A artilharia autopropulsada sobre lagartas continua desempenhando papel central nas forças terrestres que precisam combinar mobilidade, proteção e poder de fogo. Longe de perder relevância diante da proliferação de drones e sensores, esse tipo de sistema vem sendo atualizado justamente para operar em um ambiente no qual a velocidade de detecção, decisão e deslocamento passou a ser determinante para a sobrevivência.
O M109A7 Paladin, desenvolvido pela BAE Systems para o Exército dos Estados Unidos, representa uma das expressões mais recentes dessa evolução. O sistema mantém a arquitetura consagrada da família M109, mas incorpora um chassi modernizado, novos sistemas eletrônicos e maior integração com as estruturas digitais de comando e controle das forças blindadas.
Mais do que um obuseiro autopropulsado, o M109A7 foi concebido como parte da arquitetura de combate das Armored Brigade Combat Teams. Sua função é acompanhar forças de manobra e fornecer apoio de fogo indireto, mantendo mobilidade suficiente para deslocar-se com as unidades apoiadas e reposicionar-se rapidamente após o disparo. A comunalidade de componentes do chassi, trem de força, suspensão e lagartas com a família Bradley também reduz a complexidade logística dentro dessas brigadas.
Essa capacidade ganhou ainda mais importância com a transformação do campo de batalha. A proliferação de drones de reconhecimento, sensores terrestres, radares e sistemas de aquisição de alvos tornou mais difícil permanecer exposto após abrir fogo. Nesse ambiente, a capacidade de disparar e mudar de posição rapidamente passou a ser tão importante quanto o alcance e a precisão do armamento.
A BAE Systems destaca justamente o conceito de shoot and scoot. O M109A7 possui navegação e controle de tiro integrados, permitindo receber uma missão durante o deslocamento, calcular os dados de tiro, passar da configuração de marcha para a de tiro, apontar o armamento e disparar em aproximadamente 60 segundos. A lógica é reduzir o intervalo entre receber a missão, executar o fogo e abandonar a posição antes que o adversário consiga localizar e atacar a unidade.
No centro dessa capacidade está o armamento principal. O M109A7 emprega o canhão M284 de 155 mm, instalado sobre o reparo M182A1. Com munição convencional, o alcance informado pelo Exército dos Estados Unidos chega a aproximadamente 30 quilômetros, enquanto a BAE Systems descreve a capacidade geral do sistema como superior a 30 quilômetros, dependendo da munição empregada.
A cadência também precisa ser analisada dentro do conceito de emprego. O Exército dos Estados Unidos informa uma capacidade máxima de quatro disparos por minuto durante períodos de até três minutos, seguida de uma cadência sustentada de aproximadamente um disparo por minuto. Essa diferença evidencia que a capacidade de fogo não deve ser medida apenas pela cadência máxima, mas pela possibilidade de manter efeitos sobre o alvo sem comprometer a sustentabilidade da unidade.
A munição transportada internamente também condiciona a autonomia da peça. Dados do Exército indicam uma dotação padrão de 42 projéteis e 31 cargas propulsoras armazenadas no próprio sistema. Por isso, o M109A7 opera associado ao M992A3, viatura destinada ao transporte e reabastecimento de munição, formando um conjunto logístico que permite manter a bateria em operação por períodos mais prolongados.
A mobilidade é outro elemento central. O M109A7 possui peso de combate de aproximadamente 38,1 toneladas, motor de 675 hp, velocidade máxima de cerca de 61 km/h e autonomia estimada de 300 quilômetros. O veículo pode superar rampas de 60%, operar em inclinações laterais de até 40%, atravessar valas de aproximadamente 1,8 metro e vadear até cerca de 1,07 metro de profundidade. Esses números explicam por que a plataforma pode acompanhar formações mecanizadas em diferentes condições de terreno.
A relação entre peso e potência, entretanto, não deve ser observada isoladamente. O objetivo do M109A7 não é competir em velocidade com veículos leves, mas oferecer mobilidade suficiente para acompanhar forças blindadas e principalmente, reduzir o tempo em que permanece exposto após executar uma missão de fogo. Nesse contexto, a capacidade de deslocamento passa a ser parte da própria proteção da unidade.
A sobrevivência também recebeu atenção na modernização. O M109A7 dispõe de pacote de blindagem adicional configurável de acordo com a missão, sistema automático de extinção de incêndio e possibilidade de integração de estação de armas remotamente controlada. A proteção é complementada pela capacidade de abandonar rapidamente uma posição de tiro, reduzindo a exposição à contrabateria.
A arquitetura eletrônica representa outra diferença importante em relação às gerações anteriores. O sistema possui navegação e posicionamento embarcados, controle digital de tiro e capacidade de receber e processar missões de fogo. O Exército dos Estados Unidos também destaca o aumento da geração elétrica disponível, permitindo alimentar sistemas adicionais de comunicações, aquisição de alvos e gerenciamento de missão.
O gerador principal fornece até 70 kW, enquanto a plataforma mantém mais de 50% de capacidade de geração elétrica de reserva. Essa margem não é um detalhe secundário: em uma força cada vez mais dependente de sensores, redes de comunicação, sistemas de navegação e equipamentos eletrônicos, disponibilidade de energia passa a ser uma capacidade operacional.
O M109A7 também foi concebido com maior capacidade de diagnóstico e manutenção. Computadores embarcados monitoram os sistemas e auxiliam na identificação de falhas, enquanto a utilização de componentes comuns ao Bradley busca reduzir a carga logística das unidades que operam os dois veículos. O objetivo é aumentar a disponibilidade operacional e reduzir o tempo em que a plataforma permanece fora de serviço para manutenção.
O M109A7, portanto, deve ser entendido como um elo dentro dessa cadeia. O canhão continua sendo o elemento que produz o efeito sobre o alvo, mas sua eficácia depende cada vez mais da qualidade da informação que recebe e da velocidade com que consegue transformá-la em fogo.
Essa transformação ganhou importância especial nos conflitos recentes. A proliferação de drones permitiu ampliar a capacidade de observação sobre o campo de batalha e tornou possível localizar posições de artilharia, veículos e concentrações de tropas com maior rapidez. Ao mesmo tempo, sistemas de guerra eletrônica passaram a interferir diretamente nas comunicações e na navegação, obrigando as unidades de fogo a combinar velocidade, disciplina de emissão e capacidade de operar mesmo sob interferência.
Nesse ambiente, proteção e mobilidade passam a trabalhar juntas. Um sistema de artilharia autopropulsada não precisa necessariamente possuir a proteção de um carro de combate, mas precisa ser suficientemente protegido para sobreviver ao ambiente em que opera e suficientemente móvel para reduzir seu tempo de exposição. O conceito do M109A7 segue justamente essa lógica.
A continuidade do programa também demonstra que os Estados Unidos não tratam a artilharia autopropulsada como uma capacidade ultrapassada. Em 2026, a BAE Systems recebeu novos contratos para produção de M109A7 e das viaturas M992A3 de transporte de munição, mantendo a linha de produção associada a uma das principais plataformas de apoio de fogo das brigadas blindadas norte-americanas.
O M992A3 exerce papel complementar nessa arquitetura, transportando munição para acompanhar o ritmo operacional das unidades de artilharia. Essa combinação evidencia um ponto frequentemente esquecido quando se observa apenas o veículo de combate: a capacidade de fogo depende tanto da plataforma que dispara quanto da estrutura logística capaz de mantê-la abastecida e operando continuamente.
A artilharia autopropulsada moderna, portanto, precisa ser entendida como parte de um sistema. Sensores, drones, radares, observadores avançados, sistemas de comando e controle, munições, viaturas de apoio e os próprios obuseiros formam uma cadeia na qual a velocidade da informação pode determinar o efeito obtido no alvo.
Essa transformação não elimina a importância do calibre ou do alcance. Ao contrário, aumenta o valor de uma plataforma capaz de entregar grande volume de fogo e, ao mesmo tempo, deslocar-se rapidamente para evitar a resposta inimiga. A tecnologia modifica a maneira de empregar a artilharia, mas não elimina sua função no campo de batalha.
O caso do M109A7 mostra, assim, como uma plataforma cuja origem remonta à Guerra Fria pode continuar relevante quando submetida a sucessivos ciclos de modernização. O conceito fundamental permanece, fogo indireto protegido e móvel, enquanto sensores, eletrônica, comunicações, navegação e integração digital são atualizados para acompanhar as novas exigências operacionais.
No Brasil, essa evolução possui um paralelo direto. O Exército Brasileiro emprega o M109A5+BR, versão modernizada do M109A5, que recebeu sistemas digitais de navegação, posicionamento, comunicações e controle da missão de tiro. A experiência brasileira demonstra como uma plataforma de uma geração anterior pode receber novos sistemas e permanecer integrada à arquitetura digital da artilharia de campanha.
No fim, o M109A7 representa menos uma ruptura com o passado do que uma evolução de um conceito que continua válido: colocar poder de fogo de 155 mm sobre uma plataforma protegida, móvel e conectada, capaz de acompanhar forças de manobra e sobreviver no ambiente onde permanecer parado pode ser tão perigoso quanto não possuir alcance suficiente.
Por Angelo Nicolaci
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