O 11 de setembro de 2001 não mudou apenas os Estados Unidos. Mudou a ordem internacional. Os ataques contra Nova York e Washington abriram um período que seria marcado por guerras prolongadas, expansão dos aparatos de segurança, intervenções militares, transformações na política externa norte-americana e uma profunda alteração na percepção global sobre as ameaças à segurança. Mas existe uma consequência menos evidente daquele dia: enquanto os Estados Unidos concentravam uma parcela crescente de sua energia política, militar e financeira na chamada "Guerra ao Terror", a China avançava silenciosamente na construção das bases econômicas, industriais e tecnológicas que hoje sustentam sua disputa pela posição de potência global.
Essa não é uma afirmação de que a ascensão chinesa tenha sido causada pelo 11 de setembro. A transformação da China já estava em andamento e ganhou enorme impulso com sua entrada na Organização Mundial do Comércio, também em 2001. O que mudou depois dos ataques foi a prioridade estratégica de Washington. A maior potência militar do planeta direcionou sua atenção para organizações terroristas e para guerras no Afeganistão e no Iraque justamente durante um período que o equilíbrio econômico e tecnológico mundial começava a se deslocar em direção à Ásia.
A resposta inicial aos ataques possuía uma lógica evidente. A destruição da estrutura da Al-Qaeda e a captura de seus responsáveis eram objetivos legítimos diante da dimensão da agressão. O problema surgiu quando a reação deixou de ser uma operação delimitada de contraterrorismo e transformou-se uma estratégia de guerra permanente. O Afeganistão tornou-se um projeto de reconstrução nacional de duas décadas. Em 2003, o Iraque foi invadido sob a justificativa de eliminar uma ameaça que posteriormente se mostrou inexistente, muito diferente do que foi apresentado ao mundo. A partir daí, Washington passou a administrar conflitos que consumiriam recursos, vidas e capital político por anos.
O custo financeiro foi extraordinário. O projeto Costs of War da Brown University, estimou que as guerras e operações militares desencadeadas após o 11 de setembro haviam levado os Estados Unidos a comprometer mais de US$ 8 trilhões até 2021, considerando os principais conflitos e despesas relacionadas. A mesma pesquisa estimou cerca de 929 mil mortes diretas nas guerras pós-11 de setembro.
O problema, entretanto, não pode ser medido apenas em dólares. Existe também o custo de oportunidade. Recursos financeiros, atenção política, capacidade diplomática e planejamento estratégico são limitados, mesmo para uma superpotência. Enquanto Washington gastava duas décadas tentando estabilizar sociedades no Oriente Médio e no Afeganistão, Pequim utilizava o mesmo período para ampliar sua participação no comércio mundial, construir infraestrutura, desenvolver sua indústria, acumular reservas, expandir sua capacidade tecnológica e aumentar progressivamente seu poderio militar.
A diferença de prioridades tornou-se cada vez mais evidente. Os Estados Unidos possuíam uma superioridade militar incontestável, mas estavam envolvidos em guerras assimétricas contra organizações muito inferiores em capacidade convencional. A China, por outro lado, não precisava enfrentar diretamente o poderio militar norte-americano. Podia crescer dentro do sistema econômico internacional, aproveitar a globalização, atrair investimentos, adquirir tecnologia, desenvolver sua própria indústria e aumentar sua influência enquanto Washington permanecia concentrado em ameaças que não representavam uma competição convencional pela liderança mundial.
O paradoxo é que a própria globalização que fortaleceu a economia americana também acelerou a transformação da China em potência industrial. Empresas ocidentais transferiram cadeias produtivas para a Ásia em busca de custos menores, enquanto o mercado chinês crescia. Pequim utilizou essa integração para desenvolver fornecedores nacionais, infraestrutura e capacidade tecnológica. O resultado foi uma mudança progressiva na distribuição da produção mundial. Quando Washington finalmente voltou sua atenção para a competição entre grandes potências, a China já não era apenas uma fábrica global. Era uma potência econômica, tecnológica, comercial e militar.
A percepção desse deslocamento chegou tarde a Washington. O chamado “pivô para a Ásia” da administração Barack Obama, anunciado em 2011, representou justamente o reconhecimento de que o centro de gravidade estratégico estava se deslocando para o Indo-Pacífico. Mas, quando essa mudança passou a ocupar o centro da política externa americana, os Estados Unidos já carregavam duas guerras prolongadas e uma extensa estrutura de compromissos militares construídos durante a era da "Guerra ao Terror".
O resultado foi um paradoxo histórico. A maior potência militar do planeta venceu batalhas, derrubou governos e eliminou lideranças terroristas, mas não conseguiu transformar sua superioridade militar em uma vitória estratégica definitiva. O Talibã voltou ao poder no Afeganistão em 2021, duas décadas depois da invasão americana. No Iraque, a derrubada de Saddam Hussein abriu espaço para uma longa instabilidade regional e contribuiu para condições que favoreceram posteriormente a expansão de grupos jihadistas. A própria guerra que pretendia reduzir ameaças acabou produzindo novas fontes de instabilidade.
Não significa dizer que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma superpotência. Muito pelo contrário. Washington continua possuindo capacidades militares, financeiras, tecnológicas e diplomáticas que nenhum outro país reúne na mesma escala. O que mudou foi a distância relativa entre os Estados Unidos e seus competidores. A hegemonia absoluta da década de 1990 deu lugar a uma competição mais equilibrada, na qual a China passou a disputar mercados, tecnologia, infraestrutura, cadeias industriais, influência diplomática e poder militar.
É justamente essa diferença entre “queda” e “perda de supremacia relativa” que precisa ser compreendida. O declínio de uma potência não acontece necessariamente quando ela deixa de ser poderosa. Pode começar quando outras potências passam a crescer mais rapidamente enquanto ela consome parte considerável de seus recursos tentando preservar uma ordem anterior.
O 11 de setembro pode ser entendido, portanto, como uma das grandes bifurcações da história contemporânea. Antes daquele dia, os Estados Unidos saíam da Guerra Fria como a potência incontestável de uma ordem aparentemente unipolar. Depois dele, Washington entrou em uma sequência de guerras que se prolongaria por uma geração. Enquanto isso, a China consolidava silenciosamente sua posição como centro industrial do mundo e transformava crescimento econômico em poder estratégico.
Há, nesse processo, uma ironia difícil de ignorar. A Al-Qaeda pretendia atingir os Estados Unidos e provocar uma reação capaz de ampliar o conflito entre Washington e o mundo islâmico. Não se pode afirmar que tenha planejado ou previsto a ascensão chinesa. Mas a reação americana criou um ambiente estratégico no qual a China teve tempo e espaço para acumular poder enquanto seu principal concorrente estava ocupado em outros teatros e se desgastando.
Hoje, vinte e cinco anos depois, a consequência mais profunda do 11 de setembro talvez não esteja nas ruínas das torres, nem sequer nas guerras que vieram depois. Ela pode estar na mudança silenciosa do centro de gravidade do poder mundial.
Os Estados Unidos ainda possuem uma força extraordinária. A China, porém, já não é uma potência emergente observada à distância. É um competidor capaz de desafiar a liderança americana em setores fundamentais da economia, da tecnologia, da indústria e do poder militar. E essa transformação ocorreu justamente durante as duas décadas em que Washington esteve mais concentrado em vencer uma guerra que nunca conseguiu encerrar definitivamente.
O 11 de setembro foi, portanto, uma tragédia humana e um ataque contra a maior potência do sistema internacional. Mas também foi o início de uma era na qual as escolhas feitas pelos Estados Unidos para responder àquela agressão contribuíram para consumir recursos, atenção e capital estratégico em escala histórica. A história talvez não registre aquele dia apenas como o momento em que a América foi atacada, mas também como o momento a partir do qual começou a perder parte da vantagem que parecia impossível de ser desafiada.
por Angelo Nicolaci
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