terça-feira, 6 de outubro de 2026

Depois da Ucrânia: MMBT ou MBT, qual carro de combate o Brasil realmente precisa?

No último dia 5 de outubro, o GBN Defense publicou uma análise sobre uma das conclusões mais distorcidas produzidas pela guerra na Ucrânia: a ideia de que drones, munições vagantes, mísseis anticarro e sensores distribuídos teriam tornado o carro de combate obsoleto. A experiência acumulada no conflito aponta para outra direção. O carro de combate continua desempenhando funções que não foram substituídas, mas deixou de poder ser pensado como uma plataforma autônoma, protegida apenas por sua blindagem e pelo alcance de seu armamento. A discussão seguinte é inevitável: se o carro de combate continua necessário, qual tipo de carro de combate o Brasil precisa? É nesse ponto que a comparação entre MMBT e MBT deixa de ser uma disputa de categorias e passa a ser uma discussão sobre o desenho da própria força blindada brasileira.

Essa discussão não é meramente conceitual. Um estudo publicado na Revista Doutrina Militar Terrestre em 2025, produzido no âmbito do debate relacionado ao Programa Estratégico Forças Blindadas, compara as possibilidades representadas pelos Main Battle Tanks (MBT) e pelos chamados Medium Main Battle Tanks (MMBT) a partir de fatores operacionais, logísticos e estratégicos. A importância do estudo está justamente em deslocar a discussão do campo das preferências por determinado modelo para uma análise de capacidades. Massa, poder de fogo, proteção, mobilidade, logística, transporte, infraestrutura e capacidade de sustentação precisam ser analisados simultaneamente, porque o desempenho de uma plataforma depende das condições em que ela será empregada e sustentada.

A guerra da Ucrânia oferece uma quantidade excepcional de exemplos para testar essa discussão. O conflito colocou lado a lado carros de combate de diferentes gerações, massas, níveis de proteção e origens industriais. Leopard 1, Leopard 2, M1 Abrams, Challenger 2 e uma grande variedade de plataformas soviéticas e russas convivem com veículos modernizados, sistemas capturados e soluções improvisadas em um ambiente no qual drones, artilharia, minas, guerra eletrônica e sensores transformaram profundamente a maneira como essas plataformas são empregadas. O resultado não foi a demonstração de que uma categoria venceu definitivamente a outra, mas de que cada solução apresenta vantagens e limitações quando confrontada com as condições reais do campo de batalha.

A massa, portanto, não pode ser tratada como objetivo em si mesma. Um carro de combate mais pesado pode oferecer maior volume interno, maior margem para blindagem, sistemas de proteção mais sofisticados, maior capacidade elétrica e melhores possibilidades de crescimento ao longo de sua vida útil. Ao mesmo tempo, essa massa cobra seu preço em transporte estratégico, consumo, recuperação, pontes, estradas, ferrovias, manutenção e capacidade de deslocamento. A questão fundamental passa a ser quanto dessa capacidade adicional efetivamente se transforma em disponibilidade operacional e poder de combate dentro do teatro em que a força será empregada.

A experiência ucraniana ajuda a tornar essa equação concreta. O Leopard 1, fornecido por diferentes países europeus, é um exemplo particularmente interessante porque representa um MBT mais leve, com canhão de 105 mm e características muito diferentes das plataformas de 60 toneladas ou mais empregadas no conflito. A experiência de tripulações ucranianas mostra que a plataforma continua tendo utilidade quando empregada de acordo com suas características, especialmente pela mobilidade, facilidade de condução, qualidade dos sistemas de observação e possibilidade de atuar contra posições fortificadas e outros alvos adequados. Isso não transforma o Leopard 1 em substituto para um Leopard 2 ou um Abrams em todas as missões. O exemplo é relevante justamente porque demonstra que massa e capacidade de combate não são variáveis perfeitamente proporcionais.

O mesmo raciocínio pode ser observado no M-55S, modernização eslovena do antigo T-55. A plataforma recebeu canhão de 105 mm, blindagem reativa e novos sistemas de controle de tiro, e 28 unidades foram destinadas à Ucrânia em 2022. Em 2026, uma unidade ucraniana de manutenção recuperou um M-55S cujo sistema de controle de tiro havia apresentado problemas e devolveu o veículo ao serviço. O episódio é pequeno diante da dimensão da guerra, mas tecnicamente significativo: diante de um conflito prolongado, a capacidade de recuperar uma plataforma, obter peças, reparar seus sistemas e devolvê-la à linha de frente pode ser tão importante quanto suas especificações de catálogo. Ao mesmo tempo, o M-55S evidencia o limite dessa lógica. Modernizar uma plataforma antiga amplia sua utilidade, mas não transforma automaticamente seu nível de proteção, arquitetura e potencial de crescimento no equivalente ao de um MBT contemporâneo.

É justamente nesse ponto que a experiência com os carros de combate pesados utilizados pela Ucrânia acrescenta outra dimensão à análise. Leopard 2, M1 Abrams e Challenger 2 oferecem níveis de proteção, sensores, poder de fogo e potencial de modernização superiores aos de plataformas mais antigas e leves. Entretanto, a guerra também revelou o peso logístico dessas capacidades. O Abrams, por exemplo, possui elevada demanda de combustível e um sistema propulsor cuja manutenção exige estrutura especializada. O Leopard 2 apresenta boa proteção e sistemas modernos, mas também depende de uma cadeia logística e industrial capaz de sustentar peças, componentes, recuperação e reparação. A existência de uma plataforma tecnicamente superior não elimina o problema de mantê-la disponível.

A disponibilidade é, portanto, uma variável de combate. Uma força que possui determinado número de carros de combate no inventário, mas não consegue mantê-los abastecidos, recuperá-los, repará-los e recolocá-los em operação, não dispõe da mesma capacidade de uma força com quantidade menor de plataformas, mas com elevada disponibilidade. A guerra da Ucrânia tornou essa diferença especialmente evidente porque o desgaste não ocorre apenas por destruição direta. Componentes mecânicos, sistemas eletrônicos, ópticos, motores, transmissões e elementos de suspensão também são submetidos a um ritmo de utilização que exige uma estrutura permanente de manutenção.

Essa realidade é particularmente importante para o Brasil. O Leopard 1A5BR atualmente em processo de revitalização deve ser compreendido dentro dessa lógica. Ele é um MBT, sua massa relativamente baixa quando comparada a muitos carros de combate contemporâneos não altera sua classificação. O que ela demonstra é que o Exército Brasileiro já opera um MBT concebido em uma faixa de massa mais compatível com suas condições de infraestrutura, transporte, manutenção e emprego. A revitalização dessa frota, portanto, não significa que o Brasil tenha preservado o conceito de MBT leve, mas evidencia uma característica histórica da força blindada brasileira: a necessidade de conciliar capacidade de combate com as condições concretas do território nacional.

A revitalização do Leopard 1A5BR, iniciada na segunda metade de 2025, prevê a recuperação de 52 unidades ao longo de dez anos, com a expectativa de manutenção da capacidade operacional até aproximadamente 2040. Os primeiros dois veículos foram entregues em março de 2026, e a programação inicial previa cinco unidades revitalizadas ao longo de 2026. O trabalho envolve o Estado-Maior do Exército, o Comando Militar do Sul e o Comando Logístico, além das estruturas responsáveis pela manutenção e recuperação. O objetivo imediato não é resolver definitivamente o futuro da força blindada brasileira, mas evitar uma ruptura de capacidade enquanto as decisões de longo prazo são amadurecidas.

Há uma consequência importante nessa experiência. O Brasil não precisa perguntar se um MBT de 65 ou 70 toneladas é melhor, em termos absolutos, que um MMBT de aproximadamente 40 toneladas. A pergunta correta é quanto de capacidade adicional o modelo mais pesado entregaria e quanto custaria para transformar essa capacidade em disponibilidade operacional no ambiente brasileiro. Isso envolve pontes, estradas, ferrovias, viaturas de transporte, meios de recuperação, consumo de combustível, estoque de peças, oficinas, infraestrutura de manutenção e treinamento. O peso do carro de combate não termina na balança da fábrica; ele se projeta sobre toda a cadeia logística.

O estudo brasileiro sobre MMBT e MBT ganha relevância exatamente por isso. O MMBT não deve ser compreendido simplesmente como um “MBT menor”. O conceito procura estabelecer um compromisso deliberado entre poder de fogo, proteção e mobilidade, buscando reduzir determinadas penalidades associadas à massa sem abandonar a capacidade de enfrentar ameaças blindadas e apoiar a infantaria. É uma proposta de projeto própria, e não apenas uma classificação baseada no peso do veículo.

A guerra da Ucrânia, entretanto, não oferece um MMBT moderno e padronizado que possa ser apresentado como vencedor dessa equação. O conflito oferece algo mais útil: experiências reais com plataformas leves, médias, pesadas, modernizadas e improvisadas. O Leopard 1 mostra como um MBT de menor massa pode continuar relevante quando empregado de acordo com suas capacidades. O M-55S mostra o potencial e os limites da modernização. O Leopard 2, o Abrams e o Challenger 2 mostram o ganho proporcionado por plataformas mais protegidas e com maior margem tecnológica, mas também expõem o custo de sustentação. A conclusão não é escolher um deles como paradigma universal, mas compreender o compromisso que cada solução exige.

Esse compromisso aparece também quando se observa a experiência ucraniana em operações ofensivas. A análise do Exército dos Estados Unidos sobre a ofensiva ucraniana de 2023, particularmente no eixo Orikhiv–Tokmak, registrou a perda de centenas de veículos durante as operações de ruptura. O problema não esteve simplesmente na existência ou inexistência de blindagem. Minas, obstáculos, posições defensivas, artilharia, observação permanente e dificuldades de sincronização entre engenharia, infantaria, blindados e fogos transformaram a ruptura de uma linha defensiva em uma operação de grande complexidade. Em determinado momento, a engenharia passou a ser tão determinante quanto o próprio número de carros de combate disponíveis.

Isso ajuda a recolocar o carro de combate dentro da estrutura correta. Uma força blindada não é formada apenas pelos veículos que aparecem nas imagens de uma operação. Ela depende de engenharia de combate, recuperação, transporte, comunicações, inteligência, vigilância, guerra eletrônica, defesa antiaérea, artilharia, infantaria mecanizada e logística. O carro de combate precisa operar junto dessas capacidades para que sua proteção e seu poder de fogo possam produzir efeito.

O Programa Estratégico Forças Blindadas do Exército Brasileiro segue justamente uma lógica mais ampla. Seu escopo não se limita à aquisição de um determinado carro de combate, mas envolve viaturas sobre rodas e lagartas, sistemas e subsistemas, comando e controle, modernização e transformação da capacidade blindada. Isso é particularmente importante porque uma eventual decisão sobre MMBT ou MBT terá consequências sobre toda a estrutura que acompanha o veículo.

A experiência brasileira com o Leopard 1A5BR também demonstra a importância da nacionalização e da capacidade de manutenção. A atuação de estruturas como o Parque Regional de Manutenção da 3ª Região Militar e o emprego de engenheiros e especialistas, inclusive com participação do Instituto Militar de Engenharia no desenvolvimento de soluções e componentes, permitem recuperar capacidades que poderiam depender exclusivamente de fornecedores externos. Em uma guerra prolongada, essa autonomia relativa pode ser tão importante quanto a especificação original do veículo.

A diferença entre ter veículos e ter capacidade operacional torna-se ainda mais evidente quando se observa o problema pelo quarto escalão de manutenção. Recuperar um carro de combate avariado, fabricar ou nacionalizar determinado componente, reconstruir sistemas e devolver a plataforma ao serviço reduz a necessidade de reposição imediata por um veículo novo. Essa capacidade prolonga a vida útil da frota e, sobretudo, aumenta a quantidade efetivamente disponível para emprego. É uma variável que precisa entrar no cálculo de qualquer futuro programa de carros de combate brasileiros.

Também não se pode ignorar que a Ucrânia alterou profundamente a relação entre proteção e sobrevivência. A blindagem passiva continua fundamental, mas deixou de ser suficiente. Sistemas de proteção ativa, blindagem adicional, proteção reativa, redução de assinatura, camuflagem, dispersão, guerra eletrônica, consciência situacional e defesa contra drones passaram a formar camadas complementares. O veículo que possui apenas uma boa blindagem e um canhão eficiente, mas permanece exposto aos sensores e aos sistemas de ataque adversários, encontra-se em desvantagem antes mesmo de disparar.

Nesse ambiente, drones não substituem o carro de combate. Eles modificam a forma como o carro de combate precisa ser empregado. O mesmo vale para a guerra eletrônica e para a defesa antiaérea de curto alcance. Uma força blindada moderna precisa ser capaz de operar em um espaço saturado por pequenos sistemas aéreos, sensores persistentes e munições vagantes. Isso significa que parte da capacidade de sobrevivência que antes era concentrada na plataforma precisa agora ser distribuída entre os diferentes elementos que acompanham a tropa.

A experiência ucraniana também mostra que o emprego de carros de combate em pequenos grupos pode continuar sendo indispensável. Estudos do Royal United Services Institute (RUSI) apontam que comandantes ucranianos continuam considerando o blindado fundamental para fornecer poder de fogo direto, apoiar a infantaria e enfrentar posições fortificadas, mesmo diante da dificuldade de empregar grandes massas de veículos em ambientes saturados por sensores e drones. O problema, portanto, não é necessariamente a presença do carro de combate, mas a escala, a formação e o modo de emprego.

Esse aspecto é particularmente relevante para o Brasil porque a dimensão territorial e a diversidade geográfica do país não reproduzem as condições do teatro ucraniano. O Brasil não possui uma linha de frente contínua semelhante àquela existente no leste europeu, nem enfrenta atualmente uma concentração equivalente de sensores, artilharia e sistemas anticarro ao longo de uma frente terrestre dessa natureza. Ao mesmo tempo, possui uma extensão territorial continental, regiões com infraestrutura muito desigual, grandes distâncias estratégicas e diferentes ambientes de emprego.

A mobilidade estratégica, portanto, assume peso próprio. Um carro de combate pode apresentar excelente desempenho tático e, ainda assim, impor dificuldades significativas para ser deslocado entre regiões brasileiras. Ferrovias, rodovias, pontes, viaturas de transporte e meios de recuperação precisam ser considerados desde o início do programa. Um projeto que ignore esses fatores pode produzir uma plataforma extraordinária no papel, mas limitada na capacidade de concentração e redistribuição da força.

É nesse ponto que o conceito de quantidade volta à discussão. Não se trata de defender simplesmente “mais veículos” em detrimento da qualidade. Trata-se de reconhecer que uma força precisa de massa suficiente para produzir efeito operacional. Se uma plataforma extremamente sofisticada consumir parcela excessiva dos recursos disponíveis, reduzindo drasticamente o número de unidades, peças, munições, sistemas de proteção e meios de apoio que podem ser adquiridos, a superioridade individual do veículo poderá não compensar a perda de escala.

Por outro lado, reduzir excessivamente massa e proteção para aumentar a quantidade pode produzir o efeito inverso. Uma plataforma numerosa, mas incapaz de sobreviver ao ambiente de ameaça, pode gerar um estoque grande sem produzir capacidade proporcional. A solução está justamente no ponto de equilíbrio entre proteção, poder de fogo, mobilidade, disponibilidade e escala.

O próprio desenvolvimento internacional de conceitos intermediários mostra que essa equação não está resolvida. O CV90120, por exemplo, foi concebido como uma plataforma de aproximadamente 40 toneladas equipada com canhão de 120 mm, buscando combinar parte do poder de fogo tradicionalmente associado aos MBTs com uma massa inferior à dos carros de combate pesados. Trata-se de uma solução conceitual e de demonstração tecnológica, e não de um sistema empregado pela Ucrânia. Sua trajetória também demonstra que reduzir massa mantendo grande poder de fogo não resolve automaticamente todas as questões de proteção, logística, mercado e doutrina. A indústria pode oferecer uma solução tecnicamente interessante; cabe ao usuário definir se ela realmente atende às suas necessidades.

Para o Brasil, isso significa que a eventual adoção de um MMBT não deve ser justificada apenas pela possibilidade de transportar um veículo mais leve ou adquirir maior quantidade de unidades. Da mesma forma, a escolha de um MBT mais pesado não deve ser justificada apenas pela maior blindagem ou pelo calibre de seu armamento. Em ambos os casos, é necessário avaliar a cadeia completa: sensores, proteção ativa, munição, recuperação, manutenção, peças, combustível, treinamento, simuladores, transporte, pontes, engenharia, comando e controle, guerra eletrônica, defesa antiaérea e capacidade industrial.

O Centauro II oferece uma referência brasileira importante para essa discussão porque demonstra como diferentes plataformas podem cumprir funções complementares. A adoção de uma viatura de combate de cavalaria 8×8 com elevado poder de fogo não elimina a necessidade de uma plataforma sobre lagartas destinada a funções que exigem outra combinação de proteção, mobilidade fora de estrada e capacidade de acompanhar determinados elementos mecanizados. A força não precisa escolher entre rodas e lagartas como se uma delas pudesse substituir universalmente a outra. Cada sistema deve ser colocado dentro da missão para a qual foi concebido.

O mesmo raciocínio vale para o futuro carro de combate. A questão central não deveria ser simplesmente “MMBT ou MBT?”, mas qual solução entrega maior capacidade de combate real ao Exército Brasileiro durante todo o ciclo de vida. Isso inclui não apenas o desempenho no primeiro dia de operação, mas a capacidade de manter a frota funcionando dez, vinte ou trinta anos depois, com atualização tecnológica, disponibilidade de peças, domínio industrial e capacidade nacional de manutenção e modernização.

A guerra da Ucrânia também demonstra que a capacidade de crescimento de uma plataforma precisa ser considerada desde o projeto. Sistemas eletrônicos, sensores, proteção ativa, redes de comando e controle e medidas contra drones podem exigir espaço, energia elétrica, capacidade computacional e margem estrutural. Um veículo projetado no limite de sua massa e de sua capacidade elétrica pode encontrar dificuldades para incorporar novas tecnologias ao longo de sua vida útil. Um projeto mais pesado, por outro lado, pode oferecer maior margem, mas ao custo de maior complexidade logística.

Essa é uma das diferenças fundamentais entre simplesmente escolher um veículo e construir uma capacidade. O Exército não estará adquirindo apenas uma torre, um canhão e um conjunto de sensores. Estará escolhendo uma solução tecnológica e logística para décadas. O investimento precisa considerar aquilo que acontece depois da entrega dos primeiros veículos, quando começa efetivamente o ciclo de sustentação.

A experiência com o Leopard 1A5BR é valiosa justamente porque permite observar esse processo na prática. O Brasil conhece suas características, possui doutrina de emprego, cadeia de manutenção, pessoal treinado, infraestrutura e experiência operacional acumulada. Sua revitalização permite preservar uma capacidade enquanto o futuro é discutido. Mas isso não significa que o Leopard 1A5BR deva ser mantido indefinidamente como solução definitiva. Ele continua sendo um MBT de menor massa que esta chegando ao fim de seu ciclo de vida, cuja experiência operacional brasileira fornece dados concretos para avaliar as necessidades futuras.

A partir dessa experiência, o Brasil pode fazer uma pergunta mais sofisticada. Em vez de procurar simplesmente o carro de combate mais protegido disponível no mercado ou o mais leve que consiga receber um determinado armamento, deve estabelecer quais ameaças pretende enfrentar, em quais ambientes, com quais forças de apoio e a que distância dos principais centros logísticos. A resposta determinará o nível necessário de proteção, poder de fogo e mobilidade, e somente depois disso será possível definir qual plataforma faz sentido.

A guerra da Ucrânia reforça ainda outra conclusão: não existe plataforma invulnerável. O carro de combate pesado pode ser destruído por uma combinação de sensores, minas, artilharia, drones e munições anticarro. O carro de combate mais leve também pode sobreviver e continuar combatendo quando empregado de forma adequada, apoiado por inteligência, engenharia, infantaria e guerra eletrônica. O fator decisivo não está apenas na espessura da blindagem ou no peso total do veículo, mas na capacidade da força de criar condições para que aquela plataforma cumpra sua missão.

A análise do Exército dos Estados Unidos sobre as operações de ruptura ucranianas mostrou exatamente essa necessidade de sincronização. Engenharia, infantaria, blindados, fogos e comando e controle precisam funcionar de maneira coordenada. Quando uma dessas capacidades não acompanha as demais, o desempenho de toda a força é afetado. O carro de combate pode possuir o melhor canhão disponível, mas não conseguirá cumprir sua missão se estiver isolado diante de um campo minado observado por drones e coberto por artilharia.

É por isso que a discussão sobre MMBT e MBT precisa ser conduzida no Brasil com uma visão de força, e não de catálogo. Um MMBT pode ser interessante se permitir maior escala sem comprometer o nível de proteção e poder de fogo necessário. Um MBT mais pesado pode ser a solução correta se a ameaça exigir maior sobrevivência e se o país tiver condições de sustentar sua massa, manutenção e mobilidade. Um MBT relativamente leve, como o Leopard 1A5BR, pode continuar sendo operacionalmente adequado em determinadas condições e demonstrar que a massa não pode ser analisada isoladamente.

O desafio está em determinar onde o Exército Brasileiro pretende colocar esse equilíbrio nas próximas décadas. A resposta deverá considerar o território nacional, os cenários de emprego, a infraestrutura existente, o orçamento disponível, a capacidade da Base Industrial de Defesa, o nível de nacionalização desejado e, sobretudo, a possibilidade de manter a força operacionalmente disponível durante períodos prolongados.

No fim, a Ucrânia não matou o carro de combate e tampouco escolheu pelo Brasil entre MMBT e MBT. O conflito mostrou que plataformas de diferentes massas continuam tendo utilidade quando empregadas de acordo com suas características e apoiadas pelas capacidades necessárias. Mostrou também que proteção, mobilidade, logística, manutenção, recuperação, sensores, drones, guerra eletrônica, engenharia e defesa antiaérea passaram a ser elementos inseparáveis do emprego dos blindados.

Para o Brasil, portanto, a decisão não deveria partir da pergunta sobre qual categoria parece mais moderna ou qual veículo apresenta a maior capacidade individual. Deve partir de uma equação mais difícil: qual solução permite ao Exército manter uma quantidade suficiente de carros de combate, com proteção adequada, poder de fogo compatível, mobilidade compatível com o território, capacidade de modernização, disponibilidade elevada e sustentação nacional durante todo o ciclo de vida.

É nesse ponto que a experiência brasileira com o Leopard 1A5BR deixa de ser apenas uma questão de passado e passa a oferecer uma referência para o futuro. O Brasil já opera um MBT relativamente leve dentro de suas próprias limitações logísticas e de infraestrutura. A próxima decisão precisa avaliar se essa característica deve ser preservada, ampliada ou substituída por uma plataforma de outra faixa de massa e capacidade. Essa resposta não está pronta na Ucrânia, na Europa ou nos Estados Unidos. Ela precisa ser construída a partir das necessidades brasileiras.

A guerra demonstrou que o carro de combate continua necessário. O que ela colocou em xeque foi a ideia de que ele possa combater sozinho. Para o Brasil, a próxima geração de força blindada deverá ser definida pela capacidade de combinar proteção, fogo, mobilidade, sensores, drones, guerra eletrônica, engenharia, logística e indústria em uma solução sustentável. É a partir desse conjunto de requisitos, e não apenas da etiqueta MMBT ou MBT, que o Exército deverá definir o próximo passo de sua capacidade de carros de combate.


por Angelo Nicolaci


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