A Avibras pode estar prestes a iniciar uma nova fase de sua história. A empresa informou nesta sexta-feira (21) que foi comunicada pelo FIP Brasil Crédito sobre uma operação submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) que prevê a venda da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco, para a Globe Investimentos S.A., empresa do Grupo J&F.
A empresa ainda não confirmou a conclusão da operação. Segundo o comunicado, a transação depende da aprovação do CADE e do cumprimento dos demais procedimentos necessários para o fechamento.
A informação, no entanto, confirma que existe uma operação formal em andamento para transferir o controle da empresa para a J&F, grupo controlado pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Porém, o valor da transação não foi divulgado.
A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda. (“Avibras Aeroco”) foi informada pelo Brasil Crédito Gestão Fundo de Investimentos em Participações Multiestratégia (“Fundo Brasil Crédito”) que uma transação foi submetida à análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Caso seja aprovada e desde que sejam concluídos os trâmites necessários para o fechamento, a transação resultará na venda da totalidade das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco, para a Globe Investimentos S.A. (Globe), empresa do Grupo J&F.
A companhia manterá o mercado informado sobre eventuais desdobramentos da operação.
Jacareí, 21 de agosto de 2026.
A Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial Ltda.
Uma mudança que vai além da estrutura societária
A possível aquisição ocorre poucos meses depois da Avibras retomar suas atividades industriais, após atravessar uma das crises mais graves de sua história.
A empresa entrou em recuperação judicial em março de 2022, com uma dívida estimada em cerca de R$ 600 milhões. A crise atingiu diretamente seus trabalhadores e a capacidade produtiva da companhia. Em setembro daquele ano, teve início uma greve que se prolongou por 1.281 dias e terminou somente neste ano, após um acordo envolvendo aproximadamente R$ 230 milhões em dívidas trabalhistas, com a produção foi retomada em maio de 2026.
É nesse ponto que a possível entrada da J&F ganha importância. O grupo não estaria assumindo uma empresa simplesmente em processo de recuperação, mas uma empresa que acabou de reconstruir sua capacidade industrial e começa novamente a operar.
O desafio de reconstruir uma empresa estratégica
A Avibras ocupa uma posição particular dentro da Base Industrial de Defesa brasileira. Ao longo de décadas, acumulou competências em engenharia, foguetes, mísseis, sistemas de artilharia e integração de sistemas, tornando-se uma das empresas nacionais com maior conhecimento acumulado no desenvolvimento de sistemas de defesa de alta complexidade.
O principal patrimônio da companhia, nesse sentido, não está apenas em suas instalações ou equipamentos. Está também na engenharia, nos profissionais especializados, nos processos industriais e no conhecimento tecnológico acumulado ao longo de décadas. É justamente esse patrimônio que precisa ser preservado durante o processo de recuperação.
A entrada de um grupo empresarial de grande capacidade financeira pode criar condições para isso, mas dinheiro, isoladamente, não resolve o problema. Uma empresa de defesa precisa de contratos, previsibilidade de demanda, investimentos em pesquisa e desenvolvimento e uma estratégia industrial de longo prazo.
No caso da Avibras, essa equação é ainda mais importante porque seus principais produtos dependem de ciclos de desenvolvimento e aquisição que não podem ser tratados como negócios convencionais de curto prazo.
O papel do Estado será determinante
A possível mudança de controle também ocorre no momento de aproximação entre a empresa e o governo brasileiro.
Em julho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a unidade da Avibras Aeroco em Jacareí, já durante o processo de retomada industrial. A presença do presidente demonstrou o peso político e estratégico atribuído à recuperação da companhia.
Mas a experiência recente da própria Avibras mostra que apoio institucional precisa ser acompanhado por previsibilidade e execução. A empresa passou anos enfrentando dificuldades financeiras enquanto programas importantes para sua capacidade produtiva dependiam de decisões orçamentárias e de contratos capazes de sustentar a continuidade industrial.
Essa é uma das questões que estarão no centro da nova fase: a capacidade de transformar a recuperação societária e financeira em uma recuperação industrial sustentável. Para isso, será necessário combinar capital privado, encomendas governamentais, continuidade dos programas estratégicos e investimentos em novas tecnologias.
Uma nova oportunidade, mas sem garantias
A operação ainda precisa cumprir as etapas regulatórias e não significa neste momento que a J&F já tenha assumido a Avibras. Mas, sendo concluída esta fase regulatória, representará uma mudança significativa na estrutura de controle da empresa.
Para a Avibras, pode ser uma oportunidade de deixar definitivamente para trás o ciclo de recuperação judicial, paralisação e incerteza financeira, enquanto para o setor de defesa brasileiro o que importa será o resultado dessa mudança.
A entrada de um novo controlador só terá significado estratégico se for acompanhada pela recuperação efetiva da capacidade produtiva, pela manutenção do conhecimento tecnológico e pela retomada de projetos capazes de garantir à empresa uma posição sustentável no mercado de defesa nacional e internacional.
A Avibras chega a esse possível novo capítulo depois de recuperar sua produção, mas ainda precisa recuperar plenamente sua capacidade de desenvolvimento e crescimento. O desafio agora é transformar uma empresa que sobreviveu à crise em uma empresa capaz de voltar a crescer.
E esse processo dependerá tanto da estratégia da J&F quanto da capacidade do Estado brasileiro de oferecer à sua Base Industrial de Defesa aquilo que historicamente tem sido um dos seus maiores problemas: previsibilidade para investir, produzir e desenvolver tecnologia no longo prazo.
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