domingo, 25 de janeiro de 2026

Editorial - Brasil em regressão estratégica: soberania, poder e responsabilidade histórica em 2026

Ao longo dos últimos três anos, tornou-se cada vez mais difícil sustentar a narrativa de que o Brasil segue uma trajetória consistente de ascensão no sistema internacional. O que se observa, com crescente nitidez, é um processo de regressão estratégica em múltiplas dimensões, econômica, institucional, militar e moral, justamente em um momento em que o ambiente global se torna mais instável, competitivo e intolerante à fragilidade dos Estados.

A economia brasileira ingressou em um ciclo de enfraquecimento estrutural, marcado por baixo crescimento, perda de produtividade, insegurança jurídica e aumento da carga tributária real. Medidas apresentadas como avanço social, como a elevação do teto de isenção do Imposto de Renda, foram acompanhadas por exigências que ampliaram o controle estatal sobre trabalhadores autônomos, informais e pequenos empreendedores. A obrigatoriedade de declaração, a indução ao registro como MEI ou pessoa jurídica e o endurecimento da fiscalização transformaram a formalização em instrumento de ampliação da arrecadação, sem contrapartidas proporcionais em serviços públicos ou estímulos consistentes à atividade produtiva.

O reforço do controle sobre movimentações bancárias e transações financeiras aprofundou a percepção de vigilância permanente sobre a sociedade. Ainda que justificadas como instrumentos de combate à evasão fiscal e a ilícitos financeiros, tais medidas afetam de forma desproporcional os mais pobres e os pequenos agentes econômicos, comprimindo a liquidez, desestimulando o empreendedorismo e corroendo a confiança no Estado. Nenhum projeto nacional de poder se sustenta quando a base produtiva é sufocada e a relação entre Estado e sociedade passa a ser mediada pelo medo e pela desconfiança.

Esse quadro interno projeta efeitos diretos sobre a dimensão estratégica. Nos últimos anos, o Brasil promoveu sucessivos cortes e contingenciamentos em orçamentos sensíveis da Defesa, afetando programas estruturantes, a prontidão operacional das Forças Armadas e a previsibilidade necessária à base industrial de defesa. A descontinuidade de projetos, o atraso na modernização de meios e a redução de investimentos em ciência, tecnologia e inovação ampliaram o hiato em relação às grandes potências e mesmo a países de porte intermediário.

Com um sistema internacional no qual a dissuasão depende não apenas de arsenais, mas de credibilidade, presença e capacidade de resposta, essa fragilização produz efeitos imediatos sobre a percepção externa do Brasil. Ser ouvido não é suficiente quando não se dispõe de meios para sustentar posições. A perda de capacidade militar não implica guerra iminente, mas reduz drasticamente a autonomia estratégica, empurrando o país para relações assimétricas e concessões políticas indesejáveis.

Paralelamente, a imagem internacional do Brasil vem sendo impactada pela deterioração da percepção de transparência institucional e segurança jurídica. Relatórios, análises de risco e avaliações de investidores passaram a registrar crescente preocupação com a previsibilidade regulatória, a estabilidade das regras e a independência efetiva das instituições. Em um mundo marcado por competição entre Estados, reputação institucional tornou-se ativo estratégico de primeira ordem.

Nesse contexto, ganha relevo o papel ambíguo desempenhado pelo Supremo Tribunal Federal. Sob o discurso da defesa da democracia, a Corte passou a atuar de forma cada vez mais expansiva, acumulando funções, relativizando garantias processuais e conduzindo ações percebidas, interna e externamente, como seletivas. A judicialização da política, quando associada à repressão do dissenso sob justificativas amplas e pouco delimitadas, compromete a credibilidade do próprio sistema democrático que se pretende preservar.

Do ponto de vista estratégico, a erosão da separação de poderes e da previsibilidade jurídica enfraquece a autoridade moral do Estado brasileiro. Democracias sólidas não se afirmam pela supressão do conflito político, mas pela capacidade de administrá-lo dentro do Estado de Direito. Quando a defesa da democracia se converte em instrumento de exclusão, o resultado é a fragilização institucional e a perda de legitimidade internacional.

Essas vulnerabilidades se somam às fragilidades estruturais já conhecidas. A questão amazônica continua sendo explorada por meio de estratégias indiretas e progressivas de pressão internacional, agora potencializadas pela dependência tecnológica, informacional e financeira. A ausência de uma política de Estado consistente para integração, controle e desenvolvimento da região amplia o risco de erosão gradual da soberania, não por ocupação formal, mas por condicionamento externo das decisões nacionais.

A esse quadro soma-se um fator decisivo: 2026 é ano eleitoral. Em contextos de regressão estratégica, eleições deixam de ser apenas um rito democrático e passam a representar momentos críticos de inflexão histórica. A escolha dos representantes para o Congresso Nacional, o Senado Federal, os governos estaduais e, sobretudo, para a Presidência da República terá impacto direto sobre a capacidade do Brasil de reverter ou aprofundar o atual processo de declínio.

Sem um Congresso comprometido com responsabilidade fiscal, visão estratégica e fortalecimento institucional, qualquer projeto de recuperação nacional torna-se inviável. Sem governadores capazes de articular desenvolvimento regional, segurança pública e atração de investimentos, a federação se fragiliza. E sem uma liderança presidencial dotada de autoridade moral, capacidade técnica e visão de longo prazo, o país permanece prisioneiro de agendas imediatistas e disputas ideológicas estéreis.

A responsabilidade da sociedade brasileira, portanto, é central. O voto em 2026 não pode ser orientado por retórica, ressentimento ou promessas fáceis. Exige consciência cívica, maturidade política e compreensão de que decisões eleitorais produzem efeitos estratégicos de longo prazo. Potências não se constroem apenas com território e população, mas com escolhas coletivas responsáveis.

Nesse sentido, a recuperação nacional passa necessariamente por investimento sério, contínuo e mensurável em educação. Não apenas na educação básica, mas na formação técnica, profissional e científica alinhada às exigências do século XXI. Países que disputam espaço no sistema internacional investem sistematicamente em capital humano, engenharia, inovação, tecnologia e gestão. Sem isso, o Brasil permanecerá vulnerável, dependente e periférico.

O estímulo ao empreendedorismo e à atração de investimentos exige um ambiente institucional saudável. Segurança jurídica, estabilidade regulatória, respeito a contratos e combate efetivo à corrupção são condições indispensáveis. Escândalos recorrentes envolvendo instituições financeiras, estatais e estruturas associadas ao poder ampliam a percepção de risco, afastam investimentos produtivos e reforçam a imagem de um Estado incapaz de se autorregular.

Historicamente, potências não entram em declínio por derrotas militares súbitas, mas por exaustão interna. Crises fiscais prolongadas, perda de dinamismo econômico, fragmentação institucional, desmoralização das lideranças e ruptura do pacto social precedem a perda de poder. Em 2026, o Brasil apresenta sinais claros desse processo, ainda reversível, mas em estágio avançado.

A reversão dessa trajetória exige mais do que ajustes pontuais. Exige reconstrução da confiança entre Estado e sociedade, retomada do investimento estratégico em Defesa, ciência e tecnologia, restauração da segurança jurídica, fortalecimento da educação e reafirmação inequívoca das liberdades democráticas. Sem coesão interna, autoridade moral e capacidade material, não há diplomacia que sustente protagonismo internacional.

O maior risco que o Brasil enfrenta hoje não é o confronto direto com potências externas, mas a perda gradual de relevância por implosão interna. Em um sistema internacional cada vez mais duro e menos tolerante à fragilidade estatal, a regressão estratégica não é apenas um problema político ou econômico. É uma ameaça direta à soberania nacional e uma responsabilidade histórica que recai, em última instância, sobre as escolhas feitas pela própria sociedade brasileira.

A esse cenário de fragilidade econômica, institucional e estratégica soma-se um problema recorrente da trajetória recente do Estado brasileiro: a persistência de práticas que combinam elevados níveis de gasto público, baixa eficiência administrativa e sucessivos episódios de má gestão e desvios de recursos. Independentemente da retórica adotada, o histórico dos últimos ciclos de governo revela a dificuldade crônica em romper com padrões de aparelhamento institucional, uso político da máquina pública e tolerância a falhas graves de governança.

A repetição de escândalos envolvendo estatais, instituições financeiras, fundos e estruturas vinculadas ao Estado não pode ser interpretada apenas como fruto de erros individuais ou circunstanciais. Ela revela deficiências estruturais nos mecanismos de controle, transparência e responsabilização, agravadas por ambientes de concentração de poder, fiscalização limitada e enfraquecimento dos freios institucionais. Em termos estratégicos, essa recorrência corrói a credibilidade do país, amplia a percepção de risco e reduz a confiança de parceiros externos e investidores.

Paralelamente, observa-se o crescimento contínuo da máquina pública, com a expansão de ministérios, secretarias, cargos comissionados e estruturas administrativas cuja utilidade prática e retorno social são frequentemente questionáveis. Esse inchaço do Estado não se traduz em melhoria proporcional dos serviços prestados à população, mas eleva significativamente o custo de funcionamento do governo e aumenta a rigidez do orçamento público.

Uma administração pública cara e pouco funcional impõe custos estratégicos elevados ao país. Recursos escassos são absorvidos pelo custeio da estrutura estatal, limitando investimentos em áreas críticas como educação, defesa, ciência, tecnologia, infraestrutura e inovação. Em um contexto de restrição fiscal, essa escolha revela prioridades que favorecem a preservação de arranjos políticos e burocráticos em detrimento da construção de capacidades nacionais de longo prazo.

Do ponto de vista externo, a combinação entre histórico recorrente de escândalos, corrupção, expansão do gasto público improdutivo e baixa eficiência administrativa reforça a imagem de um Estado pouco previsível e institucionalmente frágil. Isso se reflete no aumento do risco percebido, na retração de investimentos produtivos e na dificuldade de inserção do Brasil em cadeias globais de maior valor agregado.

Mais preocupante é o efeito cumulativo desse modelo sobre a sociedade. A normalização da ineficiência e da má governança alimenta o ceticismo, enfraquece a confiança nas instituições e reduz o engajamento cívico. Sem pressão consistente por ética, racionalidade administrativa e responsabilidade no uso dos recursos públicos, o sistema tende a se perpetuar, aprofundando o ciclo de estagnação e regressão estratégica.

Com o ambiente internacional marcado por competição intensa e baixa tolerância à fragilidade estatal, governança deficiente, ineficiência administrativa e desperdício de recursos não são apenas problemas internos. Constituem vulnerabilidades estratégicas que limitam a autonomia, reduzem a capacidade de projeção e comprometem o futuro do país.


por Angelo Nicolaci


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