A participação de brasileiros na guerra da Ucrânia já foi tema de uma investigação do GBN Defense. Em reportagem publicada em 9 de janeiro de 2026, intitulada “Da ilusão ao front: aliciamento engana brasileiros, como a guerra da Ucrânia virou escola de guerra para criminosos brasileiros”, reunimos relatos de brasileiros que estiveram no país e descreveram uma realidade distante das condições apresentadas durante o recrutamento. Os depoimentos apontaram problemas com remuneração, documentação, infraestrutura, violência dentro de unidades e dificuldades para deixar o serviço e retornar ao Brasil.
Agora, investigações internacionais acrescentam outra dimensão ao problema: denúncias de que cidadãos brasileiros e de outros países latino-americanos teriam sido atraídos para a Rússia por meio de falsas ofertas de trabalho civil e, depois de chegar ao país, incorporados às Forças Armadas russas.
Embora os dois cenários envolvam estrangeiros que foram parar na guerra, as circunstâncias não são necessariamente equivalentes. É preciso distinguir o alistamento voluntário, realizado com conhecimento da natureza militar do compromisso, das situações em que há fraude, coação, exploração da vulnerabilidade ou restrição da liberdade. É justamente essa diferença que permite compreender a gravidade das denúncias sem estabelecer uma falsa equivalência entre experiências distintas.
A realidade encontrada por brasileiros na Ucrânia
A apuração publicada pelo GBN Defense teve como base relatos de brasileiros que retornaram da Ucrânia e compartilharam suas experiências conosco. O que emergiu dos depoimentos foi uma distância significativa entre as promessas feitas por recrutadores e intermediários, e as condições efetivamente encontradas por alguns voluntários.
As ofertas apresentavam a possibilidade de remuneração, estrutura organizada, treinamento e apoio durante a permanência no país. Entretanto, os relatos recebidos pelo GBN apontaram situações de pagamentos atrasados ou não realizados, ausência de clareza sobre contratos e obrigações, alojamentos e instalações precários e dificuldades para obter informações sobre os próprios direitos.
Também foram relatados casos de retenção de passaportes e outros documentos, além de restrições à liberdade de circulação. Para alguns brasileiros, a decisão de deixar a unidade e voltar para casa teria se transformado em um processo complexo, marcado por obstáculos administrativos, exigências financeiras e falta de apoio para o regresso.
A violência dentro de determinadas unidades aparece entre os aspectos mais preocupantes. Os depoimentos mencionaram agressões físicas, intimidações e práticas abusivas contra voluntários, inclusive por parte de integrantes das próprias unidades às quais estavam vinculados. Essas situações, segundo os relatos, agravavam a vulnerabilidade de quem já enfrentava dificuldades para sair da estrutura militar ucraniana.
Outras reportagens ajudaram a confirmar nossa reportagem e ampliar a compreensão desse cenário. Em fevereiro de 2026, o UOL publicou entrevistas com brasileiros que denunciaram atrasos salariais, retenção de passaportes e celulares, alojamentos inadequados, restrições à liberdade de circulação, pressão psicológica e agressões físicas.
Uma investigação do Kyiv Independent, publicada no mesmo mês, trouxe denúncias envolvendo uma formação de combatentes estrangeiros liderada por brasileiros e vinculada à estrutura da inteligência militar ucraniana. Ex-integrantes relataram espancamentos, retenção de documentos e práticas violentas de disciplina. A apuração também examinou a morte do jovem brasileiro Bruno Gabriel Leal da Silva, em dezembro de 2025, em circunstâncias que antigos integrantes associaram a abusos dentro da unidade.
Essas denúncias revelam que a experiência de alguns voluntários esteve muito distante da realidade apresentada durante o recrutamento e que a existência de canais oficiais de alistamento não elimina a necessidade de investigar abusos e irregularidades.
O Ministério da Defesa da Ucrânia mantém um procedimento oficial para candidatos estrangeiros, com etapas de seleção, avaliação médica, verificação documental e assinatura de contrato. As condições contratuais também precisam ser compreendidas antes do alistamento. Informações oficiais indicam contratos com duração de três a cinco anos e regras específicas para a rescisão durante a lei marcial, incluindo exigências de tempo mínimo de serviço contínuo.
Esse contexto ajuda a compreender por que o desligamento pode ser difícil, mas não justifica retenção irregular de documentos, ameaças, agressões ou qualquer prática que comprometa a liberdade individual. A questão central está na transparência das condições oferecidas e na possibilidade do voluntário compreender, antes de viajar, o compromisso que está assumindo.
Denúncias de recrutamento fraudulento para as forças russas
No caso russo, investigações recentes de organizações internacionais de direitos humanos identificaram mecanismos de recrutamento que, em determinadas situações, teriam utilizado falsas ofertas de trabalho civil para atrair estrangeiros.
Em 10 de setembro de 2026, a Anistia Internacional publicou uma investigação sobre o recrutamento de cidadãos estrangeiros para as Forças Armadas russas. O documento reuniu depoimentos de pessoas de diferentes nacionalidades, incluindo brasileiros, colombianos, cubanos, sul-africanos e cidadãos de outros países.
Segundo a organização, candidatos teriam sido atraídos por anúncios e intermediários que ofereciam empregos em áreas como segurança, logística, construção, transporte e tecnologia da informação. As propostas incluíam salários elevados e, em alguns casos, a possibilidade de obter cidadania russa. Depois de chegar ao país, porém, alguns entrevistados afirmaram ter descoberto que os documentos apresentados correspondiam a contratos militares.
Entre os casos relatados está o de um brasileiro identificado pelo pseudônimo “Pedro”, profissional da área de tecnologia da informação. De acordo com a Anistia Internacional, ele acreditava ter aceitado uma oportunidade de trabalho civil, mas acabou incorporado às forças russas. Ao tentar deixar o serviço, teria recebido ameaças de prisão ou morte.
A investigação também reuniu relatos de retenção de passaportes e telefones celulares, restrições à liberdade de circulação, promessas salariais não cumpridas e envio para áreas de combate após períodos de treinamento considerados insuficientes pelos entrevistados.
A Anistia Internacional avalia que, quando há fraude, coerção, exploração da vulnerabilidade e privação da liberdade, essas práticas podem configurar tráfico de pessoas. Trata-se de uma conclusão da organização a partir dos casos investigados, e não de uma decisão judicial individual sobre cada pessoa mencionada.
Estudo internacional aponta recrutamento em mais de 130 países
Em 29 de abril de 2026, a Federação Internacional pelos Direitos Humanos (FIDH), em conjunto com a Truth Hounds e o Kazakhstan International Bureau for Human Rights and Rule of Law, publicou um estudo sobre o recrutamento de estrangeiros para combater ao lado da Rússia.
Com base em nove meses de pesquisa, entrevistas com prisioneiros de guerra e ex-integrantes das forças russas, fontes abertas e consultas a especialistas, o levantamento estimou que pelo menos 27 mil cidadãos estrangeiros de mais de 130 países teriam sido recrutados desde fevereiro de 2022.
O número representa uma estimativa das organizações responsáveis pelo estudo, não um dado oficial confirmado pelo governo russo. O relatório também diferencia aqueles que sabiam estar se alistando para participar de um conflito daqueles que teriam sido enganados ou coagidos por meio de ofertas fraudulentas.
Essa distinção é essencial. A presença de estrangeiros nas forças de um país não significa, por si só, que todos tenham sido vítimas de tráfico de pessoas. O que precisa ser examinado é como ocorreu o recrutamento, se o candidato conhecia a natureza do serviço, se compreendia o contrato e se manteve liberdade efetiva para aceitar ou recusar o compromisso.
ONU identifica recrutamento mediante fraude em 29 países
Em 26 de outubro de 2026, a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Ucrânia, vinculada ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, divulgou novas conclusões sobre o recrutamento de estrangeiros para as forças russas.
A Comissão afirmou ter encontrado evidências de que cidadãos de 29 países foram recrutados mediante fraude e coerção, em um processo que envolveria agentes e intermediários atuando em diferentes regiões do mundo. O Brasil está entre os países mencionados.
Segundo a investigação, os recrutadores apresentavam ofertas de trabalho civil aparentemente legítimas, organizavam vistos e passagens e, em alguns casos, acompanhavam os candidatos durante o deslocamento. Depois da chegada à Rússia, os homens eram pressionados a assinar contratos militares redigidos em russo, frequentemente sem compreender plenamente o conteúdo dos documentos.
A Comissão identificou coordenação entre intermediários e autoridades russas, além do encaminhamento de estrangeiros para posições de combate na Ucrânia. O órgão concluiu que as práticas investigadas configuram tráfico de pessoas e violações de direitos humanos.
A investigação também estabeleceu uma distinção entre o recrutamento fraudulento e o alistamento voluntário de estrangeiros que conhecem a natureza militar do compromisso assumido. No escopo específico dessa apuração, a Comissão afirmou não ter encontrado evidências de um esquema equivalente de recrutamento fraudulento do lado ucraniano.
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| Frank Dario Jarrosay Manfuga, cubano que afirmou ter sido enganado por uma oferta de trabalho na construção civil. |
Essa conclusão não invalida os relatos de brasileiros sobre abusos, violência, retenção de documentos e condições precárias em determinadas estruturas ucranianas. São questões distintas: uma investigação sobre fraude no recrutamento e relatos sobre as condições enfrentadas por voluntários depois de ingressarem em unidades ou estruturas específicas.
O alerta para os brasileiros
O Ministério das Relações Exteriores do Brasil já alertou sobre os riscos do alistamento voluntário de cidadãos nacionais em forças armadas estrangeiras envolvidas em conflitos internacionais.
A orientação consular chama atenção para a possibilidade de morte, as dificuldades para interromper o serviço militar e as limitações da assistência prestada pelas representações brasileiras, conforme os compromissos assumidos pelo cidadão com forças armadas de outros países. O retorno também pode envolver custos e obstáculos que não foram considerados antes da viagem.
Para brasileiros atraídos por promessas de remuneração, treinamento ou oportunidades profissionais, a ausência de informações claras sobre o contrato, a unidade de destino, as condições de serviço e os mecanismos de desligamento representa um risco significativo.
O GBN Defense buscará um posicionamento oficial do governo da Federação Russa sobre as denúncias de recrutamento fraudulento de brasileiros e outros cidadãos estrangeiros, bem como esclarecimentos sobre os mecanismos de recrutamento adotados, a atuação de intermediários e as medidas implementadas para prevenir e apurar eventuais irregularidades. Também questionaremos como as autoridades russas têm tratado os casos de estrangeiros que afirmam ter sido enganados, coagidos ou impedidos de deixar o serviço militar. O objetivo é apresentar a posição oficial de Moscou e ampliar a compreensão sobre como o país vem lidando com essas denúncias. O espaço permanecerá aberto para manifestação.
O que está por trás das promessas de recrutamento
Os relatos reunidos pelo GBN Defense sobre brasileiros que foram à Ucrânia e as investigações internacionais envolvendo o recrutamento para as forças russas mostram que a participação de estrangeiros na guerra precisa ser analisada para além da decisão individual de combater.
Em ambos os cenários, a distância entre o que é anunciado durante o recrutamento e a realidade encontrada no destino merece atenção. Salários, treinamento, infraestrutura, equipamentos, alojamento, liberdade de circulação e condições para deixar o serviço são elementos que precisam estar claramente definidos antes de qualquer compromisso.
No caso ucraniano, os depoimentos publicados pelo GBN e por outros veículos apontam problemas enfrentados por determinados brasileiros depois de ingressarem em unidades militares. No caso russo, investigações da Anistia Internacional, de organizações de direitos humanos e da Comissão de Inquérito da ONU identificaram mecanismos de fraude e coerção utilizados para incorporar estrangeiros às forças militares.
A diferença entre voluntariado e aliciamento não está apenas na nacionalidade de quem recruta ou no lado do conflito em que o estrangeiro decide combater. Está, sobretudo, na informação oferecida, no consentimento efetivo, na transparência contratual e na liberdade de cada indivíduo para decidir sobre sua própria permanência.
O GBN Defense continuará acompanhando o tema, distinguindo o alistamento voluntário das denúncias de fraude, exploração e coerção. A participação de estrangeiros em um conflito não pode servir de justificativa para abusos, assim como denúncias envolvendo indivíduos ou unidades específicas não devem ser generalizadas para todos os militares de um país.
A transparência no recrutamento, o respeito aos direitos individuais e a possibilidade efetiva de retorno ao país de origem são questões fundamentais para impedir que pessoas atraídas por promessas de oportunidades acabem submetidas a condições que jamais aceitaram conscientemente.
Por Angelo Nicolaci
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