A "I Exposição de Defesa Expedicionária" (EDEF 2026) realizada entre 22 e 24 de setembro no Centro de Instrução de Formosa (CIF), em Goiás, levou para o ambiente operacional da "Operação Formosa 2026" uma parcela significativa das capacidades desenvolvidas pela Base Industrial de Defesa (BID) brasileira. Mais de 15 empresas participaram da exposição, apresentando veículos, mísseis, sistemas não tripulados, radares, sensores, munições e soluções de comando, controle e defesa antidrone.
O diferencial da EDEF 2026 está justamente no ambiente em que ocorre. Em vez de concentrar indústria e público em uma exposição convencional, a iniciativa colocou os produtos diante de militares envolvidos em uma operação de grande porte, permitindo relacionar as soluções apresentadas aos requisitos efetivos de emprego. Essa aproximação envolve desde a identificação de necessidades operacionais até a avaliação de tecnologias em campo e o desenvolvimento de novos sistemas.
Entre os equipamentos apresentados esteve o Centauro II da IDV, plataforma do programa VBC Cav-MSR do Exército Brasileiro. A viatura 8x8 utiliza a torre HITFACT MkII, armada com canhão de 120 mm, reunindo mobilidade, proteção e poder de fogo em uma plataforma de elevada mobilidade tática. Embora operado pelo Exército Brasileiro, o veículo foi apresentado na EDEF pela própria IDV, responsável pelo programa industrial.
O Centauro II também aparece em outro debate dentro das Forças Armadas brasileiras. A plataforma está entre as consideradas como potencial substituta dos SK-105 Kürassier utilizados pelo Corpo de Fuzileiros Navais, embora não exista, até o momento, qualquer definição. A possibilidade é particularmente relevante no contexto de uma força expedicionária, na qual mobilidade, proteção e capacidade de fogo precisam ser combinadas em uma mesma plataforma.
No programa VBC Cav, conforme apurado pelo correspondente do Zona Militar no Brasil, Angelo Nicolaci, a produção do Centauro II deverá avançar para o Brasil após a conclusão do quinto lote. A transferência amplia a participação nacional no programa e está relacionada ao processo de nacionalização da fabricação da plataforma.
Outro produto da IDV exposto em Formosa foi o VBTP-MR Guarani, operado pelo Exército Brasileiro, desenvolvido e produzido no país pela empresa em sua unidade de Sete Lagoas, Minas Gerais. A presença simultânea do Guarani e do Centauro II permitiu observar duas plataformas de categorias distintas dentro da atual estrutura de veículos blindados do Exército e de sua cadeia industrial nacional.
Também no campo de comando, controle e comunicações, o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) demonstrou em Formosa as capacidades desenvolvidas no Projeto RDS DEFESA. A versão veicular V4 foi instalada em uma VBTP-MSR Guarani do 36º Batalhão de Infantaria Mecanizada e no Posto de Comando da Força Conjunta Componente, permitindo comunicação segura de voz, transmissão de dados de localização e rastreamento dos deslocamentos. O rádio foi integrado ao SPECTRA, sistema desenvolvido pelo Centro de Apoio a Sistemas Operativos (CASOP) da Marinha do Brasil, demonstrando na prática a interoperabilidade entre sistemas de comando, controle e comunicações das Forças Armadas. O equipamento também passou por testes operacionais conduzidos por militares do Centro de Avaliações do Exército (CAEx), dentro do processo de Teste e Avaliação, enquanto sua instalação, configuração e operação envolveram militares do Batalhão de Comando e Controle do Corpo de Fuzileiros Navais.
No segmento de armas anticarro, a SIATT, integrante do EDGE Group, apresentou o Sistema de Míssil Anticarro Expedicionário (SMACE). A solução emprega o Max 1.2 AC associado a sistemas não tripulados e a uma plataforma 4x4 leve de emprego expedicionário. A empresa está integrando o sistema a uma viatura GMC 4x4 dessa categoria, também adotada pelas forças norte-americanas.
A proposta do SMACE vai além da integração física do míssil à viatura. Sua arquitetura permite utilizar sistemas não tripulados para reconhecimento, detecção e aquisição de alvos, estabelecendo uma estrutura conectada entre sensores, plataformas e armamento. O conceito atende a diferentes cenários de emprego terrestre, litorâneo, anfíbio e expedicionário, nos quais a mobilidade e a capacidade de identificar alvos antes do engajamento são fatores relevantes.
No campo da defesa costeira, o MANSUP, Míssil Antinavio de Superfície, também esteve entre as capacidades apresentadas. Desenvolvido pela indústria brasileira para emprego naval, o armamento pode igualmente ser integrado ao sistema ASTROS para lançamento terrestre, permitindo explorar a mesma família de mísseis em diferentes arquiteturas de emprego e acrescentando uma capacidade antinavio baseada em terra.
A ADTECH - SD levou para a EDEF o SARP Harpia, o radar AESA portátil Atalaia e o Sistema de Monitoramento e Defesa Antidrone SIMAD. O conjunto cobre diferentes etapas da vigilância e proteção contra ameaças aéreas não tripuladas, desde detecção e acompanhamento até a resposta contra drones.
O Harpia já é empregado em atividades de segurança pública nos estados do Acre e do Amazonas, além de estar em estudos para integração a outras secretarias. Durante a Operação Furnas 2026, o sistema chamou a atenção do Corpo de Fuzileiros Navais diante da possibilidade de emprego pela Força Expedicionária da Marinha e também a bordo de navios da Marinha do Brasil. O Atalaia, por sua vez, oferece uma solução radar AESA transportável, capaz de proporcionar ampla cobertura do terreno para a detecção e acompanhamento de drones e de aeronaves militares hostis, enquanto o SIMAD é direcionado à detecção, acompanhamento e defesa contra sistemas não tripulados.
A Modirum/Gespi apresentou soluções voltadas principalmente às necessidades da Marinha do Brasil e do Corpo de Fuzileiros Navais, incluindo drones de ataque do tipo loitering munition, munições e outros recursos destinados ao emprego operacional. A diversidade de sistemas expostos demonstra que a EDEF não ficou limitada aos grandes programas de plataformas, abrangendo também tecnologias destinadas a ampliar a capacidade de unidades menores e forças expedicionárias.
A Xmobots Defense levou à Operação Formosa 2026 o Nauru 100D, nas configurações ISR e UCAV, e o XSIS 222A, submetendo os sistemas a demonstrações em ambiente operacional. Entre as atividades, duas plataformas Nauru foram empregadas de forma coordenada, explorando capacidades de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR), aquisição de informações e ampliação da consciência situacional. O emprego conjunto dos sistemas permitiu avaliar, em um cenário de exercício militar de grande escala, a integração entre diferentes plataformas não tripuladas e sua aplicação em missões que exigem coleta de dados, acompanhamento do campo de batalha e apoio à tomada de decisão.
A exposição ocorreu dentro de uma operação que reuniu as três Forças Armadas brasileiras. Marinha do Brasil, Exército Brasileiro e Força Aérea Brasileira, permitindo que os sistemas apresentados pela BID fossem observados dentro de um cenário marcado pela interoperabilidade e por diferentes necessidades de emprego militar.
O componente internacional foi outro elemento relevante da edição deste ano. A Operação Formosa contou com 115 militares estrangeiros, sendo 55 norte americanos do USMC, 40 militares da Tropa de Marinha do Exército Francês e 20 fuzileiros navais paraguaios. Esses contingentes participaram efetivamente das atividades do exercício, realizando ações combinadas e intercâmbio com as forças brasileiras.
A EDEF também recebeu observadores estrangeiros e adidos militares de diferentes países. A presença desse público ampliou a exposição internacional dos sistemas brasileiros, que puderam ser conhecidos no cenário associado a uma operação militar realística, e não somente por meio de apresentações comerciais. Para as empresas da BID, esse contato cria uma oportunidade de demonstrar capacidades e identificar possíveis interesses externos em suas soluções.
A edição de 2026 teve, contudo, uma particularidade: não houve presença da imprensa na Operação Formosa, em razão das restrições relacionadas ao Defeso Eleitoral. A limitação ocorreu justamente em uma edição que reuniu forças brasileiras, tropas estrangeiras, observadores, adidos militares e empresas da indústria de defesa em um mesmo ambiente.
O conjunto apresentado em Formosa evidencia uma BID que atua em diferentes níveis tecnológicos e operacionais, desde veículos blindados de grande porte e sistemas de armas até radares, drones, sensores, munições e sistemas de defesa antidrone. A EDEF permitiu que esses produtos fossem colocados diante dos usuários militares em um contexto no qual requisitos operacionais, mobilidade, integração e interoperabilidade deixam de ser apenas características de catálogo e passam a ser avaliados sob a perspectiva de seu emprego.
Nesse sentido, a principal característica da EDEF está na aproximação entre quem desenvolve e fabrica os sistemas e quem efetivamente os utiliza. A exposição cria condições para que necessidades identificadas no exercício alimentem processos de avaliação, aperfeiçoamento e desenvolvimento tecnológico, enquanto a indústria pode apresentar soluções já disponíveis ou em evolução diretamente aos operadores.
A presença simultânea de militares brasileiros e estrangeiros também dá à EDEF uma dimensão que ultrapassa o mercado doméstico. Para a BID, colocar seus sistemas diante de contingentes dos Estados Unidos, França e Paraguai, além de observadores e adidos de outros países, significa apresentar capacidades nacionais em um ambiente operacional multinacional, associando produto, emprego e experiência prática.
Mais do que uma feira inserida na programação da Operação Formosa, a EDEF abre um espaço próprio como ponto de encontro entre requisitos militares, desenvolvimento tecnológico e indústria de defesa nacional.
Por Angelo Nicolaci
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