sábado, 31 de outubro de 2026

Diplomacia naval e indústria de defesa — a presença que o Brasil precisa transformar em influência

 

Um navio de guerra que atraca em um porto estrangeiro leva consigo muito mais do que sua tripulação e seus sistemas de armas. Representa seu país, demonstra capacidade tecnológica e operacional e transmite uma mensagem política. Mesmo sem disparar um único tiro, sua presença pode aproximar governos, fortalecer relações entre Marinhas e ampliar a influência internacional de seu país.

Conhecida na tradição naval como showing the flag, ou mostrar a bandeira, essa prática é uma das manifestações da diplomacia naval. Por meio de visitas oficiais, comissões internacionais, exercícios combinados e intercâmbios, o Poder Naval atua como instrumento da política externa, contribuindo para a cooperação e demonstrando a capacidade de manter presença além das próprias águas.

Essa presença, contudo, não tem significado único. Pode representar aproximação diplomática, apoio a um parceiro ou sinalização de interesse estratégico em determinada região. Seu efeito depende do contexto político, dos objetivos da missão e, sobretudo, da capacidade operacional que a sustenta.

Para o Brasil, essa dimensão oferece oportunidades ainda pouco exploradas. A extensa costa atlântica, os interesses estratégicos no Atlântico Sul e a responsabilidade sobre uma vasta área marítima justificam uma atuação mais consistente da Marinha como instrumento de aproximação internacional.

Visitas a portos, exercícios multinacionais e operações de cooperação regional produzem efeitos que ultrapassam o campo militar. Aproximam instituições, estabelecem canais de diálogo e fortalecem a confiança entre países. A BRACOLPER, realizada pelas Marinhas do Brasil, da Colômbia e do Peru, é um exemplo dessa dimensão: além do treinamento operacional em ambiente fluvial, a operação contribui para a cooperação e a presença brasileira na região.

A Operação Fraterno XXXIX, realizada em agosto de 2026, oferece outro exemplo e acrescenta uma dimensão industrial a essa discussão. Pela primeira vez em um exercício combinado internacional, a fragata Tamandaré (F200) e o submarino Humaitá (S41) operaram juntos em águas argentinas, ao lado da fragata União e do navio de socorro submarino Guillobel. A comissão permitiu demonstrar capacidades da nova geração de meios da Marinha do Brasil e ampliar a interoperabilidade com a Armada Argentina.

A presença desses dois navios ganha relevância diante dos planos argentinos de reconstrução de sua força naval. O projeto de Orçamento de 2027 apresentado pelo governo prevê autorização para negociar financiamentos de até US$ 2,3 bilhões destinados à aquisição de três submarinos convencionais e até US$ 1,2 bilhão para duas fragatas multimissão. Ainda não se trata de contratos ou aquisições aprovadas, mas de uma iniciativa que sinaliza necessidades concretas de reequipamento da Armada Argentina.

Nesse contexto, a Fraterno também evidencia uma oportunidade para a indústria brasileira. A Tamandaré, construída no Brasil com participação de uma cadeia industrial nacional, e o Humaitá, integrante da Classe Riachuelo desenvolvida no âmbito do PROSUB, representam experiências distintas de construção, integração e operação de meios navais complexos. Sua presença em um exercício internacional permite que parceiros conheçam essas capacidades em ambiente operacional. Isso não significa que exista uma oferta brasileira formal à Argentina, mas demonstra como a cooperação naval pode criar condições favoráveis à aproximação industrial e à apresentação de soluções nacionais.

Há, portanto, outra oportunidade que merece maior atenção: utilizar a diplomacia naval para promover a Base Industrial de Defesa (BID).

Quando uma Marinha realiza comissões internacionais com navios e sistemas desenvolvidos ou produzidos em seu país, oferece uma demonstração concreta de sua capacidade industrial. Fragatas, navios-patrulha e meios de apoio podem funcionar como vitrines de plataformas, sensores, radares, sistemas de armas, comunicações e soluções de integração tecnológica.

Essa exposição pode abrir oportunidades de exportação, acordos de cooperação, manutenção e desenvolvimento conjunto. Para potenciais compradores, conhecer equipamentos em operação e observar sua utilização por uma Marinha constitui uma referência relevante. A conversão dessa visibilidade em negócios, entretanto, depende também de competitividade, financiamento, suporte logístico e capacidade de atendimento durante todo o ciclo de vida dos sistemas.

O Brasil reúne empresas e competências em diferentes segmentos dessa cadeia, desde a construção naval até o desenvolvimento de sensores, sistemas de combate, comunicações e armamentos. O desafio é integrar essas capacidades a uma estratégia de promoção internacional, articulando Marinha, Ministério da Defesa, Ministério das Relações Exteriores e empresas nacionais. Comissões no exterior podem ser aproveitadas para aproximar indústrias de potenciais parceiros, promover demonstrações técnicas e ampliar oportunidades comerciais.

Essa ambição depende, entretanto, de uma condição essencial: uma Esquadra moderna, disponível e capaz de operar além das águas jurisdicionais brasileiras.

A renovação dos meios navais não se resume à substituição de navios envelhecidos. É necessária para recuperar a capacidade de presença, proteger os interesses marítimos nacionais e oferecer à política externa instrumentos concretos de atuação. Uma Marinha com disponibilidade limitada e dificuldades para sustentar comissões prolongadas encontra restrições para manter presença internacional regular e assumir compromissos de maior alcance.

Programas como o PROSUB e a construção das fragatas da Classe Tamandaré demonstram como a renovação naval pode estar associada ao desenvolvimento industrial e tecnológico. Além de atender às necessidades operacionais da Marinha, esses projetos contribuem para formar profissionais, preservar conhecimento e ampliar a participação de empresas brasileiras em atividades de elevada complexidade.

O objetivo deve ser consolidar uma capacidade industrial permanente, capaz de desenvolver, construir, integrar, manter e modernizar sistemas navais. Isso reduz vulnerabilidades externas e amplia as possibilidades de cooperação e exportação. Para alcançar esse resultado, porém, os programas precisam de continuidade, e essa continuidade não pode ficar condicionada às prioridades circunstanciais de cada administração.

A construção dessa capacidade exige mais do que autorizações orçamentárias pontuais. Programas navais são empreendimentos de longo prazo, com compromissos financeiros distribuídos por vários exercícios. A indústria precisa de previsibilidade para investir, contratar profissionais, qualificar fornecedores e manter linhas de produção. A Marinha, por sua vez, depende de fluxo regular de recursos para cumprir cronogramas, assegurar manutenção, adquirir munições, treinar tripulações e preservar a disponibilidade dos meios incorporados.

Quando os recursos são liberados de forma irregular, contingenciados ou reduzidos durante a execução dos projetos, os efeitos ultrapassam o atraso na entrega de um navio. Podem ocorrer reprogramações, aumento de custos, perda de produtividade, desmobilização de equipes e enfraquecimento de fornecedores. O Estado corre, assim, o risco de comprometer investimentos anteriores e perder competências industriais cuja reconstrução pode exigir anos e recursos ainda maiores.

Por isso, a renovação da Esquadra precisa estar vinculada a um orçamento de defesa robusto, estável e compatível com as necessidades nacionais, acompanhado de mecanismos de planejamento e financiamento plurianuais. Não se trata apenas de destinar mais recursos, mas de assegurar que os compromissos assumidos tenham condições reais de execução. A previsibilidade transforma planejamento em encomendas, encomendas em produção e produção em capacidade operacional e tecnológica.

É por isso que a defesa precisa ser tratada como política de Estado. A definição das capacidades que o Brasil pretende manter, a renovação de sua Esquadra, o fortalecimento da BID e a projeção internacional de seus interesses não podem começar do zero a cada mudança de governo. Exigem planejamento estratégico duradouro, metas nacionais, financiamento compatível e mecanismos que assegurem continuidade aos programas prioritários. Governos podem definir prioridades e aperfeiçoar os caminhos, mas não deveriam comprometer capacidades essenciais à soberania por decisões de curto prazo ou oscilações políticas.

O Brasil pode explorar a diplomacia naval de forma mais abrangente, utilizando sua presença marítima para fortalecer relações, ampliar a cooperação e promover a indústria nacional. Mas essa ambição precisa estar inserida em uma estratégia permanente, na qual política externa, Poder Naval e desenvolvimento industrial sejam tratados como partes de um mesmo projeto nacional.

Mostrar a bandeira é projetar presença. Transformá-la em influência exige uma Esquadra renovada, uma BID competitiva e recursos contínuos e previsíveis. Acima de tudo, exige que o país compreenda que defender seus interesses marítimos e projetar sua capacidade internacional não são tarefas de um governo, mas compromissos permanentes do Estado brasileiro.


Por Angelo Nicolaci


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