Vitória da Hanwha no programa "Mobile Tactical Cannon" mostra como a artilharia está deixando os obuseiros rebocados para trás em favor de sistemas móveis e mais resilientes no campo de batalhas contemporâneo.
A análise publicada pelo GBN Defense sobre a transformação dos fogos de artilharia apontava para uma mudança que já vinha sendo observada nos principais exércitos: diante do campo de batalha cada vez mais transparente, no qual drones, radares de contrabateria, sensores eletro-ópticos e sistemas de inteligência conseguem localizar uma posição de tiro em poucos minutos, a capacidade de deslocamento passou a ser parte essencial da sobrevivência de uma unidade de artilharia.
Um dia depois, o Exército dos Estados Unidos apresentou um exemplo concreto dessa transformação. A Hanwha Defense USA foi selecionada para fornecer os protótipos do K9 Mobile Howitzer (K9MH) para o programa "Mobile Tactical Cannon" (MTC), iniciativa criada pelo Exército americano para avaliar uma nova capacidade de artilharia móvel destinada, em determinadas formações, a substituir futuramente os obuseiros rebocados M777. O acordo inicial é de US$ 100,3 milhões para seis sistemas, com opção para mais 12, podendo alcançar US$ 262,9 milhões.
É importante deixar claro que a decisão ainda não representa a substituição definitiva do M777. Os K9MH serão submetidos a um período de prototipagem, testes e experimentação em campo, estimado em aproximadamente quatro anos. Os resultados dessa avaliação serão utilizados pelo Exército para decidir se o sistema será adotado e em quais condições.
O que já está definido, entretanto, é o problema operacional que Washington pretende resolver. O M777 é um obuseiro rebocado de 155 mm concebido para oferecer elevada mobilidade estratégica e tática com baixo peso, inclusive permitindo seu transporte por aeronaves. Essa característica continua sendo relevante para unidades leves, mas cria uma diferença importante em relação a um sistema autopropulsado: depois de ocupar uma posição e realizar o tiro, o M777 precisa ser conectado ao veículo trator para abandonar a área.
No cenário de emprego onde a origem dos disparos pode ser rapidamente identificada, esse intervalo passou a representar uma vulnerabilidade. A unidade precisa não apenas executar o tiro com precisão, mas também reduzir o tempo entre a entrada em posição, a execução do tiro e o deslocamento para uma nova área. É justamente nesse ciclo que o conceito do MTC ganha importância.
Da peça rebocada ao sistema móvel
O K9MH leva a capacidade de artilharia do 155 mm para uma plataforma sobre rodas, permitindo que o próprio sistema realize seus deslocamentos sem depender de um veículo separado para rebocar a peça. A proposta combina a arquitetura da família K9 com uma configuração voltada à mobilidade e à integração dos principais processos de operação do sistema. Essa mudança não deve ser interpretada apenas como uma troca de plataforma. Ela altera a maneira como a unidade pode ser empregada.
A artilharia moderna precisa operar em um ciclo contínuo de deslocamento, entrada em posição, aquisição de dados de tiro, execução do tiro, reposicionamento e logística. Quanto mais rápida for essa sequência, menor tende a ser o período em que a unidade permanece exposta aos sensores e aos fogos de contrabateria adversários.
Foi exatamente esse ponto que destacamos na análise que publicamos: a evolução dos fogos não está ocorrendo apenas pela busca de maior alcance ou de munições mais precisas. A combinação entre sensores, drones, redes de comando e controle e sistemas de contrabateria está obrigando os meios de artilharia a reduzir sua assinatura e aumentar sua capacidade de reposicionamento. O movimento americano mostra que essa conclusão que aqui compartilhamos, já está influenciando programas de aquisição.
O K9MH entra em avaliação
A escolha da Hanwha também tem relação com a maturidade da família K9. Mais de 2.500 sistemas K9 estão em operação ao redor do mundo segundo a empresa, criando uma base de usuários e uma cadeia logística que podem reduzir riscos para o programa americano.
O K9MH foi apresentado pela Hanwha como uma variante sobre rodas da família K9. A empresa também vem preparando uma estrutura industrial nos Estados Unidos para apoiar o programa. Em maio, a Hanwha Defense USA anunciou a instalação de um centro de integração e testes em Opelika no Alabama, como primeira etapa de sua estratégia de localização da produção e do suporte aos sistemas de artilharia no país.
Esse aspecto é particularmente importante no caso americano. A aquisição de um sistema estrangeiro para uma capacidade considerada estratégica não se resume ao desempenho do equipamento. Produção local, cadeia de fornecedores, manutenção, disponibilidade de peças e capacidade de sustentação ao longo do ciclo de vida também fazem parte da equação.
A Hanwha está, portanto, tentando transformar a entrada do K9MH no programa MTC em capacidade industrial americana, e não apenas na venda de sistemas produzidos na Coreia do Sul.
O futuro do M777
O M777 não desaparecerá imediatamente do inventário americano. A própria estrutura do MTC demonstra que o Exército ainda está avaliando qual será a configuração definitiva da nova capacidade.
A etapa atual é justamente destinada a testar o comportamento dos sistemas em condições operacionais, avaliando desempenho, confiabilidade, manutenção e capacidade de apoio antes de uma eventual decisão de aquisição em maior escala.
Ainda assim, o objetivo declarado é bastante claro: utilizar o MTC para substituir os M777 em determinadas formações por uma capacidade de artilharia móvel mais adequada às condições atuais do campo de batalha. O Exército aponta como objetivos o aumento da mobilidade, letalidade, confiabilidade e sobrevivência das unidades de fogos.
A mudança também mostra que a discussão sobre artilharia não pode mais ser reduzida ao calibre, alcance ou cadência de tiro. Esses parâmetros continuam fundamentais, mas precisam ser avaliados dentro de um sistema muito maior, no qual sensores, comunicações, guerra eletrônica, drones, logística e comando e controle determinam a capacidade de uma bateria permanecer operacional.
A lição para o Brasil
É aqui que a decisão americana interessa diretamente ao Brasil. Como mostramos na análise anterior, a artilharia brasileira também está diante de um ambiente operacional que mudou. A evolução dos sistemas de vigilância e aquisição de alvos aumenta a probabilidade de detecção das posições de tiro, enquanto drones e munições guiadas tornam a exposição prolongada ainda mais perigosa.
Isso coloca uma questão importante para os programas brasileiros de modernização: não basta decidir qual obuseiro substituirá os sistemas atualmente empregados. É necessário definir qual conceito de artilharia o Exército pretende operar nas próximas décadas.
Uma solução moderna precisa considerar mobilidade, tempo de entrada e saída de posição, integração com sensores, capacidade de operar em rede, disponibilidade logística, proteção da guarnição e possibilidade de emprego de munições convencionais e de maior precisão.
Nesse contexto, a experiência americana com o MTC pode se tornar uma referência importante. O Exército dos EUA está testando uma solução que procura preservar a capacidade de fogo de 155 mm, mas incorporá-la a uma plataforma capaz de acompanhar forças móveis e reduzir o tempo de exposição da unidade.
Para o Brasil, essa discussão se conecta diretamente ao processo mais amplo de modernização dos fogos. Sistemas como o ASTROS, os projetos de munições guiadas, radares de contrabateria, drones e outros sensores precisam ser pensados como partes de uma mesma arquitetura operacional.
A artilharia que emerge dos conflitos contemporâneos não é simplesmente aquela que consegue disparar mais longe. É aquela capaz de receber rapidamente os dados de um alvo, executar o fogo, deslocar-se antes de ser localizada e voltar a operar em outra posição integrada à mesma rede.
É justamente essa mudança que a escolha do K9MH para a fase de prototipagem do MTC evidencia. Os Estados Unidos ainda não decidiram definitivamente qual sistema substituirá o M777, mas já decidiram que a próxima geração de artilharia precisa responder a um campo de batalha no qual mobilidade e sobrevivência passaram a ser requisitos tão importantes quanto o poder de fogo.
E essa talvez seja uma das conclusões mais importantes da análise que fizemos ontem: os fogos estão mudando porque o campo de batalha mudou. A decisão americana é mais um sinal de que essa transformação já saiu do terreno das tendências e começou a orientar programas concretos de modernização.
E o Brasil?
Diante desse cenário, também se torna necessário dar prosseguimento ao processo de aquisição do ATMOS, sistema que oferece ao Exército Brasileiro uma alternativa de artilharia autopropulsada sobre rodas alinhada justamente a essa evolução doutrinária e tecnológica.
A discussão sobre o ATMOS não deveria ser tratada apenas como uma aquisição de equipamento, mas como parte da necessária renovação da capacidade de fogos do Exército. A experiência americana com o MTC reforça a importância de avançar nessa direção, preservando a capacidade de artilharia de 155 mm e incorporando maior mobilidade, rapidez de deslocamento e integração aos demais elementos do sistema de fogos.
Assim como Washington está avaliando uma nova geração de sistemas móveis para substituir progressivamente os M777 em determinadas unidades, o Brasil precisa assegurar continuidade às decisões que já tomou no caminho da modernização de sua artilharia. O avanço do programa ATMOS passa a ser, portanto, uma questão diretamente relacionada à capacidade brasileira de acompanhar a transformação dos fogos que já está acontecendo nos principais exércitos do mundo.
por Angelo Nicolaci
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