segunda-feira, 17 de agosto de 2026

RDS-Defesa avança para fase decisiva e abre caminho para ampliar a produção nacional de rádios militares

O Projeto RDS-Defesa, voltado ao desenvolvimento de rádios definidos por software para emprego militar, entra na fase decisiva de sua trajetória. Desenvolvido no âmbito do Centro Tecnológico do Exército (CTEx), com participação das três Forças Armadas, o programa vem avançando na integração e avaliação dos equipamentos, aproximando uma tecnologia desenvolvida no País de sua transformação em capacidade operacional e industrial.

A iniciativa não é recente. O RDS-Defesa vem sendo desenvolvido há anos dentro do Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação do Exército e foi concebido com a participação das três Forças na definição de requisitos. Sua importância está diretamente relacionada à evolução das comunicações táticas, à interoperabilidade e à necessidade de reduzir dependências tecnológicas externas em uma área cada vez mais sensível para as operações militares.

O avanço atual, portanto, representa a maturação de um esforço de pesquisa e desenvolvimento que já produziu diferentes versões e protótipos e que agora busca consolidar os resultados obtidos ao longo dessa trajetória.

De projeto tecnológico a capacidade operacional

O conceito do RDS-Defesa parte de uma característica fundamental dos rádios definidos por software: parte relevante das funcionalidades do equipamento pode ser modificada por software, permitindo a utilização e evolução de diferentes formas de onda e padrões de comunicação sem que seja necessário substituir integralmente o hardware a cada nova necessidade.

Essa arquitetura amplia a flexibilidade de emprego e permite que o sistema acompanhe a evolução das necessidades operacionais.

O projeto contempla versões veicular, portátil e transportada por mochila, abrangendo comunicações nas faixas de HF, VHF e UHF. Em 2023, o CTEx recebeu 16 protótipos da versão veicular produzidos pela AEL Sistemas, que passaram por atividades de integração, portabilidade de formas de onda e testes funcionais, de desempenho e ambientais antes do encaminhamento para avaliação pelo Centro de Avaliações do Exército (CAEx).

A evolução desse processo é particularmente relevante porque a avaliação militar representa uma etapa diferente daquela de desenvolvimento tecnológico. É nesse momento que o equipamento deixa de ser analisado apenas como protótipo e passa a ser confrontado com os requisitos estabelecidos para seu emprego.

Interoperabilidade como objetivo central

Um dos aspectos mais relevantes do RDS-Defesa é justamente sua capacidade de atuar como elemento de interoperabilidade entre diferentes sistemas de comunicação das Forças Armadas.

A integração já foi demonstrada em atividades operacionais. Durante a Operação Atlas, equipes do CTEx, CAEx e IMBEL empregaram o RDS-Defesa em diferentes localidades e integraram o sistema a meios das três Forças.

Em Belém, por exemplo, o RDS foi instalado no NAM Atlântico e empregado em conjunto com sistemas como o STERNA da Marinha o Link-BR2, da Força Aérea, e o Gerenciador do Campo de Batalha do Exército. A integração foi apoiada pelo Multi Data Link Processor (MDLP), desenvolvido pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV). Esse tipo de integração mostra que o objetivo do programa vai além de desenvolver um rádio nacional.

A proposta é estabelecer uma infraestrutura de comunicações capaz de permitir que diferentes sistemas e plataformas compartilhem informações, contribuindo para o comando e controle em operações conjuntas.

O papel do software

A principal diferença de um rádio definido por software está justamente na possibilidade de alterar suas funcionalidades por meio de software.

No RDS-Defesa, o desenvolvimento de formas de onda é parte importante desse processo. Estudos e trabalhos técnicos vinculados ao programa destacam que o usuário pode selecionar diferentes formas de onda e incorporar novas funcionalidades ao equipamento, permitindo adaptar o sistema a diferentes cenários de emprego. Essa característica também abre espaço para uma evolução contínua.

Frente ao cenário operacional em que tecnologias de comunicação, guerra eletrônica e guerra cibernética avançam rapidamente, a capacidade de modificar e atualizar o comportamento do rádio pode ser tão importante quanto suas características físicas.

Isso reduz o risco de que uma plataforma eletrônica se torne tecnologicamente obsoleta simplesmente porque uma determinada forma de comunicação deixou de atender às necessidades operacionais.

Da pesquisa à indústria

Outro ponto importante do RDS-Defesa é sua relação com a Base Industrial de Defesa. O projeto foi estruturado desde suas fases iniciais com participação de instituições de ciência e tecnologia, universidades e empresas nacionais. A própria trajetória do programa registra a intenção de licenciar tecnologias desenvolvidas no âmbito das instituições militares para empresas nacionais, permitindo transformar os resultados da pesquisa em produtos disponíveis para as Forças Armadas e para o mercado de defesa. A participação da indústria também já ocorre em diferentes etapas do desenvolvimento.

A AEL Sistemas, por exemplo, produziu os protótipos veiculares entregues ao CTEx em 2023, enquanto a IMBEL aparece atualmente envolvida em atividades relacionadas ao desenvolvimento e aplicação de tecnologias de rádio definido por software. Documentos do Exército para 2026 incluem pesquisas da IMBEL voltadas à implementação de hardware e algoritmos aplicados às versões portátil e Manpack do RDS-Defesa.

Esse movimento é importante porque aproxima o projeto de uma etapa que será determinante para sua consolidação: a capacidade de produzir, manter e evoluir o sistema dentro do País.

Mais do que fabricar o equipamento

A produção nacional de um rádio militar não deve ser entendida apenas como a capacidade de montar o equipamento. O aspecto estratégico está no domínio sobre os elementos críticos que permitem sua evolução. Isso envolve hardware, software, formas de onda, algoritmos, integração, segurança das comunicações, manutenção e capacidade de atualização.

Quanto maior o domínio nacional sobre esses componentes, maior a liberdade de ação das Forças Armadas para adaptar o sistema às suas necessidades e manter sua evolução tecnológica sem depender integralmente de decisões tomadas por fornecedores estrangeiros.

Essa questão é particularmente relevante em sistemas de comunicações militares porque o ambiente eletromagnético também é um espaço de disputa.

Um rádio precisa não apenas transmitir e receber informações, mas operar em um ambiente no qual interferências, interceptação, guerra eletrônica e ameaças cibernéticas fazem parte do cenário operacional.

Por isso, o domínio tecnológico sobre o sistema de comunicação possui uma dimensão diretamente relacionada à segurança nacional.

A avaliação é apenas uma etapa

A conclusão do processo de Teste e Avaliação será um marco importante, mas não deve ser confundida com o encerramento do programa.

A avaliação militar precisa demonstrar que o equipamento atende aos requisitos estabelecidos. Depois disso, entram questões igualmente importantes: produção em escala, qualificação industrial, cadeia de fornecedores, manutenção, atualização de software, treinamento dos operadores e integração com os sistemas de comando e controle utilizados pelas Forças. É nessa transição que muitos projetos tecnológicos encontram seu maior desafio.

Desenvolver um protótipo funcional demonstra capacidade de engenharia. Produzir centenas ou milhares de equipamentos com qualidade e regularidade é uma questão industrial. Mantê-los atualizados durante décadas é, por sua vez, um desafio de sustentabilidade tecnológica. O RDS-Defesa terá de superar as três etapas.

Uma capacidade que precisa continuar evoluindo

A própria evolução do projeto demonstra que o desenvolvimento de um rádio militar moderno não termina com a homologação de uma determinada versão.

O Exército mantém pesquisas relacionadas a novas arquiteturas, algoritmos e formas de onda. Para 2026, documentos oficiais registram, por exemplo, atividades de pesquisa da IMBEL relacionadas à otimização do uso do espectro em redes de rádios definidos por software e ao desenvolvimento de algoritmos aplicados às versões Portátil e Manpack do RDS-Defesa.

Isso indica que a tecnologia está sendo tratada como uma capacidade em evolução, e não simplesmente como um produto fechado.

Essa abordagem é importante porque o ciclo tecnológico dos sistemas de comunicação é significativamente mais curto do que o ciclo de vida das plataformas militares nas quais eles são empregados.

Um rádio instalado hoje em uma viatura, navio ou aeronave poderá precisar receber novas funcionalidades muito antes de a plataforma ser retirada de serviço. O desafio de transformar tecnologia em escala

O próximo passo estratégico será transformar o conhecimento acumulado pelo projeto em capacidade industrial efetiva.

A possibilidade de licenciamento da tecnologia para a indústria nacional é particularmente importante nesse processo. Historicamente, o RDS-Defesa foi concebido com essa perspectiva: permitir que tecnologias desenvolvidas no ambiente de ciência e tecnologia militar chegassem à indústria brasileira, criando condições para a produção nacional e para a prestação de serviços associados à atualização e evolução dos equipamentos.

A participação da IMBEL nesse processo ganha importância justamente por sua posição dentro da estrutura da Base Industrial de Defesa.

Mais do que fornecer um equipamento às Forças Armadas, o objetivo estratégico é criar uma cadeia capaz de produzir, manter e aperfeiçoar a solução ao longo do tempo.

Um projeto estratégico para as comunicações militares brasileiras

O RDS-Defesa chega, portanto, a um momento particularmente importante de sua trajetória. Depois de anos de pesquisa, desenvolvimento, integração e testes, o projeto se aproxima da etapa em que seus resultados precisarão ser convertidos em capacidade operacional e industrial.

A participação conjunta do Exército, da Marinha e da Força Aérea amplia a relevância do programa porque permite trabalhar com uma arquitetura comum de comunicações e reforçar a interoperabilidade entre as Forças.

Ao mesmo tempo, a possibilidade de produção nacional reduz a distância entre desenvolvimento tecnológico e capacidade industrial, criando condições para que o País tenha maior controle sobre uma área sensível das operações militares.

O verdadeiro resultado estratégico do RDS-Defesa, contudo, será medido não apenas pela conclusão da avaliação ou pela entrada dos primeiros equipamentos em serviço.

Será determinado pela capacidade de transformar o conhecimento desenvolvido no País em uma cadeia permanente de produção, manutenção, atualização e evolução tecnológica.

No ambiente militar no qual informação e comando dependem cada vez mais da capacidade de operar no espectro eletromagnético, dominar os meios de comunicação deixou de ser apenas uma questão de equipar as tropas. É uma questão de preservar liberdade de ação.


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