domingo, 20 de setembro de 2026

Venda de 48 F-35 à Arábia Saudita avança sob alerta da inteligência dos EUA

 

O governo dos Estados Unidos aprovou a possível venda de 48 caças F-35A Lightning II à Arábia Saudita em um pacote estimado em US$ 24,3 bilhões, mas a operação chega à etapa de análise do Congresso acompanhada por preocupações da comunidade de inteligência americana sobre a proteção da tecnologia da aeronave diante da crescente cooperação entre Riad e Pequim. A autorização do Departamento de Estado não representa ainda a conclusão da venda nem a entrega das aeronaves.

Segundo informações publicadas pelo The New York Times, autoridades de inteligência dos EUA avaliam que a China poderia tentar obter informações sensíveis relacionadas ao F-35 por meio de espionagem dentro da Arábia Saudita ou do relacionamento militar, de segurança e tecnológico mantido pelo reino com Pequim. A preocupação consta de avaliações internas que circularam entre órgãos do governo americano e gabinetes do Congresso.

Uma dessas avaliações, produzida pela Defense Intelligence Agency (DIA) meses antes, teria examinado especificamente o acesso de militares chineses a instalações sauditas e a presença de tecnologia chinesa na infraestrutura de telecomunicações do país. O documento também questionaria a capacidade de Estados Unidos e Arábia Saudita de manter instalações associadas ao F-35 suficientemente protegidas contra acesso não autorizado.

Entre as medidas consideradas está a restrição de acesso às áreas que concentrem tecnologias sensíveis do F-35 a militares e contratados americanos e sauditas autorizados. A avaliação também questiona se Riad estaria disposta a estabelecer limitações mais amplas para contatos entre seu pessoal militar e de inteligência e seus equivalentes chineses.

Outro ponto envolve a infraestrutura digital. De acordo com o relato do New York Times, a avaliação examina a utilização de equipamentos das empresas chinesas Huawei e ZTE em redes de telecomunicações, sistemas de roteamento e instalações relacionadas à defesa. A questão é particularmente sensível porque o F-35 depende de uma arquitetura integrada de sensores, processamento, comunicações e suporte de dados, tornando a proteção das redes e das instalações parte relevante da segurança do sistema.

As preocupações americanas ocorrem em um contexto no qual a Arábia Saudita mantém uma relação militar histórica e extensa com Washington, mas também vem ampliando sua cooperação com a China. Riad já adquiriu sistemas militares chineses e mantém programas de cooperação relacionados a mísseis balísticos e infraestrutura tecnológica. Em 2022, parlamentares americanos haviam levantado preocupações sobre a assistência chinesa ao programa saudita de mísseis balísticos, enquanto documentos posteriores registraram a ampliação da cooperação tecnológica entre os dois países.

O componente chinês, portanto, não significa que Washington considere inevitável uma transferência de tecnologia do F-35 para Pequim. A preocupação identificada nas avaliações é preventiva: reduzir as possibilidades de que informações sobre sensores, sistemas de vigilância, arquitetura eletrônica ou outros elementos classificados possam ser obtidas por meio de acesso físico, infraestrutura digital ou atividades de inteligência.

A situação também remete às dificuldades enfrentadas pelo projeto de venda de F-35 aos Emirados Árabes Unidos. Durante o primeiro governo Trump, Washington aprovou em 2020 uma possível venda de 50 aeronaves ao país, mas o processo avançou em meio a preocupações americanas relacionadas à crescente presença tecnológica chinesa nos Emirados, incluindo equipamentos da Huawei. O acordo acabou não sendo concluído.

O caso saudita apresenta diferenças importantes. Riad é um dos principais clientes históricos da indústria de defesa americana e mantém uma estrutura militar amplamente integrada a equipamentos, treinamento e logística dos EUA. Ao mesmo tempo, a estratégia saudita de diversificação de fornecedores inclui a China, criando uma situação na qual Washington busca preservar sua relação militar com o reino sem necessariamente eliminar a autonomia de Riad em outras áreas de cooperação.

A possível transferência também possui uma dimensão regional. Israel é atualmente o único operador do F-35 no Oriente Médio, e a introdução da aeronave na Força Aérea Real Saudita exigirá que Washington considere sua política de preservação da Qualitative Military Edge, ou Superioridade Militar Qualitativa de Israel. A legislação americana estabelece que determinadas vendas de armas a países do Oriente Médio devem ser avaliadas quanto ao impacto sobre essa vantagem militar.

A própria notificação do Departamento de Estado afirma, entretanto, que a venda proposta não deverá alterar o equilíbrio militar regional. O pacote contempla 48 aeronaves, 49 motores F135, equipamentos associados, treinamento e apoio logístico, além de sistemas e serviços necessários à operação da frota.

A quantidade de aeronaves também merece atenção. Embora o anúncio político de Donald Trump em novembro de 2025 tenha sinalizado a intenção de vender o F-35 a Riad, o processo passou por diferentes etapas antes da atual autorização do Departamento de Estado. Em junho de 2026, o pacote de 48 aeronaves e um motor sobressalente havia sido encaminhado às comissões do Congresso para análise informal.

A aprovação de setembro representa, portanto, um avanço significativo, mas não encerra o processo. O Congresso ainda precisa concluir sua análise, enquanto as preocupações de segurança tecnológica poderão influenciar as condições associadas à eventual transferência. Para Washington, o desafio consiste em ampliar a capacidade militar de um parceiro estratégico no Golfo sem comprometer a proteção das tecnologias mais sensíveis do F-35 ou reduzir os mecanismos de controle sobre seu emprego e suporte.

Para a Arábia Saudita, a possível aquisição representa a entrada em uma categoria tecnológica até agora restrita, no Oriente Médio, a Israel. Para os Estados Unidos, o negócio combina objetivos de política externa, segurança regional e interesses da indústria de defesa com a necessidade de proteger uma das plataformas militares mais sensíveis do país. E, para a China, a crescente presença econômica, tecnológica e militar no reino cria um novo ambiente de competição indireta em torno de uma das principais tecnologias aeronáuticas americanas.


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