quarta-feira, 3 de junho de 2026

Saab apresenta Gripen F e aprofunda presença industrial no Brasil com novo centro de pesquisa

A Saab apresentou oficialmente o primeiro Gripen F destinado à Força Aérea Brasileira (FAB), em cerimônia realizada em Linköping, na Suécia, no dia 2 de junho. O evento contou com a presença do Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Marcelo Kanitz Damasceno, e do chefe da área de negócios Aeronautics da Saab, Lars Tossman, marcando mais um avanço dentro do programa Gripen, considerado um dos mais amplos projetos de transferência de tecnologia da história da aviação militar brasileira.

O Gripen F é a versão biposto da família Gripen E e foi desenvolvido para combinar treinamento avançado e capacidade plena de combate em uma única plataforma. A aeronave mantém a mesma arquitetura de sensores, sistemas de missão e guerra centrada em rede do Gripen E, mas adiciona um segundo cockpit totalmente funcional, permitindo a divisão de tarefas entre piloto e instrutor ou entre tripulantes em missões de alta complexidade. Essa configuração reduz o tempo de formação operacional e aumenta a eficiência em cenários de combate onde a gestão simultânea de sensores, armas e consciência situacional é crítica.

O programa brasileiro Gripen foi formalizado em 2014, com a assinatura do contrato entre o governo brasileiro e a Saab para a aquisição de 36 aeronaves, sendo 28 Gripen E e 8 Gripen F. O valor estimado do contrato é de aproximadamente 39,3 bilhões de coroas suecas, equivalente a cerca de 4,5 bilhões de dólares à época da assinatura, envolvendo não apenas a entrega das aeronaves, mas também um amplo pacote de transferência de tecnologia e participação industrial brasileira.

O Brasil ocupa posição central no desenvolvimento do Gripen F, atuando como cliente lançador da versão biposto e participando diretamente do processo de codesenvolvimento. Centenas de engenheiros e técnicos brasileiros foram capacitados ao longo do programa, com atuação em áreas como integração de sistemas, desenvolvimento de software embarcado e engenharia aeronáutica. Parte da produção do Gripen também ocorre no Brasil, no complexo industrial de Gavião Peixoto (SP), onde a linha de montagem nacional foi inaugurada em 2023, consolidando o país como parte integrante da cadeia global de produção da aeronave.

Segundo a Saab, o desenvolvimento conjunto do Gripen F reforça a maturidade da parceria com o Brasil, que deixou de ser apenas um cliente para se tornar participante ativo no desenvolvimento de uma aeronave de combate de última geração. O contrato também prevê suporte logístico, manutenção e evolução contínua da frota ao longo de décadas.

Além da apresentação do novo caça, o evento também trouxe uma sinalização estratégica de longo prazo para a cooperação bilateral. O CEO da Saab, Micael Johansson, afirmou que a empresa estuda, em conjunto com o governo brasileiro, a criação de um centro de pesquisa e inovação em São José dos Campos (SP), próximo ao ecossistema do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA).

A iniciativa ainda está em fase de estudos e deverá ser estruturada por meio de um memorando de entendimento entre as partes. O objetivo é aprofundar o desenvolvimento de tecnologias associadas ao Gripen e fortalecer capacidades brasileiras em áreas como integração de sistemas, suporte ao ciclo de vida da aeronave e desenvolvimento de soluções avançadas de combate aéreo.

Nesse contexto, chama atenção o contraste entre o discurso recorrente de “transparência”, “parceria de longo prazo” e “fortalecimento do ecossistema de defesa” e a prática bastante seletiva na hora de definir quem, de fato, tem acesso aos marcos mais relevantes do programa. A apresentação do primeiro Gripen F ao Brasil, um evento de alta relevância estratégica e simbólica, contou com cobertura restrita e critérios de convite que não necessariamente refletem a relevância técnica ou a trajetória de acompanhamento da imprensa especializada ao programa.

Mais do que uma simples decisão logística de comunicação, esse tipo de escolha revela uma leitura ainda bastante míope sobre a relevância do trabalho de algumas das principais mídias especializadas, onde a retórica de parceria ampla convive, na prática, com filtros bastante estreitos sobre quem pode ou não participar da construção narrativa de um programa que, em tese, é multinacional, estruturante e de interesse público para a base industrial de defesa brasileira e América Latina. Em outras palavras, a sofisticação do Gripen avança em ritmo muito mais acelerado do que a sofisticação da sua política de relacionamento institucional com a imprensa.

O episódio, embora pontual, acaba funcionando como um indicador sutil de como ainda existem desalinhamentos entre o discurso estratégico e a prática comunicacional dentro de programas de defesa de alta complexidade. E, nesse tipo de ambiente, a percepção de abertura é tão estratégica quanto a própria tecnologia embarcada nas aeronaves.

A proposta surge dentro de um contexto de expansão industrial do programa Gripen, que já posiciona o Brasil como o primeiro país fora da Suécia a produzir um caça supersônico desenvolvido pela Saab. O modelo de produção compartilhada envolve unidades industriais no Brasil e na Suécia, com expectativa de atender tanto a demanda da FAB quanto potenciais clientes de exportação.

A apresentação do Gripen F, portanto, não representa apenas a introdução de uma nova variante operacional, mas a consolidação de um programa estratégico que já ultrapassa a simples aquisição de aeronaves. O projeto se estrutura como um vetor de desenvolvimento tecnológico e industrial, com impactos diretos na formação de mão de obra especializada, no fortalecimento da base industrial de defesa e na inserção do Brasil em um seleto grupo de países com capacidade de participar do desenvolvimento de caças de quinta geração e derivados avançados.

Na leitura do GBN Defense, o avanço do Gripen F e a discussão sobre um centro de pesquisa no Brasil indicam um movimento mais profundo do que a evolução natural de um contrato de defesa. Trata-se da consolidação de um ecossistema aeroespacial binacional, no qual o Brasil deixa de ocupar uma posição periférica na cadeia global de desenvolvimento e passa a integrar o núcleo de criação de conhecimento e tecnologia aplicada em aviação de combate. Ao mesmo tempo, esse modelo reforça uma tendência internacional de programas de defesa baseados não apenas na compra de plataformas, mas na construção compartilhada de capacidades industriais e tecnológicas de longo prazo, um ativo estratégico que tende a influenciar diretamente a autonomia operacional e a projeção de poder aéreo nas próximas décadas.


Por Angelo Nicolaci


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