terça-feira, 8 de setembro de 2026

Escudo das Américas: "O outro lado do tabuleiro - China, Rússia e a disputa estratégica pelo Hemisfério Ocidental"

 

A transformação da arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental não pode ser compreendida apenas a partir dos movimentos de Washington. Se os Estados Unidos procuram reorganizar sua presença política, econômica e militar nas Américas diante de um ambiente internacional cada vez mais competitivo, existe outro movimento acontecendo simultaneamente, mais silencioso e menos dependente da presença militar convencional: a expansão da influência chinesa sobre a América Latina e o Caribe, em menor escala a atuação estratégica da Rússia em pontos específicos da região.

É nesse outro lado do tabuleiro que se encontra uma das questões centrais para o futuro da segurança hemisférica. A disputa que se desenha não será necessariamente marcada pela instalação de grandes bases militares ou pela presença permanente de forças expedicionárias de potências externas. Em muitos casos, ela será definida pela capacidade de controlar ou influenciar fluxos comerciais, infraestrutura, energia, recursos naturais, tecnologia, dados, cadeias logísticas e posições estratégicas.

Essa mudança é fundamental para compreender o verdadeiro alcance do conceito do “Escudo das Américas”. Como discutimos no capítulo anterior, proteger o hemisfério no século XXI significa muito mais do que defender fronteiras e espaços aéreos ou marítimos. Significa também garantir que os sistemas econômicos, tecnológicos, energéticos, mercantes e digitais dos países americanos permaneçam resilientes diante de uma eventual crise. É justamente nesses espaços que a China avançou de maneira mais consistente nas últimas duas décadas.

A China já está dentro do hemisfério

A presença chinesa na América Latina e no Caribe não é uma possibilidade futura nem uma hipótese construída sobre projeções. Ela já constitui uma realidade econômica e estratégica profundamente incorporada à região.

Em 2024, o comércio entre a China e a América Latina e Caribe alcançou aproximadamente US$ 510 bilhões, quase o dobro do registrado uma década antes. A China tornou-se o segundo maior parceiro comercial da região e o maior credor soberano bilateral, enquanto mais da metade dos países latino-americanos e caribenhos aderiram à Iniciativa do Cinturão e Rota. Na América do Sul, Pequim já ocupa a posição de maior parceiro comercial desde 2015. Os números, entretanto, representam apenas uma parte da transformação.

A relação construída por Pequim não está limitada à compra de commodities e à venda de produtos manufaturados. A China vem ampliando sua participação em infraestrutura de transporte, energia, telecomunicações, logística, mineração, indústria, tecnologia digital, inteligência artificial e espaço. Essa combinação cria uma presença muito mais profunda do que aquela normalmente associada à diplomacia comercial tradicional.

O documento de política da China para a América Latina e o Caribe, publicado em janeiro de 2026, deixa isso particularmente claro. Pequim estabeleceu como áreas de cooperação infraestrutura, logística, energia, telecomunicações, infraestrutura digital, cidades inteligentes, manufatura, cadeias de suprimentos, inteligência artificial, espaço e recursos minerais, além de ampliar a cooperação financeira e militar. O documento também prevê maior participação de empresas e instituições financeiras chinesas no planejamento, construção e operação de infraestrutura regional.

Não se trata, portanto, apenas de aumentar o comércio. Trata-se de construir uma relação de longo prazo capaz de conectar mercados, infraestrutura, tecnologia, financiamento e recursos estratégicos. É essa característica que diferencia a presença chinesa de uma simples relação comercial.

O porto como instrumento de poder

Poucos exemplos representam melhor essa transformação do que o porto de Chancay, no Peru. Inaugurado em 2024, o empreendimento tornou-se um dos símbolos mais evidentes da expansão chinesa na infraestrutura estratégica latino-americana. Desenvolvido e operado por uma empresa estatal chinesa, o porto foi concebido para estabelecer uma ligação marítima mais direta entre a costa sul-americana do Pacífico e a China, reduzindo tempos de transporte e criando novas possibilidades para o fluxo de commodities entre os dois lados do Pacífico.

Caso alcance sua capacidade projetada de aproximadamente 3,5 milhões de TEUs, Chancay poderá se tornar um dos maiores portos da América Latina e o maior terminal da região controlado integralmente por uma empresa estatal chinesa. O empreendimento também possui potencial para alterar rotas comerciais e ampliar a utilização de canais logísticos vinculados à presença chinesa.

O significado estratégico de Chancay, porém, precisa ser analisado com cuidado. Não seria correto simplesmente classificar um porto comercial chinês como uma futura instalação militar de Pequim. A realidade é mais complexa e, justamente por isso, mais importante.

Infraestruturas comerciais de grande escala podem adquirir valor estratégico sem serem transformadas em bases militares. Um porto reúne localização geográfica, capacidade logística, sistemas digitais, equipamentos especializados, fluxos de dados, acesso a rotas marítimas e conexão com ferrovias, rodovias e cadeias industriais. Em situação de normalidade, tudo isso representa eficiência econômica. Enquanto diante de uma situação de crise, esses mesmos ativos podem adquirir outra dimensão.

É essa possibilidade de conversão do valor econômico em valor estratégico que vem despertando atenção crescente entre analistas norte-americanos. Estudos recentes identificaram dezenas de projetos portuários associados a empresas chinesas nas Américas e destacaram que a presença de Pequim não se limita ao terminal portuário propriamente dito, alcançando também ferrovias, geração de energia, equipamentos de segurança e guindastes de movimentação de cargas.

A questão, portanto, não é simplesmente quem possui um porto, a questão é quem possui capacidade de influenciar os sistemas que conectam esse porto ao restante da economia.

A infraestrutura como território estratégico

Essa mudança de perspectiva é fundamental para compreender a competição entre grandes potências. Durante grande parte do século XX, influência estratégica era associada principalmente à presença militar, às alianças políticas e à capacidade de projetar força. No século XXI, esses elementos continuam importantes, mas passaram a coexistir com instrumentos de poder que operam abaixo do limiar de um conflito convencional.

Uma empresa que participa da construção de uma ferrovia não está necessariamente realizando uma operação estratégica, assim como uma empresa que administra um terminal portuário também não está necessariamente desempenhando uma função militar. Uma companhia que fornece equipamentos de telecomunicações não representa, por si só, uma ameaça. O problema aparece quando esses elementos começam a se conectar em escala regional.

Portos conectados a ferrovias. Ferrovias conectadas a áreas produtoras. Sistemas digitais conectados a redes de telecomunicações. Infraestrutura energética conectada a cadeias industriais. Financiamento conectado a contratos de longo prazo. É nessa interdependência que nasce uma forma diferente de poder.

A China não precisa estabelecer uma rede de bases militares na América Latina para ampliar sua capacidade de influência. Ela pode construir relações de dependência econômica, tecnológica e logística que produzam efeitos estratégicos muito antes de qualquer confronto militar. Essa talvez seja uma das maiores dificuldades enfrentadas por Washington.

O Canal do Panamá e a disputa pelo acesso

O Canal do Panamá representa outro ponto importante dessa equação, permanecendo como um dos principais corredores marítimos do comércio mundial, conectando os oceanos Atlântico e Pacífico, reduzindo significativamente as distâncias entre diferentes mercados.

Durante anos, empresas vinculadas a interesses chineses mantiveram participação em instalações portuárias associadas às proximidades do canal. Em janeiro de 2026, porém, a Suprema Corte panamenha declarou inconstitucionais duas concessões operadas pela CK Hutchison, produzindo um importante revés para a presença dessa empresa no país. Ainda assim, o debate sobre a influência chinesa na infraestrutura portuária regional não desapareceu.

O episódio demonstra justamente que a disputa não pode ser reduzida a uma questão binária de “controle chinês” ou “controle norte-americano”. Existe uma competição muito mais ampla pela capacidade de operar, financiar, conectar e influenciar os grandes corredores logísticos do hemisfério.

Para Washington, isso possui implicações econômicas e militares, já para Pequim, representa uma oportunidade de aprofundar sua conexão com os mercados americanos e garantir maior segurança para as cadeias de suprimentos das quais depende, e pelo ponto de vista dos países latino-americanos, representa uma oportunidade de obter investimentos e infraestrutura, mas também cria a necessidade de avaliar cuidadosamente os efeitos estratégicos de determinadas dependências.

A tecnologia é o novo campo de disputa

Se os portos representam a dimensão física dessa competição, a tecnologia representa sua dimensão invisível: Telecomunicações, computação em nuvem, inteligência artificial, sistemas de vigilância, satélites, centros de dados, redes de energia e infraestrutura digital estão se tornando componentes cada vez mais importantes da segurança nacional. Nesse campo, a vantagem chinesa não está apenas na capacidade de vender equipamentos. Está na possibilidade de participar da construção de ecossistemas tecnológicos inteiros.

O documento chinês de política para a América Latina publicado em 2026 prevê explicitamente cooperação em inteligência artificial, tecnologia da informação, novos materiais, energia, circuitos integrados, aviação e espaço, além de comunicação e sensoriamento por satélite. Também estabelece mecanismos de cooperação científica, centros de pesquisa e laboratórios conjuntos. Isso possui uma consequência estratégica importante.

Quanto maior a participação de uma potência externa na infraestrutura tecnológica de outro país, maior pode ser sua capacidade de influenciar padrões técnicos, cadeias de fornecimento, manutenção, atualização e interoperabilidade. Não significa que toda tecnologia chinesa seja uma ameaça ou que todo investimento produza dependência estratégica, significa que tecnologia deixou de ser apenas uma questão econômica, ela passou a fazer parte da soberania.

Recursos naturais e cadeias críticas

A relação sino-latino-americana também possui uma dimensão relacionada aos recursos estratégicos. Petróleo, gás, cobre, lítio, minério de ferro, alimentos e outros produtos básicos possuem importância crescente para a economia chinesa e para a transição energética global. Ao mesmo tempo, a América Latina necessita de investimentos, infraestrutura e acesso a mercados para transformar esses recursos em desenvolvimento econômico. É uma relação de interesses complementares, mas que também produz assimetrias.

A China possui escala industrial, capital, tecnologia e um gigantesco mercado consumidor, enquanto a América Latina possui recursos naturais, produção agrícola, energia e mercados em expansão. O resultado é uma relação economicamente racional para os dois lados. O desafio estratégico surge quando uma relação comercial necessária passa a produzir dependências difíceis de substituir.

Os dados mais recentes do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram a velocidade dessa transformação. No primeiro trimestre de 2026, as exportações latino-americanas para a China cresceram 25% em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as importações provenientes da China avançaram 29%. Apesar disso, os Estados Unidos continuam sendo o principal parceiro comercial da região, demonstrando que o cenário não é de substituição simples de Washington por Pequim, mas de crescente competição entre centros de poder. É justamente essa característica que torna a situação latino-americana tão particular.

A região não está abandonando os Estados Unidos, e também não está simplesmente se tornando chinesa, ela está se tornando um espaço de competição entre diferentes centros de poder, enquanto seus próprios governos procuram extrair benefícios dessa disputa sem perder autonomia.

Onde entra a Rússia?

É nesse ponto que a Rússia aparece no tabuleiro, mas é importante não colocar Moscou e Pequim na mesma categoria. A capacidade econômica russa de penetração na América Latina é muito menor do que a chinesa. Moscou não possui a mesma escala de comércio, financiamento ou investimentos em infraestrutura. Seu instrumento de poder é diferente.

A Rússia concentra sua atuação em relações políticas e militares específicas, cooperação em defesa, energia, inteligência, diplomacia e demonstrações de capacidade estratégica.

Venezuela, Cuba e Nicarágua permanecem entre os principais pontos de interesse dessa presença. Moscou já utilizou exercícios, cooperação militar, visitas de navios e aeronaves e acordos de defesa para demonstrar que mantém capacidade de atuar no entorno estratégico dos Estados Unidos. Isso não significa que exista uma frente militar sino-russa organizada para desafiar os Estados Unidos em todo o continente, a realidade é mais sofisticada.

Enquanto a China constrói profundidade econômica, tecnológica e logística, a Rússia possui instrumentos capazes de explorar pontos de pressão específicos. Com uma potência ampliando sua presença estrutural, enquanto a outra preserva capacidade de "perturbação" estratégica. Essa diferença será importante para compreender os próximos movimentos.

O verdadeiro desafio para Washington

É nesse cenário que a proposta de uma nova arquitetura de segurança hemisférica ganha outra dimensão. Os Estados Unidos continuam possuindo uma vantagem militar, tecnológica, econômica e de inteligência incomparavelmente superior à de qualquer outro país individualmente considerado no Hemisfério Ocidental.

O problema é que superioridade militar não significa automaticamente controle estratégico sobre todos os fluxos econômicos, tecnológicos e logísticos da região. Washington pode possuir a maior capacidade naval do hemisfério, mas isso não determina quem fornece equipamentos para os portos. Pode possuir os sistemas de inteligência mais avançados, mas isso não determina quem participa da construção das redes de telecomunicações. Pode manter a principal capacidade militar do continente, mas isso não significa controlar as cadeias de fornecimento de minerais críticos, energia, alimentos ou componentes industriais, justamente nesse espaço entre poder militar e influência estrutural que a China avançou.

A questão para Washington, portanto, não é simplesmente impedir a presença chinesa na América Latina. Isso seria praticamente impossível sem provocar custos econômicos e políticos enormes para os próprios países americanos. O desafio é oferecer alternativas suficientemente competitivas para que os governos latino-americanos não precisem escolher entre desenvolvimento econômico e segurança estratégica. Talvez esse seja um dos pontos mais difíceis da nova arquitetura hemisférica.

A América Latina no meio da disputa

Para os países latino-americanos, a crescente competição entre Estados Unidos e China também representa uma oportunidade de ampliar suas alternativas econômicas e estratégicas. A presença de diferentes centros de poder permite acesso a novos mercados, fontes de financiamento, investimentos em infraestrutura e possibilidades de cooperação tecnológica que, algumas décadas atrás, eram muito mais limitadas. Para governos que historicamente enfrentaram restrições de capital e dificuldades para financiar grandes projetos de desenvolvimento, essa diversificação pode representar ganhos concretos e ampliar sua margem de negociação diante das grandes potências.

O problema surge quando essas oportunidades passam a produzir relações de dependência capazes de adquirir significado estratégico. Quanto maior a participação de uma potência estrangeira em setores considerados essenciais para o funcionamento de um país, maior é a possibilidade de que decisões originalmente econômicas passem a produzir consequências para sua segurança e sua autonomia. Um porto construído para ampliar o comércio pode se tornar um ativo relevante para a logística nacional; uma rede de telecomunicações pode assumir importância para a proteção de dados e das comunicações governamentais; investimentos em mineração podem integrar cadeias internacionais de recursos considerados críticos; e sistemas espaciais desenvolvidos para aplicações civis podem, dependendo de suas características, também ampliar capacidades de observação e inteligência.

Isso não significa que todo investimento estrangeiro deva ser tratado como ameaça ou que a participação chinesa, norte-americana ou de qualquer outra potência em projetos estratégicos represente automaticamente uma perda de soberania. O desafio está em estabelecer mecanismos capazes de distinguir uma relação econômica benéfica de uma dependência que possa limitar a liberdade de decisão do Estado em uma situação de crise.

Essa distinção será cada vez mais importante porque a competição entre grandes potências tende a tornar menos clara a separação entre os interesses econômicos e os interesses de segurança. Infraestrutura, tecnologia, energia, recursos naturais, logística e comunicações passaram a integrar uma mesma equação estratégica, fazendo com que escolhas relacionadas ao desenvolvimento nacional possam produzir efeitos que ultrapassam o campo econômico.

É justamente essa realidade que qualquer projeto de “Escudo das Américas” terá de considerar. Uma arquitetura de segurança hemisférica não poderá se limitar à coordenação entre forças armadas se parte das vulnerabilidades estratégicas da região estiver localizada fora do campo militar tradicional. Proteger o hemisfério também significa garantir que seus países mantenham capacidade de decisão sobre as infraestruturas, tecnologias e cadeias produtivas das quais dependem.

Para a América Latina, portanto, o desafio não está em escolher automaticamente entre Washington e Pequim, mas em utilizar a competição entre os grandes centros de poder para ampliar suas próprias capacidades sem transformar oportunidades econômicas em vulnerabilidades estratégicas. Essa será uma das condições para que a autonomia regional deixe de ser apenas um princípio diplomático e passe a possuir sustentação material.

O Brasil diante do novo tabuleiro

Para o Brasil, essa disputa possui uma dimensão ainda maior. O país mantém relações econômicas profundas tanto com a China quanto com os Estados Unidos, ocupa uma posição central na América do Sul, possui uma extensa costa atlântica, grandes reservas de recursos naturais, uma produção agrícola de escala global, uma Base Industrial de Defesa em desenvolvimento e interesses estratégicos que se estendem pelo Atlântico Sul, pela Amazônia e pelo espaço. Essa combinação coloca Brasília em uma posição singular diante da crescente competição entre os grandes centros de poder.

O Brasil não precisa transformar sua política externa em escolha entre Washington e Pequim, assim como não deveria permitir que a competição entre grandes potências determine automaticamente suas prioridades de defesa. A questão central é construir capacidade suficiente para que o país possa manter relações com diferentes centros de poder sem transformar dependências econômicas, tecnológicas ou militares em vulnerabilidades estratégicas.

Essa distinção entre relacionamento e dependência será cada vez mais importante. Autonomia estratégica não significa isolamento ou a tentativa de produzir internamente tudo aquilo de que o país necessita. Significa possuir alternativas suficientes para preservar a liberdade de decisão quando interesses externos entrarem em conflito com as prioridades nacionais. Isso envolve proteger infraestruturas críticas, dominar tecnologias essenciais, manter capacidade industrial, diversificar fornecedores, proteger dados sensíveis, preservar o controle sobre recursos estratégicos e garantir que o Estado tenha condições de continuar operando mesmo diante de uma crise internacional.

É nesse ponto que a discussão proposta pelo “Escudo das Américas” deixa de ser exclusivamente norte-americana. A segurança do hemisfério não pode ser analisada apenas a partir das decisões tomadas em Washington, porque as vulnerabilidades estratégicas da região também estão distribuídas pelos portos, pelas rotas marítimas, pelas redes digitais, pelos satélites, pelas cadeias de energia, pelos minerais críticos, pelas indústrias e pelas infraestruturas que conectam as economias americanas ao restante do mundo.

A China compreendeu essa transformação e vem construindo sua presença sobre essas estruturas há anos, utilizando comércio, investimentos, financiamento, infraestrutura, tecnologia e acesso a mercados como instrumentos de projeção de influência. A Rússia, com recursos econômicos e capacidade de inserção muito menores, procura preservar espaços específicos nos quais possa exercer pressão estratégica, sobretudo por meio da cooperação militar, diplomática, energética e de inteligência. Os Estados Unidos, por sua vez, enfrentam o desafio de recuperar centralidade em uma região na qual durante décadas exerceram predominância econômica, política e militar.

O resultado é uma nova competição pelo Hemisfério Ocidental. Isso não significa necessariamente o surgimento de uma nova Guerra Fria ou a formação de blocos rígidos semelhantes aos que marcaram o século XX. A disputa atual tende a ser mais difusa e multidimensional, combinando poder econômico, tecnologia, infraestrutura, recursos naturais, logística, influência política e capacidade militar na mesma equação estratégica.

Nesse ambiente, o Brasil não ocupa uma posição periférica. Sua dimensão territorial, sua economia, seus recursos naturais, sua posição no Atlântico Sul e sua capacidade industrial fazem do país um dos principais espaços onde essa competição poderá se manifestar. Ao mesmo tempo, essa posição cria uma exigência que ultrapassa a diplomacia: qualquer projeto de autonomia estratégica precisa estar apoiado em capacidade material suficiente para transformar decisões políticas em instrumentos concretos de soberania.

Isso significa que a liberdade de escolha do Brasil dependerá, em grande medida, da capacidade de proteger aquilo que considera estratégico e de reduzir vulnerabilidades que possam ser exploradas em momentos de crise. Sistemas de vigilância, navios, aeronaves, satélites, defesa antiaérea, infraestrutura logística, tecnologias críticas, estoques estratégicos, pessoal qualificado e uma indústria capaz de desenvolver, produzir e sustentar esses sistemas ao longo de décadas fazem parte da mesma equação.

Essa capacidade, porém, não pode ser construída apenas por meio de documentos de planejamento ou de decisões políticas. Ela exige investimentos contínuos, previsibilidade orçamentária, capacidade tecnológica, escala industrial e uma estratégia capaz de transformar recursos financeiros limitados em capacidades militares efetivas. Quanto mais ambiciosa for a arquitetura de segurança do Hemisfério Ocidental, maior será também a necessidade de discutir como seus custos serão distribuídos e quais países terão condições de sustentar, no longo prazo, as capacidades que essa nova realidade estratégica exigirá.

É justamente nesse ponto que a discussão sobre segurança hemisférica encontra a economia política. Definir o que precisa ser protegido e identificar os atores que disputam influência sobre essas estruturas são apenas etapas iniciais. A etapa seguinte é determinar quem possui recursos para financiar essa proteção, quem dispõe de uma indústria capaz de produzir os meios necessários, quais tecnologias precisarão ser desenvolvidas ou adquiridas e como os países poderão dividir responsabilidades sem criar novas relações de dependência.

Para o Brasil, essa discussão é particularmente relevante porque sua posição estratégica exige capacidades proporcionais à dimensão de seus interesses, mas sua realidade fiscal impõe escolhas. Não será possível financiar simultaneamente todos os projetos desejáveis, manter programas estratégicos sem interrupções e responder a todas as novas ameaças apenas ampliando despesas. Será necessário estabelecer prioridades, buscar maior eficiência na aplicação dos recursos públicos e utilizar a Base Industrial de Defesa não apenas como fornecedora de equipamentos, mas como instrumento de geração de tecnologia, empregos qualificados, autonomia e capacidade de sustentação logística.

Entorno estratégico Brasileiro

A mesma lógica vale para o restante da América Latina. Uma arquitetura hemisférica realmente funcional não poderá depender exclusivamente da capacidade financeira e tecnológica dos Estados Unidos, mas também não poderá pressupor que todos os países da região tenham condições semelhantes de investimento em defesa. A diferença entre economias, estruturas industriais e capacidades militares exigirá uma divisão de responsabilidades baseada nas características e possibilidades de cada país.

É nesse cenário que surge a pergunta central para o próximo capítulo do “Escudo das Américas”: quem paga pela segurança do hemisfério?

A resposta determinará muito mais do que a dimensão dos orçamentos de defesa. Ela ajudará a definir quais países terão capacidade de participar efetivamente da nova arquitetura, quais setores industriais receberão investimentos, quais tecnologias serão consideradas estratégicas e até que ponto a região conseguirá construir uma estrutura de segurança capaz de permanecer operacional quando deixar de existir o ambiente de normalidade no qual foi planejada.

Porque uma arquitetura de segurança não se sustenta apenas sobre acordos, declarações políticas ou intenções diplomáticas. Ela precisa de recursos, indústria, tecnologia, infraestrutura e capacidade de manutenção. E, no próximo capítulo do “Escudo das Américas”, é justamente essa dimensão material da segurança hemisférica que estará no centro da análise.


por Angelo Nicolaci


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