A "Operação Formosa 2026" ao lançar a "I Exposição de Defesa Expedicionária em Formosa" (EDEF), coloca diante de Brasília uma questão que ultrapassa a demonstração de equipamentos e tecnologias: o Brasil possui empresas capazes de desenvolver soluções sofisticadas para suas Forças Armadas, mas ainda precisa transformar essa capacidade tecnológica em produção continuada, escala industrial e presença sustentável no mercado. A feira demonstra que existe conhecimento, engenharia e capacidade empresarial para desenvolver sistemas nacionais, mas também evidencia o principal obstáculo enfrentado por uma indústria de alta complexidade: desenvolver um produto é apenas uma etapa de um ciclo que precisa terminar em aquisição, produção, emprego operacional, exportação e novos investimentos em tecnologia.
A relação entre as Forças Armadas e a Base Industrial de Defesa não pode, portanto, ficar limitada à apresentação de protótipos, avaliações técnicas ou demonstrações operacionais. O setor privado assume riscos relevantes ao desenvolver produtos que podem levar anos para atingir maturidade, enquanto os programas militares possuem ciclos igualmente longos e dependem de decisões orçamentárias que precisam atravessar diferentes governos. Quando não existe previsibilidade sobre a demanda futura, o investimento privado torna-se mais arriscado, os projetos avançam em ritmo irregular e empresas passam a ter dificuldade para preservar equipes especializadas e fornecedores capazes de acompanhar a evolução tecnológica.
Esse problema aparece justamente no intervalo entre desenvolvimento e aquisição. Uma empresa pode apresentar um sistema tecnicamente adequado, realizar testes, receber avaliações positivas e demonstrar capacidade operacional, mas, sem orçamento para uma encomenda compatível com a necessidade de defesa, o projeto corre o risco de permanecer em pequenas séries ou simplesmente deixar de avançar. Em setores nos quais os custos de engenharia, certificação, ferramental, integração e qualificação são elevados, produzir poucas unidades não permite diluir adequadamente os investimentos realizados no desenvolvimento, reduz a capacidade de aperfeiçoamento do produto e limita a sua competitividade internacional.
É nesse ponto que muitos projetos brasileiros acabam encontrando o que poderia ser chamado de “praia” da indústria de Defesa: conseguem chegar ao estágio de demonstração tecnológica, mas não atravessam a distância entre protótipo e capacidade industrial. O problema não está necessariamente na qualidade da solução desenvolvida, mas na ausência de uma sequência de decisões capaz de transformar tecnologia em produto, produto em série, série em escala e escala em mercado. Sem esse ciclo, o conhecimento permanece fragmentado e o investimento realizado não produz todo o retorno tecnológico, militar e econômico que poderia gerar.
A escala é particularmente importante porque uma cadeia industrial de Defesa não é formada apenas pela empresa responsável pelo produto final. Ao redor de um sistema complexo existe uma rede de fabricantes de componentes, empresas de software, eletrônica, sensores, materiais, usinagem, tratamento de superfícies, manutenção, logística, engenharia, certificação e serviços especializados. Quando a produção é interrompida ou reduzida a volumes muito pequenos, os efeitos atingem toda essa cadeia, dificultando a manutenção de fornecedores e aumentando o custo de retomada de programas no futuro.
Por isso, a aquisição nacional possui uma função que vai além do atendimento imediato às necessidades das Forças Armadas. Quando o próprio país de origem utiliza um sistema desenvolvido por sua indústria, cria-se uma referência operacional para o mercado externo. Isso não significa que um produto nacional necessariamente precise ser adquirido pelo Brasil para ser exportado, mas na prática, a existência de usuários domésticos, histórico operacional, suporte logístico e capacidade de evolução reduz incertezas para potenciais compradores estrangeiros e demonstra que existe uma estrutura nacional capaz de sustentar o produto ao longo de sua vida útil.
A exportação, por sua vez, pode ampliar significativamente essa escala. O mercado brasileiro é relevante, mas limitado diante dos volumes que determinadas indústrias precisam alcançar para amortizar investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Uma empresa que consegue combinar encomendas nacionais com vendas externas amplia sua base de clientes, aumenta a produção, distribui custos fixos por uma quantidade maior de unidades e obtém recursos para financiar novas gerações de produtos. É nesse ponto que a política de exportação deixa de ser apenas uma questão comercial e passa a integrar a própria política de Defesa.
O Estado possui instrumentos para participar desse processo sem substituir a iniciativa privada. Crédito de longo prazo, garantias à exportação, apoio à pesquisa, mecanismos de financiamento, acordos de cooperação, diplomacia econômica e participação institucional em negociações internacionais podem reduzir obstáculos que uma empresa brasileira dificilmente consegue enfrentar sozinha. Produtos de Defesa também estão submetidos a decisões políticas, requisitos de segurança, autorizações governamentais e relações estratégicas entre Estados, o que torna a atuação diplomática particularmente relevante para ampliar mercados.
Essa dimensão econômica precisa ser incorporada de maneira mais clara ao debate nacional. A Base Industrial de Defesa não representa apenas um conjunto de empresas que fornece equipamentos para as Forças Armadas. O próprio Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece o setor como estratégico para a soberania, a inovação, a geração de empregos qualificados, o desenvolvimento de capacidades industriais de alta complexidade, a reindustrialização e a inserção brasileira nas cadeias globais de valor.
O dinheiro destinado a um programa de Defesa também não permanece integralmente dentro da empresa contratada. Ele percorre uma cadeia econômica que envolve salários, fornecedores, serviços, aquisição de máquinas, contratação de engenharia, transporte, manutenção, tecnologia, pesquisa, universidades e uma série de atividades que geram circulação de renda e arrecadação em diferentes níveis da Federação. Em audiência no Senado, dados apresentados com referência à SEPROD apontaram que cada R$ 1 investido em Defesa pode gerar R$ 9,80 em valor para o PIB, além de destacar o efeito da cadeia de fornecedores e da geração de empregos.
É importante distinguir esse multiplicador econômico de uma suposta devolução automática de recursos ao Tesouro. O retorno não significa que praticamente todo o valor gasto volte diretamente aos cofres públicos na forma de impostos. Parte do efeito ocorre pela atividade econômica adicional gerada ao longo da cadeia, enquanto outra parcela retorna ao setor público por meio de tributos, contribuições, salários, consumo, contratação de serviços e outros fluxos econômicos. A diferença é importante porque permite defender o investimento em Defesa com base em seus efeitos concretos, sem transformar uma estimativa de multiplicação econômica em uma promessa de arrecadação direta.
O caso de Itaguaí é uma demonstração prática desse processo. A implantação do Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB, não criou apenas uma estrutura para a construção e manutenção de submarinos da Marinha do Brasil. O programa formou uma concentração de capacidades industriais e tecnológicas envolvendo a Itaguaí Construções Navais (ICN), a Nuclebrás Equipamentos Pesados (NUCLEP), a Amazul, fornecedores nacionais e instituições vinculadas à pesquisa, engenharia e desenvolvimento tecnológico. Estudos sobre o programa identificaram efeitos positivos sobre o entorno de Itaguaí, incluindo geração de empregos, aumento da arrecadação municipal e contratação de empresas locais, além da possibilidade de formação de um cluster de Defesa no Estado do Rio de Janeiro.
O efeito econômico de um empreendimento dessa natureza também aparece nas atividades que não pertencem diretamente ao setor de Defesa. Uma cadeia industrial desse porte demanda soldadores, mecânicos, eletricistas, profissionais de logística, transporte, alimentação, limpeza, construção, manutenção predial, tecnologia da informação, hospedagem, comércio e serviços diversos. Restaurantes, lojas, empresas de manutenção, prestadores especializados e pequenos fornecedores passam a atender uma demanda criada por um programa militar, demonstrando que o impacto econômico de uma grande iniciativa de Defesa ultrapassa o perímetro da instalação militar ou da empresa responsável pelo contrato.
O PROSUB também evidencia outro aspecto importante: programas de longo prazo conseguem criar competências que permanecem no país. A formação de mão de obra especializada, a transferência de tecnologia, a nacionalização de componentes e a criação de fornecedores não desaparecem necessariamente quando uma etapa específica do programa termina. Parte desse conhecimento pode ser reaplicada em outros projetos, fortalecendo a capacidade industrial nacional. Um relatório produzido pela Escola Superior de Guerra, por exemplo, registra mais de 20 mil empregos diretos e indiretos associados ao PROSUB, além de destacar capacitação profissional, nacionalização, transferência de tecnologia e integração de empresas brasileiras à cadeia produtiva.
O Programa Fragatas Classe Tamandaré oferece outro exemplo desse mecanismo, agora em Itajaí, Santa Catarina. O programa deslocou para o município uma parcela relevante da atividade industrial relacionada à construção naval militar e criou uma demanda que alcança empresas, serviços e fornecedores ligados à construção, integração, manutenção e suporte. O Ipea realizou estudo específico sobre os benefícios econômicos gerados pelo programa no município, analisando a relação entre sua execução e a atividade econômica local.
A lógica se repete em diferentes escalas. Um contrato de Defesa pode movimentar empresas de engenharia, oficinas, fabricantes de componentes, fornecedores de aço e materiais especiais, empresas de tecnologia, universidades, centros de pesquisa e prestadores de serviços que, isoladamente, sequer seriam classificados como integrantes da indústria de defesa. Uma empresa de usinagem pode fornecer para Defesa e também atender posteriormente setores de energia ou petróleo; uma empresa de eletrônica pode desenvolver uma solução para uma aeronave e adaptá-la para aplicações civis; sistemas de comunicação, sensores, softwares, materiais e tecnologias autônomas podem encontrar utilização em agricultura, mineração, logística, infraestrutura, segurança, energia e espaço.
Essa capacidade de gerar tecnologias de uso dual é justamente uma das razões pelas quais a Estratégia Nacional de Defesa associou historicamente a reorganização da BID às necessidades das Forças Armadas e ao desenvolvimento de tecnologias nacionais com potencial de aplicação civil. A política industrial de Defesa, portanto, não deve ser analisada somente pela quantidade de equipamentos entregues aos militares, mas também pela capacidade de criar competências tecnológicas que possam ser aproveitadas por outros segmentos da economia.
O investimento em Defesa também produz efeitos sobre a formação de capital humano. Projetos complexos demandam engenheiros, técnicos, programadores, pesquisadores, especialistas em materiais, profissionais de integração de sistemas e trabalhadores qualificados. A existência de programas de longo prazo oferece às universidades, institutos tecnológicos e escolas técnicas um mercado capaz de absorver esse conhecimento, enquanto empresas passam a ter maior incentivo para formar e reter profissionais. Quando esses programas são interrompidos, o país não perde apenas máquinas ou contratos: pode perder equipes inteiras e conhecimento acumulado ao longo de anos.
É por isso que a discussão sobre orçamento de Defesa não deveria se limitar à dimensão contábil do gasto. Existe uma diferença econômica importante entre consumir recursos para adquirir um produto estrangeiro pronto e utilizar parte desse recurso para desenvolver, fabricar, integrar e manter uma capacidade nacional. A importação pode ser necessária quando não existe solução doméstica ou quando determinados requisitos exigem tecnologia externa, mas a participação nacional, sempre que tecnicamente e economicamente viável, permite que uma parcela maior do valor permaneça no país e alimente a cadeia produtiva brasileira.
Essa lógica também ajuda a explicar por que países que possuem grandes indústrias de Defesa utilizam suas próprias Forças Armadas como clientes iniciais de tecnologias nacionais. China, Türkiye, Índia, Coreia do Sul e Emirados Árabes Unidos adotaram, em diferentes contextos e com modelos próprios, mecanismos que combinam demanda estatal, investimento tecnológico, financiamento, desenvolvimento industrial e busca por mercados externos. Não se trata de reproduzir qualquer desses modelos no Brasil, mas de compreender que grandes capacidades industriais de Defesa normalmente resultam de uma combinação entre Estado, indústria, pesquisa, financiamento e mercado.
O Brasil já percorreu esse caminho em escala relevante. Durante as décadas de 1970 e 1980, empresas como Engesa, Avibras e Embraer formaram parte de uma indústria de Defesa que alcançou presença internacional significativa. O país chegou a figurar entre os principais exportadores mundiais de produtos de Defesa naquele período, enquanto empresas brasileiras desenvolviam veículos blindados, foguetes, aeronaves e outros sistemas com forte participação nacional. O Ministério da Defesa reconhece que o Brasil chegou a ocupar posição de destaque entre os exportadores de produtos de Defesa nos anos 1980.
A crise do início dos anos 1990 mostrou, entretanto, como rapidamente essa capacidade pode ser comprometida quando a demanda externa desaparece e o mercado doméstico não consegue absorver a produção. O fim da Guerra Fria e a redução das encomendas internacionais, somados à retração das compras nacionais, atingiram diretamente a indústria brasileira. A Engesa entrou em falência em 1993, enquanto projetos como o Tamoio e o Charrua, desenvolvidos pela Bernardini, não chegaram a se consolidar como programas de produção em escala. Estudos sobre a trajetória da indústria brasileira de blindados associam esse período à queda da demanda interna, à redução dos investimentos e à interrupção de projetos tecnológicos.
A experiência da Mectron representa outro tipo de vulnerabilidade. A empresa havia desenvolvido competências importantes em sistemas eletrônicos e mísseis, incluindo participação em programas estratégicos, mas sua trajetória empresarial acabou submetida a processos de aquisição, reorganização societária e dificuldades relacionadas ao grupo controlador. O caso demonstra que conhecimento tecnológico acumulado em empresas de alta complexidade também pode ficar vulnerável quando não existe uma combinação estável de demanda, financiamento, capital e política industrial capaz de preservar essas competências ao longo do tempo.
A Avibras representa, atualmente, um caso ainda mais emblemático porque sua trajetória atravessa diferentes ciclos da indústria brasileira de Defesa. A empresa foi uma das grandes referências nacionais no desenvolvimento de foguetes e sistemas de artilharia de foguetes, alcançou mercados internacionais e posteriormente enfrentou sucessivas dificuldades financeiras. A situação atual da companhia, incluindo a mudança de controle e as expectativas de novos investimentos e expansão internacional, demonstra que a gestão privada possui papel fundamental, mas também evidencia que a sobrevivência de uma empresa dessa complexidade não depende exclusivamente de seus acionistas.
Gestão privada é necessária, mas uma BID de alta complexidade não se sustenta apenas com capital privado. O Estado precisa criar as condições de mercado para que o investimento tecnológico tenha onde se apoiar. Isso envolve política de Defesa, política industrial, financiamento adequado, garantias, instrumentos de exportação, diplomacia, encomendas nacionais e previsibilidade orçamentária. Sem esses elementos, mesmo uma empresa tecnicamente competente pode encontrar dificuldade para financiar ciclos de desenvolvimento que ultrapassam o horizonte normal de retorno de um investimento privado.
O mesmo princípio vale para empresas menores que aparecem na EDEF 2026. Muitas delas desenvolveram soluções específicas a partir de necessidades identificadas pelas Forças Armadas e investiram recursos próprios ou obtiveram apoio de instituições públicas para chegar a protótipos e produtos. O problema seguinte é criar condições para que essas empresas tenham uma demanda suficientemente previsível para contratar profissionais, ampliar instalações, qualificar fornecedores, certificar produtos e desenvolver novas versões.
A previsibilidade orçamentária é, portanto, parte da própria infraestrutura industrial da Defesa. Não basta anunciar programas de longo prazo se os recursos destinados à sua execução são frequentemente contingenciados, adiados ou distribuídos de maneira incompatível com o ciclo de produção. Uma indústria que precisa investir hoje para entregar daqui a três, cinco ou dez anos necessita de alguma visibilidade sobre a demanda futura para tomar decisões de capital, contratar profissionais e estabelecer contratos com fornecedores.
Essa previsibilidade também reduz custos para o próprio Estado. Quando uma linha de produção é mantida, a empresa conserva ferramentas, profissionais, fornecedores e conhecimento acumulado. Quando um programa é interrompido por longos períodos, a retomada normalmente exige reconstrução de equipes, requalificação de fornecedores, reativação de instalações e atualização de processos, muitas vezes a custos superiores aos que seriam necessários para manter uma produção mínima contínua.
A política de Defesa precisa, portanto, trabalhar com o conceito de ciclo de vida. O custo de um sistema não está limitado à aquisição inicial, mas inclui desenvolvimento, produção, treinamento, manutenção, modernização, reposição, atualização tecnológica e eventual substituição. Quando uma parcela relevante desse ciclo é realizada no país, o recurso empregado na Defesa alimenta competências que podem permanecer disponíveis para o Estado durante décadas.
Essa visão também modifica a forma de analisar o retorno de um programa de defesa. O benefício não está apenas no equipamento entregue à tropa. Existe o valor operacional para as Forças Armadas, o conhecimento tecnológico desenvolvido, a cadeia produtiva mobilizada, os empregos criados, a formação de profissionais, os impostos gerados, a infraestrutura instalada, os fornecedores qualificados, as possibilidades de exportação e as aplicações civis derivadas da tecnologia desenvolvida. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece justamente essa combinação entre soberania, inovação, emprego qualificado e desenvolvimento industrial como parte estratégica do setor de Defesa.
O desafio, nesse sentido, é fazer com que o investimento em defesa produza o maior efeito nacional possível sem transformar a política de Defesa em simples instrumento de política industrial. A necessidade militar deve continuar sendo o ponto de partida: as Forças Armadas precisam receber capacidades adequadas às suas missões. A partir dessa necessidade, entretanto, cabe ao Estado buscar soluções que preservem conhecimento nacional, estimulem a cadeia produtiva e reduzam dependências estratégicas quando isso for técnica e economicamente viável.
A BID também precisa ser competitiva. Proteção estatal sem exigência de desempenho pode gerar empresas dependentes de contratos públicos e produtos pouco competitivos. O objetivo deve ser diferente: utilizar a demanda do Estado como instrumento de escala inicial, desenvolvimento tecnológico e qualificação industrial, criando condições para que as empresas posteriormente disputem mercados internacionais com qualidade, preço, suporte logístico e capacidade de atualização.
É justamente por isso que exportação e diplomacia precisam caminhar juntas. Uma empresa brasileira pode possuir um produto competitivo e ainda assim enfrentar dificuldades para entrar em determinados mercados por razões políticas, financeiras ou estratégicas. A atuação do Estado brasileiro pode contribuir por meio de acordos, missões oficiais, garantias, mecanismos de financiamento e articulação diplomática. Em Defesa, o comprador estrangeiro não avalia apenas o produto; avalia também a capacidade do país fornecedor de garantir suporte, continuidade, peças, treinamento e relacionamento institucional.
Quanto maior a escala de exportação, maior também a capacidade de reduzir custos unitários e preservar linhas de produção. Isso beneficia as próprias Forças Armadas brasileiras, que passam a contar com uma base industrial mais robusta e produtos que podem ser continuamente modernizados. O exportador, por sua vez, passa a ter receita externa, acesso a novos mercados e maior capacidade de financiar pesquisa e desenvolvimento.
A economia nacional ganha ainda com a permanência dessas competências. Uma empresa que domina sistemas de guiagem, sensores, materiais compostos, inteligência artificial, comunicações seguras, propulsão, eletrônica embarcada ou integração de sistemas possui ativos tecnológicos que podem encontrar aplicações fora do mercado de defesa. Em vez de importar continuamente essas capacidades, o país pode desenvolver competências próprias e transformá-las em novos produtos e serviços.
Essa é uma das razões pelas quais a BID deve ser tratada como instrumento de soberania tecnológica. A dependência externa não significa apenas comprar um equipamento de outro país; significa depender de decisões estrangeiras para manutenção, atualização, disponibilidade de componentes e acesso a determinadas tecnologias. Em situações de crise internacional, sanções, mudanças de alianças ou interrupções de cadeias globais, essa dependência pode se transformar em uma vulnerabilidade operacional.
O papel do Estado, portanto, não é simplesmente gastar mais em Defesa, mas gastar de maneira capaz de construir capacidade. Isso exige planejamento, priorização, acompanhamento de resultados, contratos de longo prazo, mecanismos de financiamento e estabilidade dos programas considerados estratégicos. Exige também que a indústria cumpra seus compromissos de desempenho, custo, prazo e qualidade, evitando que a defesa da produção nacional seja confundida com tolerância a ineficiência.
É justamente nesse ponto que a EDEF 2026 deve ser observada. O evento demonstra que existe uma indústria capaz de apresentar soluções, interagir com usuários militares e desenvolver tecnologias para diferentes necessidades operacionais, mas o valor dessa capacidade será determinado pelo que ocorrer depois da demonstração. O desafio está em transformar avaliação em decisão, decisão em contrato, contrato em produção, produção em escala e escala em capacidade permanente de desenvolvimento e exportação.
O Brasil já demonstrou que possui engenharia, conhecimento e empresas capazes de desenvolver tecnologias de Defesa. Também já demonstrou, pela experiência das últimas décadas, que essa capacidade pode desaparecer quando a demanda se interrompe e a continuidade deixa de existir. A história da Engesa, dos projetos da Bernardini, da trajetória da Avibras e das dificuldades enfrentadas por empresas como a extinta Mectron mostra que a perda de capacidade industrial ocorre gradualmente: a redução da demanda compromete a produção, a produção insuficiente enfraquece fornecedores, a perda de escala reduz investimentos, equipes deixam de ser preservadas e, ao final, o país pode perder a capacidade de desenvolver aquilo que antes dominava.
Reconstruir esse conhecimento é muito mais difícil e caro do que preservá-lo, e essa é a razão pela qual a discussão sobre a BID precisa superar a lógica de eventos, anúncios e contratos isolados. O empresário precisa investir e administrar com eficiência; as Forças Armadas precisam definir requisitos e avaliar capacidades; a indústria precisa entregar desempenho, qualidade e competitividade; os bancos e agentes de fomento precisam oferecer instrumentos compatíveis com os ciclos tecnológicos; a diplomacia precisa contribuir para abrir mercados; e o Estado precisa dar previsibilidade orçamentária às decisões de longo prazo. Nenhum desses atores, isoladamente, consegue sustentar uma indústria de Defesa de alta complexidade.
Sem essa convergência, o Brasil continuará correndo o risco de produzir tecnologias relevantes que não chegam a se transformar em capacidades militares permanentes. Com uma demanda doméstica previsível, produção em escala, financiamento adequado, apoio à exportação e continuidade dos programas, o ciclo pode funcionar de maneira oposta: a encomenda nacional sustenta a produção, a produção preserva a cadeia tecnológica, a escala melhora a competitividade, a exportação amplia o mercado e a receita e o conhecimento acumulados alimentam novos ciclos de desenvolvimento.
É esse ambiente que determinará se a nova geração da BID brasileira conseguirá consolidar o processo de reconstrução iniciado no começo dos anos 2000 ou se continuará vulnerável a ciclos de expansão e retração. A EDEF 2026 oferece uma fotografia do que o país é capaz de desenvolver hoje; o desafio de Brasília é assegurar que essas capacidades não permaneçam restritas à demonstração, mas encontrem orçamento, programas de aquisição, escala produtiva, financiamento e mercados capazes de mantê-las ativas por décadas. O Brasil já construiu uma indústria de Defesa de grande relevância, perdeu parte expressiva dela e levou décadas para recuperar competências. A oportunidade atual é transformar essa reconstrução em capacidade industrial permanente, reduzindo a dependência externa, fortalecendo as Forças Armadas e criando condições para que a inovação brasileira alcance escala e mercado.
Por Angelo Nicolaci — jornalista, analista e especialista em Geopolítica e Defesa, fundador e editor do GBN Defense. Atuante como consultor e conselheiro, com interlocução junto a representações diplomáticas, adidos de defesa, autoridades, instituições e indústria de defesa no Brasil e no exterior. Desde 2017, atua na aproximação Brasil–Türkiye e nos debates sobre Defesa, Geopolítica e Relações Internacionais.
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