terça-feira, 6 de outubro de 2026

Shturm: Rússia leva ao exercício "Tsentr-2026" um novo conceito de carro de combate

A Rússia apresentou durante o exercício estratégico Tsentr-2026 o sistema pesado robotizado de assalto Shturm, desenvolvido pela Uralvagonzavod sobre o chassi da família T-72. A demonstração ocorreu em 2 de outubro, no campo de treinamento de Chebarkul, na região de Chelyabinsk, integrando a plataforma remotamente controlada às operações de assalto do exercício. A Rostec apresentou o Shturm ao lado dos carros de combate T-90M Proryv, da viatura robotizada de apoio Spiridon e de outros sistemas não tripulados.

O programa, porém, antecede a guerra na Ucrânia. O desenvolvimento começou no final da década de 2010 e, em 2021, o Ministério da Defesa russo contratou a construção de um protótipo baseado no T-72B3. O projeto previa uma família de plataformas com diferentes configurações de armamento e uma viatura de comando para controlar os sistemas.

A utilização do T-72 reduz riscos tecnológicos e logísticos. A Rússia dispõe de grande quantidade desses chassis, além de cadeia industrial, infraestrutura de manutenção e pessoal familiarizado com a plataforma. A opção permite transformar uma arquitetura existente em um sistema robotizado sem desenvolver um novo veículo desde a origem.

O Shturm apresentado durante o Tsentr-2026 emprega um canhão de 125 mm de tubo encurtado, identificado em fontes abertas como D-414. A configuração foi concebida para operações em áreas urbanizadas, nas quais o comprimento do armamento pode limitar a movimentação entre edificações e obstáculos. O projeto também prevê outras variantes, incluindo plataformas equipadas com armamento automático e sistemas de apoio de fogo.

Sua função não é substituir diretamente o carro de combate principal. O conceito está voltado a missões de assalto em ambientes de elevado risco, como áreas urbanas e posições fortificadas, nas quais a plataforma pode fornecer fogo direto e remover obstáculos sem expor uma guarnição no ponto mais vulnerável. A lâmina frontal incorporada ao veículo reforça essa característica.

Embora classificado como robotizado, o Shturm não é um sistema autônomo. A plataforma é operada remotamente por militares posicionados em uma viatura de comando. Essa arquitetura retira a tripulação do veículo empregado na área de maior exposição, mas cria outra dependência crítica: o enlace de comando e controle.

Em combate, a capacidade de manter a comunicação com a plataforma passa a ser tão importante quanto sua proteção e armamento. Interferência eletromagnética, perda do enlace ou degradação dos sensores podem comprometer a operação. Fontes abertas associadas ao programa indicam alcance de controle de aproximadamente três quilômetros, mas os parâmetros do sistema empregado no Tsentr-2026, incluindo resistência à guerra eletrônica, não foram divulgados oficialmente.

A demonstração russa também deve ser analisada dentro do próprio cenário do exercício. Segundo o Ministério da Defesa russo, o Tsentr-2026 empregou aeronaves não tripuladas, sistemas terrestres robotizados, guerra eletrônica, defesa antiaérea, armas de precisão e tropas de assalto. Na fase realizada em Chebarkul, participaram cerca de 6 mil militares, aproximadamente 700 unidades de equipamentos e mais de 600 aeronaves não tripuladas, além de dezenas de sistemas terrestres robotizados.

Nesse contexto, o Shturm representa uma tentativa de integrar plataformas pesadas não tripuladas ao mesmo ambiente operacional dos carros de combate, infantaria, artilharia e drones. A experiência da guerra na Ucrânia aumentou a exposição das plataformas convencionais a drones FPV, minas, sensores e sistemas anticarro, tornando a sobrevivência da tripulação um dos fatores centrais na evolução dos veículos de combate.

A apresentação conjunta com o Spiridon amplia essa lógica. Em vez de simplesmente retirar a tripulação de um carro de combate convencional, a Rússia trabalha com uma família de plataformas especializadas, capazes de assumir diferentes funções dentro da força de assalto. O conceito aproxima a robotização terrestre de uma arquitetura de combate combinada, na qual sistemas tripulados e não tripulados atuam de forma complementar.

Ainda existem, contudo, questões relevantes sem resposta. A possibilidade de uma variante equipada com canhão de 152 mm é mencionada desde as primeiras fases do programa, mas não há confirmação oficial de que essa configuração esteja operacional ou tenha participado do Tsentr-2026. Da mesma forma, a demonstração do sistema não significa, por si só, entrada em produção seriada ou adoção em larga escala. Não foram divulgados publicamente números de unidades produzidas, cronograma de fabricação ou quantidade destinada às forças russas.

O Shturm deve ser observado, portanto, como um experimento de emprego de plataformas pesadas robotizadas em tarefas nas quais a exposição da tripulação é particularmente elevada. Seu desempenho real dependerá não apenas do armamento e da proteção, mas da capacidade de manter sensores, comunicações, mobilidade e controle sob guerra eletrônica e fogo inimigo.

Mais do que indicar o desaparecimento do carro de combate convencional, o programa aponta para uma possível mudança na composição das forças blindadas. Plataformas tripuladas continuarão desempenhando funções nas quais autonomia, consciência situacional e capacidade de decisão imediata são fundamentais, enquanto sistemas robotizados poderão assumir missões específicas de maior risco. O desafio será integrar essas capacidades sem transformar o enlace de comando e controle no novo ponto crítico da força.


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