As crescentes tensões entre Ottawa e Washington começam a produzir efeitos concretos em um dos setores mais sensíveis da segurança nacional canadense: a defesa. O que inicialmente parecia ser apenas mais um atrito comercial entre dois parceiros históricos evoluiu para uma discussão estratégica sobre soberania industrial, autonomia tecnológica e independência operacional. Nesse contexto, o governo canadense avalia uma profunda revisão de seu programa de renovação da aviação de caça, abrindo espaço para o Saab Gripen E como alternativa ao Lockheed Martin F-35A.
De acordo com informações divulgadas pelo jornal canadense La Presse, o Canadá estuda abandonar a aquisição integral de 88 caças F-35A aprovada em 2023 e substituí-la por uma frota mista. A proposta em análise prevê a manutenção de cerca de 30 aeronaves F-35A para missões estratégicas vinculadas aos compromissos do país junto ao NORAD e à OTAN, enquanto aproximadamente 60 aeronaves Gripen E assumiriam a maior parte das missões de defesa aérea e policiamento do espaço aéreo canadense.
A mudança de rumo não ocorre por razões puramente militares. Ela está diretamente ligada ao agravamento das relações entre o governo canadense e a administração liderada por Donald Trump. A imposição de tarifas de 25% sobre produtos canadenses e as ameaças de medidas ainda mais severas contra setores estratégicos, incluindo a indústria aeronáutica, acenderam um alerta em Ottawa sobre os riscos de uma dependência excessiva de fornecedores americanos em áreas consideradas críticas para a segurança nacional.
Embora o Canadá tenha realizado pagamentos relacionados a componentes de longo ciclo de produção do F-35, a situação contratual oferece margem de manobra ao governo do primeiro-ministro Mark Carney. Na prática, apenas as primeiras 16 aeronaves encontram-se plenamente vinculadas a contratos de produção já assinados, enquanto as demais unidades ainda podem ser reduzidas ou canceladas sem que isso represente custos proibitivos para o país.
Os sinais de uma mudança de orientação estratégica já haviam surgido em maio deste ano. Em uma decisão que surpreendeu parte do setor de defesa, Ottawa descartou propostas americanas para sua futura capacidade de Alerta Aéreo Antecipado e Controle Aerotransportado (AEW&C), iniciando negociações exclusivas com a Saab para a aquisição do sistema GlobalEye.
A escolha não foi apenas técnica. O GlobalEye utiliza a aeronave Bombardier Global 6500 como plataforma, preservando empregos e fortalecendo a indústria aeroespacial canadense. A decisão foi interpretada como um indicativo claro de que a prioridade do governo passou a ser a geração de capacidade industrial doméstica, mesmo quando isso significa abrir mão de soluções tradicionalmente fornecidas pelos Estados Unidos.
Essa visão foi formalizada na nova Estratégia Industrial de Defesa do Canadá, lançada em fevereiro de 2026. O documento estabelece investimentos estimados em 500 bilhões de dólares canadenses ao longo da próxima década e prevê a elevação gradual dos gastos de defesa para 5% do PIB até 2035. Mais importante, a estratégia busca corrigir uma realidade histórica na qual aproximadamente 75% dos recursos destinados à defesa acabavam direcionados para fornecedores americanos.
A nova política estabelece que pelo menos 70% do valor agregado dos grandes contratos de defesa permaneça dentro do território canadense. Nesse cenário, a proposta da Saab ganhou força ao oferecer algo que a concorrência americana não conseguiu igualar: transferência de tecnologia, produção local, participação da indústria nacional e controle soberano sobre futuras modernizações de software e sistemas de missão.
O Gripen E também apresenta características operacionais particularmente interessantes para o ambiente canadense. Desenvolvido para operar em condições severas e a partir de bases dispersas, o caça sueco possui elevada disponibilidade operacional, requisitos logísticos reduzidos e capacidade de operar em pistas improvisadas de aproximadamente 800 metros de comprimento. Em um país com vastas áreas remotas e desafios geográficos significativos, essas características representam vantagens importantes.
Outro fator que pesa na análise canadense é o custo operacional. Enquanto o F-35 continua enfrentando questionamentos relacionados ao custo de operação ao longo de sua vida útil, estimado em valores significativamente superiores aos de aeronaves de geração anterior, o Gripen E apresenta um custo por hora de voo substancialmente menor. Isso permite manter um número maior de aeronaves disponíveis para emprego operacional, treinamento e prontidão, reduzindo a pressão sobre o orçamento de defesa.
Sob a ótica estratégica, a combinação entre F-35 e Gripen E cria uma solução considerada equilibrada. O F-35 manteria as capacidades furtivas e a integração plena com as redes de combate da OTAN e do NORAD, enquanto o Gripen assumiria grande parte das missões de defesa aérea, interceptação e policiamento do espaço aéreo, oferecendo custos operacionais mais baixos e maior flexibilidade de emprego.
A Saab ainda adicionou um componente geopolítico à proposta ao sugerir que futuras aeronaves destinadas à reconstrução das capacidades militares da Ucrânia possam ser produzidas em instalações canadenses. A iniciativa cria perspectivas de geração de empregos, expansão da base industrial local e acesso a futuras linhas de financiamento internacionais ligadas à reconstrução da capacidade de defesa ucraniana.
Embora nenhuma decisão definitiva tenha sido anunciada até o momento, analistas apontam que qualquer confirmação deverá ocorrer somente após as eleições legislativas parciais americanas previstas para novembro de 2026, evitando ampliar as tensões diplomáticas já existentes entre os dois países.
Uma oportunidade que pode interessar diretamente à Base Industrial de Defesa do Brasil
Caso o Gripen E seja efetivamente selecionado para compor a futura frota canadense, os reflexos poderão ultrapassar as fronteiras da América do Norte e alcançar diretamente a Base Industrial de Defesa brasileira.
Diferentemente de muitos programas internacionais de defesa nos quais o Brasil atua apenas como cliente, o programa Gripen criou no país competências industriais estratégicas que hoje fazem parte da cadeia global de fornecimento da Saab. Ao longo da última década, empresas brasileiras absorveram conhecimento, desenvolveram processos produtivos avançados e passaram a participar de atividades de engenharia, integração e fabricação de componentes aeronáuticos de alta complexidade.
Um dos principais exemplos é a AEL Sistemas. A empresa tornou-se responsável por importantes elementos da aviônica do Gripen, incluindo sistemas de interface homem-máquina e componentes eletrônicos que hoje equipam a aeronave, como o Wide Area Display (WAD). O amadurecimento dessa capacidade transformou a empresa em um fornecedor estratégico dentro do programa.
Caso a produção do Gripen seja ampliada para atender um pedido canadense de dezenas de aeronaves, a demanda por equipamentos eletrônicos, integração de sistemas e desenvolvimento de software embarcado poderá crescer significativamente, criando oportunidades para ampliar a participação da indústria brasileira.
Outro aspecto relevante está relacionado à produção de aeroestruturas. O programa Gripen permitiu que fosse instalada no Brasil a capacidade para fabricar componentes estruturais complexos, empregando tecnologias avançadas de manufatura aeronáutica. Essa infraestrutura já existe, está certificada e opera dentro dos padrões exigidos pela indústria aeroespacial internacional.
Dessa forma, uma eventual expansão da produção global do Gripen poderia encontrar no Brasil uma capacidade industrial pronta para absorver parte da demanda, reduzindo riscos, acelerando cronogramas e aumentando a competitividade do programa. Em vez de uma simples transferência de produção para o Canadá, a Saab poderia estruturar uma cadeia multinacional envolvendo Suécia, Brasil e Canadá, distribuindo atividades conforme as competências já existentes em cada país.
Para a Base Industrial de Defesa brasileira, trata-se de uma perspectiva particularmente interessante. Além de gerar novas oportunidades de negócios, um eventual programa canadense fortaleceria toda a cadeia de fornecedores construída ao redor do Gripen, ampliando economias de escala, reduzindo custos e aumentando a sustentabilidade de longo prazo dos investimentos realizados no Brasil.
Mais do que uma possível venda de caças para o Canadá, a disputa entre Gripen e F-35 pode representar um novo capítulo na consolidação de uma rede industrial internacional em torno da aeronave sueca. E, nesse cenário, o Brasil tem condições concretas de deixar de ser apenas um operador do Gripen para se consolidar como um dos principais polos industriais e tecnológicos do programa em nível global.
por Angelo Nicolaci
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