sábado, 17 de outubro de 2026

Editorial - Quando o jornalismo se prostitui à política, o eleitor vira refém da propaganda

 

A polarização brasileira chegou a um ponto em que parte do debate político deixou de ser uma disputa de propostas para se transformar em uma guerra de narrativas. Candidatos são atacados, acusações circulam sem provas e informações falsas são usadas para influenciar eleitores. Em vez de explicar como pretendem governar, muitos preferem explorar o medo do adversário. O problema se agrava quando profissionais da informação, que deveriam ajudar a separar fatos de manipulação, passam a alimentar essa lógica.

O jornalismo tem uma função essencial na democracia: apurar, contextualizar, fiscalizar e oferecer ao cidadão elementos para formar seu próprio julgamento. Quando essa função é subordinada a preferências partidárias, a informação corre o risco de se tornar propaganda. A apuração cede espaço à conveniência, a crítica vira instrumento de campanha e a credibilidade profissional passa a servir a interesses políticos.

É a prostituição do compromisso jornalístico: não por expressar uma opinião, mas por sacrificar o rigor em nome de uma causa. Jornalistas têm o direito de defender ideias, criticar governos e manifestar suas convicções. O que não podem fazer sem comprometer sua credibilidade é apresentar interpretações como verdades incontestáveis, selecionar fatos para favorecer aliados, relativizar erros de um lado e transformar os do outro em condenações definitivas. Quando a régua muda conforme a preferência política, o compromisso com a informação deixa de ser o princípio dominante.

A desinformação expõe esse problema com clareza. A alegação de que Flávio Bolsonaro acabaria com o Pix para agradar Donald Trump foi desmentida por veículos de checagem. O sistema foi desenvolvido pelo Banco Central e entrou em operação em novembro de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro. A existência de uma disputa política não autoriza ninguém a transformar uma alegação falsa em argumento eleitoral. Muito menos quem tem a responsabilidade profissional de verificar o que divulga. 

O mesmo rigor precisa valer para todos os campos políticos. A desinformação não se torna aceitável quando favorece o candidato preferido, assim como uma acusação não se torna verdadeira por ser repetida por um jornalista respeitado. Quem exige responsabilidade dos adversários precisa demonstrá-la na própria atuação. Do contrário, deixa de fiscalizar o poder para participar da disputa pelo poder.

Na imprensa especializada em Defesa, essa contradição é particularmente preocupante. A credibilidade construída com análises de programas militares, orçamento, equipamentos e indústria não concede autoridade automática sobre todas as disputas políticas. Quando essa reputação é utilizada para difundir mensagens de torcida partidária, celebrar a derrota de adversários ou reproduzir acusações sem a devida verificação, o conhecimento técnico corre o risco de virar um instrumento de influência política.

Não há problema em publicar uma análise crítica de um candidato ou reconhecer os riscos associados às suas declarações. O problema é apagar a fronteira entre análise e militância, tratando previsões como fatos consumados e preferências como conclusões objetivas. O leitor tem o direito de saber quando recebe informação apurada, quando lê uma interpretação e quando está diante de uma opinião política. Essa distinção não é formalidade: é uma condição básica de transparência.

A responsabilidade também alcança os veículos de comunicação. Não basta invocar a liberdade de imprensa quando são questionados e exigir rigor quando os erros são dos concorrentes. É necessário verificar informações, ouvir os envolvidos em acusações, contextualizar declarações e corrigir erros com a mesma disposição com que se publicam denúncias. Credibilidade não é salvo-conduto, e reputação profissional não substitui evidências.

Os candidatos, por sua vez, precisam ser cobrados por suas propostas, seus compromissos e sua capacidade de execução. Ataques pessoais não resolvem os problemas do país. Fake news não substituem argumentos. E a destruição da imagem de um adversário não constitui um programa de governo. O eleitor merece saber o que cada candidato pretende fazer, como pretende fazê-lo e quais serão os custos e as consequências de suas decisões.

Uma democracia não precisa de jornalistas sem opinião. Precisa de jornalistas que não vendam o rigor da apuração à conveniência partidária. Não precisa de candidatos que concordem entre si, mas de adversários capazes de sustentar suas posições com argumentos e evidências. E não precisa de uma imprensa transformada em torcida organizada, na qual a verdade é aceita ou rejeitada conforme o lado que beneficia.

Quando o jornalista troca a apuração pela militância, sua credibilidade vira moeda política. Quando a imprensa substitui a investigação pela propaganda, trai a confiança do leitor. E quando a mentira passa a ser tolerada porque ataca o adversário certo, o jornalismo deixa de cumprir sua função democrática. O Brasil precisa de menos servidão partidária e mais compromisso com os fatos.


Por Angelo Nicolaci


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