras construiu ao longo das últimas décadas.
Transformar essa oportunidade em desenvolvimento tecnológico nacional significa investir não apenas na recuperação de uma empresa estratégica, mas na manutenção da capacidade brasileira de competir internacionalmente em um dos segmentos mais sofisticados da indústria de defesa.
Uma decisão sobre o futuro da Defesa Nacional
A discussão, portanto, não deveria se concentrar apenas na origem do equipamento ou nas circunstâncias políticas do momento.
O verdadeiro debate é sobre a capacidade do Brasil de conduzir seus programas estratégicos com visão de longo prazo. O programa VBCOAP 155 mm SR reúne elementos raros: moderniza uma capacidade essencial do Exército Brasileiro, fortalece a Base Industrial de Defesa, amplia a participação da indústria nacional, contribui para a recuperação de uma empresa estratégica como a Avibras e abre perspectivas para o desenvolvimento de novas tecnologias e produtos capazes de projetar a indústria brasileira no mercado internacional.
Se estruturada da forma como vem sendo discutida, a parceria entre AEL Sistemas, Elbit Systems e Avibras, aliada às oportunidades tecnológicas representadas pelo PULS, pode ir muito além da entrega de um novo obuseiro. Ela pode representar um investimento na capacidade nacional de desenvolver, integrar e exportar sistemas de defesa de alta tecnologia nas próximas décadas.
Entretanto, essa oportunidade também evidencia um problema recorrente da Defesa Nacional: programas estratégicos não podem permanecer sujeitos às oscilações do ambiente político ou às mudanças de orientação de cada governo. A defesa de um país deve ser tratada como uma política de Estado, construída sobre planejamento, continuidade e objetivos nacionais permanentes.
Projetos dessa natureza demandam anos de estudos, avaliações técnicas, investimentos e desenvolvimento industrial. Interrompê-los ou rediscuti-los continuamente por razões alheias aos requisitos operacionais compromete a previsibilidade das Forças Armadas, enfraquece a Base Industrial de Defesa e transmite insegurança aos parceiros estratégicos e aos investidores.
A soberania de uma nação não pode ser condicionada por disputas ideológicas ou posições político-partidárias. Ela deve estar fundamentada no interesse nacional, na preservação das capacidades estratégicas e no fortalecimento da autonomia tecnológica brasileira. "Governos são transitórios. O Estado brasileiro é permanente."
As necessidades operacionais do Exército Brasileiro continuarão existindo independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto. Da mesma forma, a necessidade de preservar empresas estratégicas, manter competências industriais críticas e garantir a capacidade nacional de desenvolver sistemas de defesa permanecerá como um imperativo para qualquer projeto sério de país.
Se o Brasil pretende consolidar uma Base Industrial de Defesa robusta e Forças Armadas compatíveis com sua dimensão geopolítica, será preciso abandonar a lógica das decisões de curto prazo e construir uma política de defesa baseada na continuidade, na previsibilidade e no interesse permanente da Nação.
A retomada do programa VBCOAP 155 mm SR pode representar exatamente isso: não apenas a aquisição de um novo sistema de artilharia, mas a demonstração de que o Brasil é capaz de tratar sua Defesa como aquilo que ela verdadeiramente é: uma política de Estado.
Por Angelo Nicolaci
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