A relação entre Israel e Türkiye entrou em uma fase distinta daquela marcada predominantemente pelas divergências sobre a questão palestina. Avaliações de centros de pesquisa e setores do establishment de segurança israelense passaram a considerar a crescente presença turca na Síria como um fator estratégico próprio, especialmente diante da possibilidade de que a reconstrução das forças sírias ocorra com forte participação de Ancara. O resultado é uma relação de competição que combina pressão militar, disputa por influência e simultaneamente, mecanismos destinados a evitar um confronto direto.
O pesquisador Hay Eytan Cohen Yanarocak, especialista na Türkiye no Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv, identifica três momentos relevantes para compreender essa transformação: o enfraquecimento da influência tradicional do establishment militar turco sobre a política externa, o episódio do Mavi Marmara, que deteriorou profundamente as relações bilaterais, e a mudança provocada pelos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e pela posterior queda de Bashar al-Assad. Com a mudança de poder em Damasco, interesses turcos e israelenses passaram a se sobrepor diretamente dentro do território sírio.
Nesse processo, a questão palestina continua sendo um componente importante, mas deixou de explicar isoladamente a deterioração bilateral. A aproximação política de Ancara com o Hamas, a retórica do governo de Recep Tayyip Erdoğan contra Israel e a tentativa turca de participar da definição do futuro de Gaza ampliaram a competição para além do conflito israelo-palestino. A disputa passou a envolver também quem terá capacidade de influenciar a arquitetura política e de segurança que emergirá dos conflitos atuais.
A Síria, entretanto, tornou-se o principal ponto de contato entre as duas agendas estratégicas. A queda de Assad eliminou boa parte da estrutura por meio da qual o Irã projetava poder sobre A relação entre Türkiye e Israel atravessa uma fase de maior complexidade estratégica, impulsionada principalmente pelas mudanças produzidas na Síria após a queda do regime de Bashar al-Assad. A ampliação da influência turca sobre o novo cenário sírio passou a receber maior atenção em Israel, onde analistas e setores de segurança avaliam como essa presença poderá afetar os interesses de Tel Aviv e a liberdade de ação de suas forças na região.
O pesquisador Hay Eytan Cohen Yanarocak, especialista em assuntos turcos do Centro Moshe Dayan da Universidade de Tel Aviv, identifica diferentes momentos na deterioração das relações bilaterais. Entre eles estão o enfraquecimento da influência tradicional do establishment militar turco sobre a política externa, o episódio do Mavi Marmara e, posteriormente, a mudança provocada pelos acontecimentos de 7 de outubro de 2023 e pela queda de Assad. Com a transformação do cenário sírio, interesses turcos e israelenses passaram a se sobrepor de maneira mais direta.
A questão palestina continua sendo um componente relevante dessa relação. A aproximação política de Ancara com o Hamas e as críticas do governo de Recep Tayyip Erdoğan às operações israelenses ampliaram as divergências entre os dois países. Ao mesmo tempo, Türkiye busca participar das discussões sobre o futuro de Gaza e da reconstrução regional, enquanto Israel procura preservar sua capacidade de influenciar os arranjos de segurança que serão estabelecidos após os conflitos.
A Síria acrescentou, entretanto, uma dimensão diferente à relação. A queda de Assad reduziu a presença que o Irã mantinha por meio do antigo governo sírio e abriu espaço para uma nova distribuição de influência entre diferentes atores. Türkiye passou a exercer papel relevante na reorganização política e de segurança do país, enquanto Israel acompanha a evolução desse processo diante da possibilidade de uma presença militar turca mais estruturada em território sírio.
Essa evolução ganhou espaço no debate estratégico israelense em janeiro de 2025, quando o Comitê Nagel, criado para avaliar ameaças à segurança nacional e as necessidades de defesa de Israel, recomendou que o país se preparasse para a possibilidade de um confronto direto com Türkiye. O documento considerou especialmente o cenário de uma Síria fortemente alinhada a Ancara e capaz de adquirir novas capacidades militares com apoio turco.
A recomendação, contudo, não equivale a uma classificação formal de Türkiye como Estado inimigo. A própria discussão israelense diferencia a identificação de um possível adversário estratégico de uma designação jurídica. Essa distinção permanece relevante porque os dois países ainda mantêm canais de comunicação destinados a administrar pontos de atrito e reduzir o risco de incidentes militares.
A dimensão operacional tornou-se mais evidente em 2026. Segundo avaliações publicadas pelo Institute for National Security Studies (INSS), Israel atacou em agosto a área da base de Abu al-Duhur, na província de Idlib, diante de preocupações relacionadas à possibilidade de estabelecimento de presença militar turca no local. O episódio foi acompanhado por esforços diplomáticos e pela manutenção de mecanismos de desconflito entre os dois países, indicando que a competição não eliminou a necessidade de coordenação.
Para Israel, uma das questões centrais está relacionada ao impacto que uma eventual infraestrutura militar turca poderia produzir sobre sua liberdade de ação aérea na Síria. A instalação de sensores, sistemas de defesa aérea ou outras capacidades militares apoiadas por Ancara poderia alterar as condições operacionais existentes no território sírio. Trata-se, portanto, de uma questão diretamente relacionada ao planejamento militar israelense, independentemente das intenções atribuídas à Türkiye.
Do lado turco, a atuação na Síria responde a interesses próprios de segurança e política regional. Ancara busca influenciar a reorganização das instituições sírias, combater ameaças que considera relevantes para sua segurança nacional, preservar sua influência sobre áreas estratégicas e participar da reconstrução do país. A relação com Damasco também envolve interesses econômicos, políticos e de segurança que ultrapassam a relação bilateral com Israel.
A sobreposição desses interesses cria uma situação em que Türkiye e Israel passaram a observar com maior atenção as movimentações um do outro dentro da Síria. Isso não significa, porém, que um confronto direto seja inevitável ou sequer desejado. As duas partes possuem interesses relevantes na preservação de canais de comunicação, especialmente diante da presença de outros atores militares e políticos na região.
A existência de mecanismos de desconflito demonstra justamente essa tentativa de administrar a competição. Türkiye é membro da OTAN e possui uma das maiores forças militares da Aliança, enquanto Israel mantém elevada capacidade militar e uma política de preservação de sua liberdade operacional. Qualquer incidente envolvendo forças dos dois países teria potencial para produzir consequências que ultrapassariam o ambiente sírio.
O cenário atual, portanto, não deve ser interpretado simplesmente como uma transformação de Türkiye em adversário de Israel, mas como uma mudança na natureza da relação entre dois atores regionais cujos interesses passaram a se sobrepor em um espaço estratégico comum. Gaza continua sendo uma fonte importante de divergências políticas, mas a reorganização da Síria acrescentou uma dimensão territorial, militar e geopolítica mais concreta.
A evolução dessa relação dependerá principalmente da configuração que assumirá a nova estrutura de segurança síria, do grau de presença que Türkiye pretende manter no país e de como Israel definirá seus limites operacionais. Por enquanto, a dinâmica combina competição por influência, divergências políticas e mecanismos de contenção, mantendo aberta a possibilidade de diálogo mesmo diante do aumento das tensões.
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