Em meio à aceleração da rivalidade entre grandes potências e à consolidação de um sistema internacional multipolar, o Brasil insiste em sustentar o discurso da neutralidade como eixo central de sua política externa. Apresentada como virtude diplomática, essa postura é frequentemente associada à tradição pacífica do país, à ausência de inimigos declarados e à preferência histórica pelo diálogo. No entanto, à luz da realidade estratégica contemporânea, a neutralidade brasileira revela-se menos uma escolha soberana e mais um mito conveniente, sustentado por premissas que já não se aplicam ao mundo real.
A neutralidade, na teoria clássica das relações internacionais, nunca foi um valor moral em si. Sempre foi uma condição estratégica. Estados neutros só foram respeitados quando possuíam capacidade concreta de dissuasão, controle territorial e autonomia decisória. Suíça, Suécia durante a Guerra Fria e, em certa medida, a Finlândia, não foram neutras por fragilidade, mas por força. Investiram pesadamente em defesa, controle de fronteiras, mobilização nacional e preparo da sociedade para o conflito. A neutralidade era crível porque custava caro violá-la.
No caso brasileiro, o discurso da neutralidade não é acompanhado por capacidade material compatível. O país não dispõe de meios suficientes para negar o uso de seu espaço aéreo em um cenário de crise, não possui capacidade naval para controlar suas águas jurisdicionais de forma contínua, tampouco apresenta uma estrutura de defesa integrada capaz de impor custos significativos a atores externos. Neutralidade sem capacidade de defesa não é neutralidade: é vulnerabilidade estratégica.
No mundo multipolar, o poder não se exerce apenas por meios militares diretos. As pressões contemporâneas são silenciosas, graduais e muitas vezes invisíveis ao debate público. Elas se manifestam no controle de cadeias de suprimento, na dependência tecnológica, na manipulação de fluxos financeiros, no acesso a dados estratégicos, na influência sobre infraestrutura crítica e, sobretudo, no condicionamento do comércio de commodities. Países que se dizem neutros, mas dependentes, tornam-se alvos preferenciais desse tipo de coerção.
O Brasil, grande exportador de alimentos, minérios e energia, encontra-se especialmente exposto. A ausência de uma política clara de proteção de dados, de soberania digital e de controle sobre ativos estratégicos amplia o poder de barganha de atores externos. Pressões sobre certificações ambientais, padrões regulatórios, financiamento internacional e acesso a mercados funcionam como instrumentos de alinhamento indireto. Não se trata de invasão ou ultimato formal, mas de constrangimento estrutural.
Nesse contexto, a neutralidade brasileira corre o risco de se transformar em alinhamento forçado por omissão. Ao evitar escolhas estratégicas claras e ao não investir na construção de capacidades nacionais, o país reduz seu espaço de manobra. A ausência de posicionamento firme não preserva autonomia; ao contrário, transfere a iniciativa aos atores mais fortes, que passam a definir os limites do possível para o Estado brasileiro.
Há ainda um equívoco conceitual recorrente: confundir não alinhamento automático com neutralidade estratégica. Um país pode evitar alianças rígidas e, ainda assim, construir poder, definir linhas vermelhas e proteger interesses vitais. O problema surge quando o discurso da neutralidade é utilizado como substituto para a ausência de estratégia, planejamento e investimento. Nesse caso, a política externa deixa de ser instrumento de poder e passa a ser narrativa de autojustificação.
A insistência brasileira na neutralidade ocorre em um momento em que o sistema internacional se torna menos tolerante à ambiguidade. Conflitos regionais, disputas por tecnologia, energia e alimentos, e a fragmentação das cadeias globais de valor exigem posicionamentos mais claros, ainda que pragmáticos. Países intermediários que não constroem poder próprio tendem a ser pressionados a escolher lados em condições desfavoráveis.
O risco é evidente: uma neutralidade fraca não protege a soberania, apenas a adia. Quando a coerção se intensifica, Estados despreparados são compelidos a concessões assimétricas, seja no campo econômico, regulatório ou político. Nesse cenário, a neutralidade deixa de ser instrumento de preservação da paz e se converte em submissão estratégica disfarçada.
Para que a neutralidade seja uma opção real, o Brasil precisaria investir de forma consistente em defesa, inteligência, proteção de infraestrutura crítica, soberania tecnológica e integração nacional. Precisaria também alinhar política externa, política industrial e política de defesa em um projeto coerente de poder. Sem isso, o discurso neutral torna-se apenas retórica, incapaz de resistir às dinâmicas duras do sistema internacional.
O mundo multipolar não pune a neutralidade; pune a fraqueza. E, no atual estágio, o maior perigo para o Brasil não é escolher um lado, mas continuar acreditando que pode permanecer indefinidamente fora do jogo sem pagar o preço. A neutralidade, quando não é sustentada por poder, deixa de ser estratégia e passa a ser ilusão — confortável no discurso, perigosa na prática.
por Angelo Nicolaci
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