terça-feira, 29 de setembro de 2026

Centauro II: uma oportunidade de integração entre Exército e CFN na substituição dos SK-105

A presença do Centauro II na I Exposição de Defesa Expedicionária em Formosa (EDEF), realizada durante a "Operação Formosa 2026", colocou uma plataforma já selecionada pelo Exército Brasileiro diante de uma necessidade ainda em definição no Corpo de Fuzileiros Navais (CFN): a substituição dos carros de combate SK-105A2S Kürassier.

O Centauro II figura entre as alternativas consideradas pelo CFN, mas não há decisão ainda sobre a adoção de um modelo em específico. A relevância de sua presença em Formosa está no fato de que o Exército já percorreu etapas que a Marinha teria de iniciar caso optasse por uma plataforma completamente nova. A Força Terrestre selecionou o veículo para seu programa de Viatura Blindada de Combate de Cavalaria Média Sobre Rodas (VBC Cav-MSR), contratou o primeiro lote de sete exemplares e estabeleceu um programa de aquisição para 98 veículos.

Essa condição cria uma possibilidade particularmente interessante para o planejamento de defesa brasileiro. Caso o Centauro II seja considerado adequado aos requisitos do CFN, a Marinha poderia ingressar em uma estrutura de suporte que já estará sendo construída para o Exército, compartilhando, onde houver compatibilidade, treinamento, ferramental, manutenção, documentação técnica, peças e conhecimento especializado.

O benefício não estaria apenas na aquisição. O Exército será o principal demandante inicial da plataforma no Brasil, criando uma base de consumo capaz de sustentar fornecedores e serviços durante o ciclo de vida do veículo. Uma eventual contratação pelo CFN acrescentaria demanda a essa estrutura, aumentando a previsibilidade para a indústria e reduzindo a necessidade de estabelecer uma infraestrutura exclusiva para uma frota relativamente pequena.

O Brasil já possui um precedente para esse tipo de aproximação. O Corpo de Fuzileiros Navais empregou o EE-9 Cascavel, o mesmo blindado utilizado pelo Exército Brasileiro. Seis unidades foram incorporadas pela Marinha em 1980 e empregadas no adestramento do conjugado carro-infantaria. O Cascavel permaneceu no inventário do CFN até serem substituídos pelos SK-105A2S, a partir de 2001.

A experiência do Cascavel demonstra que a utilização de uma mesma plataforma pelas duas Forças não seria uma novidade. A diferença está no contexto industrial. O Cascavel era um produto brasileiro da Engesa, cuja cadeia produtiva acabou desaparecendo. O Centauro II surge no momento em que o Brasil procura justamente consolidar uma capacidade industrial de longo prazo no setor de viaturas blindadas.

O programa brasileiro prevê participação crescente da indústria nacional. Caso sejam contratados os lotes previstos até o 14º, a partir do quinto lote está prevista a montagem de Centauro II na unidade da IDV em Sete Lagoas, Minas Gerais, podendo chegar a 70 veículos produzidos no país. A fábrica já concentra a produção do Guarani, o Guaicurus e outras atividades relacionadas a veículos militares.

Para o CFN, essa perspectiva é relevante porque uma eventual escolha do Centauro II não exigiria a criação de uma nova base industrial brasileira exclusivamente para atender aos Fuzileiros. A demanda do Exército funcionaria como elemento estruturante, enquanto uma participação da Marinha poderia ampliar o mercado para fornecedores, manutenção e serviços associados à plataforma.

Há também uma vantagem relacionada à própria transição tecnológica. O Exército já está acumulando experiência operacional com o Centauro II, formando pessoal e desenvolvendo procedimentos para sua manutenção e emprego. Caso o CFN opte pelo mesmo sistema, parte desse conhecimento poderá ser aproveitada, ainda que a Marinha tenha de desenvolver procedimentos específicos para suas necessidades anfíbias e expedicionárias.

Esse último ponto é fundamental. A eventual adoção do Centauro II não pode ser justificada apenas pelo fato de o veículo já estar em serviço no Exército. O CFN precisa verificar se uma plataforma 8×8 atende às exigências de suas operações, incluindo mobilidade, proteção, transporte, integração aos Grupamentos Operativos de Fuzileiros Navais e emprego associado às operações anfíbias.

A própria presença do Centauro II em Formosa ganha importância nesse contexto. A plataforma foi apresentada em um exercício diretamente relacionado ao preparo operacional do CFN, ao lado de outros meios blindados empregados pelas Forças Armadas. A EDEF permitiu colocar a industria em contato com um ambiente operacional real, no qual diferentes sistemas precisam funcionar dentro de uma mesma arquitetura de emprego.

A escolha do sucessor dos SK-105 também ocorre em um momento de revisão dos requisitos. A consulta de mercado realizada pelo CFN em 2025 contemplava uma viatura de combate sobre lagartas, com requisitos específicos de proteção, armamento e sistemas de direção de tiro. A possibilidade de uma solução sobre rodas amplia o leque de alternativas, mas também exige uma avaliação rigorosa sobre a adequação do conceito às missões dos Fuzileiros.

O Centauro II apresenta, nesse cenário, uma característica que merece atenção: não é apenas uma plataforma disponível no mercado, mas um sistema que já possui usuário nacional, contrato em execução, estrutura industrial em desenvolvimento e perspectiva de produção no Brasil. Isso reduz riscos associados à criação de uma capacidade completamente nova e oferece ao país maior margem para desenvolver conhecimento próprio ao longo do ciclo de vida.

A questão central, portanto, não é simplesmente saber se o Centauro II pode substituir o SK-105. É avaliar se seus atributos atendem às necessidades do CFN e, em caso positivo, se a adoção de uma plataforma já selecionada pelo Exército permitiria ao Brasil aproveitar melhor os recursos empregados na renovação de suas forças blindadas.

O precedente do Cascavel mostra que Marinha e Exército já compartilharam uma mesma família de blindados. Quatro décadas depois, o Centauro II oferece uma possibilidade diferente: construir essa aproximação dentro de um programa que já prevê participação industrial brasileira e uma demanda significativa do Exército.

Se os requisitos operacionais forem compatíveis, a adoção pelo CFN poderia transformar uma aquisição isolada em parte de uma arquitetura mais ampla de defesa, na qual treinamento, manutenção, fornecedores e conhecimento técnico possam ser aproveitados por mais de uma Força. Para a Base Industrial de Defesa, isso significa maior previsibilidade; para as Forças Armadas, uma estrutura de suporte potencialmente mais racional; e para o Brasil, uma oportunidade de ampliar o conteúdo nacional de um programa que já está em andamento.


Por Angelo Nicolaci


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