Diferenças de configuração, escopo contratual, pós-venda, transferência de tecnologia e maturidade logística mostram por que comparar apenas o preço nominal de uma fragata pode levar a conclusões equivocadas
A aquisição de três fragatas FREMM EVO pela Marinha Portuguesa abriu uma discussão que vai muito além do valor anunciado para o programa. O acordo firmado entre Portugal e Itália prevê um investimento de aproximadamente €3,9 bilhões, com as três embarcações construídas pela italiana Fincantieri e entregues entre 2029 e 2030. O entendimento foi formalizado em 20 de julho de 2026, no âmbito do instrumento europeu SAFE.
O número chamou atenção principalmente quando colocado ao lado do contrato italiano firmado em julho de 2024 para duas FREMM EVO, avaliado oficialmente em aproximadamente €1,5 bilhão. Na divisão aritmética mais simples, o programa português representaria cerca de €1,3 bilhão por navio, enquanto o italiano corresponde a aproximadamente €750 milhões por unidade. Essa diferença, porém, não permite concluir que Portugal esteja simplesmente pagando mais caro pela mesma fragata, os dois contratos não devem ser tratados como se fossem equivalentes.
A comparação precisa considerar o que cada acordo efetivamente entrega, em que momento foi assinado, quais são as condições de fornecimento e principalmente, quais estruturas de apoio e sustentação estão associadas à aquisição.
O que está sendo comparado?
O contrato italiano foi assinado pela OCCAR e pela Orizzonte Sistemi Navali, empresa formada pela Fincantieri e a Leonardo, para a construção de duas novas FREMM EVO destinadas à Marina Militare. As unidades têm entrega prevista para 2029 e 2030.
Já o acordo português prevê três FREMM EVO e inclui, segundo o Ministério da Defesa português, o pós-venda (sustentação), a transferência de tecnologia e as demais condições necessárias à exploração operacional dos navios durante um ciclo de vida não inferior a 30 anos. O programa também contempla cooperação com a indústria de defesa portuguesa e a revitalização do Arsenal do Alfeite, essa diferença é fundamental.
O valor divulgado para Portugal não deve ser interpretado simplesmente como o preço de três cascos equipados. O próprio Governo português apresenta o programa como uma aquisição de capacidade naval acompanhada de elementos destinados à operação e sustentação dos navios ao longo de décadas. Por isso, transformar os €3,9 bilhões em um simples "preço por fragata" pode distorcer a comparação.
Uma família de navios, mas não necessariamente o mesmo pacote
A FREMM EVO é a evolução da família FREMM desenvolvida para as necessidades das marinhas italiana e francesa. No caso italiano, as duas novas unidades representam uma evolução das capacidades já incorporadas à frota.
A diferença de contexto é relevante porque a Itália não está começando do zero. A Marina Militare informa que as duas FREMM EVO se juntarão às 10 fragatas FREMM da classe Bergamini atualmente em serviço. A OCCAR também registra que as dez unidades italianas da geração anterior foram entregues até 2025, enquanto as duas novas EVO representam a continuidade do programa.
Isso significa que a Marinha italiana já possui pessoal especializado, conhecimento operacional, processos de manutenção, cadeia logística, documentação, infraestrutura e experiência acumulada com a família FREMM. Já Portugal está frente a um cenário diferente.
A aquisição representa a entrada de uma nova família de fragatas na Marinha Portuguesa, o que exige não apenas preparar as tripulações, mas estabelecer uma estrutura nacional capaz de sustentar a nova plataforma. É justamente essa diferença que precisa ser considerada quando os valores dos dois programas são colocados lado a lado.
O contrato português vai além da construção
O acordo português estabelece um ciclo de vida de pelo menos 30 anos e prevê suporte, transferência de tecnologia e condições necessárias para a exploração operacional das fragatas. Também está prevista forte participação da indústria portuguesa e a revitalização do Arsenal do Alfeite.
Em agosto, o Ministério da Defesa português acrescentou uma informação relevante: a intenção é que a sustentação do ciclo de vida dos navios, sistemas e armamentos seja realizada integralmente em Portugal, com a revitalização do Arsenal do Alfeite como parte desse processo.
Segundo a pasta, apenas casos pontuais envolvendo tecnologias proprietárias de terceiros poderão exigir mecanismos internacionais de sustentação. O ministério afirmou ainda que a sustentação poderá representar mais de 85% do valor global de manutenção dos meios. Esse dado ajuda a compreender a dimensão do programa.
Portugal não está apenas comprando três navios construídos na Itália. Está tentando criar as condições para que esses navios sejam mantidos em território português durante sua vida operacional, e isso tem um custo.
Mas também representa uma tentativa portuguesa de transformar uma aquisição de defesa em capacidade industrial permanente.
A diferença entre comprar um navio e adquirir uma capacidade
Programas navais modernos exigem uma estrutura que vai muito além do estaleiro responsável pela construção. Depois que uma fragata entra em serviço, começam os desafios relacionados a manutenção preventiva e corretiva, disponibilidade de sobressalentes, atualização de softwares, modernização de sensores, sistemas de combate, armamentos e equipamentos eletrônicos, além da formação e retenção de pessoal especializado.
Existe ainda o problema da obsolescência. Um componente eletrônico instalado em um navio novo pode deixar de ser produzido antes do fim da vida útil da plataforma. Sem planejamento, a indisponibilidade de uma peça relativamente pequena pode comprometer um sistema inteiro, e em determinadas circunstâncias, limitar a disponibilidade operacional do navio. É por isso que programas navais maduros tratam o Apoio Logístico Integrado e a Gestão do Ciclo de Vida como parte da própria capacidade de combate.
A Itália possui uma vantagem evidente nesse aspecto: já opera uma frota de FREMM consolidada e mantém uma estrutura industrial diretamente associada ao projeto, enquanto Portugal terá de desenvolver essa estrutura simultaneamente à entrada em serviço das novas unidades.
A logística também é uma questão de soberania
A decisão portuguesa de associar a aquisição à revitalização do Arsenal do Alfeite é particularmente relevante. A intenção declarada pelo Governo é criar em Portugal as capacidades necessárias para a manutenção integrada da frota, reduzindo a dependência de deslocamentos para estaleiros estrangeiros e formando competências nacionais para sustentar os novos navios.
Esse aspecto merece atenção porque uma fragata pode ser construída em um país e ainda assim permanecer dependente de outro para sua manutenção. A soberania industrial, portanto, não termina no momento em que o navio deixa o estaleiro, ela está diretamente relacionada à capacidade de manter o meio disponível, realizar reparos, atualizar sistemas, produzir ou obter peças críticas e preservar o conhecimento necessário para intervir na plataforma.
O paralelo brasileiro com as Tamandaré
É nesse ponto que o Programa Fragatas Classe Tamandaré oferece um exemplo particularmente interessante, com Brasil adotando uma estratégia diferente da portuguesa.
Em vez de simplesmente adquirir navios estrangeiros já construídos, o Brasil estruturou o programa para construir quatro fragatas em território nacional, por meio da SPE Águas Azuis, com participação da indústria nacional e transferência de tecnologia.
A Marinha destaca que o programa tem como objetivo renovar a Esquadra com quatro navios de alta complexidade tecnológica construídos no Brasil, com a perspectiva do segundo lote já previsto pelo MoU assinado em abril.
A EMGEPRON informou que o contrato incorpora Apoio Logístico Integrado, incluindo treinamento, sobressalentes e equipamentos de base para o período inicial de dois anos, além de elementos relacionados à transferência de tecnologia e à gestão do ciclo de vida.
Isso demonstra que o Brasil também reconheceu, desde a estruturação do programa, que construir uma fragata é apenas uma etapa. A questão passa a ser como sustentar o navio depois da entrega. O desafio brasileiro é maior justamente porque existe uma ambição industrial
O caso brasileiro possui uma particularidade, a construção das Tamandaré não busca apenas renovar os meios de superfície da Marinha. O programa também está associado ao fortalecimento da indústria naval e da Base Industrial de Defesa.
A Marinha destaca a transferência de tecnologia de processos de construção e a participação da indústria nacional no programa. Isso cria uma oportunidade estratégica, mas também aumenta a responsabilidade brasileira, quanto maior a participação nacional, maior a expectativa de que o conhecimento adquirido possa ser transformado em capacidade permanente de projeto, construção, manutenção, modernização e suporte.
A primeira Fragata Tamandaré já foi incorporada à Marinha, enquanto a segunda esta em testes de mar (F201) "Jerônimo de Albuquerque", a terceira unidade, "Cunha Moreira" (F202), foi lançada em Itajaí e a quarta unidade, "Mariz e Barros" (F203), teve sua construção iniciada.
O programa, portanto, já entrou na fase que a discussão sobre logística deixa de ser uma preocupação futura e passa a ser parte da realidade operacional da Força Naval Brasileira.
O que a experiência das Tamandaré ensina
A própria produção acadêmica da Marinha sobre o programa dedica atenção específica à Gestão do Ciclo de Vida e ao Apoio Logístico Integrado.
Estudos publicados no âmbito da Marinha tratam da necessidade de estruturar processos de apoio logístico, gestão de ciclo de vida e sustentabilidade operacional para meios navais de alta complexidade. Isso é importante porque a vida de uma fragata não termina quando ela é entregue à Força, pelo contrário, é depois da incorporação que começam alguns dos custos e desafios mais persistentes: manutenção, disponibilidade de peças, qualificação de pessoal, atualização tecnológica, gerenciamento de obsolescência, modernizações e integração de novos sistemas.
A experiência brasileira também mostra que a construção nacional não elimina automaticamente a dependência externa. Uma plataforma pode ser construída no Brasil e continuar utilizando componentes, sistemas ou tecnologias cuja manutenção dependa de fornecedores estrangeiros. A verdadeira autonomia, portanto, precisa ser analisada sistema por sistema.
Itália, Portugal e Brasil: três modelos diferentes
A comparação entre os três países permite visualizar três situações distintas:
Itália - A Itália possui uma base industrial consolidada e uma frota FREMM já operacional. As duas FREMM EVO contratadas em 2024 representam a evolução de uma capacidade existente. A Marina Militare possui dez FREMM Bergamini em serviço, enquanto as duas EVO ampliarão essa família.
O país, portanto, já possui experiência operacional, infraestrutura, pessoal especializado e cadeia de apoio associada à classe.
Portugal - Portugal está incorporando uma nova capacidade. O programa de três FREMM EVO, avaliado em aproximadamente €3,9 bilhões, inclui sustentação, transferência de tecnologia e condições para a exploração operacional por pelo menos 30 anos. O país também pretende fortalecer sua indústria e revitalizar o Arsenal do Alfeite para assumir a sustentação dos navios.
O custo maior por unidade, portanto, não pode ser interpretado automaticamente como sobrepreço. É necessário saber exatamente quanto do valor corresponde às plataformas, quanto está associado à sustentação, à transferência de tecnologia, à infraestrutura e aos demais elementos do pacote.
Brasil - O Brasil escolheu um modelo baseado na construção nacional de quatro fragatas, com participação da indústria brasileira, transferência de tecnologia e estruturação de Apoio Logístico Integrado.
O desafio brasileiro é transformar o conhecimento adquirido durante a construção em uma capacidade permanente de sustentar e modernizar a classe ao longo de sua vida útil.
Comparar preço sem comparar escopo é um erro
A comparação entre as FREMM EVO portuguesas e italianas é importante justamente porque mostra como números aparentemente objetivos podem esconder realidades completamente diferentes.
Em termos puramente nominais, os €3,9 bilhões anunciados para três fragatas portuguesas equivalem a aproximadamente €1,3 bilhão por unidade. O contrato italiano de €1,5 bilhão para duas unidades corresponde a cerca de €750 milhões por navio. Mas esses números não representam necessariamente a mesma coisa.
Sem conhecer a composição detalhada dos dois pacotes, não é tecnicamente correto afirmar que Portugal está pagando quase o dobro pelo mesmo navio. Da mesma forma, também seria precipitado utilizar a explicação logística como justificativa automática para toda a diferença de preço. O caminho correto é comparar os contratos pelo conteúdo, e não apenas pelo valor final.
O verdadeiro teste começa depois do lançamento
Existe uma característica comum entre os programas português e brasileiro. Nos dois casos, a questão decisiva não será apenas entregar navios modernos, será conseguir mantê-los disponíveis.
Portugal terá de transformar a revitalização do Arsenal do Alfeite, a transferência de tecnologia e a participação industrial anunciadas pelo Governo em capacidades efetivas de manutenção e modernização.
O Brasil terá de fazer algo semelhante com a estrutura criada em torno das Tamandaré, garantindo que a construção nacional produza também conhecimento e capacidade de sustentação para as próximas décadas.
A Itália parte de uma posição diferente porque já possui uma cadeia industrial e operacional madura para a família FREMM. É justamente essa diferença que ajuda a explicar por que o preço de uma fragata não pode ser analisado isoladamente.
A fragata é apenas o começo
O debate sobre as FREMM EVO portuguesas deixa uma lição que também vale para o Brasil. Uma fragata moderna não é simplesmente um navio de guerra. É uma combinação de plataforma, sensores, armas, softwares, sistemas de combate, pessoal, infraestrutura, treinamento, cadeia logística, sobressalentes, manutenção e capacidade de atualização. O preço de aquisição é apenas uma parte dessa equação.
Para a Itália, a FREMM EVO representa a evolução de uma capacidade já estabelecida, enquanto para Portugal, representa a construção de uma nova capacidade operacional e logística. Já para o Brasil, a Classe Tamandaré representa simultaneamente a renovação da Esquadra e uma tentativa de ampliar a autonomia industrial e tecnológica nacional.
Em todos os casos, porém, existe uma mesma pergunta que só poderá ser respondida ao longo do tempo: quantos desses navios estarão efetivamente disponíveis para cumprir suas missões quando forem necessários?
É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre o preço de uma fragata e passa a tratar do verdadeiro custo do poder naval: a capacidade de construir, operar, sustentar, modernizar e manter uma plataforma de combate pronta durante décadas.
Por Angelo Nicolaci
GBN Defense - A informação começa aqui





Nenhum comentário:
Postar um comentário