O Atlântico Sul deixou de ser apenas uma gigantesca via marítima de comércio e projeção econômica para se transformar, silenciosamente, em uma das mais complexas arenas estratégicas do século XXI. Entre rotas transoceânicas, cabos submarinos, infraestrutura crítica, corredores energéticos e fluxos globais de comércio, emerge também uma ameaça cada vez mais sofisticada: o avanço do crime organizado transnacional sobre a Amazônia Azul brasileira.
Foi justamente essa transformação do ambiente estratégico marítimo que dominou um dos painéis mais relevantes e densos do “III Fórum Nacional sobre Proteção Integrada de Fronteiras: A fronteira marítima do Brasil”, promovido pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI), reunindo representantes do Ministério das Relações Exteriores, Marinha do Brasil, Polícia Federal, Receita Federal e organismos internacionais de cooperação marítima.
Mais do que um debate técnico sobre narcotráfico ou segurança portuária, o painel acabou revelando algo muito maior: a percepção crescente de que soberania marítima, defesa nacional, inteligência, desenvolvimento econômico e proteção de infraestrutura crítica tornaram-se dimensões inseparáveis.
Ao abrir os trabalhos, o embaixador Marcelo Della Nina, coordenador-geral de combate aos ilícitos transnacionais do Ministério das Relações Exteriores, contextualizou o cenário enfrentado pelo Brasil e apresentou aquilo que classificou como três movimentos centrais observados pelo Itamaraty.
O primeiro deles é a expansão territorial das organizações criminosas pelo território nacional, incluindo a Amazônia. O segundo é a diversificação acelerada das atividades ilícitas, que já ultrapassam o narcotráfico e alcançam tráfico de pessoas, contrabando de migrantes e múltiplas modalidades de crime transnacional. O terceiro, e talvez mais preocupante, é a internacionalização crescente das facções brasileiras.
Segundo Della Nina, o Brasil vive um momento decisivo para aprofundar o debate sobre proteção integrada de fronteiras e segurança marítima, sobretudo diante da crescente preocupação internacional com a utilização do Atlântico Sul pelas redes globais do narcotráfico.
O diplomata destacou ainda iniciativas recentes conduzidas no âmbito do G7 ampliado voltadas ao combate ao tráfico internacional de drogas, nas quais o Brasil passou a integrar mecanismos de coordenação e compartilhamento estratégico de informações.
Mas foi na apresentação do Vice-Almirante João Alberto Araújo Lampert, da Marinha do Brasil, que o painel ganhou uma dimensão ainda mais ampla, conectando geopolítica, poder marítimo, soberania, defesa e competição internacional.
Com uma exposição marcada por forte densidade estratégica, o Vice-Almirante Lampert lembrou que o mar cobre três quartos do planeta e que, no caso brasileiro, a Amazônia Azul concentra ativos absolutamente críticos para a sobrevivência econômica e estratégica do país: cerca de 95% do comércio exterior brasileiro, reservas energéticas offshore, cabos submarinos de comunicação, biodiversidade, recursos minerais e infraestrutura crítica.
O Vice-Almirante chamou atenção para um ponto central frequentemente negligenciado no debate público brasileiro: a fronteira marítima não pode ser compreendida apenas pela linha costeira ou pelos portos.
Segundo ele, o conceito de Amazônia Azul envolve uma gigantesca área marítima sob jurisdição brasileira, projetada para centenas de milhas além da costa, conforme estabelecido pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS).
Mas o eixo central de sua apresentação foi a defesa daquilo que chamou de “presença” e “credenciamento estratégico”.
Para o Vice-Almirante Lampert, nenhum país exerce influência efetiva ou constrói cooperação internacional equilibrada sem capacidade concreta de presença operacional em seus espaços estratégicos.
“A cooperação sem presença se transforma apenas em diálogo”, resumiu. A frase sintetizou talvez uma das mensagens mais importantes de todo o painel.
Segundo o Vice-Almirante, países institucionalmente frágeis ou incapazes de controlar seus próprios espaços marítimos tornam-se vulneráveis não apenas ao crime organizado, mas também a pressões geopolíticas externas.
Sua análise foi além do narcotráfico. O Vice-Almirante Lampert alertou para um ambiente internacional marcado por crescente competição entre grandes potências, disputa por recursos naturais, segurança energética, alimentos, minerais estratégicos e controle de rotas marítimas globais.
Na avaliação do Vice-Almirante, o Atlântico Sul possui uma “vocação estratégica” cada vez mais evidente e tende a assumir importância ainda maior nas próximas décadas.
Ao mesmo tempo, o almirante ressaltou que ameaças transnacionais dessa magnitude não podem ser enfrentadas isoladamente.
A cooperação internacional, segundo ele, tornou-se indispensável nas dimensões diplomática, naval, policial, aduaneira e de inteligência. Mas insistiu que essa cooperação só produz resultados concretos quando acompanhada de capacidade operacional própria.
Dentro dessa lógica, o Vice-Almirante Lampert defendeu investimentos robustos na Base Industrial de Defesa brasileira, no desenvolvimento de sensores, drones, sistemas integrados de monitoramento marítimo e fortalecimento das capacidades navais nacionais.
Sua fala dialogou diretamente com o debate conduzido pelo próprio fórum sobre soberania tecnológica, presença estratégica e fortalecimento da indústria nacional de defesa.
E foi justamente a dimensão operacional dessa guerra silenciosa no Atlântico que ganhou contornos ainda mais impressionantes na apresentação do delegado da Polícia Federal Vinícius Faria Zangirolani, chefe da divisão de repressão ao narcotráfico.
Uma das exposições mais impactantes do painel, Zangirolani revelou como o crime organizado internacional vem se adaptando rapidamente ao aumento da fiscalização nos portos brasileiros.
Segundo o delegado, a Polícia Federal identificou um fenômeno paradoxal: enquanto o Brasil ampliou significativamente os controles portuários, aumentando escaneamento de contêineres, monitoramento de áreas portuárias e fiscalização integrada, o preço da cocaína na Europa caiu drasticamente.
A conclusão é direta: o fluxo de droga para o mercado europeu continua crescendo, uma vez que o aumento do volume na Europa reflete no preço da cocaína naquela região do globo. E o motivo está na capacidade de adaptação das organizações criminosas.Com o aumento da pressão sobre os contêineres, os cartéis passaram a utilizar modalidades marítimas cada vez mais sofisticadas e difíceis de interceptar: veleiros, pesqueiros oceânicos, embarcações de médio porte, contaminação de cascos e até semissubmersíveis transatlânticos.
O delegado revelou que a Polícia Federal identificou no Pará a construção de um narco-semissubmersível com capacidade de cruzar o Atlântico, o primeiro do tipo descoberto no Brasil.
A embarcação, construída em fibra e com perfil extremamente baixo para dificultar detecção radar e visual, representa uma mudança significativa no padrão operacional do narcotráfico no Atlântico Sul. Até então, esse tipo de plataforma era associado principalmente às rotas do Pacífico.
Outro ponto extremamente relevante levantado por Zangirolani foi a consolidação da região Norte como corredor logístico internacional do narcotráfico.
Segundo ele, embarcações adquiridas no Sul do Brasil seguem em navegação de cabotagem até a região amazônica, onde recebem cocaína oriunda das rotas fluviais ligadas ao Peru e à Colômbia. A partir dali, seguem rumo à África ou Europa transportando até dez toneladas de cocaína por viagem.
O delegado detalhou ainda como a cooperação internacional tornou-se essencial para as interceptações em alto-mar.
Por meio da Interpol, Ameripol, oficiais de ligação distribuídos em dezenas de países e cooperação direta com organismos internacionais, a Polícia Federal consegue compartilhar inteligência em tempo real com marinhas e guardas costeiras estrangeiras. Esse mecanismo permite monitorar embarcações suspeitas ainda durante a travessia oceânica.
Zangirolani também chamou atenção para obstáculos jurídicos importantes envolvendo diferentes legislações nacionais, especialmente em relação à preservação de provas e tratamento das embarcações interceptadas.
A dimensão internacional dessa guerra marítima foi aprofundada por Paulo Silva, representante do Maritime Analysis and Operations Centre – Narcotics (MAOC-N), sediado em Lisboa.
Criado em 2007 por países europeus, o MAOC-N atua como um centro multinacional de inteligência e coordenação operacional voltado ao combate ao narcotráfico marítimo.
Segundo Paulo Silva, o grande diferencial do centro está na capacidade de compartilhar inteligência em tempo real entre forças policiais, marinhas e organismos internacionais.
“O tráfico de drogas é um negócio multinacional estruturado”, afirmou.
Sua apresentação revelou um cenário impressionante de sofisticação logística. Hoje, segundo ele, o narcotráfico marítimo opera como uma cadeia global integrada, envolvendo múltiplos grupos criminosos, estruturas financeiras complexas, embarcações especializadas e rotas altamente dinâmicas.
Silva destacou que o Brasil ocupa posição central dentro das operações coordenadas pelo MAOC-N.
Segundo ele, operações relacionadas à cooperação com o Brasil já resultaram na apreensão de aproximadamente 58 toneladas de cocaína e oito toneladas de haxixe.
O representante do centro europeu detalhou ainda o crescimento do uso de “go-fast boats”, lanchas ultrarrápidas capazes de operar a mais de mil milhas náuticas da costa, além do avanço do uso de semissubmersíveis e embarcações mercantes contaminadas.
Ele apresentou casos envolvendo navios cargueiros, pesqueiros oceânicos, transportadores de gado vivo e operações multinacionais envolvendo forças europeias, africanas e sul-americanas.
Talvez um dos pontos mais importantes de sua apresentação tenha sido a defesa da construção gradual de confiança entre agências internacionais.
Segundo Silva, confiança operacional não se compra nem se impõe: ela é construída ao longo de anos de cooperação contínua.
“A informação precisa circular em tempo real. Quando ela demora, perde valor operacional”, destacou.
Já a Receita Federal foi representada por Guilherme Cantarino Costa Ramos, que trouxe ao painel uma dimensão frequentemente pouco compreendida pela opinião pública: a segurança aduaneira como elemento central da defesa do Estado.
Sua apresentação conectou segurança portuária, inteligência artificial, blockchain, gerenciamento de risco, integração de dados, comércio internacional e combate à lavagem de dinheiro.
Segundo Cantarino, o conceito moderno de segurança aduaneira ultrapassou há muito tempo a simples fiscalização física de cargas.
Hoje, o combate ao crime organizado depende cada vez mais de inteligência integrada, análise massiva de dados, interoperabilidade de sistemas e monitoramento preditivo em tempo real.
O auditor destacou que as aduanas passaram por profunda transformação global após os atentados de 11 de setembro de 2001.
Foi nesse contexto que surgiram mecanismos internacionais como o Código ISPS (International Ship and Port Facility Security Code), vinculado à Convenção SOLAS (Safety of Life at Sea), da International Maritime Organization (IMO), estabelecendo novos padrões globais de proteção marítima e portuária.
Segundo ele, o Brasil possui potencial para assumir posição de liderança internacional nessa agenda.
Cantarino defendeu maior integração entre Receita Federal, Marinha do Brasil, Polícia Federal, organismos internacionais e estruturas de inteligência, além da ampliação do uso de inteligência artificial, blockchain e plataformas globais de compartilhamento de dados comerciais.
O auditor também ressaltou a importância estratégica da integração da Receita Federal ao sistema nacional de segurança pública, tema debatido durante a tramitação da PEC da Segurança Pública.
Sua fala trouxe ainda exemplos concretos de operações conjuntas envolvendo Receita Federal, Polícia Federal, Marinha do Brasil e autoridades internacionais, incluindo apreensões de cocaína escondida em cargas comerciais e operações cooperativas realizadas com Portugal.
Ao final do painel, uma percepção tornou-se inevitável. O Brasil já enfrenta uma transformação profunda no ambiente estratégico do Atlântico Sul.
O crime organizado opera hoje como uma estrutura multinacional altamente sofisticada, dotada de logística oceânica, capacidade tecnológica crescente, financiamento globalizado e enorme flexibilidade operacional.
Ao mesmo tempo, o painel deixou claro que o enfrentamento dessa ameaça exige muito mais do que operações isoladas.
Exige presença marítima permanente, inteligência em tempo real, interoperabilidade entre agências, fortalecimento da Base Industrial de Defesa, capacidade tecnológica nacional, vigilância oceânica e uma arquitetura robusta de cooperação internacional.
A Amazônia Azul deixou definitivamente de ser apenas um conceito estratégico da Marinha do Brasil. Ela tornou-se uma das principais fronteiras de soberania, segurança e disputa geopolítica do século XXI.
por Angelo Nicolaci
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