O governo britânico confirmou nesta sexta-feira que as negociações para ingressar no SAFE, o fundo de 150 bilhões de euros criado pela União Europeia para acelerar o rearme do continente, foram interrompidas. A decisão representa um revés imediato para a política externa do primeiro-ministro Keir Starmer, que havia prometido restaurar e aprofundar as relações com Bruxelas após anos de atritos pós-Brexit.
O SAFE foi concebido para impulsionar a produção de equipamentos militares, reforçar a capacidade industrial europeia e reduzir dependências externas em áreas estratégicas. Desde maio, quando Londres e UE anunciaram uma “nova era” na cooperação, a entrada britânica no programa era tratada como peça-chave na reconstrução de confiança política e operacional.
Dois dias antes do prazo final, porém, o governo britânico informou que não havia condições para fechar um acordo. Segundo Nick Thomas-Symonds, ministro para as Relações com a União Europeia, as negociações avançaram de forma construtiva, mas Londres não abrira mão de sua linha vermelha: só aderiria a um arranjo que oferecesse “boa relação custo-benefício” e fosse “do interesse nacional”.
A principal divergência envolveu contribuições financeiras e regras de participação industrial. O SAFE estabelece que contratos não podem ter mais de 35% de componentes vindos de fora da UE ou de países parceiros, limite considerado excessivamente baixo pela indústria britânica, que via no fundo uma oportunidade estratégica para ampliar presença em supply chains críticas. A ADS, associação do setor aeroespacial e de defesa, classificou o desfecho como “um revés frustrante” para empresas britânicas em um momento de forte demanda por capacidades militares na Europa.
Apesar do impasse, Londres continua apta a participar do SAFE como país terceiro, nos limites de 35% previstos pelo regulamento. A Comissão Europeia, que evitou comentar a decisão política britânica, lembrou que o programa é “aberto” e que portas permanecem disponíveis para futuras negociações. Internamente, negociadores discutiam uma participação limitada a 50%, mas o Reino Unido resistiu às exigências de contribuir com bilhões de euros para ter acesso pleno ao fundo.
Para Starmer, o episódio chega em momento sensível. O premier buscava se diferenciar das relações tumultuadas que marcaram o período conservador, ao mesmo tempo em que assumia papel ativo na coordenação do apoio europeu à Ucrânia. A interrupção das negociações não rompe essa aproximação, mas evidencia que a reconciliação pós-Brexit ainda passa por disputas estruturais sobre soberania industrial, investimentos e prioridades estratégicas.
Enquanto isso, o setor financeiro reagiu com calma: ações de gigantes como BAE Systems, Rolls-Royce e Babcock não registraram volatilidade significativa. O desfecho, porém, reforça a percepção de que a reconstrução do eixo Londres-Bruxelas na área de defesa seguirá um caminho gradual — e mais complexo do que o governo britânico esperava ao anunciar sua “nova era” europeia seis meses atrás.
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com Reuters

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