Acordos com três empresas dinamarquesas reforçam a estratégia francesa para disputar o programa de novas fragatas da Marinha Real Dinamarquesa, com participação industrial local e suporte ao longo do ciclo de vida dos navios.
A Naval Group intensificou sua campanha para conquistar o programa de novas fragatas da Marinha Real Dinamarquesa ao formalizar acordos de cooperação com três empresas do país. Em 21 de outubro, durante um evento da indústria de defesa realizado em Copenhague, o estaleiro francês assinou memorandos de entendimento com a Copenhagen Global, a Saab Danmark e a SH Defence, estruturando a participação de fornecedores dinamarqueses em sua proposta para a fragata FDI (Frégate de Défense et d’Intervention).
A iniciativa vai além da oferta de uma plataforma naval. A Naval Group afirma estar preparada para construir e manter as fragatas na própria Dinamarca, caso seu projeto seja selecionado. A proposta busca atender ao interesse dinamarquês em ampliar a participação da indústria nacional em programas estratégicos, incluindo a construção, a integração de equipamentos e o suporte durante a vida útil dos navios.
Três acordos para ampliar a participação industrial dinamarquesa
Os memorandos estabelecem áreas distintas de cooperação, abrangendo sistemas não tripulados, comunicações e soluções modulares para operações navais. A Copenhagen Global deverá cooperar no desenvolvimento e na integração de drones, sistemas autônomos e cargas úteis militares. Já o acordo com a Saab Danmark contempla equipamentos de comunicação, enquanto a SH Defence participará de atividades de pesquisa e desenvolvimento relacionadas a módulos de missão transportados em contêineres, sistemas de lançamento e recuperação de drones e equipamentos de mergulho.
Essas áreas podem contribuir para ampliar a flexibilidade operacional das futuras fragatas, permitindo explorar soluções modulares e a integração de sistemas não tripulados. Entretanto, os memorandos estabelecem uma estrutura de cooperação industrial e não representam, por si só, contratos definitivos para fornecimento de equipamentos ou a configuração final das embarcações dinamarquesas.
Guillaume Weisrock, vice-presidente sênior de vendas da Naval Group para a Europa e América do Norte, destacou a relação já estabelecida com os parceiros e a intenção de aprofundar essa cooperação no âmbito da proposta francesa.
Segundo o executivo, a experiência acumulada pela empresa em programas internacionais poderá ser aproveitada na Dinamarca, caso a FDI seja escolhida. A companhia afirma que, com seus parceiros locais, possui condições de construir e manter a fragata no país.
Experiência internacional como argumento comercial
A Naval Group afirma ter trabalhado com mais de 20 empresas dinamarquesas nos últimos 15 anos e manter relações com quase 50 companhias do país. O estaleiro também busca ampliar essa rede, convidando novos fornecedores a participar tanto da proposta para a Marinha Real Dinamarquesa quanto de sua cadeia internacional de suprimentos, incluindo atividades de manutenção e suporte em serviço.
Como referência, a empresa cita sua experiência na Grécia, onde envolveu mais de 75 parceiros industriais gregos na produção das fragatas FDI e em outros programas. A participação local é um elemento importante da estratégia francesa para demonstrar que a aquisição de seus navios pode gerar oportunidades industriais para além do estaleiro responsável pela construção.
A experiência sueca também reforça essa abordagem. A Naval Group conquistou o contrato para fornecer quatro fragatas FDI à Suécia, em um programa que prevê a integração de equipamentos suecos às embarcações. A participação da Saab nesse processo demonstra como a plataforma francesa pode incorporar soluções de parceiros estrangeiros, embora os requisitos e a configuração de cada programa dependam das necessidades do respectivo cliente.
FDI disputa espaço em um mercado europeu competitivo
A campanha na Dinamarca ocorre em um momento de expansão dos investimentos europeus em defesa naval. Em outubro, a Reuters informou que clientes europeus fora da França já respondiam por aproximadamente 20% a 25% do faturamento anual da Naval Group, estimado em € 4,7 bilhões. A empresa atribui parte de sua competitividade à existência de uma linha de produção ativa e à capacidade de entregar navios em prazos relativamente curtos.
A FDI já foi encomendada por França, Grécia e Suécia, totalizando 13 unidades contratadas segundo os dados divulgados pela Naval Group. Esse volume oferece à empresa uma base industrial em produção, experiência acumulada e oportunidades para compartilhar soluções e componentes entre diferentes programas, respeitando as particularidades de cada marinha.
Para a Dinamarca, a decisão não se limitará às características técnicas da fragata. A capacidade de defesa aérea, a integração de sensores e armamentos, os prazos de entrega, os custos de aquisição e operação e a participação da indústria nacional serão fatores relevantes na avaliação das propostas concorrentes.
A Naval Group enfrenta outros fornecedores interessados no programa dinamarquês, entre eles a britânica Babcock, que promove a fragata Arrowhead 140 em parceria com empresas locais. A disputa também envolve a capacidade de cada concorrente de apresentar uma solução industrial compatível com as exigências de Copenhague.
Uma proposta ainda dependente da decisão dinamarquesa
Os acordos assinados em Copenhague fortalecem a estrutura industrial apresentada pela Naval Group, mas não significam que a FDI tenha sido selecionada. A construção local e a manutenção das embarcações continuam condicionadas à escolha do projeto francês e à definição dos termos contratuais.
Ao buscar parceiros dinamarqueses antes da decisão, a Naval Group procura demonstrar que sua oferta pode combinar uma fragata já em produção com a participação de empresas locais em diferentes etapas do programa. O desafio será transformar essa rede de cooperação em compromissos industriais concretos, com responsabilidades, investimentos e distribuição de trabalho definidos.
A disputa evidencia uma tendência importante no mercado naval europeu: a escolha de um navio de guerra envolve cada vez mais do que a plataforma e seus sistemas de combate. A capacidade de sustentar a frota, desenvolver competências nacionais e manter o acesso à tecnologia ao longo de décadas também integra o valor estratégico de uma aquisição.
Para a Naval Group, a Dinamarca representa uma nova oportunidade de ampliar a presença da FDI no norte da Europa. Para Copenhague, a questão será determinar qual proposta oferece o melhor equilíbrio entre capacidade militar, prazo de entrega, custo de ciclo de vida e fortalecimento da base industrial de defesa nacional.
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