A aquisição de três aeronaves KC-390 Millennium pela Grécia, por meio de um acordo governamental com Portugal, abre uma discussão que vai além do valor anunciado de aproximadamente €590 milhões. A operação coloca em evidência uma dimensão importante da indústria de defesa contemporânea: a diferença entre adquirir uma plataforma militar e incorporá-la a uma arquitetura de interoperabilidade, proteção eletrônica e sustentação operacional compatível com as exigências de uma aliança militar.
Embora o KC-390 brasileiro e a configuração desenvolvida com participação portuguesa compartilhem a mesma plataforma, a versão preparada para atender aos requisitos da OTAN incorpora modificações relevantes em seus sistemas de comunicação, navegação, identificação e consciência situacional. São recursos que ampliam a capacidade de operar em ambientes multinacionais, nos quais a troca segura de informações, a identificação de aeronaves e a coordenação com outras forças são determinantes.
A diferença, portanto, não está em uma nova aeronave ou uma alteração radical de seu projeto estrutural, mas na integração de sistemas e procedimentos que permitem explorar a plataforma em um ambiente operacional mais exigente e conectado.
Da configuração brasileira à interoperabilidade OTAN
O KC-390 Millennium foi concebido como uma aeronave multimissão, capaz de executar transporte de tropas e cargas, lançamento de paraquedistas, evacuação aeromédica, busca e salvamento, reabastecimento em voo e missões humanitárias. Sua arquitetura já incorpora aviônicos modernos, sistemas digitais de controle de voo e recursos de gerenciamento de missão.
A configuração OTAN desenvolvida com participação portuguesa acrescenta uma camada de integração voltada às necessidades de operação com forças aliadas. O processo envolveu a Força Aérea Portuguesa, a Embraer, a OGMA e empresas especializadas, incluindo Northrop Grumman e Rockwell Collins, sob coordenação da fabricante brasileira.
Entre as modificações identificadas na configuração portuguesa estão sistemas seguros de comunicação de voz e dados, recursos de navegação e consciência situacional adaptados ao ambiente operacional aliado. Também se destacam a integração de sistemas de identificação amigo-inimigo (IFF), incluindo os modos 4 e 5, e o enlace tático de dados Link 16, fundamentais para a troca de informações entre plataformas e centros de comando compatíveis.
O Link 16 permite compartilhar informações táticas em tempo quase real com outras unidades participantes da rede, contribuindo para a coordenação das operações e a construção de uma imagem operacional comum. Já o IFF Mode 5 oferece recursos modernos de identificação criptografada, reduzindo riscos de identificação equivocada em ambientes de elevada densidade operacional.
A integração desses recursos exige mais do que a instalação de equipamentos. Envolve compatibilidade entre sistemas, testes, validação de interfaces, procedimentos operacionais e certificação aeronáutica. Em outubro de 2024, a Autoridade Aeronáutica Nacional portuguesa formalizou a certificação das modificações realizadas na configuração base do KC-390, reconhecendo sua adequação aos requisitos das alianças internacionais das quais Portugal participa.
Esse processo representa um diferencial importante para países que pretendem incorporar a aeronave sem precisar desenvolver individualmente uma solução de integração com a estrutura de comando e controle da OTAN.
Guerra eletrônica e autoproteção: uma camada adicional de sobrevivência
Outro componente relevante da contratação grega é a aquisição de uma suíte de guerra eletrônica. É importante distinguir esse conjunto da configuração de interoperabilidade OTAN: embora complementares, são capacidades diferentes.
Enquanto os sistemas de comunicação, identificação e enlace de dados permitem a integração da aeronave com forças aliadas, os recursos de guerra eletrônica e autoproteção buscam aumentar sua capacidade de sobrevivência diante de ameaças.
Uma suíte dessa natureza pode reunir receptores de alerta radar, sensores de alerta laser, sistemas de alerta de aproximação de mísseis e dispensadores de contramedidas, como chaff e flare. Dependendo da configuração contratada, também pode incluir sistemas de contramedidas infravermelhas direcionais (DIRCM), destinados a interferir no funcionamento de determinados mísseis guiados por infravermelho.
Esses recursos são particularmente relevantes para uma aeronave de transporte militar. Diferentemente de um caça, cuja concepção prioriza velocidade, manobrabilidade e combate aéreo, o KC-390 frequentemente precisa transportar pessoal, equipamentos e suprimentos até regiões onde a ameaça pode ser significativa.
A capacidade de detectar emissões hostis, identificar ameaças e reagir por meio de contramedidas amplia as possibilidades de emprego em cenários operacionais complexos. Para a Grécia, integrante da OTAN e situada em uma região de elevada sensibilidade estratégica, essa camada de proteção possui relevância operacional.
Entretanto, não se deve presumir que todos os equipamentos disponíveis na suíte de autoproteção apresentada pela Embraer estejam necessariamente incluídos na configuração grega. A documentação pública da contratação confirma a aquisição de uma EW Suite, mas não apresenta a lista completa de componentes, fornecedores, quantidades e níveis de integração.
O que representam os €57 milhões adicionais?
A Resolução do Conselho de Ministros português nº 207/2026, publicada em 22 de outubro, apresenta a composição financeira da operação e permite compreender melhor a diferença entre o fornecimento das aeronaves e os serviços necessários à sua incorporação pela Força Aérea Helênica.
Dos €589,98 milhões autorizados, €532,89 milhões correspondem à aquisição das três aeronaves e a um pacote de apoio logístico para entrada em serviço. Os outros €57,08 milhões abrangem equipamentos de guerra eletrônica, formação, apoio logístico, manutenção e sustentação de equipes de apoio técnico na Grécia, gestão do programa e atividades relacionadas, incluindo investimentos na atualização das capacidades das aeronaves.
A parcela adicional representa aproximadamente 10,7% do montante destinado às aeronaves e ao pacote logístico inicial. Dividindo os valores totais por três, chega-se a uma média de aproximadamente €196,66 milhões por aeronave, considerando todo o conjunto contratado. É importante observar que esse cálculo representa uma média do pacote, e não o preço unitário de fábrica de cada KC-390.
Os €57 milhões não podem ser interpretados simplesmente como o custo de conversão para o padrão OTAN. A configuração de interoperabilidade já foi desenvolvida e certificada no âmbito do programa português. O valor adicional contempla um conjunto mais amplo de capacidades, serviços e compromissos de sustentação, cuja distribuição individual ainda não foi divulgada.
A formação inicial de pilotos e mecânicos gregos, prevista para ocorrer na Base Aérea de Beja, em Portugal, integra essa estrutura. Também estão previstas equipes de assistência técnica na Grécia, apoio à transição operacional e acompanhamento da entrada em serviço.
Na prática, Atenas não está adquirindo apenas três aeronaves. Está contratando uma estrutura que deverá permitir sua incorporação progressiva à Força Aérea Helênica, com treinamento, apoio técnico e equipamentos necessários à operação.
Os €33 milhões de retorno português: negócio ou política industrial?
Outro aspecto que merece atenção é o retorno financeiro previsto para Portugal. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Defesa português, a operação deverá gerar aproximadamente €33 milhões para o Estado, equivalentes a cerca de €11 milhões por aeronave comercializada.
Esse retorno está relacionado à participação portuguesa no desenvolvimento e na produção do KC-390, além do trabalho realizado na adaptação e certificação da aeronave para atender aos requisitos da OTAN, além fo pacote de suporte pós-venda.
Os recursos deverão ser direcionados à indústria nacional portuguesa, reforçando a capacidade de reinvestimento no setor aeronáutico e a continuidade do programa.
A iniciativa também evidencia a estratégia adotada por Lisboa em 2025, quando estabeleceu, em acordo com a Embraer, a possibilidade da aquisição de até dez aeronaves adicionais destinadas a futuras vendas a países europeus e integrantes da OTAN.
Portugal passou, assim, a utilizar sua participação industrial no programa como instrumento de cooperação governamental e expansão comercial. Esse modelo possui uma dimensão estratégica: ao participar do desenvolvimento, da produção e da certificação, o país não apenas absorve conhecimento e gera empregos, mas também conquista condições para participar de futuras oportunidades de exportação.
A compra direta da Embraer seria mais econômica?
A pergunta é inevitável. Se a aeronave é brasileira e a Embraer é sua fabricante, por que a Grécia não realizou simplesmente uma aquisição direta junto à empresa?
Em uma contratação convencional, a compra direta poderia representar um caminho comercial mais simples. Entretanto, seria necessário assegurar, em paralelo, a configuração de interoperabilidade, a certificação, os equipamentos de guerra eletrônica, a formação de pessoal, a assistência técnica e a estrutura de sustentação.
A participação portuguesa oferece à Grécia um mecanismo de contratação Governo a Governo, com uma configuração já desenvolvida, testada e certificada pela autoridade aeronáutica portuguesa. Também permite aproveitar a experiência acumulada pela Força Aérea Portuguesa e a estrutura de treinamento estabelecida em Beja, na própria Europa.
Isso não significa que o modelo seja necessariamente mais barato do que uma contratação direta. Para estabelecer essa conclusão, seria necessário comparar propostas comerciais equivalentes, considerando os mesmos equipamentos, serviços, cronogramas, garantias e condições de suporte.
A documentação disponível não apresenta uma proposta alternativa da Embraer diretamente à Grécia que permita estabelecer essa comparação. O que se pode afirmar é que Portugal conseguiu transformar sua participação no programa em vantagem comercial e diplomática, agregando serviços e competências nacionais à exportação de uma plataforma brasileira.
O que o Brasil pode aprender com o modelo português?
A operação grega oferece uma reflexão importante para a Base Industrial de Defesa brasileira. O KC-390 é um produto desenvolvido pela Embraer, mas seu processo de internacionalização demonstra que o sucesso de uma plataforma não depende exclusivamente de suas características técnicas ou de sua competitividade comercial.
A participação portuguesa mostra como a integração industrial, a certificação, a formação de pessoal e a construção de uma estrutura de apoio regional podem se transformar em instrumentos de influência e geração de negócios.
Para o Brasil, o desafio é garantir que a expansão internacional do KC-390 também fortaleça a capacidade industrial nacional, preserve o domínio sobre tecnologias estratégicas e amplie a participação brasileira nas cadeias globais de defesa.
O caso grego evidencia que uma aeronave pode se transformar em plataforma de cooperação entre Estados, gerando oportunidades que ultrapassam a venda do equipamento. Portugal compreendeu esse mecanismo e conseguiu posicionar sua indústria como parte da solução oferecida ao cliente.
O KC-390 continua sendo um produto brasileiro. Entretanto, a experiência portuguesa demonstra que o valor estratégico de um programa de defesa também está na capacidade de construir parceiros que contribuam para sua expansão internacional.
Mais do que uma venda de três aeronaves, o acordo com a Grécia revela uma dimensão da competição industrial que merece atenção: quem participa do desenvolvimento, da certificação, da integração e da sustentação de um sistema de defesa também pode conquistar uma posição relevante nos negócios que surgem a partir dele.
Por Angelo Nicolaci
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