quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Brasil acelera integração de sistemas não tripulados na Defesa

 

A guerra na Ucrânia consolidou uma mudança que já vinha sendo percebida em outros conflitos: sistemas não tripulados deixaram de ser ferramentas de apoio e passaram a ocupar posição central nas operações. Drones de baixo custo convivem com plataformas sofisticadas de vigilância, reconhecimento e ataque, enquanto veículos autônomos ampliam a presença militar em ambientes onde o emprego de meios tripulados é mais caro, arriscado ou limitado.

É nesse contexto que o Brasil começa a buscar uma abordagem mais integrada para seus sistemas não tripulados. Nos dias 13 e 14 de agosto, o Ministério da Defesa reuniu especialistas do Exército, da Marinha e da Força Aérea na Escola Superior de Defesa, em Brasília, para apresentar projetos em andamento, identificar lacunas e discutir como ampliar a cooperação entre as três Forças.

A discussão mostra que o Brasil já possui diferentes capacidades, mas muitas delas evoluíram de forma relativamente independente dentro de cada Força. O desafio agora é transformar esses projetos em uma arquitetura conjunta, capaz de conectar sensores, plataformas, redes de comunicação, sistemas de comando e meios de atuação.

Na Marinha, essa evolução está diretamente relacionada ao monitoramento da Amazônia Azul. O SisGAAz poderá incorporar sistemas aéreos, de superfície e terrestres não tripulados para ampliar a vigilância de uma área marítima extensa e reduzir as limitações impostas pela necessidade de manter plataformas tripuladas permanentemente em determinadas áreas.

Essa busca por maior autonomia também passa pela indústria nacional. No final de junho, o Comando do Material de Fuzileiros Navais realizou a avaliação do SARP Harpia, desenvolvido pela brasileira ADTECH-SD. Empregado como plataforma de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (ISR), o sistema demonstrou capacidades de rápida implantação, mobilidade, robustez e simplicidade logística. Para uma Força de Fuzileiros Navais concebida para operar de forma expedicionária, essas características ampliam o valor do sistema, permitindo seu emprego onde e quando houver necessidade, inclusive em ambientes nos quais a disponibilidade de infraestrutura é limitada.

A avaliação do Harpia também mostra que a discussão sobre sistemas não tripulados já ultrapassa a fase de demonstrações tecnológicas. Ao colocar uma solução desenvolvida pela indústria brasileira sob avaliação de uma Força operacional, a Marinha aproxima a tecnologia das necessidades reais do campo de batalha e cria um caminho para aperfeiçoar capacidades nacionais de ISR.

Entre os projetos navais está ainda o desenvolvimento de sistemas para controlar remotamente veículos autônomos de superfície. O sistema PRIMA, desenvolvido pelo Centro de Análises de Sistemas Navais (CASNAV), já foi instalado no Navio-Aeródromo Multipropósito Atlântico e no Navio Doca Multipropósito Bahia, permitindo que as duas plataformas funcionem como estações de controle. A tecnologia foi empregada em 2023 durante uma operação de Garantia da Lei e da Ordem na Baía de Guanabara.

No Exército, os investimentos abrangem diferentes categorias. A Força já emprega drones de curto e médio alcance, incluindo sistemas XMOBOTS e Nauru, enquanto estuda capacidades de maior alcance e potencialmente armadas. Também estão em desenvolvimento projetos de veículos terrestres não tripulados em parceria com a brasileira Taurus, a Otokar da Türkiye, e a EDGE dos Emirados, com alguns sistemas previstos para serem testados ainda neste ano durante a Operação Perseu.

A Força Aérea, por sua vez, possui uma experiência mais consolidada com sistemas remotamente pilotados. O RQ-900 é empregado há cerca de 15 anos a partir da Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Com autonomia de aproximadamente oito horas, alcance superior a 1.000 quilômetros e sensores para operações diurnas e noturnas, o sistema também foi utilizado recentemente no apoio às operações de busca e localização de vítimas durante as enchentes no Rio Grande do Sul.

O próximo passo da FAB está justamente na tentativa de ampliar a capacidade nacional. Por meio do projeto RQ-XBR, conduzido no âmbito da Comissão Coordenadora do Programa Aeronave de Combate (COPAC), a Força está identificando empresas brasileiras capazes de desenvolver sistemas de aeronaves remotamente pilotadas. A iniciativa busca mapear competências existentes na indústria e criar condições para o desenvolvimento de uma capacidade nacional.

Essa preocupação aparece de maneira semelhante nas três Forças: adquirir sistemas estrangeiros pode resolver uma necessidade operacional imediata, mas não necessariamente garante autonomia no longo prazo. Como destacado pelo Exército durante o encontro, tecnologias militares críticas dificilmente são transferidas integralmente pelos fornecedores. Por isso, quando a aquisição externa é necessária, a transferência de tecnologia passa a ser um elemento importante para permitir a evolução futura da capacidade nacional.

O problema é que a tecnologia também avança mais rapidamente do que os ciclos tradicionais de aquisição militar. Inteligência artificial, autonomia, sensores, processamento de dados e comunicações estão modificando continuamente as possibilidades de emprego. Para o Ministério da Defesa, o risco não é apenas deixar de possuir determinada capacidade, mas investir em uma solução que já esteja próxima da obsolescência quando finalmente entrar em serviço.

A experiência portuguesa apresentada durante o encontro oferece uma referência interessante. A Marinha de Portugal criou uma estrutura própria de inovação e experimentação justamente para responder a lacunas que não estavam sendo solucionadas pela indústria. O resultado inclui uma nova geração de navios preparados para operar sistemas aéreos, de superfície e subaquáticos de maneira integrada, como o futuro NRP D. João II.

Para o Brasil, a questão central passa a ser menos quantos drones cada Força possui e mais como essas plataformas serão conectadas ao restante da estrutura militar. A experiência dos conflitos recentes mostra que o valor de um sistema não tripulado aumenta quando ele consegue compartilhar dados com outros sensores, alimentar sistemas de comando e controle e participar de um ciclo rápido entre detecção, decisão e ação.

O encontro promovido pelo Ministério da Defesa indica que essa discussão começa a ganhar uma dimensão conjunta no Brasil. O próximo desafio será transformar projetos que ainda caminham em diferentes estágios em capacidades interoperáveis, com escala industrial, doutrina própria e menor dependência tecnológica externa. Nesse processo, iniciativas como a avaliação do Harpia pelos Fuzileiros Navais mostram que a Base Industrial de Defesa brasileira já pode participar de uma transformação que não se resume à aquisição de drones, mas envolve a construção de uma nova arquitetura de vigilância, comando e atuação para as Forças Armadas.


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com Marinha do Brasil

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